O Diário Póstumo de Afrodite

7 Capítulo 6 - E a morte se anuncia


Notas iniciais
Oi amores! Quero agradecer a quem comentou no capítulo passado: Firefox, Sion Neblina e Juniper Cronos. Fiquei imensamente feliz! Agradeço também a quem está acompanhando. Mil beijos!!! ♥ ♥ ♥

[...]

Os médicos explicaram-me que na fase que o meu câncer se encontrava, tratamentos com radio ou quimioterapia além de serem inúteis, me debilitariam demais. Então eu optei por não fazê-los.

O tumor Astrocitomas que havia se desenvolvido em meu cérebro, inicialmente era de baixo grau. Porém, como o médico oncologista me explicou, nessa fase ele é facilmente confundido com outras doenças e mais difícil de ser diagnosticado por um médico comum de ambulatório, pois os sintomas, muitas vezes, não passam de dores de cabeça, cansaço ou desmaios, justamente os sintomas que eu apresentava, lembra? Todavia, na época em que eles começaram a aparecer nós os associamos ao estresse decorrente das não vendas dos meus quadros, ou de não conseguir um trabalho decente.

Os sintomas pioraram com o tempo sem que eu percebesse. Continuei por muito tempo os ignorando, imaginando serem somente as consequências do esforço excessivo e repetitivo que fazia com a minha mente, afinal, arranjar inspiração e criatividade para criar a minha arte nem sempre era uma tarefa fácil. Exigia muita devoção, tanto física quanto emocional e psicológica.

Agora era tarde!

Descobri que o câncer tinha se alastrado por meu cérebro quando ele já estava muito avançado, num estado em que a realização de uma cirurgia era arriscada demais, tendo grandes chances de que eu ficasse até os fins dos meus dias em estado vegetativo, ou falecesse ali mesmo, na mesa cirúrgica.

O Ângelo, apesar da sua rudez aparente, foi uma das pessoas mais compreensivas que eu tive a oportunidade de conhecer e, caso eu tivesse tido a oportunidade, seria também a pessoa que mudaria a minha vida, disso eu não tenho dúvidas. Infelizmente os deuses resolveram que tinha chegado a minha hora e mesmo eu não aceitando muito bem, tive que partir.

O motivo de ter partilhado a existência dessa doença somente com um desconhecido foi justamente por ele não me conhecer direito, ou bem menos tempo que todos vocês.

Apesar de desde muito cedo ter gostado de ser o centro das atenções, de ter todos os olhares voltados para mim, pois isso enaltecia a minha vaidade, a notícia da minha futura morte não era um dos artifícios que eu planejei em algum momento utilizar para saciar meu espírito exibicionista.

A minha sede de fama, a mania de ostentar, as minhas atitudes egocêntricas estiveram sempre inclinadas a expor somente o que eu tinha de bom, os meus atributos físicos e mentais, as minhas qualidades. Gostava, como você bem sabia, de receber elogios, de deixar as pessoas admiradas com o conjunto que era a obra chamada de “Afrodite”.

Expor a minha doença só atrairia olhares piedosos, pessoas lastimadas pela minha tragédia pessoal, ou ainda, pessoas que não se importariam de te dar os pêsames antes mesmo de eu ter-me ido.

Atenção por comiseração nunca foi o meu objetivo.

A noite foi longa. Entre desabafos, lágrimas e conselhos, em dado momento acabei me entregando aos carinhos do Máscara da Morte e deixando-me levar por aquele homem que me deu a última noite de amor. Ainda que não pudesse dar-lhe um relacionamento promissor e duradouro, ele pôde me dar um momento de serenidade antes do meu imutável e vindouro fim.

E foi maravilhoso. Os toques dele, embora fossem ásperos, vigorosos e objetivos, traziam atados consigo carinho, dedicação, conforto e paz.

Tudo o que eu mais precisava naquele momento.

Dias depois a tão esperada exposição acontecia.

Ângelo e eu não transamos mais depois da noite efusiva e reconfortante que tivemos.

No dia que sucedeu a ela eu estive no nosso antigo apartamento, peguei as minhas rosas, alguns pincéis e tintas que havia deixado ali, e parti de vez daquela casa que em minha mente deprimida era o símbolo que mais me fazia lembrar o casamento agora fracassado.

