O Diário do Príncipe Mestiço
14 Doce Vingança
Notas iniciais
Por Severus Snape
Os flashes continuavam nítidos. As vozes dos homens ainda ecoavam na minha mente; as trevas continuavam a me perseguir e as raízes me sufocavam enquanto o diamante desaparecia sob o salgueiro velho. Então as imagens se dissolveram e sentei-me de repente na cama, com o corpo suado.
Ainda era noite. Lily havia brigado comigo nessa tarde. Não lembro de ter adormecido.
A raiva me cegou, pensei, indo até a janela observar a neve caindo sobre os telhados das casas vizinhas.
Eu ainda sentia aquela vontade incontrolável de sair de casa; de ser enterrado pela neve... Perdi a única e melhor amizade que já tive na minha vida; tudo culpa daquela girafa de subúrbio da Petúnia!
Senti lágrimas quentes descerem pelo meu rosto.
— Não seja fraco! — exclamei para mim mesmo, batendo na parede. — Dê um jeito nessa situação!
Olhei para o despertador. Eram duas horas da madrugada. Voltei a deitar, relembrando o momento em que Lily me deixou na lareira.
“Não fale mais comigo! Não chegue perto da minha casa! Esqueça que eu existo! ”
O olhar dela... a expressão corporal dela não estava de acordo... ela... ela estava estranha. Sim, sim. Claro que ela estava chateada pela nuvem de moscas que lancei contra Petúnia, mas algo em mim diz que Lily estava mentindo.
Por toda a madrugada, fiquei pensando nessa teoria, sentindo um estranho formigamento na nuca. Quando os primeiros raios de sol nasceram, fui ao banheiro escovar os dentes e tomar um banho. Só lá percebi que todos os cortes do sonho vindouro tinham desaparecido por completo.
Me vesti e desci eufórico até mesa do café da manhã. Mamãe, que vestia um vestido preto simples, acabara de reparar uma xicara que caiu no chão.
— Você me assustou, sabia?! — disse ela, fazendo a xicara voar até a pia. — Por que está acordado tão cedo?
— Sumiu! As feridas sumiram! Não estou sentindo nada! — berrei, perplexo.
— Ah sim... que bom. — ela disse com uma cara estranha.
— Você usou feitiços de cura? — indaguei, apalpando cada centímetro do meu rosto.
— Alguns remédios de bruxo deram uma ajudinha enquanto você dormia. — ela falou, desviando o olhar.
Estava mentindo! ... Espera, o que tá ocorrendo comigo? Como consigo distinguir a mentira da verdade?
Depois de um breve silêncio, questionei minha mãe olhando-a nos olhos.
— Eu queria saber... se existe alguma forma de um bruxo perceber a mentira ou a verdade no olhar das pessoas... a senhora já ouviu falar nisso?
Ela me observou com os olhos semicerrados e respondeu:
— Você é novo demais para se aprofundar em assuntos como esse, mas sim... existe uma arte magica que trata disso... chama-se Legilimência. Por que a pergunta?
— Não sei, só queria saber se a magia poderia chegar a ponto de extrair a verdade de uma pessoa, mesmo está se recusando.
— Há muitas coisas que se tornam possível com magia. — ela disse, sentando-se para comer. — Seu pai já vai descer... chega desse assunto.
Quando papai chegou com seu uniforme de trabalho, todos comemos em silêncio e eu deixei os dois a sós e subi. Ao fechar a porta do meu quarto, comecei a caminhar de um lado para o outro, pensativo.
Será que eu posso fazer isso? Perceber a mentira de maneira tão fácil? Eu poderia fazer tantas coisas com essa habilidade...
Então ouvi um barulhinho de vidro e vi o pequeno pássaro de barro, que criei a alguns dias para chamar a atenção de Lily, bicando a janela. Abri-a relutante e ele voou para dentro. Estava cheio de neve nas asas quando pousou no meu ombro e sacudiu-se para se livrar dos flocos cristalinos.
— Olá! — saudei-o, ele respondeu com um piado. — O que tem no seu bico?
Tirei, com cuidado, dois longos fios de cabelo de seu bico. Um dos fios era louro, o outro era ruivo. O pássaro piou loucamente e começou a voar pela minha cabeça.
— O que isso significa? — perguntei, desnecessariamente. O que estava esperando? Que o pássaro falasse: “Oi tudo bem? As donas desses cabelos estão brigando no bosque.” — Que?! Lily... Petúnia... ruiva e loira... Merlin!
