O Diário
30 Capitulo 30
Notas iniciais
30.
As luzes piscavam a cada trovão, o som do vento misturado a chuva era audível mesmo com a grande e ilustre janela de vidro estando fechada. Uma grande tempestade começara de repente e eu me achava com sorte por não haver uma queda de energia ainda, desejando mentalmente de que tivesse tempo suficiente para terminar de extrair os arquivos.
Assim que pronto, desliguei o computador apressada, saindo da sala antes mesmo de ver a tela, de fato, se apagar e me direcionei pelos corredores agora desertos e escuros da empresa, os relâmpagos me ajudavam a enxergar o caminho sem que eu esbarrasse em nenhuma das mesas.
Fui em direção ao elevador e cliquei o botão para o térreo e, enquanto descia os andares um pouco devagar de mais para meu atual estado de ansiedade, em uma tentativa de reafirmação, fixei meus olhos no pequeno pen-drive em minhas mãos, observando o objeto tão simples que se tornara tão valioso...
Essa era a peça que faltava... As provas de que tanto precisava para destruí-lo, a chave para minha liberdade, para a vingança de que tanto sacrifiquei para conseguir... Eu quase podia sentir o peso saindo dos meus ombros só de imaginar como tudo aconteceria quando levasse esses arquivos à delegacia, ou aos jornais, ou para onde mais eu decidisse.
Só precisava ter certeza de direciona-lo a alguém de confiança e, quando isso ocorresse, sabia que a verdade explodiria como uma bomba no rosto de cada um deles; eu sumiria para longe antes que suas mãos cheias de ódio tentassem me alcançar e seria como um fantasma inexistente e intocável... Indo para sempre, sem nunca olhar para trás...
O som do elevador abrindo suas portas me assustou um pouco, estava concentrada em meus pensamentos e não havia percebido que já havia chegado ao destino. Pensei em por meu pen-drive em minha mochila, mas me lembrei de que não era o lugar mais seguro, uma vez que qualquer descuido poderia me fazer “perde-lo”. Então decidi prende-lo em minha pulseira, junto aos vários pingentes que ajudariam a camufla-lo, seria bem mais difícil rouba-lo assim, já que eu nunca a tirava.
O salão de recepção da empresa estava completamente escuro e silencioso, passei cuidadosamente encontrando o caminho para a porta lateral de serviço que foi por onde entrei. Fazer copias das chaves do vigia noturno não foi uma tarefa difícil uma vez que Mizuki está sempre trancado em sua sala de vigilância, comendo, dormindo ou vendo TV, ao invés de fazer o seu trabalho. Ate meu pai já o pegou vagabundando uma vez, mas o manteve no trabalho por se tratar do filho de um antigo professor que estimava. Eu não entendi esse “ato de bondade” repentina do “grande Hiashi-sama”, mas não duvidava que esse tal professor soubesse de algo que meu pai quisesse segredo. E, na verdade, também não me importa tanto agora, pois foi graças a isso que entrar aqui escondida foi algo rápido, fácil e seguro, só precisava ser cuidadosa com as câmeras de segurança para não...
— Quem está ai?? – A luz da lanterna brilhou em meu rosto antes mesmo de ouvi-lo falando. – Hinata-sama?!
Me desfiz de qualquer tipo de pensamento anterior enquanto tentava disfarçar o susto que tive e proteger meus olhos da claridade para observa-lo se aproximar. De todos os dias de incompetência, justo hoje, Mizuki escolhera para agir como um guarda de verdade e patrulhar entre os corredores da empresa?! Esse é só o resultado da minha “sorte”, ou a falta dela...
— Pensei que havia saído mais cedo hoje. Por que voltou a essa hora? – Perguntou, baixando a luz para longe do meu rosto, evidentemente confuso com minha presença ali.
— Esqueci algo que meu pai precisava, não queria deixa-lo zangado, então voltei para pegar. – Menti deliberadamente.
— Entendo, mas é muito tarde para isso. Deveria deixar para amanhã ou pelo menos avisar a equipe de segurança.
Ele estava apenas se gabando, tentando parecer mais e melhor do que realmente é. Meu pai decidira por um sistema avançado de alarme e um seguro gordo e abrangente para caso de invasão, tornado qualquer outro tipo de “proteção” um tanto desnecessária. Então a “equipe de segurança” a que Mizuki se referia era apenas ele mesmo, um bastão elétrico que carregava preso ao cinto e que provavelmente nunca usaria, as câmeras espalhadas por todo lado e que ele poderia verificar a qualquer momento com seu celular e um cachorro que deveria auxilia-lo quando fosse patrulhar o estacionamento, mas o animal o odiava mais do que a qualquer invasor.
— Desculpe, mas foi só uma visita rápida. Eu já estava de saída inclusive.
— Não precisa se desculpar, mas não te vi pelas câmeras de seguranças, estava se esgueirando ou algo assim?! – O segurança sorriu brincalhão. – Andando por ai como um fantasma, você me assustou, sabia?!
— Foi você que me assustou aparecendo assim. Pensei que estivesse dormindo no seu turno como em outras vezes. – Disfarcei usando o mesmo tom de brincadeira, sabia que meu comentário o faria desistir do assunto.
— Não, eu não faço mais isso. – Ele respondeu encabulado. – Um sermão do Hiashi-sama é suficiente para mim.
— Sei como é. Também ouvirei um se não chegar em casa logo.
— Ah, claro. Venha!
Ele fez sinal para que eu o seguisse e percebi que abriria entrada principal para mim, o que descartaria minha saída furtiva. As câmeras da entrada de serviço são mais antigas e mal posicionadas o que tornaria mais difícil me identificar caso alguém as checasse, mas as do salão e o pátio da frente eram de ultima geração, qualquer pessoa, por mais leiga em tecnologia que fosse, conseguiria dar zoom em meu rosto numa imagem de alta definição com apenas um clique.
Eu teria que pensar melhor em minhas ações daqui para sempre, erros como esse não podem se repetir, seria perigoso ser descoberta antes da hora...
— A proposito... – O guarda abriu a porta de vidro da entrada principal, saindo junto comigo para o pátio. – Não vi o motorista de Hiashi-sama lá fora, ele virá para busca-la?
— Não, eu vim de taxi, então...
— Ora, taxi?! – Eu ouvi outra pessoa falando e, mesmo antes de perceber de onde vinha sua voz, já sentia meu coração batendo acelerado, forte e amedrontado. – Como Hiashi pode deixar a princesinha dele andar de taxi a essa hora e com esse tempo?!
— Oh, boa noite, senhor. – Mizuki o cumprimentou.
