O Distante Argel

1 O Distante Argel


Eram confusos os sentimentos de Neville. Tanta coisa havia acontecido em apenas uma noite que nem ele tinha certeza se tinha capacidade para raciocinar. Uma coisa Neville sabia: Sentia todo o seu corpo dolorido, cansado, porém, remediado pela adrenalina de ter feito o que fez: bateu de frente com o próprio Lorde das Trevas, havia finalizado Nagini, a última horcrux, ajudando Harry Potter a derrotar Voldemort e manter Hogwarts a salvo.

Mas havia outra coisa que Neville sabia: estava tudo bem. Era desesperador olhar ao redor e ver aquela escola enorme, que outrora parecia impenetrável, repleta de escombros e pedaços físicos do que seriam memórias de uma grande batalha feita naquele local, é verdade. Era tão desesperador quanto ver seus colegas, pessoas que preenchiam a vida e a rotina de Neville, feridas e em estado de choque perante ao que acontecera. Mas, afinal de tudo, tudo estava bem e iria continuar assim, pelo menos, se dependesse de Neville.

E Neville estava certo de que fez sua parte. Ou, pelo menos, acreditava que fez. O sentimento de ter protegido sua segunda casa e seus colegas, em grande maioria, era de satisfação.

Com o corpo retraindo aos poucos, preparando-se para entrar em estado de relaxamento, Neville caminhou, cambaleando lentamente, pela escola. Neville diria que estava indo a algum lugar, mas nem ele sabia para onde. Olhava atentamente as pessoas ao redor, certificando-se que estava bem. Levemente desfocado, procurava rostos conhecidos e os identificava aos poucos: identificou Dino que, mesmo ferido, prontamente ajudava Filch e Simas a recolherem alguns dos escombros, abrindo espaço para colocar alguns feridos e alguns falecidos. Perto deles, reparou no rosto de Minerva McGonagall, que também se concentrava em ajudar as pessoas em estado mais grave.

Em um canto próximo, Neville identificou Gina Weasley encostada em uma parede, claramente abalada pela perda de seu irmão, Fred. Seu semblante não era triste, porém desnorteado; a morte de Fred havia mexido com a família.

Neville, por um momento, se sentiu impotente; sentiu o peso do que havia acontecido. Voltava a questionar se havia feito, realmente, seu melhor. Se fez, por que deixou Fred morrer?

Lembrou-se dos comensais da morte rindo de seu discurso horas mais cedo. O semblante debochado de Voldemort ainda parecia carimbado em sua mente, desdenhando da realidade que Neville trazia em suas palavras. Lógico, estranho seria se o Lorde das Trevas concordasse com o que Neville estava dizendo. Mas será que estava errado? Será que simplesmente usou as palavras erradas? Não sabia, mas sabia que não poderia deixar Gina daquele jeito.

— Gina! – Exclamou o mesmo, erguendo os dois braços para o alto, balançando-os. Recebeu um olhar da mesma, que pousou seus olhos em direção ao mesmo, sem mover o resto do corpo. Neville sorriu. – Nós conseguimos!

Gina esboçou um pequeno sorriso tímido, claramente forçado. Neville estava prestes a dizer algo a mais, até abriu a boca; queria dizer que sentia muito pelo seu irmão, que também era amigo do Longbottom. Porém, nada. Neville não conseguia dizer nada, e essa dificuldade se intensificou quando Gina voltou seus olhos ao chão. Neville fechou a boca e abaixou os braços.

Sentimentos confusos. Culpa, glória, derrota, vitória; parece que, realmente, não há vencedor em uma guerra: os dois lados saem perdendo.

Neville voltou a mover-se, sem rumo. Seu corpo agora parecia mais pesado, culpa da mente que lhe trazia questionamentos que, muitas vezes, doíam mais do que as dores físicas que sentia.

Neville sempre foi tratado como diferente. Era até estranho: um cara como Neville, quieto e esquisitão, na Grifinória, a casa dos corajosos e guerreiros. Como típico Argel, era comum ser julgado pela sua postura. E Neville não gostava disso, claro que não. Só que fazia se questionar: qual era seu potencial? O que havia reservado para Neville no futuro?

Parou por um momento. Já um pouco distante de onde estava antes com as outras pessoas, fitou Luna Lovegood surrupiando alguns restos de escombros, colocando-os em uma pequena bolsa de pano, do tamanho de sua mão, mais ou menos.

Luna Lovegood era uma das, se não a mais, pessoas mais estranhas de Hogwarts. Na verdade, Neville conhecia a garota pelo tempo em que passaram juntos trabalhando pela Ordem, e sabia que, apesar de peculiar, era muito inteligente. Porém, era tão estranha quanto Neville; andava estranho, falava estranho. Mas era simpática... pelo menos com Neville, que não era acostumado com isso.

— O que está fazendo? – Indagou o jovem, ainda fitando a mesma. Por um momento, ajeitou sua postura.