Porém, não te vi. Nos dias e semanas posteriores também não. E apesar de sentir imensamente a tua falta, a sua ausência não estava mais me abatendo.

O Máscara deu-me um espaço maior na exposição do que o que tinha prometido. Dizia que eu merecia. Por isso notei uma pintura de minha autoria logo quando entrei no grande salão. Mais cedo ele havia insistido em terminar a organização do local sozinho, deixando-me livre para que fosse embora tomar um banho.

Confesso que, a despeito de já confiar muito no Ângelo, fiquei um tanto inseguro temendo que “a coisa” não saísse do jeito que planejei. E mesmo que o lugar reservado para um, ou no máximo dois dos meus quadros fosse ínfimo perto da tamanho e quantidade de obras a serem expostas no evento, queria que tudo acontecesse da maneira mais perfeita possível.

Então você pode imaginar qual foi a minha surpresa ao adentrar o salão e dar de cara já próximo a entrada com um dos meus quadros. E nem era um dos que eu tinha planejado mostrar. Havia muitos outros espalhados pelo ambiente.

Busquei o Ângelo com os olhos e o encontrei dando algumas entrevistas a alguns repórteres — provavelmente de jornais ou revistas — e se esforçando para sorrir simpático às várias lentes das câmeras fotográficas.

Sorri de volta quando ele abriu um sorriso charmoso na minha direção, mas quando os homens e mulheres que o cercavam viraram o rosto para mirar-me depois de terem seguido o olhar que ele lançou para mim, foi inevitável que os flashes das câmeras que os fotógrafos seguravam cegassem meus olhos por alguns instantes.

Meus olhos embaçaram um pouco e uma pequena náusea atingiu-me.

Respirei profundamente e me recompus. Aproximei-me do Ângelo que me chamava com um gesto de mão e movi os lábios num leve repuxar para ambos os lados. Os flashes e as perguntas recomeçaram. Algumas delas era direcionadas a mim.

Fiquei extasiado.

Várias pessoas vieram cumprimentar-me. A maioria delas eu nunca tinha visto na vida. Outras, porém, eram pessoas renomadas e conceituadas no ramo das artes plásticas. Senti-me lisongeado, afinal de contas, não era qualquer pintor iniciante que recebia os elogios que eu estava recebendo.

E não poderia deixar de agradecer ao Ângelo.

Saí em busca dele novamente, mas no caminho fui interceptado pelos nossos amigos, todos eles. Até Kanon estava lá e vê-lo causou-me certa trepidação. A semelhança entre vocês era tanta que lembranças tuas vieram-me involuntariamente.

Camus percebeu.

Contudo, meu semblante mudou em poucos segundos. Fiquei feliz em ver todos lá me prestigiando. O Milo, com seu jeito escandaloso, abraçou-me apertado e ergueu-me no ar, rodopiando em seguida.

Meu irmão, o homem que me entendia como ninguém, trazia em seus braços um buquê de rosas brancas. Fiquei emocionado com todas as palavras afetuosas que vieram a seguir.

Após as saudações deles, procurei o Ângelo e o puxei pretendendo apresentar aos garotos o homem que me deu aquela oportunidade maravilhosa de conseguir os meus tão sonhados quinze minutos de fama. Claro que se tivesse tempo, você deve estar imaginando isso agora, eu daria muito mais do que indignos quinze minutinhos para a Grécia poder presenciar a minha ilustríssima presença e deslumbrar-se com a minha incrível beleza.

Quando finalmente o alcancei no centro do salão, os fotógrafos mais uma vez dispararam os flashes na nossa direção. Dessa vez, porém, foram tantos deles que senti minha cabeça doer, minha visão se deturpar, e os meus sentidos sumirem.

Notas finais
As informações que eu descrevi sobre o tumor que o Dite tem no cérebro não possui base médica. São apenas algumas coisinhas que encontrei no Google, e outras que incrementei, relacionando com os sintomas que ele havia sentido. Hehe Por isso não liguem se tiver alguma coisa muuuito errada aí. No mais, deixo aqui meus agradecimentos por lerem e, se possível, digam-me o que estão achando. Beijos!