Então finalmente o vi, parado do lado de fora, com o paletó em mãos, sem gravata e com a camisa branca e o cabelo cumprido encharcados pela chuva da qual estava se protegendo. Estava ali como se esperasse por mim, com seu olhar criterioso e expressão enigmática, o ódio que só eu era capaz de perceber emanando de seu sorriso cínico.
Congelada pelo medo súbito de seu aparecimento tão repentino, o único pensamento que me surgiu foi a culpa pelo mau julgamento em minhas ações: se eu não tivesse subestimado a competência de Mizuki e conseguido sair por onde planejara desde o inicio, poderia ter evitado esse encontro desagradável;
Eu errei e agora estava frente a frente com ele mais uma vez...
— Boa noite. – Ele se aproximou nos cumprimentando com seu luxuoso sorriso.
— Desculpe, senhor, eu o tranquei do lado de fora?! – Mizuki perguntou receoso.
— Aparentemente, sim, mas a reunião acabou mesmo muito tarde, não tinha como você saber. – Percebi que estreitava os olhos para ler no crachá o nome do vigia. – Não se preocupe Mizuki-san.
— Eu não vi carros no estacionamento, imaginei que todos já tivessem saído.
— Sim, os que estacionaram aqui decidiram enfrentar a chuva, mas eu deixei meu carro um pouco mais longe, sai apenas para verificar o tempo e quando percebi a porta já estava trancada... – Notei seu olhar de relance em minha direção. – Então decidi esperar um pouco mais. Não quis arriscar me molhar...
— Claro, um terno desses não se deve molhar. – O vigia riu sem notar absolutamente nada do que estava acontecendo, o clima pesado que nos cercava.
— Molhar mais ainda, pelo menos. – Ele deu outro sorriso cínico esticando os braços para mostrar como a roupa já estava molhada por ter ficado do lado de fora, sem muita proteção contra a chuva.
— Desculpe novamente. – Mizuki se mostrava um belo bajulador.
— E quanto a você, Hinata? – Dirigiu a palavra a mim pela primeira vez com um olhar penetrante. – Quando perguntei por você hoje, me disseram que tinha saído cedo. Fazendo algum curso importante, não é? Estou surpreso em vê-la.
Era mentira! Eu tinha certeza de que ele me viu. Ou foi na hora que cheguei aqui, ou talvez antes de entrar no prédio, enquanto andava descuidada pelos corredores, ou mesmo me viu pela janela em algum momento... Ou o que fosse... Eu SEI que ele planejou me encontrar e por isso veio me esperar sem se importar nem mesmo como essa tempestade que caia.
— Está tudo bem, Hinata-sama?! – Mizuki perguntou. – A senhorita parece um pouco pálida...
— Deve ser o frio...
Aquele homem respondeu em meu lugar e então jogou seu paletó sobre os meus ombros, mantendo a mão sutilmente em minha nuca de maneira que duvidei que o bom segurança pudesse perceber.
Seu toque parecia transmitir para meu corpo algo mais além das náuseas que sentia ao lembrar de seus atos abusivos, um mal estar estranho que deixava minha cabeça pesada, coração acelerado, minhas mãos tremendo e uma fraqueza que não me deixava pensar direito.
Eu estava petrificada pelo medo... de algo que aconteceu no passado, de algo que poderia voltar a acontecer no futuro... que aconteceria agora se eu não fizesse nada.
— E parece que essa chuva pode piorar rápido... – Ele olhou distraidamente para o céu chuvoso e escuro da noite. – Já sei! Hinata, que tal se eu te der uma carona ate em casa?! Eu tenho mesmo que conversar com seu pai sobre algumas decisões que tomamos hoje.
— E-eu... O taxi... – Gaguejei de nervosismo e me obriguei a desviar o olhar. Não conseguia manter pensamentos correntes para responder, não encarando aquele seu olhar. – Quer dizer... Eu já chamei o taxi.
— Besteira, se eu estou indo para o mesmo lugar que você, além disso não é seguro para uma moça sair por ai sozinha. – Ele falou de forma leviana e depois o percebi encarando o vigia. – Não acha, Mizuki-san?
— Ah, a chuva não vai passar tão cedo, esperar o taxi pode ser ruim também. Acho que a senhoria deveria aproveitar a gentileza...
— Exatamente. Então o que me diz, Hinata?!
— Eu... não... – Tentei dizer, mas minha voz não parecia sair.
Então senti sua mão, que ainda pousava em minha nuca, apertando meu pescoço gradativamente. Não o suficiente para sentir dor, mas o bastante para eu entender o que ele queria que eu dissesse. Minha voz desapareceu completamente e não pude responder ou contraria-lo, mesmo olha-lo já era difícil. Eu estava inerte em uma sensação horrível de impotência, medo e fragilidade.
— Melhor irmos logo, certo?
Fraquejei...
Acenei com a cabeça aceitando e me senti algo deplorável em mim... Fraca, inútil, derrotada, uma marionete que estava eternamente a mercê de suas vontades... E... Eu não conseguia mudar isso, nunca... nunca... Sempre era o mesmo sentimento... sempre o mesmo desespero... o mesmo resultado...
E uma dor que fazia minha alma sangrar...
— Aqui, Mizuki-san. – O senti me soltando enquanto falava. Também percebi que procurava algo em sua carteira. – Esse dinheiro é para o taxi que Hinata chamou. Quando ele chegar, agradeça ao homem e pague pelo transtorno de ter vindo aqui atoa nessa chuva. O que sobrar é seu, obviamente.
Olhei o dinheiro que o segurança contava e percebi como seus olhos brilhavam ao se dar conta da enorme valor que recebeu, havia muito ali para uma simples “compensação” ao taxista ou mesmo a ele. Claro, aquilo sobre o taxi era uma mentira minha para tentar escapar e ninguém apareceria para “receber a sua parte” e duvido que Mizuki estranhe... Fascinado do jeito que parecia, fingiria não ter visto nem ouvido nada, agradeceria por poder ficar com o dinheiro apenas para si.
Como um culto e prestigiado empresário podia ser tão maligno?! Como podia ter esse dom de ser dissimulado?!Como conseguia ganhar a confiança de qualquer um de maneira tão rápida e pratica?! Como ninguém notava o que ele era de verdade?!
Parecia uma espécie de jogo para ele: Colecionar idiotas que pensam nele como uma boa e generosa pessoa tentando mudar o mundo com seu dinheiro e conhecimento. Também já fiz parte disso, admirando-o pela carapaça que ele lustrava e enfeitava para passar sua boa imagem... Sendo “admirável” comigo, ate eu baixar a guarda e deixa-lo se aproximar o bastante para me mostrar quem realmente era.
