O Diário
24 Capitulo 24
Notas iniciais
24.
– Que PORRA é essa?!!!!
Com tudo que ouvi, algumas coisas foram surgindo na minha cabeça.
Coisas que realmente aconteceram, como: quando percebi que estava apaixonado; a primeira vez que me declarei; os beijos que trocamos; a noite que passamos juntos;
E outras coisas que minha imaginação foi criando apenas para me torturar e me deixar maluco, como: alguém perigoso se aproximando dela; a insultando, maltratando e ferindo; forçando-a a...
Eu não sabia como agir perante aquilo, nem respirar parecia possível ou necessário agora...
Então, em um ato desesperado para manter a sanidade, ou o que sobrou dela, eu me detive a pensar nos momentos... Aquelas conversas, sensações, cada sorriso dela...
Por alguma razão que não entendo, quando ouvi Kurenai pronunciar aquelas palavras... Quando eu soube da grande verdade por trás de... Tudo...
Minha mente voltou em pensamentos, meses e mais meses atrás...
Em um dia que... algo mudou...
... Poderia parecer um dia normal na vida de um adolescente de classe media como eu, tendo que ir a escola, trabalhar meio expediente, fazer um curso de qualificação para tentar ter um futuro, mais ou menos, estável quando o colegial acabasse.
Todos os meus dias eram assim, mas aquele tornou-se diferente... Tornou-se especial de um jeito que eu, naquela época, ainda não entendia.
Já fazia duas semanas que as nossas apresentações na peça de teatro tinha acabado. As duas semanas mais longas da minha vida! Os professores pareciam escolher o assunto mais maçante para ensinar, o meu chefe no estagio se tornara o ser mais implicante que existia e cada hora do dia parecia levar o dobro do tempo para passar...
E eu... Estava cada vez mais entediado, frustrado e raivoso!
Por que tudo passou a ficar tão chato de repente?!
E, não, eu não sentia falta das aulas de teatro que Iruka-sensei me obrigou a fazer como castigo depois que eu – não tão acidentalmente – desatarraxei algumas válvulas e empesteei a sala de aula com gás do riso.
Teatro era outra coisa que eu não via graça nenhuma, ficar horas lendo, decorando e repetindo um texto bobo?! Eu não tenho paciência pra isso e tenho certeza que nunca vou ter, nem sei como consegui fazer tão bem aquela peça do Ebisu-sensei.
Bem, talvez fosse porque eu não estava nisso sozinho... Repassar o texto acompanhado era bem mais divertido, principalmente se minha companheira fosse...
Ouvi uma leve batida na porta e me levantei apressado, observei a sala brevemente para ver se tudo estava como deveria e, enquanto me encaminhava para abrir, olhei para o relógio da parede, constando que aconteceu algo muito incomum, ela tinha se atrasado.
Antes de estar perto o bastante para por mão na maçaneta, já ouvi outra batida leve, então estiquei o braço e a girei, abrindo a porta e encontrando Hinata me esperando do outro lado. Eu queria recebe-la bem e mostrar o quanto queria vê-la, fazer alguma piada para que risse, mas assim que ela me encarou com o rosto corado, as palavras quase travaram na minha garganta.
– Você demorou. – Foi o que eu consegui dizer e, embora tenha usado um tom irônico que a fez rir, me recriminei pelo sorriso estupido que eu devo ter feito em resposta.
– Eu cheguei a dez minutos, mas você não atendeu. Quase fui pra casa, pensando que tinha se esquecido de mim e saído para algum lugar.
– A campainha... – Foi quando me dei conta. – Foi mal, Hinata. Esqueci de avisar que a campainha estava com defeito.
– Não precisa se preocupar, foram só dez minutos. Os livros não vão fugir da gente.
Ela sorriu assim como eu, percebendo o quanto estava sentindo falta do seu jeito mais centrado e meigo de ser. Ficamos parados nessa simples troca de sorrisos e olhares, quando de um momento para outro ouvi a voz dela de novo:
– Então... Naruto-kun...
– Sim?
– Eu posso entrar?!
Oh, droga... Ela ainda estava do lado de fora e eu parado que nem um poste na sua frente, inconscientemente, barrando a passagem.
– Você é de casa, Hinata. Nem precisa pedir. – Eu disfarcei, abrindo caminho e fazendo um gesto com o polegar para que entrasse.
– Então, por qual matéria começamos?
– Qualquer uma... Quer dizer, vamos começar pelas suas matérias, você disse que estava tendo problemas em um dos trabalhos do curso, né?!
– Eu pensei que eu que te ajudaria, mas... Tudo bem... – Ela disse simples, já se sentando no sofá e tirando seu caderno da mochila.
– Você quer beber alguma coisa? – Eu perguntei, mas antes que ela tivesse a chance de responder, já me adiantei. – Vou pegar um refrigerante pra gente.
Eu fui para a cozinha um pouco apressado demais e, apesar dela rir um pouco e parecer bem humorada, eu não conseguia agir naturalmente. Já tínhamos estudado juntos tantas vezes, por que agora eu estava tão nervoso, gago e distraído feito um idiota?! Simplesmente não entendia o que tinha de errado comigo hoje.
Bom, pensando racionalmente, talvez eu só estivesse um pouco ansioso já que não estávamos nos vendo tanto como de costume: Nós ainda tínhamos aula de química juntos, mas apenas uma vez por semana; almoçávamos na hora do intervalo que, estranhamente, passava muito mais rápido do que qualquer aula chata; e éramos estagiários, mas ela no departamento administrativo e eu da área de criação e, por isso, quase nunca podíamos nos falar.
Não, comparado aos ensaios diários da peça de teatro e as apresentações, qualquer tempo que tínhamos agora era definitivamente muito pouco.
Foi por isso que, quando a ouvi comentando com a Sakura-chan que não poderia sair porque tinha que estudar hoje a tarde, eu praticamente a intimei para me ajudar. Mas é claro que o estudo pouco me interessava, eu nem tinha uma matéria em mente, usei isso apenas como desculpa para vê-la. Mesmo não sabendo a extensão disso ainda, eu sentia, na verdade, saudade de estar com Hinata.
Mas logo de cara vi que as coisas não seriam como eu esperava...
Quer dizer, a garota estava levando essa de “tirar o dia para estudar” muito a serio e apesar de ser legal estar ali juntos, trocando ideias e opiniões, de estarmos fazendo algo que eu gostava, que é a parte pratica da publicidade, e na companhia dela, acima de tudo...
Mesmo assim... Pouco conversamos além do assunto do estudo e ela mal tirava os olhos da apostila do curso enquanto trabalhávamos.
Não, “juntos” não é bem uma palavra que eu possa usar, a não ser que não signifique “Hinata e eu”, mas sim, “Hinata, seu livro e eu de canto, só observando”. Era como se não fizesse diferença eu estar aqui ou não.
E depois que terminamos, quando pensei que teríamos uma pausa, ela ainda resolveu baixar e imprimir umas questões de simulados de cursos anteriores para estudar para um teste?!
Quer dizer, além dela ficar abraçada aquela apostila o tempo todo, agora eu ainda teria que dividir a atenção dela com um pedaço de papel idiota?!
Estava sendo o pior tempo que já passamos... Um livro é mais interessante que falar comigo? Um teste tinha prioridade?! Quando Hinata passara a ser tão nerd a esse ponto?!