Me agasalhei e desci as escadas voando (não definitivamente voando... mas voando) e quase atropelei o papai quando ia sair na porta.
— Ei garoto!
— Desculpe! — gritei enquanto corria pela Rua da Fiação, agora coberta de neve.
Passei pelo parque abandonado e entrei no bosque a todo vapor. O pequeno pássaro de barro voltara a me acompanhar e se metera na minha frente quando chegamos próximo a clareira. Ouvi vozes familiares e, sem hesitar, me enfiei atrás de uma árvore para espiar sem ser visto
— O que pensa que está fazendo aqui Lily!? — Petúnia gritava. Estava no centro da clareira enevoada encarando Lily, que já estava com os olhos vermelhos. — Veio se encontrar com aquele... aquele sem teto!
— Pare de xinga-lo dessa forma! — Lily gritou, irrompendo em lágrimas. — Você é uma... uma desalmada sem coração!
— Vejo que ele lhe influencia... mas lembre-se do que lhe falei. Aquele esquisito vai levar uma surra do Alex Rider e sua gangue se eu o ver perto dele novamente!
— Pare de ameaças... você não é assim! Não pode ser.
— E o que você chama o que ele fez comigo?! Aquelas moscas me atacaram!!!
Era isso então. Lily tinha mentido para me salvar.... estava sendo chantageada. Petúnia que era o monstro, não eu. Mas ela verá o que acontece com quem mexe com os sentimentos de Lily Evans...
Sei que está me ouvindo... prepare-se pequeno pássaro. Traga seu bando e espere meu sinal.
— Isso... porque você xingou sua irmã. — Sai detrás da árvore, me revelando. — E não se trata uma irmã daquele jeito.
— VOCÊ!!! — ela berrou, cambaleando para trás.
— Eu tenho nome... Severus Snape.
— Severus saia daqui! — Lily mandou, aterrorizada.
— Não Lily... ela mentiu. — apontei para Petúnia, com desdém, caminhando para perto de Lily. — E pior ainda: Ela a fez mentir... ela manchou sua pureza.
Ao me aproximar dela, Lily apertou meu pulso com força e sussurrou: “Você não devia ter vindo... ela os trouxe.”
Apenas sorri. Porém, Petúnia tirou de seu vestido florido um apito e o soprou com toda a força.
— Eu disse que ele ia se ferrar se eu o visse com ele novamente. — ela desdenhou, sorrindo e se afastando.
No momento seguinte, um garotão de treze anos, atlético e muito forte surgiu, por entre as arvores atrás de Petúnia, com uma gangue de garotos desocupados.
— É ele Rider... acabe com ele e o dinheiro é seu. — disse Petúnia, tirando um pequeno bolo de libras.
Ao me ver, Rider vacilou.
— VOCÊ!!!
— Sim eu... e será que dá para mudar o disco? — falei sorrindo. Depois sussurrei para Lily. — Vamos usar magia... aperte minha mão... já tenho algo em mente.
Ela obedeceu, entrelaçando os dedos aos meus.
— Agora eu acabo com sua raça seu endiabrado!!! — Alex gritou e correu em minha direção com sua gangue, passando por Petúnia que caiu na neve.
— Assobie Lily! — ordenei a Lily e juntos começamos a assobiar.
A gangue de garotos parou no meio do caminho. O assobio se amplificou de tal maneira que os garotos pararam para tampar os ouvidos. Apenas Lily e eu ficamos imunes. Quando paramos, eles ficaram nos encarando assustados.
— O que estão esperando?! Acabem com ele! — berrou Petúnia, se levantando do chão. — Da garota cuido eu!
Quando Rider ia avançar eu soprei e o joguei a muitos metros de distância.
— Sev... como aprendeu isso?! — indagou Lily. Eu senti sua mão tremer.
— Você já pensou em fazer isso não foi? — ela sorriu. — Agora chame aquele pássaro de barro sim?
Ela assentiu e Rider se levantou bem na hora que ela deu um longo e agudo assobio. Petúnia ficara congelada em pé. Os piados e o barulhinho de asas batendo se aproximavam de maneira assustadora até que uma nuvem de pássaros de barro (nem me pergunte de onde vieram já que a cidade está coberta de neve) surgiu no céu.
