O Diário Secreto de Christopher Robinson
41 Quadragésimo Capítulo
Notas iniciais
Quando Rebecca Robinson apareceu e se apoiou no batente da porta, Christopher sentiu sua presença e parou instantaneamente de chorar. Todos os sussurros dizendo que se odiava haviam cessado e uma sessão de fungadas começou.
—Temos que dar um jeito nisso... – disse a mulher, olhando carinhosamente para mim e se aproximando. Notei que havia um pequeno roxo em cima de sua sobrancelha direita quando agachou para ficar ao lado do filho, mas desviei rapidamente o olhar para que não notasse que eu havia reparado. – Christopher, eu quero que vá ao banheiro enquanto converso com Blakely.
O garoto, com o rosto ainda fincado em meu ombro, desgrudou-se de mim calmamente e se levantou, indo em direção à porta. Notei que seu rosto estava vermelho e amassado por causa do choro e ele evitava claramente me encarar.
Assim que me vi sozinha no quarto com Rebecca, um calafrio tomou conta do meu corpo. Olhei para a mulher ruiva a minha frente e aguardei que falasse. Ela primeiramente se sentou no chão a minha frente, ficando em silêncio por alguns segundos, talvez pensando e escolhendo as palavras certas, pois abriu a boca umas três vezes para dizer algo, mas logo em seguida desistiu.
–Meu filho... – começou, olhando triste em meus olhos. O rosto lindo de Rebecca estava abatido e melancólico. – Ele ama você, Blakely. Talvez não saiba disso ainda, mas a forma como olha para você é a mesma forma como olho para Caleb em alguns momentos. Admito que o amo, com todo meu coração, creio eu – olhei-a com certa surpresa no olhar, era estranho escutar aquilo com tanta clareza.
A mulher ajeitou a cascata ruiva de cabelos e então abraçou as pernas, olhando para o chão com as bochechas vermelhas, mas ainda triste.
–Ele sabe – falei, séria e sem transparecer muito o conflito interno que havia dentro de mim. – E eu também sei que o amo. E quanto a Hunter?
Talvez Rebecca tenha se espantado com minha frieza, porque me mandou um olhar desconcertante e estranho. A culpa não era minha, só não queria demonstrar a tempestade de sentimentos que estava dentro de mim.
–Eu não sei – admitiu, demonstrando sua sensibilidade e dor.
Entendi naquele momento porque Christopher a amava tanto e fazia o possível por ela, Rebecca era frágil, além de que era a sua mãe e apanhava de Hunter. Pensei se teria sido a minha fraqueza que chamara a atenção do garoto, pois havíamos nos conhecido no meio de uma briga, na qual ele me salvara. Esse instinto protetor era inteiramente dele, a fraqueza era inteiramente minha. Será que era dessa forma que nos completávamos? Dessa forma tão idiota e ruim? Eu lutava para ser forte, mas nunca me sentia como tal. Não era uma garota de porcelana, como bem mesmo já tinha dito aos meus pais. Mas e se isso estivesse em mim? Fosse parte de mim, uma característica?
Olhei para Rebecca. Será que sensível e frágil eram as palavras certas para descrevê-la? Uma mulher que tinha sido forçada a se casar com um monstro e o aguentava por causa do filho que havia tido com ele... Isso era fraqueza?
Fechei os olhos e balancei levemente a cabeça, com o intuito de afastar aquela ideia horrível de mim. Eu tinha certeza de que eu e Christopher nos completávamos de mais formas que eu poderia ver e perceber.
—Não sei o que será de mim e Christopher – confessei, aproveitando que ela estava também sendo franca comigo. – A esse momento eu sei que meus pais estão surtando. Provavelmente, assim que eu voltar, nunca mais poderei vê-lo ou, muito menos, sair de casa.
—Às vezes as coisas não são para acontecer agora, garota – disse Rebecca, voltando a ter convicção na voz. – Pretendo enviar Christopher para a Rússia, acho que você já deve saber. Ele ficará melhor lá com o avô, embora eu o odeie de todas as formas possíveis. – assenti com a cabeça, sentindo um buraco no meu coração. – Vocês dois vão sofrer, mas vão superar. Acho que meu filho finalmente entendeu que Hunter nunca vai voltar. Agradeço a você por tê-lo feito perceber isso.
Ela sorriu. Um sorriso verdadeiro e estranho, que continha felicidade e tristeza. Nós duas concordávamos que aquilo era o melhor para Christopher, mas meu coração sofria e o buraco que havia dentro dele só crescia e trazia mais dor.