— Boa noite. – Ele se despediu do segurança e, embora ele tentasse disfarçar, notei seu sorriso vitorioso.
O senti segurar meu braço me puxando sutilmente para que o acompanhasse, eu não queria ir e tentei evita-lo num primeiro momento, mas bastou apenas um aperto moderadamente mais forte dele para que eu perdesse o resto de minha própria força de vontade...
Deixando meu olhar permanentemente baixo, me pus pensativa a essa realidade, percebendo o quão estupida eu era por acreditar que poderia fazer algo contra ele... Eu não era forte o bastante... Nunca seria...
***
As palavras de Naruto funcionaram como um gatilho que ativou algo na cabeça de Hinata, pois assim que o ouviu falar do escritório de sua mãe e pensou sobre aquilo, sua mente fez ligações entre fatos que ela pouco se lembrava. Saiu da sala de arquivos quase que automaticamente, sem paciência para esperar o elevador, indo para as escadas, subindo o mais rápido que podia em meio a iluminação quase nula.
Ela chegou a ala executiva e passou entre as mesas, conseguindo andar livremente, sem esbarrar em nada, pois pela primeira vez sentia que conhecia aquele lugar perfeitamente. Então parou enfrente aquela porta, o loiro a seguia bem mais atrás com a lanterna.
— Ei, você podia ter me esperado... – O rapaz falou assim que a alcançou.
— Era aqui, não era?!
— Era, mas...
Ela não permitiu que ele terminasse de falar, respirando fundo para criar coragem antes de destrancar a porta com o molho de chaves que tinha em mãos, girou a maçaneta, a empurrou, sentindo a madeira se mover para abrir a passagem para o breu da sala. A garota caminhou poucos passos para dentro do cômodo, com os olhos seguindo o movimento da luz da lanterna do rapaz que varria todo o local.
Hinata percebeu... Tudo estava tão diferente que ela não conseguia detectar quaisquer vestígios do que ela se lembrava. Uma mesa grande com varias cadeiras acolchoadas e caras em volta transformavam o escritório que antes pertencia a sua mãe em uma vasta sala de reuniões.
— Eu tentei te avisar. – Naruto falou. – Seu pai manteve essa sala intacta por bastante tempo, mas ai, num dia qualquer, ele simplesmente mandou alguém se livrar de tudo. Isso foi mais ou menos na época que vocês começaram a brigar mais feio e eu nem preciso dizer que você ficou furiosa por ele ter tomado essa decisão sem falar nada, nem para você ou para o Neji...
— Ele simplesmente fez... Sem se importar com o que os outros sentiam...
— Foi por isso que eu demorei para pensar nesse lugar, essa sala não é mais a “sala da sua mãe” a muito tempo.
— Então ele jogou tudo que tinha aqui fora?!
— Não, você bateu pé naquele dia. Perdeu a sala, mas conseguiu convence-lo a manter as coisas dela. Você levou o que era mais pessoal para casa e o resto foi guardado aqui no deposito da empresa.
— Aqui?
— É... – Naruto sorriu. – Vem, vou te mostrar onde fica e você pode dar uma olhada.
Desceram ate o térreo e encontraram um pequeno corredor que levava a uma escada em decida para o que parecia ser um porão. Lá haviam diversas coisas descartadas como mesas e computadores antigos, restos de cartazes não utilizados e caixas de papelão com livros, manuais e apostilas desatualizadas.
Enquanto caminhavam no apertado espaço de havia entre o que estava espalhado pelo pequeno quarto, o loiro comentou que, de tempos em tempo, Hiashi mandava alguém especializado vir levar algumas coisas para reciclagem, mas exigia que os objetos de escritório de sua esposa nunca fossem mexidos.
Então chegaram ao que era aquele amontoado de caixas e pastas em cima de uma mesa de madeira e alguns armários em volta, aquilo que o rapaz definiu ser “o que Hinata não pode levar para casa”.
Com a ajuda da lanterna do loiro, a Hyuuga começou a verificar o que eram aqueles papeis guardados, sem qualquer garantia de terem algo haver com o que procurava, e naquele ambiente escuro, abafado e empoeirado, os dois perderam a noção do tempo.
Enquanto mirava a luz nos documentos por cima dos ombros de Hinata, Naruto percebia que, pela forma com que ela estivera curvada por sobre a mesa, seu cabelo acabava caindo sobre as folhas, atrapalhando a leitura. A imagem dela tentando ajeita-lo provisoriamente, pondo-o atrás de orelha, mesmo estando tão concentrada no que estava lendo, era uma bela e divertida visão para ele que admirava ate seus mínimos gestos.
A busca durou mais umas dezenas de minutos, com o silencio predominando entre eles, o loiro ainda apreciava as expressões da garota, achando incrível como ela parecia naturalmente calma e centrada. Quer dizer, depois de tudo que sofrera e do que ele próprio fez com ela, imaginar que Hinata se permitiu chama-lo para ajuda-la, deixando de lado o orgulho, só mostrava como aquilo era importante e como ela era forte para resistir a tais situações tão serenamente.
Só podia imaginar o quão difícil foi para a garota ligar para ele e pedir para se encontrarem depois de ter dito que não poderia perdoa-lo. Um ato que, antigamente, seu ego ferido não a permitira fazer, Hinata estava diferente, porem, inegavelmente, mais forte do que ele jamais vira antes.
— Talvez esses...? – Ela murmurou.
— Esses o que? – Ele olhou para a pasta que tinha em mãos por um segundo.
— Os outros documentos eram notas de serviços de cortesia que ela prestou independente da empresa, coisas simples que fazia para amigos e familiares, sem cobrar ou cobrando por fora do valor de mercado. – Hinata respondeu. – Mas essa pasta estava escondida entre as outras, contém dados financeiros que podem me ajudar.
Ela juntou o cabelo com as mãos, jogando-o todo por um dos ombros para que não se distraísse como antes e Naruto lhe deu um sorriso sem graça, pois não poderia mais apreciar aquela “pequena guerra” entre a garota e o efeito da gravidade em seus cabelos. Hinata voltou a folhar os papeis agora mais atentamente, então ele se pôs a observar aquilo que iluminava para se distrair enquanto tentava entender ou imaginar quais seriam os papeis que ela procurava com tanto afinco.
E foi essa sua única oportunidade de poder ter uma visão completa da garota e da cicatriz que havia em sua nuca agora exposta. Ele viu aquela marca que se destacava na pele clara, um corte antigo que o assustou e derrubou seu animo, como um soco no estômago que o deixou inerte em pensamentos.
