O Diário
33 Capítulo 33
Notas iniciais
33.
Eu não estava pensando direito, nem tinha nenhum plano em mente, minha cabeça pesada não me dava condições de agir racionalmente ou medir meus atos.
Não importa se eu precisar passar pela rígida segurança desse hospital e invadir o CTI a força, mesmo que eu fosse preso logo depois... Valeria a pena se eu conseguisse vê-la...
Apenas vê-la... Vê-la e me certificar de que estava bem e que eu, de alguma forma, cumprira minha importante promessa...
Essa esperança era tudo que comandava meus pensamentos e minhas ações nesse momento.
Adentrei pela entrada de visitantes do renomado Hospital Particular Senju, encontrando a ampla sala de espera, e com algum receio por não conhecer bem o lugar, busquei onde conseguir informações sobre minha paciente.
A garota que cuidava da recepção tinha um cabelo curto em um tom de preto forte e voltava total atenção de seus olhos enormes e brilhantes para o computador a sua frente, digitava de forma nervosa enquanto bebericava uma xicara de café ao lado. Estava tão concentrada no que fazia que tive que forçar um pigarro e ainda chama-la algumas vezes para que me percebesse esperando.
— Com licença. – Disse quando ela me olhou. – Estou procurando uma paciente que foi transferida para cá recentemente.
— Qual é o nome da paciente? Sabe o numero do quarto? – A mulher começou a teclar no computador, provavelmente procurando pelas transferências.
— É uma garotinha, ela deve estar no CTI. Queimaduras de 3° grau e intoxicação intra-pulmonar. Foi um acidente de carro, falha no tanque de gás e... – Parei de falar, cortando a frase ao meio, percebendo que o nervosismo me tornara um tagarela. Decidi apenas lhe dar as informações que pediu. – O nome dela é Hanabi, Hanabi Hyuuga.
— Hyuuga, hum? – Ela teclou mais algumas vezes. – Você é parente ou amigo da família?
— Não. Eu... não sou.
— Pode me informar o seu nome, senhor?
— Kakashi Hatake.
— Sinto muito, senhor Hatake. Mas tenho instruções sobre essa paciente, só posso dispor informações para pessoas autorizadas.
— Eu sei... Claro que eu sei... – Bufei decidindo o que fazer, eu não estava com paciência para essas burocracias. Tinha que pensar rápido em como convencer essa mulher. – Qual é o seu nome, por favor?
— Shizune.
— Então, Shizune, eu sou o socorrista que salvou Hanabi no acidente. – Afirmei pensando que esse fato a comoveria. – Levamos Hanabi para um hospital publico da região, mas soube que ela foi transferia para cá. Preciso saber se tudo ocorreu bem, porque não era algo recomendado no estado dela.
— Senhor, eu realmente não posso informar nada...
— Eu prometi a mãe dela. – Disse e tive que me esforçar para controlar meu tom de voz, gritar com a moça não resolveria nada. – Ela morreu na ambulância e a ultima coisa que me fez prometer foi que olhasse pela filha dela. Por favor, só quero essa informação. Ela está bem ou não?
Shizune me analisou com um olhar de absurda seriedade, como se tentasse ver através de minhas palavras, buscando algum sinal de mentira. Não encontraria, nunca fui tão sincero em minha vida.
— Um momento, por favor. – Ela se levantou indo para uma porta atrás da bancada, que levava a uma sala a parte, exclusiva dela, era provável que entrasse me contato com algum superior para saber como lidar comigo.
Relaxei os ombros e me escorei no balcão, a preocupação não combinava comigo que sempre fui tão calmo e indiferente. Era ate mesmo estranho me permitir algo assim, mas não havia como evitar depois dos meus erros e agora não poderia me deixar dominar por nenhum tipo de “dor na consciência”. Eu salvei a menina, era nisso que tinha que pensar.
Ergui meu olhar por um instante, atraído por uma figura familiar: uma garota, cabelos curtos e escuros, olhos perolados, feições suaves e dignas de sua mãe; Nunca fui apresentado a filha mais velha de Himiko, mas já a vi em fotos e ouvi o bastante para reconhecê-la mesmo a distância.
Hinata, era este o nome?! Estava acompanhado de um rapaz, o primo dela provavelmente, e os dois se encaminharam para os acentos da sala de espera, ficando lá comportadamente.
