O Diário de Julieta Dellamour
3 Capítulo Dois - Primeiro dia no Inferno
Notas iniciais
Capítulo Dois – Primeiro dia no Inferno
>Por Julieta Dellamour

E ai, colega, tudo bem com você? Antes de eu começar a falar e falar, tenho que lhe dar um importante aviso: estou completamente e inteiramente irritada! Não se preocupe, já vou te contar o por que. Primeiramente, vou lhe contar aonde eu estou.
Estou no estacionamento da escola, divertido não? Com certeza que não.
Ainda bem que diários não tem que ir à escola, você iria odiar tanto! E sabe por quê? Porque tudo aqui é rotulado, tudo! Dos alunos aos funcionários, e até mesmo ao diretor. Se você é quieto falam, se você é tagarelam, falam... Você simplesmente não agrada ninguém.
E não digo isso apenas no lugar denominado escola, mas, sim, na sociedade em geral. Ninguém agrada ninguém, e para mim, isso é um fato muito mais do que verdadeiro, aprendi isso lá por quando estava na terceira série.
Eu tinha apenas sete anos quando um garoto que era a minha paixonite na época, disse com todas as palavras: eu te odeio e ninguém nunca vai gostar de você! Eu fiquei muito mal, fiquei sem brincar durante uma semana (ou mais), por conta da minha primeira desilusão amorosa... E por mais que já tenha passado muito tempo e que uma pessoa já tenha gostado realmente de mim, ainda não me recuperei daquelas palavras tão cruéis que foram ditas por um garoto quase da minha idade.
Enfim... Ainda bem que diários não precisam ir à escola, acho que você iria odiar tanto quanto eu odeio. Porque apesar de eu já ir a esse lugar a tempo, até hoje não me acostumei. E acho, que, você nunca se acostuma de fato.
Bem... Eu estou no estacionamento da escola, e não, eu não tenho um carro, mas o que quê tem? Só porque não possuo um automóvel não posso ficar em um estacionamento a céu aberto? Aqui tem uma belezura de uma árvore, tá legal?
Ok, ok, se acalma, Julieta, o pobre coitado do colega não tem culpa do seu surto de estresse, menina!
É. Eu acho que agora é a hora certa para te contar o porquê da minha irritação toda, certo? Certo!
Ontem à noite eu fui à festa da Mille (minha melhor amiga, tenho a vaga lembrança de que já te contei isso) e só porque eu cheguei meia noite e meia, minha mãe ficou reclamando sem parar. Vê se pode? Ela sabia muito bem que eu iria chegar meia noite e meia!
Todo ano eu chego neste mesmo horário, só que dessa vez eu não sei o que eu fiz pra ela ficar tão irritada assim, ora bolas! Ela disse que era por conta da despedida de Selenne (minha irmã), mas, tá tipo, na cara que não é por conta disso... Afinal a despedida da Sel é só amanhã, porque ela vai para a faculdade só na quarta.
Acho que já deu para entender o porquê da minha querida irmã precisar de uma despedida, né? Sinceramente, acho que ela não precisa de uma despedida, ou melhor, ela não precisa de uma despedida – não estou sendo enciumada não, essas foram as próprias palavras delas – é que como ela é a favorita da mamãe, a Sel tem que ter uma despedida. E não vai ser pouca coisa não... Vai ser no restaurante de comida favorita dela, que é bem caro, só para constar.
É exatamente nesses momentos em que eu fico me perguntando o que eu vou ganhar de despedida (e aonde, em que raio de lugar que será) quando eu for para a faculdade pra cursar sei lá o que no ano que vem...
Enfim... Voltando ao assunto, estou irritada porque minha mãe não confia em mim. Ela ainda tá com paranoia da festa... Odeio quando as pessoas não confiam em mim, principalmente quando a pessoa em questão é a minha mãe.
Triiiiiiiiin, triiiiiiiiiin!
Isso foi o sinal ecoando pelos meus tímpanos. É, parece que as aulas já vão começar... Outra vez, mais um ano, blé. Vou ter que dizer adeus, colega, porque não estou com a mínima vontade de chegar atrasada justo no primeiro dia de aula, me meter em confusão e ficar ainda mais irritada do que já estou, então... Até mais colega, prometo que vou escrever novamente e em breve.
Beijos,
Julieta D.
***
A cada passo que eu dava, meu coração dava um solavanco, meu estomago embrulhava de tal maneira que me fazia sentir náuseas. E o pior de tudo e que todo ano era assim, primeiro dia de aula, nervosismo a vista, coração acelerado, cabeça a mil. É quase como as provas finais, só que no início do ano, e você não tem que fazer nenhuma prova ao longo do dia, mas, é bem parecido. Pelo menos para mim.