Seus ombros caíram pesados e seu braço, instantaneamente, baixou sem forças, fazendo a lanterna em sua mão iluminar um local vazio aleatório. Sentiu novamente a impotência de nunca ter estado por perto para impedir o sofrimento da garota, enquanto se lembrava do que Kakashi lhe dissera no elevador, no dia em que descobriu a verdade:
“É algo que aconteceu e fim... Nada que você fizer vai mudar isso”.
Vendo-a agora e lembrando-se dessas palavras, Naruto desejou conhecer mais de Hinata e cada uma de suas cicatrizes, ver por si mesmo o estrago que um ser tão maligno pode lhe causar, tocar essas marcas, senti-las entre seus dedos, saber os detalhes de como as conseguiu... Queria ter o poder de cura-la, de corpo e alma...
— Naruto-kun, a luz... – Hinata reclamou pela falta de foco na iluminação.
— Foi mal. – Ele disfarçou levando o olhar para longe, enquanto oferecia a lanterna para ela. – Aqui...
Hinata o encarou agora, percebeu que algo estava errado na atitude do loiro. Toda a claridade da sala vinha da lanterna, o que dificultava a visão e identificação da expressão de seus rostos, apenas alguém com uma boa percepção poderia notar o quão complexos eram os sentimentos que Naruto demonstrava. De alguma forma, a garota conseguiu ver o misto de raiva, culpa e tristeza estampado em sua face, que não estivera ali antes. Algo mudou nesses poucos minutos, mas não entendia exatamente o que.
— Está tudo bem?
— E-eu estou! – Ele respondeu forçando um pigarro. – Só me distrai um pouco.
— Entendi... – Disse simples. – A gente já está aqui a algum tempo, não é?!
— É, algum. – Naruto respondeu sem conseguir encara-la diretamente ainda.
— Você já ajudou o bastante me trazendo ate aqui, sabia. Eu agradeço...
— Não precisa agradecer.
— Preciso sim, você não tinha qualquer obrigação de me atender, nem de aceitar vir... – Hinata falara em um tom neutro, mas Naruto teve apreço por suas palavras. Era reconfortante, de algum modo.
— Eu é que deveria... agradecer.
— Pelo que?! Por te deixar entediado? Acho que só estou abusando da sua culpa. Você não me deve mais nada, Naruto-kun.
— Que?
— Eu só... – Hinata bufou desistindo do que iria dizer e completou simples. – Pode ir embora se quiser, ok?
Naruto reagiu as palavras da Hyuuga de imediato, odiando o tom usado. Era como se o “ir embora” que Hinata disse fosse algo imposto, não se referindo apenas a aquele momento, mas ao resto de suas vidas. Um ultimato de “Ir” ou “Ficar”, a escolha definitiva que não haveria como voltar atrás.
Claro que para ela, provavelmente, era apenas uma frase comum, mas para Naruto, essa interpretação exclusiva o forçou, em pouco segundo, a encarar uma das decisões mais importante de sua vida e, estranhamente, não ficara nervoso ou confuso, não teve quaisquer duvidas quanto a resposta que daria a garota e as palavras que usaria para convencê-la do contrario.
— Não quero ir. – Ele falou firmemente. – Eu não estou fazendo isso por culpa, Hinata. Quer dizer, sim, eu me sinto culpado, me sinto arrependido, mas não é isso que me move... Não é por isso que eu quero te ajudar...
— O motivo não importa, Naruto-kun, só não quero tomar mais do seu tempo. Estou tentando tornar as coisas mais fáceis.
— E eu só quero te fazer companhia pelo tempo que for... – Ele retrucou. – Mesmo que seja pouco, mesmo que seja difícil...
— Está sendo egoísta...
— Talvez, mas tenho certeza de que você entende como me sinto...
Hinata consentiu com um gesto simples com a cabeça e voltou aos documentos assim como o rapaz a ilumina-los, nenhum dos dois parecia querer estender a discussão.
Porem, ele acabou trocando de lugar, sentando-se na mesa ao lado para evitar a tentação de olhar novamente para a marca em sua nuca que a morena não percebeu que ficara visível. Sabia que não conseguiria se concentrar se a visse de novo, iria acabar perdendo a cabeça e comentando do assunto, mas isso não era algo a ser falado desse jeito em um lugar estranho e empoeirado. Se ele queria abordar esse segredo, faria do jeito certo, em um ambiente mais acolhedor e intimo para ambos.
— É isso. – A ouviu murmurar.
— O que? – Ele se aproximou para ler o papel que ela tinha em mãos. – O que é?!
— É uma nota promissória assinada pelo meu pai dando direito a minha mãe de mexer na herança de Hanabi e minha. – Hinata respondeu. – É só uma copia e, provavelmente, a assinatura do meu pai é falsa, ou ela o fez assinar sem saber, mas isso prova o que eu estive me lembrando...
— Eu não estou entendendo direito, todo mundo sabe que sua família é rica e tem tramete de herança e tal... O que tem demais nessa nota?!
— Nos últimos dias, estive me perguntando por que, de uma hora para outra, Hiashi se tornou um pai tão preocupado... Aqui está a resposta. – Ela ergueu a folha para ele. – Eu herdei uma parte das ações da empresa muito maior do que caberia a mim e se eu conseguisse algum apoio no concelho, por menor que fosse, eu poderia tentar assumir o controle.
— Espera, então foi por isso que...
— O motivo de ele te contratar, o real motivo dele querer “zelar por mim”... Na verdade, só estava preocupado com as ações da sua amada empresa.
Naruto entendia agora, indo além da analise e palavras de Hinata e desvendando as razões para algo bem mais obscuro e, com a raiva pela suspeita brotando, percebeu que, pelo motivo mais leviano, alguém simplesmente decidiu usa-la como degrau, planejando mais contra os Hyuugas. Ao herdar tanto poder sua garota foi posta em um campo de batalha judicial e se tornara alvo de um maníaco sedento pelo patrimônio de uma das famílias mais estimadas da cidade. O agressor de Hinata queria domina-la para, assim, dominar o império Hyuuga.
— No que sua mãe estava pensando?! Isso foi muito irresponsável! Quer dizer, você só tinha, o que, 14 anos?! Pra que fazer uma manobra dessas e te colocar ne meio de algo tão perigoso?!
— Não tenho certeza, mas eu preciso dar uma olhada no testamento dela e ver como isso tudo funcionou na prática.
— É, vamos.
— Não deve estar aqui. – Hinata disse, incomodada com o comprometimento que o rapaz demonstrava.
— Então onde?