Quando me dei conta já estava com uma das provas nas mãos. Não foi bem escolha minha, foi um impulso movido pela frustração de não poder falar com ela enquanto estava tão concentrada. Não queria atrapalha-la nos estudos falando de algum assunto qualquer, mas também não queria ser completamente ignorado. Não foi para isso que a chamei aqui...
Na verdade, não sei por que a chamei. Estava me sentindo sozinho e queria a companhia dela, mas agora ela já estava aqui a algum tempo e eu ainda não estava satisfeito.
Essa total falta de interesse dela me fazia sentir estranho, de um jeito ruim... Eu estava triste...
Olhei para a garota ao meu lado, estávamos sentados no tapete usando a mesinha de centro da sala como apoio para nossos cadernos. Apesar de Hinata ter respondido bem rápido as primeiras perguntas, agora estava observando a quarta questão com um olhar compenetrado enquanto mordia a ponta da tampa da caneta.
Ah, o que estava havendo comigo?! Se fosse qualquer outra pessoa, em qualquer que fosse a ocasião, eu já teria jogado essa apostila, provas e ate a mochila, ou o que fosse, pela janela só pra deixar de ser ignorado... Mas com ela...
Hinata agora sorriu, não para mim, para aquele pedaço de papel, passou os dedos pelas mechas de cabelo que caiam sobre o rosto e as colocou atrás da orelha, então começou a responder outra questão, mordendo minimamente o lábio inferior.
Mesmo apreciando a perfeição de cada detalhe de sua expressão, logo me dei conta de como a imagem dela como um todo se tornara algo magnifico.
Ao mesmo tempo, senti meu sangue ferver de maneira súbita e fui obrigado pela minha consciência a desviar o olhar de imediato, me ajeitando com uma postura um pouco mais comportada para tentar controlar meu coração que tamborilava e os hormônios que, nesse milésimo de segundo, me fizeram ter pensamentos nada inocentes.
– Vou fazer um sanduiche pra mim, você quer? – Me levantei rápido, indo para a cozinha, sem olhar para trás, nem esperar resposta.
A verdade é que eu não queria comer nada, só queria uma desculpa para sair da sala e conseguir algum tempo sozinho para esfriar a cabeça. Bebi um pouco de agua e comecei a armar alguns sanduiches com as coisas que tinha na geladeira.
Por que isso tão de repente... e logo com a Hinata?! Eu estava maluco hoje!
O Ero-sannin me avisou sobre isso... No dia que ele nos pegou enquanto ensaiávamos a cena final de Naja e Hektor, depois que Hinata foi embora, ele me veio com aquela constrangedora conversa de “homem para homem”.
Foi um dos primeiros de seus inúmeros sermões relacionados a isso... Deu ênfase no fato de ser inevitável sentir atração por uma garota que tem que conviver com frequência e ainda fez questão de me relembrar, e deixou bem claro, QUEM era Hiashi Hyuuga e porque ficar com a filha dele, mesmo numa encenação de teatro, era uma péssima ideia; Me aconselhou que era ate normal me sentir atraído por ela, mas ceder aos “desejos” e tentar ser algo mais para Hinata poderia ser o meu pior erro.
Tudo bem... confesso que, sim, no começo eu estava mesmo me deixando levar pelas circunstancias e tinha certos impulsos: como “acidentalmente” me esquecer da parte técnica dos beijos na peça de teatro, por exemplo; Sou homem, isso é incontrolável, principalmente perto de alguém como ela.
Mas depois desse puxão de orelha do meu padrinho, comecei a me restringir ao trabalho, a escola e a peça, ignorando distrações, como tinha que ser. E ainda, quando a conheci melhor, acabei deixando que se tornasse alguém especial para mim, uma verdadeira amiga, que eu não julgava “certo” desejar.
Por fim, essa fase de impulsos passou... Ate hoje, pelo menos...
Sei bem como é estar atraído por alguém, mas, diferente de qualquer outra garota, ultimamente, quando se tratava da Hinata, “atração” não parecia ser mais a palavra certa. Quer dizer, com certeza esses “desejos” estavam envolvidos, mas também havia algo mais, uma coisa que eu não sabia nomear.
Ah, claro, algo oculto... Não, eu só estava perdendo o juízo e o autocontrole...
Não aguentava mais pensar essas coisas inúteis e sem sentido...
Foi quando notei que não tinha mais nenhum pão no pacote, haviam se tornado em uma pilha de dezenas de sanduiches armados, sem perceber acabei fazendo de mais, nem dez de mim conseguiriam comer tudo! Suspirei, já estava cansado das minhas idiotices de hoje também.
Coloquei alguns em um prato e guardei o resto na geladeira, decidido a voltar para sala. Quando cheguei lá, estranhamente, Hinata não estava mais fazendo a prova, agora lia algo, distraidamente, em seu caderno. Não era possível que eu demorei tanto na cozinha que ela já tenha acabado todas as questões, era?!
Andei devagar e novamente me sentei no tapete, agora um pouco mais distante dela e, sem muito interesse, coloquei o prato com os sanduiches entre nós na mesinha. Voltei a encarar minha prova em branco.
– Qual é o problema? – A ouvi perguntar e, apesar da imensa surpresa dela estar finalmente falando comigo, meu orgulho besta me fez decidir ser indiferente:
– Como assim?!
– Não sei, você está quieto hoje.
– Eu não estou quieto...
– Mas é que, geralmente, você opina sobre tudo, mas ate agora não disse nada de mais, como se estivesse meio que se “afastando”.
Ah, claro, eu estava afastado?! Agora a culpa era minha por ficarmos tão distantes? Era ela quem ficou me ignorando o dia inteiro e me trocou pelos estudos! O que ela queria agora?!
– Não é nada...
– Fiquei preocupada imaginando o que estava errado, mas não sabia como puxar assunto. Você parece aborrecido e não queria te irritar mais.
– Não tem nada me aborrecendo, Hinata... – Não consegui disfarçar o tom de ironia.
– Estou vendo... – Ela riu um pouco, mas depois me encarou séria. – A verdade é que esse dia não está sendo como eu pensei que seria. Sempre foi muito divertido quando estudamos juntos, você sempre esta de bom humor mesmo quando não gosta da matéria. – Ela parou e respirou fundo, como se tomasse coragem para falar algo. – Mas hoje você não esta sendo muito “você” e eu fiquei preocupada. Eu não gosto de te ver assim tão triste.
– Eu não...
Bem, talvez seja verdade... Eu realmente não estou sendo eu mesmo hoje...
A chamei para estudar e ela está estudando como combinamos. Hinata não estava agindo diferente das outras vezes em que veio aqui, eu é que estava sendo mais idiota do que de costume.
O que mais eu estava cobrando dela afinal?!
É inexplicável essa sensação que eu tinha de “algo faltando” e isso estava me estressando e me fazendo desperdiçar as poucas horas que tínhamos. Afinal, eu nem sabia por que tinha ficado tão “exigente” da atenção dela de um momento para o outro.
– Se for uma má hora e você tiver outras coisas para fazer, eu entendo... – Ela disse me acordando dos pensamentos. – Nós podemos nos ver outro dia, se quiser.