—Não sei se você sabe, mas o divórcio entre mim e Hunter é impossível – o sorriso foi-se por água abaixo, voltando ao clima depressivo de antes. Os rumos daquela conversa estavam sendo sombrios. – É uma questão de honra para a família Zarov e terminar um casamento seria inaceitável. Hunter é o único filho homem de Hans, só que nesse estado e sendo a ovelha negra da família... – Rebecca olhou diretamente em meus olhos, como se visse minha alma e o meu coração despedaçado. Ela implorava compreensão. – Christopher é o herdeiro, Blakely. De uma grande e inestimável fortuna, por isso o avô o quer lá.
Eu sabia que Hans era um grande e importante general russo, só que naquele momento me senti tão pequena. Por que Christopher iria me querer depois de construir uma vida de luxo na Rússia? Ele conseguiria alguém melhor e isso era mais um motivo para ele ir. Eu o amava, mas talvez uma vida ao meu lado não fosse tão boa no sentido financeiro. Mal sabia o que eu seria quando crescesse ou até mesmo a faculdade que faria.
Cobri meu rosto, suspirando e escondendo as lágrimas que vinham como uma enxurrada.
—Não pode abdicar de sua felicidade assim, mãe – escutei a voz de Christopher vindo da porta, ele com certeza estava encostado no batente e encarando aquela cena com indignação. Sua teimosia nunca o deixaria sair da Inglaterra. – Eu vou ficar. Já está decidido!
Escutei Rebecca respirar fundo e soltar uma expressão de dor, parecia alguém com enxaqueca.
–Nós não iremos discutir sobre isso. Você vai, Christopher Robinson. Sua passagem foi adiada para a semana que vem, mas você ainda vai.
Continuei com meus olhos cobertos, limpando as poucas lágrimas que teimavam em cair, mesmo eu lutando duramente contra elas. Enquanto isso escutava uma pequena discussão de Christopher e a mãe em russo. Eu não entendia nada, claramente. Russo era uma língua difícil demais e nem um pouco parecida com o inglês.
As vozes não gritavam, entretanto falavam um pouco alto e era horrível estar alheia àquilo tudo. Em um determinado momento simplesmente cedi e comecei a chorar, abraçando meus joelhos e fazendo o meu próprio refúgio.
Chorei alto, como um bebê. Descarregando ali toda a dor que eu sentia dentro de mim, me pressionando, me matando.
Eu sentia que tudo ia desmoronar, até que então as vozes em russo cessaram.
—Chega! – Christopher disse enfim, em inglês e com o tom da voz controlado. – Eu amo você, mãe. Espero que me perdoe por isso, mas conversaremos mais tarde.
Mesmo não o vendo, senti que seu olhar estava em mim.
Rebecca saiu do quarto, frustrada, já que seus passos eram apressados. Assim que estávamos sozinhos, os olhos azuis de Christopher demonstraram preocupação e então ele veio até mim, retirando do bolso uma pequena flanela, que me entregou para que eu limpasse as lágrimas. E foi isso que fiz.
Quando olhava para ele, era como achar um oásis no deserto de dor que eu vivia.
—Você precisa ir para casa – disse, sério, inspirando autonomia, assim como terminara com a discussão alguns minutos atrás. Eu nunca havia visto esse lado líder dele, mas era surpreendente, seria bem sucedido em uma carreira militar.
Fechei meus olhos por alguns segundos, tempo o suficiente para que ele me roubasse um beijo.
—E não se preocupe – roubou outro. – Eu nunca vou te deixar. Vamos achar um jeito.
Eu sorri, mesmo sabendo que não daria certo. Era melhor aproveitar enquanto ainda podíamos.
Beijamo-nos. Pela terceira, pela quarta, pela quintavez...
Porém, em um certo momento, no qual olhávamos um ao outro nos olhos e ficávamos em silêncio, tudo se desmanchou. Um forte e alto barulho interrompeu o nosso silêncio. Só vi os olhos azuis a minha frente brilharem de medo, um medo que fez Christopher tremer por alguns segundos e agarrar forte em meu pulso, talvez o tipo de medo que fez os peixes criarem pernas para saírem das águas a bilhares de anos atrás ou o tipo de medo que faz as pessoas fracas se matarem para não senti-lo. Não conseguia entender nada, mas então, no meio daquela confusão toda e daquele solavanco, eu entendi. Foi com aquele olhar no rosto de Christopher queeu soube que Hunter Zarov havia chegado em casa, e ele não parecia bem.
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