— Talvez esteja em casa com meu pai ou com o advogado da família... De qualquer forma, não vou fazer mais nada hoje. Tivemos sorte ate agora, melhor ir.
Naruto suspirou, assentindo silenciosamente, sabendo que a hora de se despedirem chegou e, mesmo ela estando certa em querer ir antes de serem descobertos, ainda queria algum tempo a mais juntos, pois não sabia quando poderiam se ver novamente.
Desanimado, ajudou a juntar os papeis espalhados na busca e, então, voltaram de onde vieram, passando rápida e sorrateiramente pela recepção para deixar a lanterna onde sabiam que seria encontrada por algum funcionário e devolvida ao seu dono, depois tomaram caminho para a saída lateral por onde entraram.
Quando saíram, o loiro se sentiu aliviado por tudo ter ocorrido bem e não terem sido pegos, admitindo que tiveram mesmo sorte acima de tudo. Enquanto se distanciavam do prédio, olhou para a morena ao seu lado e viu que talvez ela se sentira da mesma forma que ele.
— Então, o que você vai fazer agora? – Naruto perguntou.
— Preciso refletir um pouco. Saber como juntar tudo que descobri.
— E pra onde você vai?
— Para casa, eu acho. Tenho que voltar a encarar meu pai e fingir que não sei de nada... – Ela bufou de desanimo. – Estou cansada disso...
Percebeu que ela não queria voltar para casa, mas, na verdade, desde que a conheceu, Hinata nunca pareceu entusiasmada a encontrar o pai. Primeiro, por ser cercada por aquele clima de cobrança e desapontamento, depois, pelas as brigas entre eles se intensificarem e esses sentimentos se tornaram constantes. Naquela época, distrai-la levando-a a lugares que pudesse de divertir e esquecer os problemas se tornou uma de suas principais missões, bastava Hiashi saber onde ela estava para não incomoda-los.
Pensando dessa forma, o que disse a seguir foi automático, sua proposta saiu de maneira espontânea:
— Mas antes, talvez a gente possa ir comer alguma coisa...
Hinata parou de andar ao ouvi-lo o que fez o rapaz parar também, finalmente se dando conta do que havia dito. Ele sorriu de forma nervosa e logo desviou o olhar para longe de forma envergonhada, tentou disfarçar coçando a nuca.
— Quer dizer... – Ele decidiu prosseguir, vendo que, agora que começou, não poderia ficar pior. – Deve haver alguma lanchonete ou pizzaria aberta por perto, certo?!
Hinata não respondeu imediatamente, ficando estranhamente calada, o que obrigou o rapaz a voltar a observa-la encontrando uma expressão pensativa e desvaída de qualquer sentimento. Ela não parecia feliz com a ideia dele.
— Desculpe, eu não posso. – Respondeu secamente.
— Ah, tá... Tudo bem...
— Você me prometeu que não faria isso.
— “Isso”... – Repetiu, reconhecendo como agiu de forma estupida através da ênfase que ela dera na ultima palavra.
— Sabe, confundir, entender errado...
— É, eu sei. Desculpa. – Ele pediu arrependeu por sua atitude, viu que coloca-la nessa situação incomoda não ajudaria, só a deixaria mais desconfortável na presença dele.
— Vamos apenas cada um para o seu lado, está bem?!
Naruto assentiu com a cabeça, ficando parado enquanto a via dar um mínimo aceno e virar as costas, indo embora. Por alguma razão, aquele gesto o fez lembrar do dia em que ela foi estudar em sua casa, como tudo aconteceu e a forma semelhante com que se despediu.
O tipo de ansiedade que surgiu em seu peito naquela vez se manifestava agora como se refletida em um espelho, criando opostos assustadores. Uma voz antes provocada por um coração apaixonado, agora silenciada pelo medo do afastamento. O sentimento de perda que o engolia e causava dor, tirava suas esperanças, afogava seus sonhos e qualquer outro desejo que um dia o amor despertara. Era contrario do que sentira daquela vez, agora era um reflexo negativo de um dos momentos mais feliz de sua vida... O sentimento sombrio de “estar sem ela”.
— Hinata! – Ele finalmente conseguiu chama-la.
A garota se virou e, num instante, ele esperou ver aquele lindo sorriso, como na vez que se descobriu apaixonado, mas logo percebeu que esse gesto já não existia mais em seu rosto.
Ele a entendia agora... Sem orgulho, ou raiva, sem ódio, tristeza, alegria, desejos... Sentimentos apagados por todo mal que sofreu... Entendeu finalmente que todas as suas expressões foram tomadas por uma onda de obscuridade. Estavam foscos e camuflados por uma mascara neutra, disfarçada de força e serenidade, aquilo que encobria a pior das verdades: Hinata sofria de uma forma inimaginável por oculta-los dessa maneira.
Naruto acabou se calando e baixando o olhar, novamente apertando entre seus dedos os objetos metálicos que tinha escondido no bolso do casaco, indagando o que fazer.
— O que foi? – Ela perguntou, estranhando o súbito silencio após ser chamada.
— Bem, eu... – Naruto ergueu o olhar, mas evitou um contato direto. – Você vai de taxi, né?! A gente podia ir junto e dividir a corrida...
— Naruto-kun, por favor...
— É que você esqueceu umas coisas lá em casa da ultima vez também. Pensei que você poderia querer de volta.
— Eu não estou sentindo falta de nada. Seja o que for, pode jogar fora.
— Não, quer dizer... Eu sei o quanto você é apegada as coisas da sua mãe, então eu sei você vai querer de volta. Foi algo importante para você.
— Como assim algo da minha mãe?! O que é?
— Você pode não lembrar, então talvez precise ver por si mesma. Vamos lá e...
— Não, eu... Não acho uma boa ideia, para nós dois.
— Hinata, confia em mim só mais essa vez. – Ele pediu novamente. – Por favor...
***
A viagem para casa de Naruto foi bem rápida, Hinata se sentara no banco de trás bem próxima a janela da porta, mantendo o olhar perdido para fora, assim como o rapaz ficara mais distante do outro lado olhando para as próprias mãos que descansavam sobre seu joelho. Deixando por si só, um enorme espaço vazio que os separava, um lugar que o loiro gostava de pensar ser ocupado pelo “clima tenso” entre eles.
O taxista, um homem velho que se achava um comediante, parecia não se adequar ao silencio que havia se instalado e, sempre que podia, teimava em tentar puxar conversa com Naruto ou contar alguma de suas velhas piadas para fazer Hinata rir, mas pouco resultado surgiu disso, o rapaz respondia minimamente por educação e a garota simplesmente o ignorava. Por fim, ao chegar ao destino, pouco antes de estacionar, ele fez uma ultima brincadeira afirmando que o casal era uma plateia difícil e que o mau-humor deles piorou sua dor nas costas.