– Que? Não precisa! – Disse rápido. – Fui eu que te chamei, é claro que não quero que vá embora. Todo esse estudo é cansativo, deve ter me deixado com fome, só isso!
Peguei um dos sanduiches e comi em três mordidas, quase entalei na hora de engolir e tossi um pouco. Por que eu tinha que agir feito um idiota na frente da Hinata?!
Já sentia vontade de beber mais agua para me recompor, mas eu não queria voltar a cozinha de novo, não agora que finalmente estávamos conversando.
– Se é cansativo para você, imagine para mim. Você é bem melhor nisso do que eu.
– Que isso, Hinata, não tem como eu ganhar nesse páreo! Você é uma verdadeira nerd! – Disse e ela deu um risinho meigo em resposta e foi ai que percebi a besteira que tinha acabado de falar – Ah, quer dizer... Isso deveria ser... um elogio...
– Tudo bem, eu entendi. Acho que não posso criar expectativas maiores que essas. Eu conheço bem os meus limites...
Ela se referia a cobrança que sentia de sua família sobre essa coisa de herança, isso sempre deixava Hinata uma pilha de nervos e eu já estava cansado de ver como Hiashi a subestimava. Infelizmente, nunca pude falar nada contra, afinal, isso é “coisa de Hyuuga”.
– Hinata, sabe aquilo que me contou naquele dia?
– Que dia?!
– Quando estávamos ensaiando, você disse que gostava de musica, que queria tocar numa orquestra! Clássicos como Chopin e Beethoven ou qualquer outro cara morto dos últimos séculos. – A encarei com um sorriso torto.
– Eu também disse que era só um sonho de criança...
– Mesmo que fosse, as vezes eu sinto que você estaria muito mais feliz fazendo um curso de música do que de publicidade.
Hinata sorriu um pouco sem jeito e fechou seu caderno enquanto parecia pensar, então finalmente me encarou com uma expressão confiante.
– E, mesmo se fosse, eu só posso realizar um único sonho durante toda minha vida?! – Ela perguntou em um tom irônico, mas não entendi o sentido do que falou.
– Claro! Não dá pra se focar em duas coisas ao mesmo tempo.
– Não foi o que eu quis dizer... – Ela disse simples. – Você, por exemplo, qual é o seu sonho?
– Você já sabe... Quero reerguer a empresa da minha família! Colocar o nome do meu pai de volta na bolsa de valores.
– É um sonho ambicioso. O que vai fazer depois que conseguir?!
– Uh, como assim?
– Naruto-kun, eu não acredito que você vá levar sua vida inteira para conseguir realizar o seu sonho...
Aquela afirmação me pegou de surpresa, não só pelas palavras, mas também na sinceridade que transmitiam. Saber o que Hinata pensava de mim e como ela confiava em minha capacidade, me fez sentir um tipo de satisfação tão grande desse reconhecimento que me senti bobo e tímido de repente, fiquei sem palavras para responde-la como queria.
– Um dia isso vai acontecer, talvez mais cedo do que imagina... – Ela prosseguiu – E o que vai sobrar depois de chegarmos aos nossos objetivos? Vamos apenas continuar vivendo, mantendo as coisas do jeito que são, estagnados em uma linha reta, sem ter mais nada para fazer além de seguir dia após dia, ate o fim?! Em outras palavras, nossa vida deve acabar depois que realizamos nossos sonhos?!
– Não, não seria certo se fosse assim...
– Nem tudo na vida é como um ultimato. É possível sim realizar mais de um sonho, só precisamos de foco e prioridades, só isso. Não podemos parar, nem desistir daquilo que queremos.
Sorri para ela, finalmente entendendo o que queria dizer, era quase inacreditável saber que ela pensava desta maneira e planejava tão mais a frente do que eu poderia imaginar.
Hinata era mesmo tão incrível...
– Então, Naruto-kun, o que você quer fazer depois de ter seu maior sonho realizado?
O que eu queria... Eu... Ah, pensamentos pervertidos de novo!
Já sentia meu rosto esquentando de vergonha e só de pensar que ela poderia perceber alguma coisa, acabei desviando meu olhar de volta para a folha da prova. Felizmente Hinata parecia ser inocente o bastante para estar alheia ao quanto sua beleza era instigante e de como tudo que ela falava e fazia começava a me afetar ultimamente.
– E você, Hinata? Qual é o seu sonho?
– É meio que pessoal, mas acho que não faz mal dividir com você. – Ela disse simples. – Você já notou, não é? Que eu e o meu pai não nos damos muito bem?!
– É... Ele parece um cara rigoroso... – Revirei os olhos, enquanto coçava a nuca.
– Ele não me acha capaz de dirigir a empresa, pensa que sou inútil e que com certeza a levarei a falência se um dia tiver de assumir a presidência. – Ela disse com um olhar distante, fixados no caderno a sua frente, mas depois me encarou novamente sorrindo. – É por isso que tenho me empenhado tanto, quero mostrar para ele que está errado e que eu posso, sim, ser a herdeira que ele quer.
– Você não precisa provar nada pra ninguém.
–Não é uma questão de precisar ou não, eu quero fazer isso. – Ela disse firme. – Olha, eu vou negar se você contar isso para alguém, mas... O meu pai é uma das pessoas que eu mais admiro no mundo e eu quero muito que ele me olhe e sinta orgulho de mim... Esse é o meu sonho...
Assim como eu, ela só quer ser reconhecida, afinal... Quando eu parei de vê-la com a imagem da garota rica que eu tentava manter dela e passei a admira-la tanto?! Imaginei que poderíamos ser semelhantes, sentindo as mesmas coisas e ela poderia estar tão confusa e perdida quanto eu estava nessa coisa maluca que chamamos de vida, não é?!
– Hinata, eu...
Então seu celular tocou, me interrompendo e eu agradeci mentalmente por isso. Eu não sabia que tipo de asneira poderia sair da minha boca se eu me deixasse levar pelo que estava sentindo, mas hoje era um dia especial para cometer erros e agir por impulso.
Foi sorte ser interrompido...
– E falando nele... – Hinata disse antes de atender. Ela respondeu minimamente e a conversa durou menos de três minutos, deligou e suspirou antes de voltar a falar. – Acho que eu tenho que ir embora.
– O que aconteceu?
– Meu pai vai receber alguns sócios lá em casa hoje. Ele combinou com Neji-niisan para ajuda-lo a organizar algumas coisas, mas ele não apareceu, então eu vou ter que ir lá.
– Hum, é estranho o Neji sumir assim sem avisar...
– É, eu sei. Depois eu falo com ele e vejo o que aconteceu. – Hinata agora já se levantara para juntar suas coisas. – Sinto muito ter que sair assim às pressas.
– Que isso... Você só quer “impressionar”, não é?! – Eu sorri assim como ela.
Então ela terminou de arrumar seu material na mochila, deu um aceno de tchau e saiu pela porta. Não sei explicar por que demorei tanto para ter uma reação, mas fiquei ali mais uns segundos antes de conseguir me levantar para segui-la.
Esse dia foi diferente... Eu posso ter sido um grande chato no começo, mas, sei lá, eu gostei de tê-la por perto e de conversar, entende-la ao menos um pouco e sentir que ela me entendia também. E se fosse para ser assim, se eu me sentisse da mesma forma que estou me sentindo agora, eu iria querer repetir isso...