— Bem querida Evans... — me dirigi a Petúnia com um certo sarcasmo na voz. — Se não gostou da dose de moscas... acho que pássaros de barro podem fechar sua matraca... Lily. — olhei em seus olhos marejados. Ela fez que sim e eu assobiei para o meu primeiro pássaro de barro, que pousara na minha cabeça. Ele, por sua vez, fez o resto do trabalho. Levantou voo e fez seu bando se dispersar e atacar todos a minha volta.
Eu e Lily não vimos nada a não ser vendavais de pássaros que encheram a clareira. Era como se estivéssemos dentro do olho de um tornado.
— Chega!!! — Lily berrou, largando minha mão. — Parem... Severus faça parar!!!
Senti uma dor lancinante na cabeça e todos os pássaros viraram poeira e desapareceram... Quando Lily soltou minha mão, ela deixou todo o peso da magia sobre mim.
Os garotos desorientados e Rider saíram correndo feito loucos chamando pela mãe. Apenas Petúnia tinha desaparecido. Lily olhava para todo lado atrás dela, chorando.
— Petúnia! Onde você está?!
— Ela se foi. — eu disse, me aproximando dela.
— Como assim se foi?! Ela morreu?! O que você fez?!
Ela começou a me dar tapas descontroladamente. Eu segurei suas mãos, tentando acalma-la.
— Se acalme Lily... Ela deve estar em casa agora ok? — Ela esboçou uma expressão de incompreensão. — Eu não deixei os pássaros a atacarem... em vez disso, ordenei que abrissem espaço para ela fugir.
Larguei suas mãos e ela sentou-se no chão. Eu sentei ao seu lado.
— Não queria que ficasse chateada comigo novamente... Não quero perder sua amizade.
— Me desculpe... não queria ter mentido. — ela falou, me dando um leve abraço de lado.
— Desculpas aceitas... Ah, ia me esquecendo. — mexi no agasalho e tirei um embrulho de papel que eu havia deixado lá a dias. — Esse é o Profeta Diário... o jornal dos bruxos.
— Aquele em que as fotos se mexem?! — ela pegou o embrulho, fascinada. — Meu Deus... as fotos estão saindo das molduras!!!
— Trouxe para você... ainda não o li, mas podemos ler juntos... se você quiser é claro.
— Claro que quero!
Então abrimos o jornal e começamos uma leitura. Sempre que Lily não entendia uma expressão típica da comunidade bruxa eu a explicava claramente. Ao descermos nosso olhar para um canto da primeira página, uma manchete chamou atenção.
A guerra trouxa continua e os bruxos vietnamitas juntam-se e ameaçam tomar partido contra o governo estadunidense
“As guerrilhas continuam e nós não sabemos o que fazer a não ser pedir ajuda ao Ministério da Magia de Londres. ”, declarou o líder político dos bruxos vietnamitas. “ Estamos morrendo... e a comunidade não quer ficar calada... estamos pensando em sabotar tudo e criar fenômenos mágicos que os façam acreditar que a guerra deve acabar.”
O ministério declarou (com detalhes na pag. 17) que a sua tropa de aurores estão no momento super concentradas na caça ao bruxo das trevas que se auto intitula Lorde Voldemort. Porém prometem que o Departamento de Cooperação Internacional em Magia tratara do assunto e mandará ajuda o mais rápido possível. Contudo, informações confidenciais dizem o que o bruxo das trevas mencionado tem influenciado a guerra de maneira indireta. O que o Ministério fara diante dessa situação?
— Quem é Voldemort?! — Lily perguntou inocentemente. — E essa guerra... meus falaram que ela estava nas TVs.
— Ah sim... Voldemort é um assunto complicado.
— Como assim?
— Não sei muita coisa sobre ele, mas o que ouvi já é o bastante para enlouquecer. Passei dias com pesadelos. — Me lembrei, de repente, de todas as noites mal dormidas, de todos os horríveis pesadelos que tive a alguns anos, quando ouvi mamãe conversar com minha avó.
— Você poderia me contar algo?
— Sim... poderia, mas você tem certeza que quer saber? Seria coisa demais... digo... é um pouco...
— Está me chamando de medrosa?! — ela jogou um pouco de neve em mim, sorrindo.
— Claro que não!
— Então me conta! — insistiu.
— Ok, mas não diga que não avisei.
Nos recostamos sobre o salgueiro de sempre, agora sem folhas e cheio de neve e comecei a explicar tudo que sabia com os mais minuciosos detalhes.
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