A Hyuuga saiu do carro ao mesmo tempo em que Naruto e o rapaz notou como ela olhava em volta de forma analítica, soube quase que imediatamente que ela deveria estar se lembrando do lugar, como já veio a sua casa tantas vezes para estudar ou simplesmente para encontra-lo, isso não seria surpresa.
— Você quer subir?! – Perguntou receoso.
— Não, só sai porque preciso de ar. – Respondeu seria.
— Ah, tá. Eu não vou demorar...
— Só vai levar um minuto. – Ela se inclinou para falar ao motorista pelo vidro aberto.
— O taxímetro tá rodando. – Ele avisou.
Hinata consentiu e seguiu Naruto ate as escadas que levava a sua casa de sobrado, porem parou por ali mesmo, se encostando-se à parede, sem demostrar intenção de ir além.
— Vou esperar aqui. – Ela disse. – Poderia não demorar?! Eu não tenho muito dinheiro sobrando aqui comigo.
— Isso é estranho vindo da garota que se descobriu super rica hoje... – Ele tentou sorrir para mostrar que a ironia era uma brincadeira, mas bufou desanimado por não ver resposta dela. – É, o cara tá certo, nosso humor está horrível mesmo... Eu já volto.
Naruto subiu as escadas devagar e abriu a porta de casa sem animo, acendeu a luz e observou a sala e sua iluminação, se sentou no braço do sofá, sem saber como prosseguir. Seu pequeno plano de recuperar a confiança de Hinata falhara miseravelmente.
No começo, achou que estava indo bem, pelo menos ate ver aquela maldita cicatriz em seu pescoço e perceber que ela não lhe dará qualquer chance real de se aproximar, pois estar juntos em um mesmo lugar não era igual a estarem próximos sentimentalmente um do outro. A sensação de distancia entre eles só parecia aumentar e Naruto não sabia como acabar com isso, além de que, logo, quando entregasse aquilo que deveria, não teriam nem mesmo qualquer outro motivo para se verem mais...
“Cada um para o seu lado”, essa ideia o atormentava...
— Estava mentindo?
Ele a ouviu e seu rosto se direcionou automaticamente para a porta que esquecera de fechar. A Hyuuga estava parada do lado de fora, com os braços cruzados, observando. Conseguiu flagrar um rápido olhar dela ao redor, verificando a casa dona de boas e más lembranças que ela poderia estar tento.
Pela surpresa, Naruto não pode falar nada, então coube a ela prosseguir:
— Eu fiquei curiosa e dispensei o taxi, mas parece que me trouxe aqui sem motivo... Não tem nada para mim, certo?!
— Não, eu... tenho... – Naruto se levantou colocando a mão no bolso do casaco enquanto falava. – Eu só não sabia como abordar o assunto, te explicar as coisas que sei... Pensei que se tivéssemos essa conversa aqui, onde tudo “aconteceu”, as coisas se tornariam mais fáceis, mas eu estava errado. Isso não é fácil de jeito nenhum.
— Conversa? Pensei que tinha dito que me entregaria algo da minha mãe.
— Também... – Agora ele finalmente retirou do bolso aquilo que vinha escondendo a tanto tempo. – Só tive que criar coragem, porque... é complicado...
Hinata arregalou os olhos reconhecendo o objeto nas mãos de Naruto, cada parte dele, cada pequeno nó de corrente e pingente disposto por toda sua extensão ornamentada em ouro. Aquilo que era lotado dos marcos que sua mãe fazia para comemorar grandes acontecimentos, aquilo que ela lhe dera antes de partir... A lembrança que sua mãe deixara e que revirou seu quarto por inteiro procurando... A pulseira estava com Naruto o tempo todo, assim como já estivera a muito tempo atrás, durante uma estupida peça de teatro...
— Você...
Com a voz chorosa, porem sem derramar lagrima alguma, Hinata se aproximou o bastante para esticar as mãos por sobre as do loiro, tocando os pingentes levemente com as pontas dos dedos, porem sem pega-la, de fato.
A joia que fora presenteada, que nunca retirava e ainda usava como suporte para esconder seus singelos segredos... seja a chave de um cofre, uma senha, um pen-drive, ou o que pudesse pendurar ali...
— Você roubou! – Tornando-se visivelmente furiosa. – Você me usou!
— Calma, Hinata...
— Naquela porcaria de noite, depois de dormir comigo! – Ela gritou.
— Não aconteceu assim.
— Tirou do meu pulso quando peguei no sono!
— Não!
O rapaz estava calmo apesar dos gritos e insultos que recebia e tantos mais que poderia receber, de uma forma torta, estava feliz por vê-la se livrar da “mascara de calmaria” e finalmente demonstrar seus sentimentos suprimidos. Claro, se pudesse escolher, preferiria não vê-la com raiva, mas, no fundo, o que queria era provocar esse pequeno estouro emocional. Por fim, se segurava para não sorrir, sabendo que o gesto seria mal interpretado.
A garota arfou de cansaço ou raiva, se afastou e procurou, entre os pingentes, os arquivos que seu pai pediu para Naruto pegar a qualquer custo. Foi mais difícil com o olhar cheio d’agua, mas logo o pen-drive estava em suas mãos.
— E era por isso, não é?!
— Naquela noite, você chegou aqui toda machucada e suja, eu pensei que a Akatsuki tinha feito alguma coisa... Você me fez acreditar que era isso, lembra?! Você dever ter retirado do pulso quando foi tomar banho e...
— Eu nunca tiro minha pulseira!
— É um pen-drive, Hinata, se molhasse já era! Você tirou, sim! – Naruto falou, estava exaltado também, se igualando a altura do tom dela, mas sem raiva evidente. Falava firme e sério, mas sem perder o controle. – Nós dormimos juntos, você me descobriu conversando com seu pai e ficou furiosa... Brigou comigo, fugiu, foi atropelada e quase morreu...
A garota baixou o olhar e Naruto soube que ela estava um pouco mais calma, pensando sobre os fatos, ligando os pontos e vendo o sentindo das coisas. Ele sabia que não teria com que se preocupar, Hinata era sensata e acreditaria nele com certeza.
— Eu fiquei no Hospital uns 2 dias, esperando noticias suas, mas chegou uma hora que meu padrinho me obrigou a vir pra casa... Eu vim, mas só pensava em voltar para te ver, imaginando se alguma coisa te aconteceu enquanto eu estava longe, perdendo tempo... E ai eu vi essa porcaria na pia do banheiro...
