O Diário do Padre Thomas
1 17 de Outubro, 2003
Hoje foi um dia pesado, aliás estes últimos dias estão sendo realmente intensos. Um homem com o nome de William foi até a igreja se confessar. Primeiramente, irei dizer a primeira impressão que eu tive do rapaz. Ele era um sujeito de mais ou menos 1,70 de altura, cabelo curto e preto, aparentava ser uma pessoa de boa índole, além de ser extremamente tímido. Bom, essa foi apenas a primeira impressão, mas o que eu ouvi hoje me mostrou que tudo é sempre do mesmo jeito, pois muitas das vezes nos enganamos com as pessoas. Claro que como padre, eu não posso julgar ninguém, mas certas vezes eu me sinto tão mal com as histórias de vida que eu ouço, que meu estômago chega a embrulhar. Bom, irei transcrever para este diário a história de vida que este rapaz me contou hoje, espero que se alguém achar este diário algum dia, que o use apenas como literatura, e que o mesmo não julgue seus semelhantes. Aqui estarão algumas das confissões que recebi por aqueles que vieram até mim, seja para implorar o perdão de Deus, ou para se sentir melhor liberando seus sentimentos mais grotescos e obscuros. Também irei contar um pouco do meu dia e da minha vida, quero que este livro guarde todas as memórias que tive, especialmente as bizarras. Bom, voltando a William, irei contar mais ou menos da forma que ele me contou, se você não suporta histórias tensas e que envolvam atos extremos, peço que parem de ler a partir daqui. Se você acha que pode conseguir ler pois já ouviu e viu muitas coisas, fique à vontade, pois aqui você irá conhecer alguns dos lados mais perversos, extremos e maníacos do ser humano. Irei narrar da forma como fui processando cada cena em minha mente e conforme os acontecimentos, irei expor minha opinião e o que aconteceu enquanto a confissão era realizada.
William demorou um pouco para me contar o que ele tinha para dizer, mas logo começou. Ele disse que não era um rapaz comum, que tinha medo do que poderia fazer agora que era um homem sem controle de si. Contou desde a época em que se casou com Marta, os dois eram muito felizes e tinham diversos planos para o futuro. Entre esses planos estava a filha do casal, seu nome era Sara, que segundo William, a mesma havia herdado todas as características da mãe. O casal adorava viajar nas férias de William, esse era o passatempo preferido dos dois e pra qualquer lugar que fossem levavam consigo a garota. Sara iria completar 8 anos e o casal resolveu viajar para a praia e comemorar. Esta viagem porém foi a última, pois William perdeu a direção e capotou o carro em que estavam. William acordou dois meses depois em um hospital desconhecido, sua mulher e filha não tinham sobrevivido ao desastre. O homem entrou em desespero, sua vida não tinha mais sentido. Então ele me narrou algo que me fez sentir nojo de ser humano. As palavras dele não eram frias, ele parecia ter paixão no que fazia. Ele me contou, que um ano depois dos acontecimentos, ele conheceu alguém interessante, seu nome era Ingrid. A mulher era bem alegre e sempre que os dois se encontravam William se divertia, era algo magnífico. Numa noite, Ingrid foi na casa do rapaz e os dois se embebedaram, a mulher começou a beijar William e os dois foram para o quarto. As coisas começaram então a esquentar. Enquanto Ingrid começou a tirar a roupa, William viu sua filha em um canto do quarto, esta balançou a cabeça em sinal de desaprovação, em sua mente ele escutou sua voz, voz que segundo ele pronunciou tais palavras:
—Eu ficaria feliz se você trouxesse Ingrid para brincar comigo, eu adoro mulheres felizes e alegres, elas lembram minha mamãe, agora eu estou sozinha e não encontro a mamãe, traga Ingrid para brincar comigo.
