O Diário de Evellyn Bulstoof
1 Querido Diário... - oneshot
Notas iniciais
Querido Diário,
Hoje mamãe decidiu acabar com minha vida. Sempre achei que muitas coisas extraordinárias precisariam acontecer para que eu me sentisse extremamente infeliz. E de certa forma, elas realmente acontecerem.
Há dois meses atrás me lembro de ter me arrumado impecavelmente para a escola, como eu fazia todos os dias, e esperar pacientemente por papai na sala de nossa casa, afinal não era para uma mocinha como eu andar até a escola, segundo mamãe. Assim que papai desceu as ruidosas escadas de madeira naquela manhã, pude perceber que algo estava errado. Seu rotineiro sorriso se contorcera em uma careta de dor e baixos gemidos escapavam de sua boca. " Papai, o senhor está bem?" perguntei a ele, mas ele apenas disse que sim e já se encaminhou para o carro, sempre pontual. Peguei minha mochila que estava no sofá e corri até a cozinha para despedir-me de mamãe. Beijei a maçã de seu rosto levemente e fui para a frente da casa para entrar no carro de papai. Durante o trajeto para minha escola, papai continuava soltando gemidos e com a careta que parecia ser a sua expressão favorita do momento. Perguntei-o novamente se ele estava bem, ao que ele me respondeu rispidamente que sim e disse-me para calar a boca. Me encolhi no assento do carro e mantive minha boca fechada até a porta da escola.
Lembro-me que aquele fora um dia escolar completamente normal. Tive as primeiras quatro aulas, Física, Geologia, Álgebra e Francês, e depois sai para o intervalo com Madeline e Amber. Amber deixou a mim e a Madeline um pouco de lado, como ela tivera feito nas últimas semanas, apenas para ficar com seu namorado, Jaiden. Eu e Madeline tínhamos as próximas duas aulas juntas então conversamos um pouco sobre as matérias enquanto comíamos nosso lanche. Madi, como gostava de ser chamada, comentou que seu pai estava mais violento com sua mãe após o nascimento de sua irmãzinha. Aparentemente ele queria um menino, mas não fora culpa da pobre mulher que uma menina nascera. Disse a Madeline que papai também havia piorado com mamãe. O que antes eram apenas prensas nas paredes e gritos se transformaram em tapas, puxões de cabelo e surras. Madi disse que era o mesmo com sua mãe, mas ela temia pela pobre mulher, já que ela ainda estava fraca decorrente de sua gravidez. O sinal tocou e eu e ela voltamos para a aula. Não vimos mais Amber naquele dia.
Papai me dissera que não poderia me pegar naquele dia, então decidi voltar a pé, mesmo sabendo que mamãe encheria meus ouvidos com sermões sobre eu já ser uma mocinha e que não posso mais ficar andando sozinha por aí. Mesmo assim, segui com meu plano e caminhei pelas doze quadras que separavam minha escola da rua onde eu morava. Assim que cheguei estava toda suada, com as roupas grudando em meu corpo, completamente exausta. E para meu maior desconforto, estávamos com visitas. Mamãe apenas disse para eu subir e me arrumar, afinal não queria apresentar sua filha de maneira tão mal apropriada. Eu sabia que ela estava sendo dócil comigo apenas porque não estávamos sozinhas. Prontamente obedeci e subi para meu quarto, a fim de tomar um longo e relaxante banho.
