O Dilema do Coveiro

2 Ruídos e fedores


Notas iniciais
Sim, o capítulo não atingiu nem mil palavras, mas isso não quer dizer que eu não tenha demorado para adaptá-lo e escrevê-lo. Então, espero que gostem e comentem :D Recomendo que você preste atenção no porque do nome desse capítulo ser esse e o significado disso na história.

O coveiro continuou escavando o túmulo de seu próprio pai. O calor e o trabalho pesado eram grandes empecilhos, mas a sua vida e a sua mãe dependiam dele. O buraco já estava muito fundo e ele já estava muito cansado quando chegou ao caixão e abriu-o. E ali estava o corpo do seu tão odiado pai. A carne jazia podre e maltratada pelo tempo, muito enrugada e com os dois braços soltos do corpo.

Porém, o coveiro não se assustou e nem se enojou com aquilo, afinal, já estava acostumado com corpos mortos como aquele. A única coisa que sentiu ao vê-lo foi puro ódio e rancor, com apenas um toque de pena, pois mesmo o odiando tanto, aquele ainda era o seu pai.

E mesmo assim, não exitou no que fez a seguir.

— Esses não são os ossos que eu quero. — Usando sua enxada e a sua raiva, bateu no corpo de seu pai com toda a força que conseguiu reunir. Ele precisava daquilo, precisava bater em algo e havia encontrado exatamente isso. Agora, estava um pouco mais leve, porém, isso durou apenas até o momento em que escutou a parte de baixo do caixão rachando, quebrando e levando-o para as profundezas da terra.

Levantou-se e sentiu, junto com a dor, o corpo de seu pai preso debaixo de si. Estava em uma rua comum, iluminada por diversos postes espalhados em ordem pelo lugar, e que até do lado da rua havia uma calçada. Porém, logo percebeu que havia algo de errado ali: o local ficava debaixo da terra, em uma espécie de caverna pequena. Olhou para cima e conseguiu ver o buraco no caixão de seu pai por onde havia entrado.

— O cheiro que você está procurando foi para aquele lado — uma voz fina e estranha falou, de repente. O coveiro, assustado com a companhia repentina, procurou pelo dono da voz sem nada encontrar.

— Estou aqui — a pequena toupeira se agitou para chamar a sua atenção. O coveiro observou-a com uma expressão incrédula — Como eu disse, O cheiro que você está procurando foi para aquele lado. Apenas siga este caminho, fui eu quem o construiu — ela continuou, apontando para a direita em direção à rua.

— Er... Obrigado — gaguejou o homem, tirando o corpo deu seu falecido pai que estava grudado em suas costas e jogando-o no chão.

— Não há de quê — a toupeira fez uma pausa — Apenas tome cuidados com os fedores e os ruídos, você vai encontrar muitos deles no seu caminho. E ande sempre com a sua enxada, você precisará dela! Se precisar de uma nova, me procure. Eu cheiro enxadas o tempo todo.

— Eu gosto da minha enxada — replicou o coveiro.

— Não há nada de errado com novos cheiros. Ser teimoso pode te matar — ela respondeu, fungando e com um rosto descontente.

Repentinamente, quatro caixões enormes caíram da parte de cima da caverna e pararam na frente dos dois, com o homem morrendo de medo e a toupeira apenas observando. Os caixões começam a se quebrar e de dentro saem braços, pernas e a cabeça de vários esqueletos, que usavam a madeira como uma armadura.

— O que são essas coisas?! — o coveiro suava frio e preparava a sua enxada para a luta. Com uma simples fungada, o pequeno animal respondeu:

— Fedores e ruídos.

Os zumbis começaram a andar na sua direção, com os braços esticados e retorcidos prontos para agarrar o seu pescoço. Ele sabia que fora o seu pai que os tinha mandado atacá-lo, e isso só o deixou com mais raiva.

Um dos monstros se aproximou e agarrou a sua enxada, mas o coveiro conseguiu empurrá-lo e usou a ferramenta como um machado para cortá-lo ao meio. O golpe, infelizmente, acabou com a sua enxada, que se dividiu no meio, mas fez a mesma coisa com o inimigo.

— Se sobreviver a eles, procure-me — disse a toupeira, saltando da cabeça do homem e cavando um buraco de fuga no meio da estrada. O coveiro não teve tempo para se preocupar com aquilo, pois o resto do grupo de esqueletos ainda se aproximava. Enterrou o cabo partido de sua ex-enxada no rosto morto de um deles, de onde jorrou um pouco de sangue negro, e com isso conseguiu ganhar tempo para fugir dos outros dois restantes.

Enquanto isso, o corpo falecido de seu pai observava tudo calmamente, com o fantasma dele escondido dentro de si e comandando mentalmente todos os monstros.

Ganhando bastante velocidade na rua, que apenas seguia em frente sem curvas, o coveiro conseguiu manter uma boa distância de seus inimigos, ou era pelo menos isso que ele achava. Mãos gigantes e rochosas começaram a sair das paredes, prontas para capturá-lo, e os postes começaram a se retorcer e quebrar contra o chão, colocando fogo na estrada.

A única coisa que o coveiro poderia fazer era correr. Ele sentia o fogo e a fúria dos monstros logo atrás de si, tentando agarrá-lo e levá-lo para o encontro da morte. Tentou correr e gritar por clemencia, mas sabia que eles nunca desistiriam. E estava com ocupado pensando no seu próprio fim que nem viu o aviso que a toupeira havia deixado no fim da rua, avisando que aquela parte da estrada ainda estava em construção e que na sua frente se encontrava um precipício.

Então, o coveiro simplesmente caiu para a escuridão e para o desconhecido, se despedindo ali dos ruídos e dos fedores e dando um "olá" para a morte iminente.

Notas finais
E então, entenderam o que significam os "fedores e ruídos"? Espero que sim. No próximo capítulo, mas revelações, enxadas e toupeiras! Até lá.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.