Abri a porta, vendo que ela já estava no ultimo degrau, quase desaparecendo pela rua, parei encarando-a com um tipo de sentimento crescendo no peito, e embora eu não soubesse o que era, não seria exagero comparar a “felicidade”, uma que ainda era estranha para mim. Então eu a chamei:
– Hinata!
Estava receoso e com o coração acelerado de uma maneira que nunca tinha sentido antes. Nem mesmo durante as apresentações de teatro meu nervosismo foi tão grande, não como agora, pois era um sentimento diferente com uma intensidade a qual nunca tinha experimentado.
E quando a garota me ouviu e olhou para trás com o sorriso mais lindo e puro que jamais vi em seu rosto antes, as palavras sumiram da minha boca e eu fiquei hipnotizado pela imagem que era Hinata banhada pela luz do Sol de fim de tarde.
– O que foi? – Ela perguntou com um olhar confuso, e foi quando percebi que fiquei tempo demais a admirando.
– Amanhã... Vamos estudar amanhã também! Quer dizer, você pode?
– Claro, na mesma hora que hoje? – Ela perguntou em um tom sugestivo e eu apenas acenei positivo com a cabeça e ela sorriu. – Vou lembrar da campainha quebrada, assim não perdemos tanto tempo como hoje.
Então fiquei lá, estático naquele lugar, vendo-a ir e não consegui me mover de imediato, mesmo sabendo que ela já não estava por perto. Hipnotizado por uma sensação única que me deixava ansioso, bobo e alegre, tudo ao mesmo tempo...
Eu ainda não sabia naquela época... Todos aqueles desejos e sentimentos, essa falta que ela me causava e a necessidade que sentia de ver novamente aquele sorriso... Eu ainda não tinha capacidade para entender qual era a verdadeira razão para isso tudo.
Mas a partir daquele momento, naquela conversa e com aquele sorriso, algo mudou em mim, ou melhor, talvez já viesse crescendo por dentro sem que eu conseguisse perceber. Algo que me fazia refletir constantemente sobre tudo em relação a ela.
Então eu não sabia ainda, mas... Foi ali... Naquele pequeno instante...
Que Hinata também passara a ser meu sonho...
***
Naruto não poderia apontar o momento exato em que se apaixonou por Hinata, ou quando ela se tornara tão insubstituível para sua vida, ou mesmo quando desejou ser correspondido. Mesmo assim sabia exatamente quando decidiu lutar por seus sentimentos e tê-la para si... Essa lembrança era bem antiga, mas ele nunca se esqueceu da loucura que foi aquele dia, apesar de toda confusão que as emoções causavam, ele não teve duvida do quanto essa garota era especial e do quanto queria ser especial para ela também, desde aquela época.
Hinata o fazia pensar diferente, ver de outra maneira e o enchia de uma sensação tão boa de esperança que, não importava o quanto estivesse desanimado ou nervoso, ver o sorriso dela, o mais perfeito que existia, restaurava suas forças de uma maneira inexplicável e a necessidade de vê-lo em seu rosto o fez querer se aproximar ainda mais.
Essa era a Hinata... A mulher que sempre amou e agora descobriu que falhara em proteger...
A respiração de Naruto estava travando contra seus pulmões, um nó em sua garganta impossível de ser tirado.
Ele lutou cada dia depois daquele por seus sentimentos, se agarrando ao amor que apenas crescia com o tempo... Mas por mais que quisesse tê-la por perto, sempre que achava ter conseguido algum avanço, de um momento para o outro, a garota parecia se tornar extremamente mais distante. Ela se fazia inalcançável!
A maior parte de seus sorrisos desapareceu, ela se mantivera triste o tempo todo e escolhia ficar sozinha sempre que possível... E por que? Por que Naruto?!
Ele realmente pensou que isso poderia ser por conta das constantes brigas com Hiashi, ou suas cobranças que a estressava; talvez ate por causa da situação em que Neji se encontrava ou mesmo da divida dele que ela assumira naquele momento; pensou ate mesmo que ele próprios fosse o motivo, por sua insistência em querer fazer parte de sua vida...
Mas, não! Não era isso! Não apenas isso!
Ela estava sofrendo muito mais, com uma angustia secreta enquanto tentava desesperadamente se disfarçar com uma vida aparentemente normal...
O que há de “normal” nisso... De ficar com alguém por interesse e ignorar a pessoa que realmente gosta... ou “cair de uma escada” e preferir esconder-se a procurar um médico... ou sentir medo da pessoa que diz que ama... O que é NORMAL?!
Como foi possível ser tão cego?!
Como pode machuca-la ainda mais do que já estava com seu egoísmo e orgulho idiota?!
Não... Estava lá, estampado em sua cara, o tempo todo... Ele apenas não se deu conta...
Tantos momentos e reações, palavras ditas... Tudo sempre pareceu tão sem sentindo antes, mas agora... Não mais...
Hinata sempre foi “inalcançável” para Naruto, mas ele nunca se sentiu tão distante dela quanto estava agora!
– Por que ninguém fala nada?! Responda! – Naruto esbravejou em resposta ao silencio de Kurenai e Tsunade. – Vamos!
– Naruto... É um assunto delicado, sente-se aqui, vamos conversar com calma. – Tsunade se aproximou lentamente enquanto falava.
– Calma?! – Ele gritou. – Vocês acabaram de dizer que a Hinata foi... Que alguém...
Ele não sabia como expressar aquele sentimento maligno que crescia em seu peito. Queria por toda sua fúria e ódio para fora, gritar com todo o seu folego, esmurrar as paredes com suas mãos, destruir esse lugar inteiro... qualquer coisa que pudesse ajudar a acabar com essa dor que se apossou de seu coração.
– É isso que irei ler aqui?! – Ele bateu as folhas amassadas em suas mãos, os arquivos de Hinata que imprimiu, contra a mesa de Tsunade fazendo todas as folhas se espalharem. – É isso que todos esconderam?!
– Naruto, acalme-se já! – Tsunade ordenou. – Não tem como explicar nada com você desse jeito!
Com as duas mãos ainda apoiadas na mesa, Naruto abaixou a cabeça, arfando. Mesmo querendo uma explicação, ele não conseguia se acalmar, ou melhor, ele não queria se acalmar... Ele sabia que só se sentiria melhor quando extravasasse suas emoções que agora pareciam correntes que o torturava e pensar só o deixava ainda mais furioso.
Como... Como aconteceu?!
Isso não fazia o menor sentido! Ele viu Hinata bater de frente com o pai para manter seu ponto de vista, diversas vezes! Viu como ela cuidou do Neji nos momentos mais difíceis... Que diabos! Naruto a viu negociar com traficantes, sem nem piscar;
Ninguém nunca conseguiria obriga-la a nada... Ela lutaria! Ela venceria! Ela era forte. Então como?! Como... Não...
Se deu conta de como essa pergunta era inútil, não era isso que queria saber... O que queria mesmo era...
Quem? Quem fez isso com ela? Quem poderia...
Naruto travou os dentes para controlar a fúria que sentiu quando pensou na única pessoa que odiava Hinata, que seria capaz de fazer qualquer coisa para conseguir o que quer. Alguém sem nenhum limite ético e não se importava com o que é certo ou errado.
– Eu vou mata-lo! – Se ergueu de supetão, indo a passos largos em direção a porta.