Assim que entrei na escola – que, sinceramente, estava a mesma porcaria de sempre, digo, as mesmas paredes pintadas daquele verde meleca, o mesmo chão com os azulejos cinzas mortos, as mesmas pilastras dificultando a passagem, as mesmas escadas que dão preguiça apenas de olhar, os mesmos armários quase enferrujados... A mesma e velha porcaria – tratei de ir logo para a secretária saber o meu horário.
Quanto mais cedo eu soubesse quais coisas eu teria de estudar, e quanto mais cedo eu fosse para a sala, mais cedo eu iria embora. É, eu sei que não iria ser assim, mas, eu gosto de sonhar, tá legal? É como eu contei para o colega: você pode passar a sua vida inteira estudando (que é, praticamente, o caso), entretanto, você nunca irá se acostumar... Principalmente com a sensação estranha do primeiro dia de aula.
– O que quer, docinho? – Emmy, a secretária bacana “barra” porém nem tanto, me perguntou imediatamente chamando a minha atenção.
– Meu horário... – disse e depois completei –... Por favor – Dei um meio sorriso para ela, que retribuiu.
– Tá certo e o seu nome é qual mesmo?
Revirei os olhos. Eu estudo aqui desde sempre, como ela ainda não decorou o meu nome? Ela decora o nome de todo mundo! Poxa, assim não vale, ela decorou até as tintas de cabelo da Camile. E quando eu digo isso, eu quero dizer todas as que ela já pintou naquela coisa que ela diz ser o cabelo dela.
– Julieta. Julieta Dellamour. – Respondi secamente.
– Ah, sim, aqui está, docinho – Ela disse me entregando um papel branco dobrado.
Murmurei um “obrigada” e ela um “não tem de quê, docinho” e eu fui para o perto do meu armário. Uma das coisas que eu mais sentia falta (isso sem contar a hora da saída) era do meu armário. Lá eu podia colocar todas as minhas bagunças que ninguém iria saber que elas existem. E se eu pudesse abraçá-lo, eu abraçaria, mas, como não posso, apenas sorri e abri o mesmo. Lendo o meu horário logo depois.
Iria começar com algo fácil, literatura. Cara, eu simplesmente amo essa matéria, mesmo não sendo uma leitora assumida nem nada... Gosto desse universo das histórias. E também, pelo menos, literatura não era nenhuma matemática, o que era um ponto a meu favor.
É, sou completamente péssima em matemática, mas, sou aceitável em física, o que é no mínimo um pouco questionador.
Andei pelos corredores que a tempo não via, e que, com certeza, poderia ficar muito tempo sem ver e logo achei a sala 301. Uma coisa sobre a minha escola, a Original School California, além do nome esquisito e meio óbvio e bobo, o diretor decidiu enumerar todas as salas a partir do número cem. O que também é muito esquisito e bobo.
Enfim... Não posso questionar as escolhas do velho, vai ver ele acha legal, e como a Sel diz: gosto não se discute ainda mais se for gosto de gente velha e doida. O que se aplica muito bem ao diretor... Aquele lá cujo o nome eu não sei, não quero saber, e tenho muita raiva de quem sabe. E tem uma coisa? Porque, infernos, eu tô parada, no meio do corredor com um monte de gente nojenta me esbarrando pensando asneiras?
Ô, Julieta, agiliza ai, minha filha, Minha consciência ordenou.
E sem mais, menos, meio mais e nem meio menos, entrei na sala designada. Lá já se encontrava a Sra. Jackson e algumas pessoas. Dei um bom dia para todos presentes e fui para o meu lindo e adorado lugar. Era na primeira fileira da esquerda para a direita, e ficava bem no meio.
Aquele era o meu lugar desde... Desde que eu comecei a cursar o primeiro ano do ensino médio, quando eu coloquei na minha própria cabeça que estudaria mais, só não me tornaria uma nerd total, por isso, achei que o um lugarzinho separado no meio daria muito certo para a minha “nova pessoa”.
Sentei-me, abri a minha mochila rosa (rosa é a cor favorita da minha mãe, e foi ela que comprou aquela coisa no ano retrasado) e peguei a minha de óculos, tirando o mesmo de lá. Pois é, eu usava óculos para ler, estudar e ficar no computador. Uma grande droga. Odeio usar óculos, fico com cara de retardada.
Depois de mais alguns minutos — onze para ser mais exata — o restante da turma chegou e a professora deu início à aula, que foi extremamente normal, assim como as seguintes daquele dia. Agradeci aos céus quando sai da escola, não aguentava mais aquele lugar com tantas e tantas pessoas grudentas e falsas... A única coisa que queria era chegar em casa, tomar um banho, comer algo e ir para a cama na mais perfeita paz.
Porém, quando cheguei a casa... Pude perceber que a paz, naquele ambiente, não seria possível por hoje.
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