Nota: (Então eu vi o homem se emocionando, as lágrimas caíam como cachoeira de seus olhos, o amor e a saudade de sua filha estavam nítidos para mim, a visão que o homem teve era sem dúvidas obra de sua imaginação e da falta que sua filha fazia. Espíritos não existiam, os mortos não poderiam voltar para se comunicar com os vivos, isso por si só parecia um absurdo na minha concepção. Sempre fui um homem de fé, mas eu ainda tinha dúvidas de muitos fatos. Eu defendia com unhas e dentes a existência de um Deus criador, porém sempre achei controverso o fato de anjos ou demônios existirem. Sou padre a mais ou menos 2 anos, mas nunca revelei este detalhe da minha crença aos meus colegas, pois além de eu poder ser visto como um herege, eu não achava relevante discutir sobre tal posição. Voltando ao caso de William, eu tive uma surpresa e senti medo da paixão com que ele expressou os fatos que se seguiram).
William disse que no momento em que sua filha pediu por Ingrid, ele entendeu a mensagem e começou a estrangular a mulher. Ingrid lutou, mas foi em vão, o homem era muito forte e ela, apenas uma mulher frágil. William apertou bem forte o pescoço da mulher por vários minutos, até se certificar que ela não poderia mais voltar. O sentimento que ele sentiu foram descritos para mim com as seguintes palavras:
—Foi como se eu tivesse me libertado, senti minha alma flutuar naquele instante, isso sem mencionar a felicidade que estava estampada no rosto de minha filha. Ela então me disse que eu deveria buscar mais mulheres, ela queria muitas mães, só assim ela poderia ser feliz.
Nota: (Achei um absurdo tamanha paixão em um detalhe tão doentio, me senti enojado. William sorriu, enfiou a mão no bolso e me mostrou algo. Era a miniatura de uma cruz de quatro braços banhada em ouro. Também me entregou uma foto, era a foto de sua mulher e filha. Marta era uma mulher linda, possuía longos cabelos negros e uma face pálida que combinava com seu corpo magro e frágil. Sara ao contrário do que William dissera, não parecia em nada com a mãe, e possuía um olhar triste, ela não parecia ser feliz ao lado deles. William era jovem e bem mais vivo, a alegria do rapaz poderia ser notada por qualquer um naquela foto. William prosseguiu com sua confissão).
O homem me disse que não estava conseguindo dormir mais. Ingrid tinha sido sua primeira vítima, ele havia estrangulado mais duas mulheres a pedido de sua filha. Sua insônia porém, não era fruto de seu remorso, quanto a isso ele parecia bem tranquilo e satisfeito. William me disse que uma moça jovem e sensual havia lhe visitado em seu apartamento. Foi ela quem entregou a misteriosa cruz para o homem. Ele fez questão de reproduzir as palavras que saíram da boca da mulher ao entregar o “presente”:
—Sua filha está feliz pelo pai que ela tem, ela se diverte muito com suas ações. Meu nome é Sasha, você me chamou a atenção William, agora quero sua alma, ou melhor, queremos. Sara também precisa de um pai, e a única figura capaz de cuidar tão bem dela ao meu ver, é você.
Nota: (William terminou de me contar a forma como ela disse, imitando de forma cômica a maneira com que Sasha se expressou. Ele parou, ficou olhando fixo por um longo tempo para o nada. Parecia ter sumido do mundo, quando voltou a prosseguir com sua história).
Ele me confessou que sentiu terror nas palavras da mulher e como tinha sentido medo, pulou para cima dela e começou a fazer como fez com as outras, ela deveria morrer. Enquanto ele a estava enforcando, o rosto de Sasha ganhava imagens, estas que expressavam variações de humor e de rostos, todos eles conhecidos por William. Eram suas vítimas. O homem com terror, soltou a mulher e deu um pulo para trás. Ele sentiu uma mão o cutucar pelas costas, quando ele olhou era sua filha falecida, que dizia: _Papai, porque matou ela, ela era tão legal?
Segundo o homem, a voz de sua filha estava doce como sempre, porém ficou demoníaca e irreconhecível, algo como se várias vozes falassem todas juntas e em sincronia, pronunciando tais palavras: _Você será nosso, é apenas questão de tempo. Os pecadores devem pagar, os pecadores devem agonizar, os pecadores devem viver e sofrer conosco. A eternidade é apenas o começo
Nota: (William então ficou paranoico, começou a olhar para um lado e para o outro. E continuou sua história).
Diante das palavras de Sara, ou seja lá de quem era naquele momento, Sasha pulou em suas costas e começou a enforcá-lo. William lutou e jogou a mulher contra a parede, sua filha levantou a mão direita em sua direção e ele caiu desacordado. Quando acordou, ninguém mais estava ali.