Arrumei-me o mais rápido que pude. Coloquei um vestido azul rodado que pendia até minhas canelas, penteei meu cabelo castanho que batia um pouco abaixo de meus ombros e coloquei uma tiara da mesma cor que o vestido, por fim calcei meu adorado par Mary Jane negro. Era meu sapato favorito desde o ápice da guerra, quando tivemos que nos esconder em abrigos ant-ibombas de vizinhos e parentes próximos, lembro-me que nem sapatos usávamos nos dias mais sombrios. Por fim desci as escadas e todos no recinto pareciam me esperar, até a conversa diminuiu assim que pus meus pés no chão frio da sala de estar. "Esta é minha querida Evellyn" disse minha mãe a uma mulher muito bonita. Eu a cumprimentei e ela apresentou-se como Daphne. Pude notar que ao lado dela havia um rapaz, da minha idade ou um pouco mais velho, e ele me parecia um pouco inquieto. Ele levantou-se em um pulo e apresentou-se como Henry. Apresentei-me novamente e por fim sentei ao lado de minha mãe. Estava um pouco aérea, longe das palavras ditas naquela conversa, até que ouvi as palavras-chaves favoritas de mamãe na mesma frase, "casamento" e "Evellyn". Atentei-me mais e vi que Henry estava estressado, talvez fosse explodir a qualquer momento, e eu queria saber o motivo. A mulher, que eu já entendera que era a mãe de Henry, estava sugerindo que nossas famílias se unissem em um grande negócio, que seria de grande benefício para ambas. Mamãe pareceu muito interessada, e eu em toda minha ingenuidade não estava entendendo nada do que estava acontecendo. De repente, a campainha tocou repetidas vezes e mamãe rapidamente abriu a porta da frente. Um amigo de papai, que eu logo reconhecera já que eles eram colegas de trabalho, estava em nossa porta, extremamente esbranquiçado e seu cabelo estava completamente desgrenhado. Assustei-me assim que vi o homem, ele me parecia abalado e apressado, como se fosse dar uma notícia abaladora em tempos de guerra. As palavras que seguiram de sua boca me assombram até hoje, e em menos de dez palavras, ele sentenciou nossa família ao caos. "Seu marido está hospitalizado. E ele está muito doente" disse. Eu vira meu pai naquela manhã, ele estava mal, mas não péssimo. Eu e minha mãe nos entreolhamos e sabíamos o que deveríamos fazer. Correr para ver meu pai e torcer para que ele pudesse se recuperar. O homem, que continuava parado em nossa porta, ofereceu-nos uma carona até o hospital e é claro que aceitamos. Despedimo-nos brevemente de Henry e sua mãe e seguimos com o homem, que descobri se chamar Gregory. O carro de Gregory não era muito confortável, porém era rápido o bastante para não deixar-nos mais aflitas do que já estávamos. Assim que chegamos ao hospital dissemos nossos nomes a recepcionista e ela nos indicou o quarto em que papai estava. Corremos até lá e quando chegamos um médico estava examinando-o. Ele se virou brevemente apenas para notar que ele e papai não estavam mais sozinhos no quarto e continuou a fazer os exames. Mamãe se aproximou de papai e pegou sua mão, obrigando-o a olhar para ela. Naquele momento, vi o quanto o mundo era injusto. Meu pai batia e judiava de minha mãe, porém ela sempre o amou e no pior momento da vida dele ela estava lá, segurando em sua mão. Observei o gesto por alguns segundos até que o médico virou-se para nós e definiu o que meu pai tinha. E ele simplesmente disse "câncer no fígado". A certo tempo meu pai vem bebendo mais do que o costume, acho que a quantidade de garrafas de cerveja vazias em minha casa triplicou! Segundo o médico, o grande excesso de álcool causou o câncer e então, casualmente, ele nos deu o valor do tratamento. Caro demais. Meu pai podia ganhar um bom salario, mas não teria uma boa aposentadoria suficiente para pagar metade do tratamento. Eu e minha mãe choramos mais do que podíamos suportar naquela noite. Já sabíamos, era o fim da família Bulstoof.
Papai voltou para casa no dia seguinte e desde então não levantou da cama do quarto. Um mês após a volta de papai, minha mãe chamou Henry e sua mãe para nossa casa novamente. Naquele dia, ela e Daphne decidiram meu futuro. Eu me casaria com Henry. Sinceramente, não me importei no momento. Ainda estava triste e deprimida demais para notar. Mas naquela mesma noite eu revi palavra por palavra daquela conversa e nunca senti tanto medo em toda minha vida. A família de Henry era mais afortunada que a nossa, então seria bom para meu pai e também para minha mãe. Porém, elas não pensaram nas pessoas mais importantes nisso, eu e ele. Mal sei seu sobrenome, quem dirá o que gosta, como é sua voz, seu estilo. Nada, eu estava de casamento marcado para dali um mês e nada sabia de meu futuro marido. Procurei por palavras no fundo de minha mente que expressassem minha raiva, mas não encontrei nenhuma, então deixei que as lágrimas falassem por si. Fui proibida de ir a escola, pois deveria me concentrar apenas em meu casamento agora. Amber e Madeline foram me visitar em casa algumas vezes, apenas para eu contar a tragédia que minha vida virara e elas me contarem como era estar em uma sala de aula sem mim. Me sentia deslocada. Minhas amigas tão jovens e desfrutando de sua juventude enquanto eu estava fadada a um casamento que poderia dar um fim a minha existência. Só me encontrara com Henry em mais uma ocasião, em nosso jantar de noivado. Ele ajoelhou-se a minha frente e com uma caixinha aveludada em mãos pediu-me em casamento. Ele parecia tão triste quanto eu, mas não tínhamos mais escapatória. Aceitei, como minha mãe indicara para fazer, e beijei seu rosto logo em seguida.