– Naruto! – Tsunade o chamou.
– Você está nervoso demais para... – Kurenai tentou argumentar, mas o rapaz passou por ela dando um esbarrão para que saísse do caminho.
A doutora viu como ele estava cego de ódio e sedento por vingança, um garoto perdido em um labirinto criado pelos piores sentimentos existentes: inutilidade, pesar, tristeza e culpa; Coisas que podem facilmente mexer com a mente e enlouquecer a alma. Naruto agora era um retrato da pura insanidade.
Ela já tinha presenciado tantas cenas parecidas com muitos de seus pacientes, mas foi a primeira vez que ela se sentiu envolvida. Palavras não seriam capazes de detê-lo, na verdade, a menor frase errada poderia piorar muito mais a situação, e ela não o conhecia o suficiente para saber como lidar com esse seu estado da maneira correta.
Mesmo assim, antes dele se quer sair de vista pelo corredor, Tsunade e ela já se entreolharam e começaram a persegui-lo.
***
Kakashi andava distraidamente, adentrando no hospital sem qualquer menção de pressa. Já fazia um tempo que não tirava um dia de folga e foi um refresco bem vindo para sua cabeça depois de uma noite estressante combinada com uma “visita agradável” a residências dos Hyuuga. Agora só precisaria reportar a Tsunade para estar livre para continuar com suas pesquisas.
Foi quando seu celular tocou, mas só atendeu por ver que se tratava de Asuma.
– E então? Conseguiu?! – Ele perguntou.
– Não, tudo relacionado ao caso de Hizashi Hyuuga se tornou notoriamente “confidencial”, se é que você entende... – Asuma respondeu.
– Confidencialidade é um artigo de luxo hoje em dia. E com certeza crimes de colarinho branco não são uma boa imagem para a reputação dos Hyuuga.
– Acha que Hiashi é o responsável por esse acobertamento?
– E quem mais seria?! Ele, melhor do que ninguém, deve saber que dois irmãos brigando por herança não faz boa publicidade no mercado, assim como muitas outras coisas...
– Por que eu estou com a impressão de que você sabe bem mais sobre essa historia do que me disse?
– Hum, você é um bom detetive... Eu realmente sei de algumas coisas, por isso preciso dos registros de Hizashi. Eu explico tudo depois que conseguir ligar os pontos.
– Vou ver o que eu posso fazer, Kurenai tem uns amigos que podem ajudar, vou ligar para ela depois.
– Não precisa. Eu estou indo me encontrar com a Tsunade-sama, ela deve estar aqui também.
– Isso é sobre o problema da garota Hyuuga?
– É, Tsunade-sama me mandou investigar o primo da Hinata e eu acabei no fogo cruzado com traficantes. Acho que vou aproveitar para pedir um aumento também.
– E você achando que teria paz quando decidiu sair do corpo de bombeiros... – Asuma riu.
– As pessoas ainda dizem que “a grama do vizinho é mais verde”?! – Kakashi suspirou cansado. – Tenho que ir, me ligue se tiver novidades.
O socorrista desligou e entrou no elevador apertando o botão para o andar que queria, se encostou na parede do elevador enquanto observava seu reflexo pelo espelho. Essa sensação de calmaria não o agradava, é quando os grandes desastres se manifestam, depois de um “momento de silencio”. Afinal o impacto é maior quando os problemas são inesperados...
Mas estaria tudo bem desde que Asuma conseguisse as informações de que precisa, isso poderia acabar mais rápido do que imaginou. Enquanto isso, ele poderia apreciar esses curtos momentos de paz.
Então a porta do elevador se abriu e, quando ele deu dois passos para fora, percebeu a confusão. A primeira coisa que viu foi Naruto se aproximando como uma locomotiva desgovernada empurrando tudo e todos que atravessavam seu caminho, vinha para sua direção, provavelmente buscando o elevador ou as escadas.
Seu olhar era fixo e assustador, e enquanto Kakashi se decidia se deveria ou não se intrometer, viu Kurenai e Tsunade aparecerem, vindas da mesma curva do corredor de onde Naruto viera. E a expressão delas fez ele ter certeza de que algo estava errado e que, de fato, sim, tinha que fazer alguma coisa.
Kakashi entrou na frente do rapaz que, sem nem parecer reconhecê-lo, veio com força total, empurrando-o para que saísse. Tudo mais que aconteceu em menos de dois segundos:
Assim que o braço de Naruto tocou o tórax do socorrista, ele girou o corpo enquanto prendia seu pulso e pescoço com as mãos. Sem mal perceber, o loiro já estava preso, com um dos braços torcido para trás e a cabeça prensada contra a parede.
– Kakashi-sensei!! – Naruto esbravejou tentando se soltar. – Para com isso!
– O que está havendo?! – O socorrista, ignorando o rapaz, perguntou para as duas mulheres que se aproximavam.
– Naruto estava escondido na minha sala e ouviu uma conversa nossa. – Tsunade respondeu.
Não foi preciso dizer muito mais coisa, uma vez que Kurenai não pertencia ao hospital e o único assunto que teria para tratar com Tsunade seria sobre a situação psicológica da Hinata. Estava mais do que claro, o tipo de conversa o rapaz poderia ter ouvido.
– Ele está em choque e perdeu o controle. – Kurenai explicou.
– Então você também sabia? – Naruto perguntou ríspido para Kakashi. – Sabia sobre a Hinata?!
– Esse não é o lugar certo para discutir isso... – Tsunade esbravejou baixo olhando em volta e encontrando alguns funcionários que foram “atacados” pelo rapaz, observando curiosos.
– Ela tem razão, Naruto. Pense um pouco e tente se acalmar... – Kurenai pediu.
Kakashi percebeu o rapaz tentando forçar o braço e a cabeça para tentar se soltar e viu como conversar nesse momento era inútil. Aprendera a muito tempo que, nada cura a histeria mais rápido do que um tapa na cara, mas um ataque físico em alguém já sumariamente furioso não podia ter efeitos melhores... Sendo assim, decidiu que precisava de um “tapa” um pouco mais emocional para fazer Naruto recobrar a consciência e o autocontrole.
Então simplesmente puxou e jogou o loiro para dentro do elevador, entrando e apertando o botão para que descesse.
– Ei, o que vai fazer?! – Tsunade impediu que a porta se fechasse.
– Apenas me deem dois minutos, por favor... – Ele respondeu sem demostrar expressão clara, mas a diretora cedeu deixando a porta se fechar. – Nos vemos lá embaixo, ok?!
Então as portas se fecharam e ambos, Naruto e Kakahsi se encararam, enquanto sentiam o elevador começar a descer.
– Sim... – Kakashi disse quebrando o silencio de repente.
– Sim o que?
– Você não perguntou se eu já sabia?! Bem, sim, eu fui o primeiro médico que a examinou, vi umas cicatrizes estranhas e avisei a Tsunade-sama...
– Cicatrizes... – Naruto bufou raivoso novamente. – Vou mata-lo... Definitivamente, eu vou...
– “Matar”?! – Kakashi fez uma ênfase na palavra, falando indiferente ao que ela realmente significava. – Quem você vai “matar”?
– Sasuke! Quem mais?! – Naruto gritou. – Por tudo que ele a fez passar... Eu quero acabar com ele com minhas próprias mãos.