Logo, sem precisar procurar muito, vi Hiashi no final de um corredor distante, falando com uma médica. O caminho para a sala de espera passava pela recepção, então eles andavam em minha direção, se aproximando lentamente enquanto conversavam. Observa-lo foi inevitável e interpretar sua expressão desolada e as palavras de consolo da doutora lhe direcionava me causou um mau pressentimento.
A médica loira se despediu com um abraço de consolo, avançando em seguida para um outro corredor, e Hiashi passou por mim de forma letárgica, adentrando a sala de espera ate ficar fora de vista.
— Senhor! – percebi a voz da recepcionista, parecia me chamar a algum tempo.
— Sim?
— Desculpe a demora. Eu tive que verificar se os dados do meu computador estavam corretos.
Eu era um socorrista, trabalhei por anos nesse meio e reconhecia muito bem a expressão que ela me direcionava.
— Infelizmente, Hanabi Hyuuga não resistiu a uma parada respiratória.
Sabia também quais seriam suas palavras seguintes. Aquelas que eu já pronunciem tantas vezes para outras pessoas, ensaiadas para parecerem frias e respeitosas, saindo quase automaticamente, esquecendo-me o que realmente significava.
— Sinto muito por sua perda...
Não, ela não sentia. Eu sim. Pela primeira vez entendia como era ouvir tais palavras...
Em choque, acenei com a cabeça enquanto a mulher me dava uma rasa explicação sobre as complicações que a paciente teve ao ser transferida precocemente, mas a verdade é que eu não conseguia ouvir o que ela me dizia. Meus pensamentos me assombravam com as palavras de promessa que fiz e que agora não valiam absolutamente nada...
— Senhor... – Shizune falou e me surpreendi com o toque de sua mão sobre meu braço, uma provável forma de me confortar, parecia ter percebido meu estado emocional. – Se quiser conversar com alguém, o hospital tem uma ótima grade de profissionais que...
— Não, não... Não será preciso. – Me distanciei um passo e disfarcei com um sorriso. – Não teria como pagar um psicólogo aqui, de qualquer forma...
— Dinheiro não seria um problema. Tenho amigos aqui e... Posso lhe ceder um favor.
— Não posso aceitar sua ajuda, mas não se preocupe... Eu vou, sim, tentar conversar com alguém em breve...
Agradeci a recepcionista simpática e me afastei para ir embora. Ainda desnorteado com a noticia, só pensava em como tudo tinha falhado. Perder meu melhor amigo, Obito e minha quase irmã, Rin... Então Himiko e, agora, sua filha... Das pessoas que sempre quis proteger, não sobrou mais ninguém.
Enquanto saia, percebi Hiashi na sala de espera falando baixo ao celular, ignorava sua filha e seu sobrinho ao seu lado. Apesar de me parecer abatido, ainda tinha uma postura sóbria e firme, nem demonstrava sinais de choro ou pesar.
Sem perceber, acabei parando e observando a cena a minha frente.
— Tudo bem. Chamei um motorista para levar vocês para casa. – Ele falou aos dois jovens.
— Para casa? – Hinata reclamou. – Mas você prometeu que íamos ver Hanabi hoje!
— Hoje não vai dar. Vocês vão para casa. – Hiashi usou um tom autoritário.
— E a mamãe? Não podemos vê-la também?
O Hyuuga a encarou com uma carranca, visivelmente irritado com a insistência da menina e foi ali que me dei conta de que aquele homem era um inútil como pai.
A mulher dele, mãe dessa garotinha, havia morrido a dias e ele simplesmente não contou nada. Agora a caçula da família também acabara de falecer e ele pretendia mandar as crianças embora e evitar o assunto?
O que ele estava falando para eles? Que estavam bem e que logo voltariam para casa? E com o tempo, o que?! Que saíram em uma longa e demorada viagem?
Isso não estava certo. Pelo menos, não para mim.
— Eu já disse que hoje não vai dar. – Hiashi respondeu.
— Então quando? – A garota insistiu.
— Neji vá com sua prima para esperar o motorista lá fora. Tenho assuntos a tratar.
— Eu não vou ate o senhor me responder.
A garota, erguendo a voz, cruzou os braços e, apesar das lagrimas já apontarem em seus olhos, estava disposta a enfrentar o pai. De alguma forma ela me fez lembrar sua mãe naquele momento.