— Você não está vendo? – Disse ela, com uma voz suave, virando o rosto para ele. Luna era sempre uma pessoa tranquila, não esboçava desespero mesmo em situações extremas, o que de certa forma a fazia mais estranha ainda.

— Sim, estou. – Respondeu Neville, começando a formar um semblante confuso. – Mas o que vai fazer com essas pedras?

— Vou guarda-las. – Ela respondeu, agora voltando a catar algumas pedras. – Os pedaços mais bonitos. Quero deixar de lembrança, é um fato histórico para essa escola. Ou... jogar fora. Apenas afastar de Hogwarts essas energias ruins.

Luna observava as pedras cautelosamente, e realmente parecia ter algum tipo de critério para escolher qual pedra iria levar e qual pedra iria deixar para virar lixo. Neville apenas assentiu; não sabia se havia soltado algum som, mas havia mexido a cabeça positivamente.

— Você está bem?

— Estou. – Luna parecia ter terminado. Agora se levantava e olhava Neville. – E você?

— Sei lá. — Neville deu mais alguns passos e se sentou, recostando-se em uma parede. – Só estou confuso.

— Com o que? – Parecendo interessada, Luna sentou-se ao seu lado, ainda lhe fitando.

— Sinto... me sinto inútil. – Neville disse, olhando, distante, para o que acontecia do outro lado da escola. – Digo... sei que cada um fez sua parte, mas sinto que poderia ter feito mais, entende?

Luna assentiu.

— Tantas pessoas se foram... O Fred, o Remo, a Tonks... fico me perguntando se não poderia ter feito algo para salvá-los.

— É, eu te entendo. – Disse Luna, abaixando os olhos por um momento, mas logo voltando a olhar para o Longbottom. – Às vezes eu gostaria de voltar para o passado e refazer algumas coisas. Infelizmente, acho que não podemos.

Por um momento, ficaram em silêncio. Cada um refletindo em seu próprio pensamento, olhando para algum canto. Neville continuava se sentindo incapaz, se sentindo incompleto. E Luna estava certa, se pudesse voltar ao passado, com certeza Neville voltaria. Só não sabia para quando. Mas queria poder fazer tudo diferente, desde a morte dos seus pais até seu primeiro dia em Hogwarts. Será que valeria a pena? Será que daria certo? E, porventura, como seria?

— Você é corajoso. – Os pensamentos de Neville foram interrompidos pela voz de Luna. Neville parecia, por um momento, agora mais atento. – Vi quando você cortou a cobra. Com a espada. Era uma cobra enorme, e você simplesmente acabou com ela.

Por um momento, Neville sentiu que estava flutuando. Corajoso? Neville? Ora, Neville apenas havia feito o que qualquer um faria. Aliás, foi sorte. Estava certo de que, se encontrasse Nagini frente a frente, não teria chance nenhuma.

Neville tentou, novamente, dizer algo. Porém, travou como havia feito momentos antes. Sua boca se abriu, mas nenhum som saia. Nem mesmo os músculos pareciam funcionar.

— Você não é inútil. – Luna disse, olhando para ele. Neville olhou para ela. – Acho que você é um herói. Mas não sabe como dizer isso para si mesmo.

— Valeu. – Foi a única palavra que Neville conseguiu dizer, agora fechando a boca. Parecia que tudo o que sentia antes havia sido derrotado como um feitiço pelas palavras de Luna. Esta que, por sinal, levou a mão dentro da pequena bolsa com as pedras, retirando uma pequena e dando nas mãos dele. Neville olhou para ela, confuso.

— Fica com uma. Para você lembrar e mostrar para as pessoas que você venceu a batalha. – Luna hesitou, deixando as pedras na mão dele. Até que, quase que como um reflexo, quando Neville percebeu, Luna havia levado seus lábios aos dele, dando um beijo rápido. Muito rápido. Ou muito lento. Mas Neville sabia que, diante de tantas confusões, até mesmo confuso pelo que estava acontecendo, ele sentira o beijo. E havia gostado. Luna o fitou logo após. – Você venceu.

Luna se levantou, ainda encarando Neville, que apenas a acompanhava com os olhos, quase que em estado de choque. Luna deu um pequeno sorriso, e saiu saltitando para fora de Hogwarts.

Neville, por mais que sentisse que deveria ter feito isso antes, sorriu. Mais do que havia sorrido em toda aquela noite. Toda sua insegurança parecia ter ido embora. E, por mais estranha que a Lovegood fosse, Neville concluiu que era muito mais do que isso.

Neville olhou para a pedra em sua mão.

Herói. Neville Longbottom.

Notas finais
Obrigado por ler!
Estava com saudade de escrever, amo Harry Potter e acho um universo maravilhoso para escrever fanfics.
Quem puder deixar um review, agradeço!

?” Kundaime.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!