Nota: (William ficou pálido, parecia ter perdido os sentidos, começou a ficar histérico e a dizer: _Hoje eu irei morrer padre, irão levar minha alma para o tormento eterno. Que Deus possa me perdoar, porque eu pequei, mas acho que o perdão não irá ser consumado, afinal para consegui-lo eu teria de me arrepender e eu não me arrependo do que eu fiz em amor à minha filha, pelo contrário, além de ter tido uma enorme satisfação em vê-la feliz, eu me deliciei com as mortes padre, eu me deliciei com a forma que eu matei cada uma daquelas vadias. Eu estou com medo, eu estou com muito... — O homem parou de falar, estava trêmulo. Deixou o confessionário correndo feito um louco. Corri atrás dele pois ele havia esquecido a foto de sua família e a cruz de quatro braços comigo, antes não houvesse ido atrás, pois a cena que eu presenciei foi terrível. Enquanto William corria pra o outro lado da calçada, um caminhão pegou ele em cheio. No chão ficou apenas o rastro de sangue, a marca dos pneus ao tentar frear o caminhão e o corpo destruído e sem vida de William. Suas tripas saltaram para fora de seu corpo, seus olhos estavam arregalados e tinham quase saltado para fora de seu rosto. Rosto este que ficou irreconhecível, foi um acidente horrível, foi algo que eu acho que nunca me esquecerei).
A polícia e uma dezena de curiosos, logo chegaram ao local . Eu voltei então para a igreja, estava completamente arrasado com o que presenciei, senti uma tristeza enorme invadir meu corpo. Apesar William ter sido um homem que fez maldades em vida, teve desilusões assim como todo ser humano, mas uma coisa o diferenciava dos outros, ele tinha uma personalidade forte e decidida, ele era alguém que apesar de tudo, queria continuar a viver.
Uma mulher me esperava dentro da igreja, ela era uma jovem muito bonita, seu sorriso era hipnotizador. Tratei de guardar a foto e a cruz de ouro em um de meus bolsos para atendê-la. Ela pronunciou as seguintes palavras:
—Esta vida é apenas um sonho senhor padre, a visão humana enxerga apenas aquilo que lhe convém. Se eu dissesse a você e a todos os humanos que o criador do universo era Lúcifer, você veria as coisas assim.
A igreja havia tomado outra forma misteriosamente, a cruz que ficava no altar estava invertida, ao redor da mesma haviam crânios humanos e ratos andando, logo a mulher me chamou para a realidade: _Viu só padre, é disso que eu estou falando.
Tudo havia voltado ao normal, a mulher prosseguiu: _Como os humanos são tolos. Eu poderia fazer com que você enxergasse as coisas conforme a minha vontade, eu sou a ceifadora de almas, eu recolho os pecadores e os levo embora, meu nome é Sasha. Quando eu ir embora, você irá ter a certeza de que isto foi apenas uma alucinação sua senhor padre, mas será que é apenas uma alucinação? Talvez William foi uma alucinação sua também. Olhe para a rua, esta tudo deserto, este homem foi apenas uma invenção sua, o sonho deve terminar senhor padre.
A mulher saiu pela porta da frente andando de costas e me olhando bem no fundo de meus olhos. Assim que ela saiu, eu fui até a rua olhar quais as providências as autoridades tomaram do acidente. Para meu espanto, a rua estava limpa, sem marcas, sem sinal de qualquer acidente. Coloquei a mão no bolso e lá estavam a cruz e a foto. Puxei a foto para poder olhar ela novamente, aquilo não poderia ser apenas uma ilusão, a foto de William e de sua família estava lá. Alguém colocou a mão sobre meu ombro, pulei para frente em reação ao susto que tomei, para meu alívio era um policial. Naquele momento, me dei conta de que eu estava dentro da igreja, o policial me perguntou se eu conhecia o homem que havia sofrido um atropelamento a alguns minutos atrás, foi quando me dei conta de que eu havia ficado aquele tempo todo dentro da igreja.