– Então é isso?? Vai invadir a casa do Senador, passar pelas dezenas de seguranças armados dele e matar o herdeiro do maior império comercial da cidade... Ótimo plano suicida...
– Eu não me importo! Desde que...
– E quando você morrer com esse seu plano, o que eu devo falar para a Hinata?! “Ele fez isso para defender a sua honra” ou “ele fez isso por causa do orgulho ferido”?!
– Orgulho?!
– Você descobre a verdade e a primeira coisa que pensa em fazer e ir as cegas atrás do agressor ao invés de ir procurar a Hinata... Esse é o maior retrato de egoísmo que eu já vi! – Kakashi usou um tom de deboche. – No momento eu te vejo apenas como uma criança boba com raiva porque um “menino malvado” roubou o seu brinquedo.
– O que?!! – Naruto pulou em cima de Kakashi agarrando-o pela blusa e empurrando-o, fazendo suas costas baterem forte contra o espelho do elevador.
– Estou errado?! Agindo tão infantilmente, não é isso que parece?!– Kakashi segurou Naruto pelos pulsos, apertando com força e fazendo-o soltar a gola de sua blusa que estava presa. – Eu que estou atrás disso a meses não tenho certeza de quem seja... E você também não sabe se é o Sasuke ou não. Só esta atrás do alvo que quer descontar a sua raiva, não é?!
– Esse filho da puta ia obrigar ela a se casar! Quem mais poderia ser?!
– Eu... – Kakashi disse serio. – Ou você... Quem sabe?! Eu não sei...
– EU SEI! – Naruto cuspiu as palavras com ódio.
– Não! Só existe uma pessoa que realmente sabe a verdade com toda certeza... E ele deve estar lá nesse exato momento, rindo de você. – A voz de Kakashi não vacilo nem por um segundo, falando frio e indiferente o tempo todo. – Mas não se preocupe, quando descobri quem é, eu mesmo vou mata-lo... E será por minhas razões, não as suas...
Naruto não sabia o que pensar, sentia-se estranhamente intimidado pelo jeito de falar de Kakashi, mas, ao mesmo tempo, suas palavras lhe transmitiam uma sensação de conforto, como se fosse realmente certo deixa-lo a cargo de tudo...
– Eu estive sempre te apoiando com ela. Você me lembrava um amigo e eu achava que valia a pena ajudar, mas agora, vendo o quão infantil você é, acho que me enganei. – Kakashi disse. – Uma criança como você realmente não merece uma mulher como ela...
– Eu amo a Hinata!
– Olhe bem a sua volta!
Então Kakashi o pegou pelo colarinho e o empurrou contra a porta fechada do elevador, mesmo não sendo muito maior do que o rapaz ainda conseguia encara-lo olhando-o bem de perto de cima para baixo.
– Sua namorada foi violentada! Você entende isso ou não?! Dizer que a ama não resolve... Vingança não resolve... Agir feito um moleque impulsivo NÃO resolve... É algo que aconteceu e fim! – Kakashi continuava sem demonstrar qualquer tipo de sentimento ou empatia. – E mesmo um agressor sendo o responsável por isso... A culpa também é de todos que estiveram por perto e não perceberam o que estava acontecendo. Também é sua... E dela... – Naruto graniu de raiva, quase esbravejando uma resposta, mas Kakashi não lhe deu espaço para falar. – Nada que você fizer vai mudar isso, mas você ainda pode ser um homem e assumir a sua parte da responsabilidade. Afinal você não deveria estar lá “cuidando dela”?!
– Como você...
– Eu sei bem mais do seu envolvimento com a Hinata do que você imagina. – Kakashi disse.
A porta do elevador se abriu e Kakashi soltou a camisa de Naruto, porem, ainda estático, mudo e sem saber como reagir a tudo que ouviu, o rapaz sentiu as pernas bambearem e apenas se deixou cair sentado no chão. As pessoas da recepção voltaram suas atenções para eles, mas naquele momento entre os dois só existiam as verdades ditas e nada mais. Cada letra falada pelo socorrista doía na alma de Naruto.
– Se você não pode suportar a realidade como um homem, então feche os seus olhos e se afaste dela. – Kakashi disso com a voz baixa e profunda. – Hinata não precisa de um moleque por perto.
O loiro o encarou furioso de novo, mas a expressão não durou mais do que alguns segundos, logo seus olhos voltaram-se para baixo, entristecidos. Quando o elevador ao lado abriu as portas e Kurenai e Tsunade apareceram, ele não aguentou encara-las, se levantou num pulo e saiu correndo para fora do Hospital.
– Está tudo bem. – Kakashi fez sinal impedindo que Kurenai o perseguisse. – Eu duvido muito que ele vá fazer algo de errado.
– Como você sabe? – Tsunade perguntou.
– Por que eu sei exatamente o que ele esta sentindo...
– O que você disse a ele, Kakashi? – Kurenai perguntou seria.
– Apenas o que ele precisava ouvir. – Agora ele deu os ombros. – Abri seus olhos...
Kurenai olhou de relance para Kakashi, uma conversa silenciosa cheia de segredos que ninguém mais não poderia saber. Então falou em um tom baixo e com a voz desanimada:
– Tsunade-sama, devido as circunstancias, talvez fosse melhor deixar para nos falarmos depois que Hinata se consultar comigo novamente.
– Sim, entendo. Será melhor. – Tsunade bufou, estressada com a situação. – E você Kakashi?
– Não, tenho assuntos importantes para discutir, se a senhora não estiver ocupada. – Disse simples com uma expressão leve, como se nada de agora a pouco tivesse acontecido. – A começar pelo meu aumento de salario.
***
Kurenai saiu do Hospital não muito tempo depois, mesmo com Kakashi dizendo ter resolvido o problema, ela ainda queria conversar com Naruto e ter certeza de que ele não faria algo de que se arrependa. O medo dela nem era tanto para o “querer matar alguém”, muitas pessoas pensam isso pelo menos uma vez na vida, sem nunca colocar qualquer plano em pratica. O que a preocupava de verdade era se ele fosse falar com a Hinata. Tudo se complicaria muito se a garota fosse simplesmente abordada de forma descuidado por um assunto tão tabu para ela.
Encostou seu carro a beira da calçada, assim que viu o rapaz, ele andava devagar, ainda desnorteado ao ponto de nem se quer a perceber quando saiu do veiculo e começou a caminhar ao seu lado.
– Naruto...
O chamou tocando seu ombro, ele parou de andar, mas não a encarou, nem falou nada. Pelo menos Kurenai percebia que o rapaz não estava tão furioso como antes, seja lá o que Kakashi falou com ele no elevador, pareceu ter obtido algum resuldado.
– Eu vou te dar uma carona, se não se importar.
– Você quer me escoltar pra ter certeza que eu não vou fazer alguma loucura?
– Também, mas eu queria, principalmente, esclarecer algumas coisas.
– Esclarecer mais o que?! – Ele disse bufando o ar para fora, desanimado.
– Entre no carro, por favor. Vamos conversar sobre a Hinata.
Naruto cedeu ao pedido da doutora e entrou, sentando-se no banco do carona. Kurenai saiu com o carro dirigindo mais lentamente do que os outros motoristas, e ficaram quietos por um bom tempo, ela prestando atenção no caminho e ele com olhar perdido pela janela.