Nas últimas duas semanas, tenho feito mais provas de vestidos que meu corpo pode aguentar. Reuni todas as informações sobre Henry que possuo até agora e fico revendo-as em minha mente, imaginando e pensando em como será quando estivermos casados. Será que ele me agredirá, assim como meu pai para com minha mãe? Ou será que não ligará para mim, assim como é o pai de Jaiden, o namorado de Amber? Muitas dúvidas enlouqueceram-me nesses últimos dias e tudo o que tenho até agora é uma pilha de perguntas e nenhuma com resposta.
Neste momento estou despedindo-me de meu quarto. Mamãe concordou que minhas amigas deveriam ser minhas madrinhas, já que ela e Daphne organizaram uma verdadeira festa de casamento. Elas estão aqui agora, arrumando seus vestidos rosados, tirando os rolos que estavam em seus cabelos e apreciando as beldades que estão. E quanto a mim? Bem, estou com um longo vestido branco, meu cabelo está firme em um coque e estou sentada em minha escrivaninha, escrevendo em você. Em cerca de duas horas estarei casada e em questão de minutos minha mãe virá aqui me importunar por ter amassado meu vestido. Quero que tudo voe pelos ares, esse tecido me pinica, os saltos que me obrigaram a usar são altos demais e tudo em que consigo pensar é em relação a Henry e a este maldito casamento. Depois de longos minutos ponderando consegui formar seu rosto completo em minha mente, com os mínimos detalhes. Seus são olhos azuis claros como o céu, seu é cabelo cacheado em um perfeito tom cobre, seu corpo é esculpido e esbelto, por mais que eu nunca vira nada além de suas roupas. Ah, acho que a mãe de Henry chegou. Ela queria vir para cá um pouco antes e ver se tudo corre como o planejado. Meu maior desejo é que comece a chover, assim teremos que ficar dentro de casa por mais tempo e no mínimo minha maquiagem e meu vestido seriam estragados. Mas acho que meus sonhos não se realizaram esta tarde. Acabei de ouvir pelo rádio que está em meu quarto que o dia todo será de sol escaldante, um calor infernal. Droga. Eu realmente estava contando com a mãe natureza hoje. Amber e Madeline finalmente terminaram de se arrumar e agora estão enchendo meus ouvidos com elogios dirigidos a Henry. Já que os vestidos das madrinhas estavam com Daphne, elas tiveram que ir até a casa de Henry para buscá-los e de quebra, viram e conheceram o famoso Henry. Estou com ódio das duas. Achei que por serem minhas melhores amigas saberiam que não era isto que eu desejava nem para meu pior inimigo. Queria fazer faculdade, me formar em algo que pudesse ajudar as pessoas, e quem sabe quebrar alguns preconceitos. Mas não, em vez de se afundarem junto comigo estão tentando me levantar e me colocar em um pedestal. Odeio profundamente minhas melhores amigas. Odeio minhas mãe por me obrigar a tal coisa. Odeio Daphne, que concordou com essa ideia de louco. E odeio mais ainda Henry, que está baixando a cabeça e não fazendo nada contra esta loucura. Daphne acabou de chegar em meu quarto. Está exaltada dizendo-me para levantar e ajeitar meu vestido. Bem, velho amigo, creio que está possa ser a última vez que lhe confidencio meus desejos, angústias e meu dia-a-dia. Não sei como será em minha nova casa, com meu novo marido, em minha nova realidade. Juro que se puder, lhe contarei toda minha vida, já que você sabe dela desde os meus nove anos. Gostaria de poder passar mais nove, vinte e nove, noventa anos com você. O único amigo que realmente me conhece. Agora preciso ir. Daphne está dizendo que se eu não me levantar neste exato segundo ela cancelará todo o casamento. Adoraria que fizesse isso, mas sei que não posso correr o risco. Adeus, talvez não para sempre, mas adeus, por enquanto.
Sua, e eternamente sua, Evellyn.
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