Agora é noite e estou aqui terminando de descrever o restante do dia estranho que eu tive. Hoje a noite, na hora que eu estava fazendo uma leitura, eu tive a sensação de escutar uma garotinha rindo, suas risadas vinham do banheiro. Assim que eu cheguei na porta do mesmo eu tive um arrepio, pois me lembrei da filha de William. Minha coragem de entrar e ver o que estava acontecendo se tornou nula. Levei meus olhos lentamente em direção à porta, quando alguém bateu na mesma com força. Tive um sobressalto, meu coração disparou, fiquei paralisado naquele momento. O suor descia de meu rosto, enquanto eu arrepiava cada fio de cabelo do meu corpo, com as risadas misteriosas vindas de dentro do banheiro. Os risos se cessaram, fiquei um tempo parado ali com medo de avançar. Respirei fundo e disse a mim mesmo que era apenas alucinação minha. Quanto tomei coragem, as risadas acabaram por voltar agora mais infernais e ensurdecedoras, a porta começou a se agitar como se alguém estivesse tentando arrombá-la com violência, gritos sufocados pareciam surgir perto de mim, enquanto que de baixo da porta jorrava sangue. Tampei meus olhos e comecei a chorar e implorar a ajuda do alto. Aquilo parecia não ter fim, eu estava com medo, eu estava como uma criança indefesa sem os pais para dar apoio, quando todo o barulho se cessou. O último barulho que ouvi foi de alguém destrancando a porta e abrindo-a. Senti um medo terrível, o que poderia sair dali agora? Tirei as mãos do rosto, esperando que alguma figura misteriosa se pronunciasse, porém ninguém apareceu. Caminhei lentamente até o banheiro, o chuveiro estava aberto. Pela imagem da cortina que tampava a área do chuveiro, não tinha ninguém. Quando cheguei perto da cortina a porta do banheiro se fechou com violência. Me virei com o susto, quando atrás de mim a cortina se abriu. Fui girando meu corpo em ritmo lento, até ver a mulher que tinha ido até a igreja conversar comigo mais cedo, ela estava dando banho em William, este tinha a forma física que tomou depois do acidente. Cai para trás e comecei a gritar descontroladamente. Fui me arrastando para trás sem tirar os olhos daquela cena. William estava num estado deplorável, eu podia sentir sua dor apenas em olhar para a cena. Sasha tinha um sorriso imbatível no rosto e continuava naturalmente a lavar os ferimentos horrendos do homem. Enquanto eu me arrastava, esbarrei em alguém, olhei para trás e Sara estava ali, ela se curvou para mim com um bisturi em mãos e disse:
—Muito bom senhor Thomas, agora é a sua vez de conhecer o inferno.
Eu fiquei imóvel enquanto ela aproximava cada vez mais o instrumento até os meus olhos, a única coisa que eu conseguia fazer era gritar. A agonia que eu senti naquele momento era inexplicável. Foi quando alguém tocou a campainha de meu apartamento e me peguei gritando sozinho, o chuveiro estava desligado e não havia sinal algum de outra pessoa junto a mim. Corri até a porta para atender, era minha vizinha perguntando o que estava acontecendo e se eu estava bem. Contei a ela que tinha sido apenas um sonho ruim e me desculpei. Ela gentilmente disse que não era nada e se retirou.
Nota: (Minha vizinha era uma mulher realmente doce. Devia ter uns 23 ou 24 anos de idade. Seu nome se não me engano era Samantha. Ela era morena, era um pouco mais baixa que eu e vivia andando por aí com roupas de academia. Sempre se preocupava em trazer comidas e guloseimas que ela mesmo preparava para me agradar. Sempre simpática e disposta a conversar. Chamei ela para participar de minhas missas diversas vezes, mas a mesma sempre afirmava que ela tinha uma religião um pouco diferente da minha. Resumindo, era uma mulher extremamente simpática).
Agora estou na minha cama, pronto para dormir. Posso jurar que ouvi risadas novamente, mas dessa vez não levantei para me certificar, achei que toda a cena que eu presenciei hoje mais cedo, pudesse estar sendo a responsável por tudo aquilo. Peguei um calmante e tomei, meu sono chegou. Acho que estou ficando maluco. A única coisa que eu espero é que Deus tenha piedade da alma de William. E que amanhã seja um dia melhor que hoje.
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