Ela decidiu pelo silencio, pois sabia como o choque de uma descoberta como essa era forte e achava que o loiro precisaria refletir um pouco antes de estar apto a ouvi-la, também esperava que, mais cedo ou mais tarde, ele começasse a fazer suas perguntas. Seria mais fácil se o próprio Naruto expusesse suas duvidas.
– Kakashi-sensei disse que estava investigando a meses... – Naruto disse finalmente, porem continuava com olhar distante. – É verdade?!
– É sim. Kakashi esteve bem empenhado em descobrir algumas coisas, ele pode parecer insensível as vezes, mas ele se preocupa de verdade com a Hinata. Além disso, talvez você não saiba, mas meu marido é policial e também está envolvido, de certa forma.
– E você?! Quando nos conhecemos você disse que cuidava de vitimas... vitimas de...
A voz de Naruto se perdeu no final da frase com um suspiro e a doutora percebeu que ele desistira de continuar, estava tenso e sem coragem para prosseguir com o assunto.
– Você não consegue falar?!
– Não... – Ele respondeu baixo enquanto negava com a cabeça. – Falar faz parecer real...
– Infelizmente, Naruto, falando ou não, o fato é que é real.
– Eu sei, mas... Falar faz parecer assustadoramente mais real...
– Acredite, eu entendo, mas é algo que você deve aprender a lidar, quanto mais cedo melhor. Não é bom ficar remoendo angustias.
Naruto apenas respondera positivo com a cabeça e ficaram novamente em silencio, mas logo o rapaz retomou a pergunta de antes, seguindo o conselho da doutora estava disposto a aprender a lidar com essa realidade que descobrira.
– Então... Você cuida de muitas pessoas na situação da Hinata?
– Na mesma situação, não. Cada pessoa tem seu próprio psicológico e sua própria maneira de reagir a determinadas experiências e, mesmo existindo um tipo de “padrão”, nunca é a mesma coisa com todo mundo.
– Mas e com a Hinata? Ela... Quer dizer, como ela está?!
– Me desculpe, há certas coisas que não posso te contar, pelo sigilo de médico e paciente.
– Por inferno com isso! – Riu sem graça, era uma forma de disfarçar o nervosismo. – Eu só quero saber se ela... ela...
Ele se calou, vendo que estava se perdendo como as palavras, havia tanto que queria perguntar, mas não poderia expressar tudo de uma vez só. Além disso, as palavras de Kakashi não saiam de sua cabeça e isso era o que mais o atormentava, saber de suas verdades.
Decidiu se concentrar no que realmente queria saber e prosseguiu:
– Ah, como eu resolvo isso?!
– Não é seu dever resolver qualquer coisa, Naruto. Hinata perdeu a memoria por causa de um choque emocional muito grande, só ela própria é capaz de “voltar a si” e eu espero poder ajuda-la nisso.
– E eu? Como posso ajuda-la?
– Você apenas pode fazer o que já esta fazendo. Se é alguém próximo e querido por ela, continue apoiando-a. Hinata não deve se sentir só, não é mesmo?!
– É...
– Olhe Naruto, eu não posso te proibir de fazer nada. Você é independente e eu não sou nada sua para lhe dar ordens, então gostaria apenas de te alertar. – Kurenai acabara de parar em um sinal vermelho e pode encara-lo fixamente agora. – Quando você for falar com a Hinata, se você decidir falar com ela sobre isso, escolha suas palavras com cuidado. Você deve ter em mente que este é o maior segredo dela e ela não sabe que sabemos.
– Ela não sabe? Nem de você?
– Ela deve desconfiar, é uma garota esperta, mas esta se fazendo de desentendida para evitar uma conversa direta e eu estou esperando ela estar pronta para se abrir. Mas, de você, Hinata com certeza nem imagina e pode ser um golpe e tanto... Forçar uma situação nem sempre é aconselhável para pessoas nessas condições, entende?
Naruto acenou positivo com a cabeça e, assim que o sinal ficou verde, o carro saiu em movimento novamente. O silencio voltou a importuna-lo, pensamentos, lembranças e duvidas coisas que já aconteceram entre Hinata e ele que ele nunca entendera antes, mas que começava a fazer algum sentido...
– Então... – O loiro se pronunciou. – É normal... Quer dizer, mesmo gostando de alguém, ainda assim, ela sentir... nojo?!
– Como assim?! – Kurenai perguntou, suspeitando da razão de uma pergunta como essa.
Parecia ser uma duvida mais profunda do que apenas curiosidade sobre as condições de Hinata, mas talvez um fato maior entre eles que o estava perturbando desde que descobrira a verdade. Porem o rapaz estava arrasado e ela percebeu, pela expressão que tomou conta do rosto dele ao ouvi-la, que não haveria explicação ou resposta.
– “Nojo” não é bem a sentença correta, mas, sim, muitas das vezes uma vitima fica “indisposta” a repetir certas experiências mais marcantes.
– Entendi... – Naruto disse simples, mas Kurenai não soube dizer se era verdade ou se apenas uma maneira de acabar com um assunto desagradável.
– Bem, para ilustrar melhor vou te dar um exemplo... Imagine que uma mulher sofra de violência domestica. Sempre que seu marido fica zangado com algo ele a bate, mas depois se “arrepende” do que fez, se desculpa, a trata bem, a mima, dá presentes e diz que a ama, e consegue ser perdoado. – Kurenai fez uma curta pausa. – Mas ele acaba se irritando de novo, e não precisa ser algo que ela fez, mas algo no trabalho, na rua, na TV, qualquer coisa pode o chatear e ele descontará nela de novo... e de novo pedirá desculpas e dirá que a ama para ser perdoado. E isso se torna um circulo vicioso. Bater e se desculpar, bater e dizer que a ama... De novo e de novo... Então, em certo ponto, ele fara isso para o “bem” dela.
– Que?
– “Eu estou te batendo porque eu te amo”, “eu estou fazendo isso porque quero te proteger”, “eu faço isso por que você foi má comigo” ou “por que você me obrigou a ser mau com você”. Então vai ser um “eu te amo” e um olho roxo, “eu te amo” e um hematoma no braço, “eu te amo” e um nariz quebrado... Isso esmaga a autoestima dessa mulher, ela fica fraca psicologicamente e vulnerável, incapaz de se defender. Ela se culpa por ser assim, mas não tem força para mudar, ele não permite que ela mude...
Eles ficaram em silencio agora, era muita informação de uma vez só e esses foram alguns segundos que a doutora percebeu que Naruto precisava para refletir.
– Mas, vamos supor que essa mulher consegue superar isso. Um dia ela escapa, fica fora do alcance deste homem e pode viver bem, mas ainda se lembra de sua época negra, mas não pense que seja algum problema psicológico grave, não é isso... Acontece com todos nós, geralmente, nosso cérebro busca sempre manter nossas piores lembranças e experiências para poder usa-las como referencia para nos defendermos no futuro... – Ela explicou. – Anos podem se passar de uma vida feliz e talvez um dia ela encontre um namorado que realmente gosta e se importa com ela... mas quando essa pessoa disser “eu te amo” para essa mulher com psicológico tão ferido, qual será a primeira coisa que ela vai pensar?