— Hinata-sama, se acalma. É só por hoje, depois a gente pode... – O menino tentou tranquilizava a prima, mas a mesma o interrompeu.
— Mas ele vem falando isso a semana inteira! Parece tão estranho...
Ela não sabia, mas já começava a suspeitar da postura de seu pai. Era uma menina esperta, com certeza tiraria suas próprias conclusões se Hiashi demorasse muito para agir e lhe contar a verdade. Senti medo por ela, pois esse não é o tipo de coisa que se deva descobrir por conta própria, é uma noticia a ser trabalhada e abrandada para evitar danos colaterais. Hinata era apenas uma criança, não saberia lidar com esse choque.
— Vá para o carro sem malcriação. Em casa conversaremos.
— Mas a mamãe e a Hanabi...
— Vá agora!
— Com licença, Hyuuga-sama. – Interferi automaticamente.
Algo em mim não me permitia ficar parado e alheio aquilo. Não poderia ficar olhando, não conseguiria apenas sair e fingir indiferença. Hiashi estava a beira de cometer um grave erro para com Hinata e o sobrinho e eu não permitiria isso.
— Sim, sou eu. – Ele se voltou para mim, me olhando da cabeça aos pés. – Você é um dos enfermeiros?
Eu ainda usava, assim como a mascara hospitalar, minha farda de socorrista dos bombeiros, então seria normal o Hyuuga me confundir com algum funcionário do hospital, não importava se os uniformes fossem diferentes, ele não teria condições de reparar devido as circunstâncias atuais de sua vida turbulenta. Tudo que ele via era um homem com roupas hospitalares em uma clinica.
— Desculpe, não queria interrompe-los. Podemos conversar? Sobre sua filha? – Fitei Hiashi firmemente.
— Eu não tenho temp...
— Sobre a Hanabi?
Hinata o interrompeu, perguntando animadamente, ansiando por noticias. Não era certo lhe dar esperança, mas, ao observa-la tão otimista, inocente, não pude deixar de sorrir, tentando transmitir calma e simpatia.
— Por favor, senhor. – voltei a encarar Hiashi. – Prometo que serei rápido.
— Claro. – Hiashi bufou exausto e coçou a testa antes de encarar a filha. – Crianças, me esperem no carr...
— Há uma maquina de doces no final daquele corredor. – Apontei a direção, não queria que as crianças saíssem do hospital ate aquele assunto ser resolvido. – Logo seu pai irá busca-los lá.
Confusos sobre qual ordem seguir, os dois jovens ao nosso lado voltaram-se para o Hyuuga buscando alguma confirmação, Hiashi logo tirou uma nota alta da carteira e entregou ao sobrinho, sinalizando para irem por onde eu apontara.
— Quer falar sobre minha filha, senhor...
— Não quero falar, apenas dar um conselho. – Respondi.
Decidi evitar de me apresentar, já que não sabia ainda o quão informado ele estava. Obviamente, não conhecia meu rosto, mas não queria arriscar caso soubesse meu nome, não antes de falar o que precisava.
Hiashi estava a frente do homem que, em tese, destruiu seu casamento e não fazia a menor ideia, me dar conta deste fato, por um instante, fez-me sentir estranhamente “confortável” com tal situação...
— Um conselho? – Seu tom foi incrédulo.
— Soube a pouco o que houve com sua família. Sinto muito por sua perda, Hyuuga-sama. – Fiz uma breve reverencia respeitosa. – Também presenciei sua discussão com sua filha e não pude deixar de lhe falar. O hospital tem uma ampla grade de profissionais, se estiver inseguro quanto a conversar sobre sua perda com as crianças, tenho certeza de que algum psicólogo daqui poderia lhe orientar devidamente.
Hiashi me encarou com um olhar rígido, um segundo de orgulho e prepotência, mas logo suas feições se suavizaram, como se pensasse a respeito. Eu o peguei em um momento vulnerável, do contrario, duvido que seria tão acessível.
— Eu ainda não falei com eles... – Me respondeu finalmente, percebi a sinceridade em sua voz. – Não sei o que fazer. Acho que não serei capaz de falar.
— Acredito que alguém da ala pediátrica poderia conversar com eles.
— Sim, Tsunade-sama já havia me aconselhado o mesmo. Antes eu achei que conseguiria fazer isso sozinho, mas vendo Hinata tão preocupada... Eu estava errado. – Ele bufou agora. – Já que trabalha aqui, deve conhecer bons profissionais. Pode me recomendar alguém?!