— Não é uma porcaria.
— Desculpa, a pulseira da sua mãe não é uma porcaria, não, mas esse pen-drive... – Naruto deu uma leve risada irônica. – E, só pra constar, caso você ainda duvide, também não o entreguei a ninguém, não copiei nem nada assim... Ficou jogado na minha gaveta esse tempo todo...
— Você viu?! Viu o que tem dentro?
— Não, Hinata, nem tentei...
Hinata suspirou tentando se controlar e pensando, analisando a própria conduta e o modo como agiu. Se negando a entender os sentimentos que lhe forçaram tal reação, vista agora, exagerada. Se sentia mal com um aperto estranho no coração.
— Eu não deveria ter me exaltado assim... – Desviou o olhar por um segundo e depois voltou a encara-lo. – Então eu não sei se...
— Não precisa dizer nada... – Naruto a interrompeu. – Você teve seus motivos para agir assim... Sei disso...
Naruto não sabia se das palavras dela sairiam um pedido de desculpas ou não, mas não queria ouvi-la se justificar, pois sabia o porquê do pensamento dele “tê-la usado” a deixar tão atormentada e não poderia aceitar a mentira que ela usaria para camuflar o motivo real que sempre escondia.
— Só posso imaginar como foi difícil... – Ele se apressou em falar antes que ela tomasse qualquer iniciativa. – Dormir comigo naquela noite teve um significado especial para você e eu estraguei tudo.
— Que?! Não... E-eu não quero falar sobre isso.
— Mas nós precisamos.
— Você prometeu hoje que não confundiria as coisas.
Hinata usou um tom serio, batendo os calcanhares em direção a saída, mas Naruto se adiantou, aproximou-se e pegou a sua mão, entrelaçando seus dedos aos dela com a pulseira sendo coberta pelas palmas unidas.
— Também prometi naquela noite que cuidaria de você... – Ele dizia de forma simples. – Nós dois não estávamos nos falando direito naquela época e, mesmo assim, você veio me procurar. Bateu na minha porta, chorando e sem querer contar o que houve, eu vi que...
— Apenas não queria ficar sozinha. Foi carência, fraqueza, ou chame do que quiser.
— Não, significou mais do que isso, eu sei.
— Sexo casual não precisa de significado! – Ela respondeu.
— Casual?!
— Aconteceu depois de rolar um clima numa noite de chuva... Acho que não tem outro nome...
— Amor... Fizemos amor.
— Eu não sei o que essa palavra significa. – Ela se desatou do aperto de mão. – E, francamente, acho que você também não sabe.
Nenhuma das palavras da garota o ofendeu ou irritou, esse estado de negação em que Hinata se encontrava, Naruto conhecia muito bem. Eram os muros criados que por meses teve que tentar quebrar para conquista-la, a blindagem que a fazia querer se afastar de qualquer um que tentasse se aproximar de mais de seu frágil e machucado coração... As defesas que apenas ele seria capaz de desfazer.
Achava que talvez ela estivesse certa sobre o que disse, eles eram jovens e poderiam não entender completamente o que a palavra “amor” significa, mas Naruto tinha certeza de que, se fosse assim, então, poderiam descobrir e aprender juntos.
— Hinata... Sei o que fazer amor significou para você naquela noite. – Naruto afirmou.
— Não, não sabe... – Ela suspirou cansada.
— Você queria ter a sensação da escolha e se entregar por um sentimento além do desejo bruto. Queria sentir um coração batendo contra o seu na mesma intensidade e movido pela mesma paixão e não pelo medo, ou o ódio provocado por alguém. Queria ser beijada por lábios que falassem mais do que insultos e que sua pele fosse tocada por mãos além daquelas que a marcaram com cicatrizes... Foi isso que tudo significou...
— O que...
— Hinata... Eu sei...
Essa ultima afirmação não se referia mais ao significado do amor, nem mesmo sobre os sentimentos que ele, uma vez, já dissera ser especialista. Naruto sabia, assim como a garota, que o seu tom de voz transformava aquela frase de modo que atingisse seu maior segredo. As poucas palavras que só Hinata interpretaria de forma correta.
— Como assim?! – Ela negou a si mesma de entender, desejando acima de tudo que fosse um mal entendido. – Sabe... O que?!
— Eu descobri...
— D-descobr...
Viu a garota ficando pálida conforme o entendimento era visível em seu olhar. Suas mãos tremiam quando se afastou , visivelmente desnorteada, Hinata simplesmente começou a andar em direção a saída. Naruto não queria faze-la se sentir obrigada a ficar, mas também não estava em seus planos deixa-la sair tão alterada de sua casa, então apenas acompanhou seu passo, sem impedi-la ou segura-la, apenas tentando dialogar:
— Hinata?! Tá indo aonde?
— E-eu vou embora... eu... tenho que ir...
— Se acalma um pouco, você parece...
— Estou bem! Só tenho que ir embora!
— Fala comigo, por favor.
— Não...
— Você pode dizer o que quiser e negar qualquer coisa, mas eu sei que você escolheu passar aquela noite comigo porque realmente me amava... – Naruto tocou-a no ombro e a garota parou, escorando-se no batente da porta, porem não ousou encara-lo. – Aquele ódio que demostrou por mim, aquilo que me disse e o quanto te machuquei com as minhas palavras... Finalmente sou capaz de te entender e quero...
Escondendo o rosto contra as mãos apoiadas a parede, Hinata parecia tão fraca e perdida que o loiro duvidou que tivesse mesmo algum lugar em mente para ir, talvez apenas quisesse andar sozinha por ai, sem destino, para fugir dos fantasmas que deveriam estar atormentando-a.
— Me entende?! – Ela afastou a mão dele com um tapa bem forte, e apesar de encara-lo feroz, era perceptível o esforço que fazia para não chorar. – O que você acha que “entende”?!
— Eu quero...
— Claro, você entende... Afinal já sentiu tanto ódio de alguém que ate a mínima chance de estar na mesma sala que ele te causar náuseas e mesmo assim ser obrigado a conviver com ele, falar com ele, sorrir para ele dia após dia, fingindo normalidade, não é mesmo?! E o medo a cada segundo enquanto tenta ficar fora da vista dele e evitar ficar sozinho para negar as oportunidades que ele aguarda pacientemente para conseguir se aproximar, num jogo sádico de tortura psicológica. Sabe como é ficar lembrando desses momentos tão horríveis e sentir uma culpa te consumindo por pensamentos torturantes de: “porque não lutei mais?! Não gritei mais? Ou por que não resisti a fraqueza desse medo que ele provocava?!” E dominado pela impotência de ser tão fraco a ponto de, praticamente, se entregar ao desespero... Fica remoendo isso, de novo e de novo, imaginando como deveria ter feito e se arrependendo de cada escolha errada... O nojo que se sente em cada parte do próprio corpo que ele ousou tocar e machucar e não importa o quanto se lave ou o quão rápido se cure, ainda vê as marcas quando fica diante de seu reflexo no espelho e só consegue sentir vergonha... – Nesse ponto, a garota já estava com o rosto coberto das lagrimas que não pode conter, mas ainda assim sua voz permaneceu num tom firme e decididamente controlado ate o fim.