Naruto a encarou com o olhar semicerrado, imaginar essa resposta era difícil e doloroso, pois estava finalmente começando a entender onde a doutora queria chegar com aquela “historinha”...
– Ela se lembra do que vem depois de um “eu te amo”, se lembra do olho roxo, do nariz quebrado, ou o que for, todo o resto da violência que sofreu. Então, nesse meu contexto, existem duas posturas que ela poderá assumir: ou ela vai comparar seu antigo marido com seu novo amor, ver que tudo pode ter começado do mesmo jeito e pensará que ficar juntos trará o mesmo resultado que o relacionamento anterior, o medo a fara se afastar, para sempre; ou, na outra...
– E o que isso quer dizer...?! – O loiro a interrompeu bruscamente, mostrando um pouco de irritação as palavras dela. – Ela colocou o namorado no mesmo nível do desgraçado, viu todas as declarações dele como assedio ou pensava nesse filho da puta sempre que ele lhe roubava um beijo ou algo assim?! Tinha medo dele! É isso?!
Kurenai percebeu que ele entendera a referencia e falava abertamente de Hinata, não mais da historia hipotética que contara. Revelava os sentimentos de insatisfação e revolta presos em si, se libertando junto com a raiva que o consumia.
– Não é escolha dela, Naruto. Mesmo percebendo a diferença entre as pessoas e sabendo separar as circunstancias, ainda assim... Aqui dentro... – Agora deu três toques leves na própria testa com o indicador, apontava para a própria cabeça para exemplificar o que dizia. – Em uma forma única de se proteger, sua mente vai trazer todos os sentimentos ruins a tona. Ela não pode evitar de se sentir mal.
– Então por que ela... Nunca... Ela nunca disse nada...?! – Naruto agora se curvou para frente apoiando os cotovelos nas pernas e cobrindo o rosto com as mãos. – Eu a protegeria... Eu disse que cuidaria dela...
Kurenai decidiu se calar naquele momento, analisando através das reações de Naruto, mesmo sem ela nunca tê-lo visto junto de Hinata, conseguiu evidenciar o quão forte era a ligação entre os dois. Um casal apaixonado tão jovem que chegava a parecer injusta essa situação tensa e mórbida em que se encontravam.
– Vocês dois tiveram relações, certo?!
Naruto, ficou estático com a afirmação da doutora, primeiro a encarou com uma expressão fechada, mas depois lenta e desanimadamente cruzou os braços em frente ao corpo voltando seus olhos para fora do veiculo, então suspirou, descansando as costas no encosto do banco e apoiando o ombro contra a lataria do carro e o rosto contra o vidro da janela.
– Desculpe, foi só uma suposição minha. Eu atendo a muitas pessoas e sei bem como familiares reagem a descobertas desse tipo: pais, irmãos, amigos, namorados ou cônjuges... Então, pela sua reação ate agora, eu presumi que, em algum momento, vocês tivessem se tornado íntimos ao ponto de ter um relacionamento sexual ativo.
– Não fale desse jeito! – Ele falou baixo, mas com um tom de voz surpreendentemente firme. – Do jeito que você falou parece algo banal, sem importância... Não foi só sexo, ok?! Hinata e eu fizemos amor...
Então ele fez uma pausa e concluiu em um sussurro tão baixo que Kurenai mal pode ouvir, falando mais para si mesmo do que para ela.
– Deveria ter sido especial...
A conversa poderia ter acabado por ali, mas outra duvida vinda da conversa com Kakashi veio perturbar a cabeça de Naruto.
– Kakashi-sensei falou algo sobre... Cicatrizes...
– Você nunca as viu?
– Não, naquela vez... Hinata pediu para eu apagar a luz, mas achei que fosse só timidez. Não imaginei que ela quisesse se esconder... – Naruto suspirou, passando uma das mãos nervosamente pelos ralos cabelos. – Ah, eu pensei que seria a primeira vez dela, mas não era e eu... Eu deveria ter notado algo...
– Naruto, você é um típico romântico. Acredite, todo seu cuidado deve ter feito bem para Hinata que era carente deste tipo de afeto.
– Olha, eu não quero mais falar sobre isso, nem com você ou com ninguém, por favor. – Ele pediu sem esboçar qualquer expressão.
A angustia que ele sentia era visível, mas Kurenai percebia que poderia ser causada por algo além das revelações desta tarde, um tipo de sentimento que ele tentava constantemente suprimir. Novamente viu que Naruto sabia de alguma coisa a mais sobre a Hinata que o atormentava.
– Me deixe apenas terminar nossa historia hipotética, ok? – Ela tentou puxar assunto dessa vez, tentando descobrir um pouco mais. – Eu disse que teriam dois caminhos a seguir e você só me deixou descrever um deles...
– E dai que tem dois?! Você já me contou qual era o primeiro, do afastamento, e foi o que Hinata fez, se distanciou de tudo e de todos. Ela ia embora e o resto não importa.
– Naruto, o segundo caminho era a escolha de abandonar o medo, transpor as barreiras defensivas que se impôs e descobrir uma nova forma de seguir em frente; – Kurenai disse simples. – Foi isso que Hinata escolheu.
– Como? – O rapaz a encarou duvidoso.
– Não foi isso que aconteceu entre vocês? O fato de algo ter acontecido entre você e a Hinata, o fato dela ter se entregado, só significa como ela era forte e estava conseguindo lidar com isso de alguma forma. Você não consegue ver, Naruto?! Nada mudou nesse sentido, nada além de que agora você tem a oportunidade de entendê-la plenamente e cuidar dela de verdade.
– Eu não... Eu não sei se entendo... Ainda não.
Estava lá de novo. Os sentimentos suprimidos, mas por quê? Kurenai lhe falara algo bom, entendia sua tristeza e choque, mas, ainda assim, esperava uma expressão um pouco mais otimista. A indiferença dele a suas palavras indicava algo mais oculto nesta historia.
– Posso fazer uma ultima pergunta? – Ela perguntou e ele deu os ombros. – Antes de eu ser escolhida para cuidar do caso da Hinata, Tsunade-sama me chamou para fazer um teste psicológico com ela e, nele, eu fiz com que se lembrasse de algumas horas antes do acidente... Hinata estava na casa de alguém e tiveram uma boa discussão, Kakashi já me disse que era você quem estava com ela quando a ambulância chegou. Então foi com você que ela discutiu, certo?
Ele não respondeu de imediato, na verdade pareceu ignorar completamente a pergunta. Kurenai perceba o quanto ele já estava emocionalmente exausto, pois quando ele finalmente resolver falar, sua voz tinha um tom baixo e era perceptivo o quanto ele segurava o choro:
– Nós brigamos feio e eu nunca vi Hinata daquele jeito... Quando ela disse que me odiava, eu pensei se seria mesmo verdade e se eu poderia odiar também. Eu estava com tanta raiva que desisti de ir atrás dela, não queria me importar mais...
– E...
– Eu poderia ter corrido para tirar ela da frente daquele carro, eu poderia ter ao menos tentado fazer algo e, por um segundo, eu pensei em fazer, mas não consegui me mexer... Eu estava lá parado igual um idiota “pensando na vida”, petrificado com meu orgulho ferido e não fiz nada...
– Naruto...
– Kurenai-sensei, eu a deixei ir... – Ele suspirou pesado. – Eu deixei a Hinata ser atropelada... De proposito.
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