— Claro. – Engoli a seco. – Irei na recepção ver quem está disponível, com licença.
— Eu agradeço, senhor...
Seria suspeito esquivar-me novamente da pergunta sobre minha identidade. Era hora de ver o quanto Himiko lhe contou em suas ultimas brigas...
— Sou Kakashi Hatake. – Me apresentei finalmente.
— Sim, eu agradeço sua ajuda, Kakashi. – Ele falou simplesmente, sem dar importância.
Então era isso, ele não sabia de nada, nem mesmo me conhecia, ou ao meu nome. Então, de fato, Himiko realmente me protegeu de alguma forma.
Provocar da ira de um dos homens mais poderosos da cidade deveria ser assustador, mas eu não tinha medo algum. Na verdade, já a muito tempo queria deixar tudo as claras com Hiashi e resolver nossas diferenças, da melhor ou pior forma.
Entretanto, agora que Himiko morreu, nem mesmo essa “rixa” fazia qualquer sentido. Ele não sabia sobre mim e eu deveria me esforçar para esquecer, tanto a ele como a sua família.
Bufei ao vê-lo se afastar, indo para onde a filha e o sobrinho estariam, então preparei meus próximos planos e desculpas, enquanto me encaminhava de volta para a recepção. Precisava pensar em como sustentar a mentira que contei a Hiashi sobre “ser um funcionário deste hospital”.
A resposta surgiu a minha frente, com o sorriso que a simpática recepcionista me direcionou.
— Oi, ainda posso lhe pedir um favor? – Eu sorri de volta.
***
Kakashi se apoiou na parede sentindo-se exausto por um momento e observou na sala de espera uma cena digna de um filme dramático de final feliz:
Havia uma mulher, com o braço enfaixado preso a uma tipoia recebendo um abraço carinho de sua filha, uma garotinha com menos de seis anos de idade. Ambas choravam, cheias de amor, alivio e gratidão.
— Aqui está. – Ouviu falarem ao seu lado e virou o rosto na direção.
Ele pegou o copo descartável de café e agradeceu a Shizune com um acenar de cabeça voltando a olhar fixamente a cena familiar de antes.
— O que houve com o homem? – perguntou.
— Ele não conseguiu... Por isso que vim, tenho que avisar a esposa e a filha. – A mulher o viu bufar pesado e se desencostou da parede, afastando-se. – Você salvou 2 vidas hoje, sabia?!
— Deveriam ser 3, ou 4... ou sei la quantas pessoas haviam naquela casa... Eles tinham cachorro também? O quintal era grande, deveriam ter um cachorro ou um gato...
— Eu não entendo você as vezes sabia... – Shizune o parou antes que adentrasse no corredor e o encarou com os braços cruzados. – Tem ocasiões em que você age como se não gostasse de ninguém e fosse indiferente ao mundo, mas em outras, tem esse estranho senso de herói que não consegue salvar a todos e fica se lamentando pelos cantos como se...
— Eu não sou um herói. – Kakashi a interrompeu.
— Deus, como você é dramático!
— Eu não sou!
— Passou os últimos dias dobrando turno atrás de turno e cochilando pelos cantos, fazendo o seu melhor para ajudar a quem precisasse. Você me causa muitas duvidas, sim, mas se há algo que não se pode discutir é que você é um herói, Kakashi, querendo ou não... – Ela o olhou fixamente por um instante.
— Ok, me desculpe... Acho que estou um pouco dramático esses dias.
— Ou é um fugitivo da policia...
— Como é?! – Kakashi estranhou.
— Aquele seu amigo policial veio aqui de novo te procurar... Asuma, certo?! – Shizune cruzou os braços em volta do corpo com um olhar desconfiado.
— Eu não estou foragido da policia...
— Ok, eu sei, só estava te provocando... O trabalho é exaustivo. Por que não vai para casa e relaxe por algumas horas?
— Eu gosto do meu trabalho, me ajuda a pensar com clareza. – Ele voltou a observar mãe e filha abraçadas.
— Só não pense demais, se isso for te deixar depressivo...
— Eu sei. – Kakashi bufou. – Eu tenho que voltar por trabalho e você para o seu.