Como se fossem nós presos na garganta de Hinata, aquilo acabara sendo um desabafo que Naruto não esperava, todas aquelas verdade que a garota praticamente cuspiu em seu rosto para rebater suas palavras de conforto que agora lhe pareciam tão superficiais... Tudo que o rapaz queria era abraça-la e tentar de alguma maneira milagrosa aliviar a dor que sua garota deveria estar sentindo, mas, depois de tanto pensar nesses curtos segundos, apenas percebeu que não existiam palavras que fizessem jus ao que ela passou.
— Você realmente me entende, Naruto-kun?!
— Não... – Respondeu.
— Não, não entende nem sabe nada sobre mim...
— Sei que já fiz muita besteira, que errei com você toda vez e só te magoei mais e mais... E cada escolha minha, mesmo a menor palavra, te fez e ainda te faz chorar.
— Então me deixa em paz, por favor...
— Não posso... Não conseguiria simplesmente ignorar as coisas agora... Você disse antes que eu estava sendo egoísta por querer ficar por perto, bem, agora eu digo que você está sendo egoísta me afastando... Porque eu sei que você está sofrendo e eu não suporto te ver assim...
Naruto colocou ambas as mãos sobre os ombros da garota, mas ela se retraiu cruzando os braços a frente do corpo e recuou um passo enquanto desviava o olhar, ele acabou por desistir de toca-la e controlou o desejo que tinha de abraça-la, não o faria ate ter certeza do consentimento para esse contato.
— Claro que eu nunca poderia saber como você se sente, mas te vê carregando esse peso e tentando enfrentar tudo sozinha me machuca também. Saber que você prefere continuar sofrendo a aceitar a minha ajuda faz eu me sentir um inútil e me machuca ainda mais. Dói em mim não poder cuidar de quem amo...
— Eu não sei o que essa palavra significa e você...
— Talvez eu também não saiba... – Naruto se adiantou em falar, sorrindo. – Mas eu não acho que amor seja algo simples de entender, nem mesmo que se possa desvendar sozinho. Talvez eu precise que você me ensine a reconhecê-lo em você, assim como você precisa aprender a ver em mim...
— Não funciona assim.
— Funciona se tentarmos, funciona se você se permitir... Talvez só precisemos de uma chance para fazer dar certo, aprender a entender e amar um ao outro. Sei que podemos...
— Eu não posso!
Hinata o empurrou e começou andar de um lado para o outro na sala, bufando, seja de raiva ou cansaço, ou os dois juntos: hora alisando os cabelos com os dedos funcionando como pente, que ajeitava os fios fora do lugar; hora esfregava uma das mãos no braço quase como se fosse um tipo de tic nervoso direcionado por alguma lembrança; hora limpando o rosto para enxugar as lagrimas e acabava por pousar as mãos no pescoço como se estivesse se afogando nos próprios pensamentos. Estava irritada e fora de si.
Naruto, percebeu que pressionou e esticou seu autocontrole ate o limite e agora acabara com qualquer “muro de defesa” que ela levantara ao redor de si, porem, não sabia se isso seria algo bom ou ruim... Temeu chegar perto e piorar ainda mais as coisas pois a garota parecia descontroladamente furiosa...
— Por favor... Fala comigo, Hinata...
Ela parou de andar decididamente segurando seu choro, enquanto cruzava os braços novamente e respirava para recuperar o folego que aparentemente perdera, se recusava a encarar o loiro que pacientemente esperou que ela estivesse pronta pra falar o que quer que fosse capaz de dizer naquele estado.
— Doía tanto quando eu me mexia que ele parecia gostar... estava sorrindo e eu não conseguia sentir nada além da vergonha... por que eu parei de lutar... de me defender... e deixei que ele chegasse ate o fim... meu corpo pertenceu a ele e eu não pude fazer nada! Apenas senti a fraqueza e eu não consegui falar com ninguém... por que eu não conseguia?! Eles me perguntavam se eu estava bem e eu dizia “sim”, ou acenava, ou sorria, inventava uma desculpa e nada mudava... Eu acobertava ele e não sei porque...
Só agora o rapaz percebeu a forma com que sua mão apertava seu braço, com as unhas cravadas com a força do seu nervosismo. Era um ato aparentemente inconsciente que ela fazia enquanto prosseguia com seu discurso alterado, como se tentasse arrancar algo inexistente.
— Eu tenho nojo disso, de quem eu era, quem sou... Tenho nojo de mim e da minha pele... que ele tocou... que foi marcada... que está suja... que nunca vai mudar!
E então viu sangue... Naruto, pego pela absoluta surpresa ao se dar conta do que ela estava fazendo, tentou segurar seu pulso para impedi-la de continuar e Hinata afastou suas mãos com outro tapa forte. Olhou o leve ferimento em seu braço como se só agora o tivesse visto ou sentido, a dor que provocava a fez sorrir amargamente em meio as lagrimas que desencadeavam enquanto encarava o loiro com uma expressão que ele nunca viu em nenhum outro rosto, um sentimento que ele não era capaz de descrever.
— Hinata, você...
— Eu odeio tudo que lembro sobre mim... As coisas que fiz, o que deixei de fazer... o que aconteceu... Nada muda... sempre que tenho uma lembrança, o sentimento é sempre o mesmo. – Fraquejou deixando-se cair sentada no sofá agora havia atrás de si. – Eu me odeio, Naruto-kun...
Hinata começou a chorar desoladamente, de forma audível e desesperada, desabafando finalmente tudo que se negara a sentir desde muito tempo...
Naruto se sentou na mesinha de centro a frente dela e tocou novamente em seus ombros, deslizando os dedos suavemente pela extensão de seus braços, tocou suas mãos, desfazendo o laço que formavam e segurou-as junto as suas. Lentamente se inclinou sobre ela, descansando a cabeça em seu ombro, sentindo-a timidamente ceder e cerca-lo com o abraço que tanto almejava.
— Eu estou aqui, Hinata...Cuidando de você... sempre...
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