O Disco da Guerra e da Paz
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Quando um novo broto nascia em algum dos reinos de Plantae, os agraciados com o poder profético davam aos pais dele o Disco da Guerra e da Paz; um pequeno objeto iluminado, cujo conteúdo mostrava o caminho a ser seguido pelo broto (a Guerra) e quando ele encontraria seu par destinado (a Paz).
Então, enquanto eles cresciam, seguiam as palavras do Disco como se suas vidas dependessem disso. Em alguns casos, de fato dependia.
Arcádia, por exemplo, fora exposta a um treinamento militar pesado desde pequena, pois os profetas de Narciso predisseram que ela seria uma guerreira do reino de Magnólia – que estava em uma batalha milenar contra o reino de Cravo.
Seu Disco da Guerra e da Paz dizia também, que ela encontraria seu par destinado quando a última folha da Árvore dos Frutos caísse – indicando o final do ciclo de rotação de Plantae – pela vigésima quarta vez desde seu nascimento.
Arcádia odiava seu futuro. Imaginar que durante vinte e quatro ciclos ela viveria em escuridão, dependendo de outro magnoliano para ser feliz, fazia sua pele ficar verde por semanas.
Ela recusava a ideia de que um pequeno disco dissesse como deveria viver. Ela seria feliz, teria Paz antes do vigésimo quarto ciclo acabar e não precisaria de um magnoliano sem atitude para tê-la.
Sem saber, enquanto alimentava sua raiva pelos narcisoenses, Arcádia caminhava para o futuro citado no Disco.
A magnoliana viveu de sua Guerra, descontando sua ira no campo de batalha; banhando-se no sangue verde dos cravonianos, fingindo tirar de lá a Paz que não possuía.
Com pesar, Arcádia viu o tempo voar junto às folhas da Árvore dos Frutos. O Dia Branco estava por chegar, trazendo consigo dias festivos e trégua.
Poucos soldados ficavam de guarda na prisão nesse dia, pois muitos queriam ver A Queda junto de suas famílias e ouvir as predições para o novo ciclo, mas ainda assim fora uma surpresa quando um prisioneiro escapara.
Arcádia, que não queria estar no meio de uma multidão quando a última folha caísse, correu pelas passagens do subsolo esperando ir de encontro ao fugitivo. Seus passos eram abafados pela contagem do povo que estava há metros acima dela; A Queda estava próxima.
Quando os gritos dos magnolianos cessaram, Arcádia soube que o vigésimo quarto ciclo acabara. Cerrando os olhos, ela correu mais; avançou pela terra sem ver e, talvez por isso, esbarrou em alguém que vinha na direção contrária.
Um caiu sobre o outro, numa confusão de roupas e pernas. Repentinamente ela se sentiu mais leve e aquecida; abriu os olhos a tempo de ver os orbes esverdeados do cravoniano mudarem para um vermelho gritante e, sem precisar olhar seu próprio reflexo, Arcádia soube que os seus também haviam adquirido aquela mesma tonalidade.
— Cadmo...
— Arcádia...
Os nomes foram sussurrados com a saudade de dois amantes que há anos não se viam. E no alto, sem que ambos soubessem, os Ventos Calmos anunciavam o fim de mais de uma Guerra e o início da Paz.
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