A mulher acenou com a cabeça já se afastando em direção a sala de espera quando parou e voltou-se novamente para o homem:
— Kakashi! — Chamando-o uma ultima vez – Se tiver qualquer problema, saiba que poderá contar comigo, ou qualquer um dos nossos companheiros do Hospital.
— Obrigado Shizune... Por tudo.
Kakashi suspirou uma ultima vez antes de sair, pensando em tudo que ela lhe disse...
Ele era um herói? Querendo ou não? Isso era verdade?!
Tudo que ele fez? As pessoas que já salvou? O bem – e o mal – que espalhou com seus conselhos bem aplicados?
Seus atos realmente remetiam a um herói?
Não!
Não enquanto ainda houvesse alguém para salvar...
E uma antiga promessa para manter...
— Alô?! Asuma! – Ligou com seu celular ao chegar no estacionamento. – Eu sei... Desculpe pelo sumiço – Então sorriu genuinamente. – Eu me perdi no caminho da vida... Mas agora estou pronto pra agir.
***
Hinata observava pela janela do quarto enquanto ouvia os múrmuros baixos de Naruto vindo do banheiro...
O loiro já estava ao telefone a algum tempo, talvez não tanto, mas a morena sentia como se fosse uma eternidade e se esforçava contra a tentação de tentar ouvir o que era falado entre seu namorado e seu pai. Ela sabia que não se sentiria bem fazendo aquilo – de novo – e que lembranças ruins poderiam surgir e novamente guiá-la impulsivamente para longe, tal como foi no passado.
Assim, a fim de se distrair, tentava se concentrar em outras coisas, tal como a manhã que estava clara e a vizinhança nunca lhe pareceu tão tranquila.
O comercio sendo vagarosamente aberto por pessoas trabalhadoras, crianças de todas as idades indo para escolas, aqueles que levavam seus animais de estimação para passear e ate mesmo esportistas que faziam caminhada ou corrida ao toque dos primeiros raios da manhã...
Aquele era um bairro cheio de uma paz que ela pouco conhecia e, por um instante, Hinata imaginou como seria viver naquele ambiente para sempre ao lado de Naruto... Deixar para trás todos os problemas que a atormentavam, tudo que a ligava aos fatos obscuros de sua vida, tudo que a dominava perante o medo.
Realizar seus sonhos... Ser feliz e fazer quem ama feliz... Viver a vida que um dia alguém tentou lhe privar.
O som da porta do banheiro se abrindo a desfez dos devaneios do futuro puxando-a de volta ao presente onde ela continuava ferida e presa as lembranças adormecidas e sem controle...
— Está tensa. – Naruto a abraçou pelas costas, sentindo a pele da morena se arrepiar ao ouvi-lo, mas não sabia se era uma coisa boa ou má.
— O que ele queria?
— Acho que você já sabe né?!
— Diga, por favor...
— Hiashi chegou em casa depois da viagem, não te encontrou em parte alguma, os empregados não sabiam de nada e Neji não quis contar... Então ele me ligou. – Naruto respirou fundo antes de prosseguir, era como se a tensão dela o contagiasse. – Ele apenas queria ver o que eu sabia. Sou o melhor amigo do Neji e... bem... Ate o seu pai sabe como somos ligados...
— E você disse que...?!
— Menti por você. Ele não sabe que está aqui. – Naruto apertou os braços em volta da sua cintura depositando um beijo gentil em seu rosto.
Por um instante Hinata sentiu-se aliviada, mas logo percebeu que aquela era uma solução temporária... Hiashi era seu pai, um homem rico e solitário que queria manter o que sobrou de sua família por perto a qualquer custo. Ele colocaria todos para procurá-la... Por quanto tempo permaneceria escondida?
— Parece que não tenho escolha. – constatou.
— Ei, você não precisa fazer nada que não quiser. – Naruto mediu as palavras. – Não precisa suportar uma situação que não queira.
— Eu não sei... Hoje foi como um dejávu bizarro... – Ela disse.
— Eu não queria que se sentisse como daquela vez...
— Não, você não deveria se sentir responsável. Esse problema é entre meu pai e eu... – Hinata se virou para ficar de frente apara Naruto e, muito sem jeito, abraçá-lo pelo pescoço. – Está na hora de voltar e resolver...
Fugir ou se esconder não era mais uma opção, o único jeito de se livra de algumas de suas correntes era enfrentar o Hyuuga e exigir sua liberdade.
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