O Dilema do Coveiro
1 O seu doloroso dilema
Notas iniciais
O coveiro terminou de enterrar mais um corpo, com a facilidade e experiência de quem já fazia a mesma coisa há centenas de anos, e se dirigiu para o seu pequeno casebre, que ficava no centro do cemitério onde morava e trabalhava.
Adentrou naquela pequena e insignificante construção de apenas um quarto e se sentou em frente à caixa que ficava centralizada em uma das quatro paredes do lugar. Seu rosto pálido, careca, esquelético e marcado por pequenas rugas, lembranças da sua idade, se inflou em um sorriso ardente ao observar a sua querida e mórbida mãe.
— Olá, mamãe — os olhos sem vida do coveiro repentinamente pareceram se banhar com ela, ao conversar com os quietos ossos de sua falecida mãe que ele guardava com tanto carinho naquela pequena caixa — Eu acabei o meu trabalho e vim correndo conversar com você. Hoje foi um dia meio puxado, com muitos corpos para enterrar, mas eu não poderia deixar de falar com você. Afinal, você é tudo que eu tenho. Sem você, eu não sei como continuaria a minha vida.
Ele esperou alguns instantes, imaginando o que sua mãe lhe responderia se estivesse viva. Mas o coveiro sabia que ela não estava, e ao relembrá-lo, suas costas corcundas se curvaram ainda mais por conta da tristeza que aflorou em seu coração. Suas lágrimas rolaram em um choro silencioso, e ele relembrou dos tempos em que sua família ainda era unida e feliz, mesmo que seu pai tivesse que trabalhar arduamente como ele fazia hoje em dia.
Porém, aqueles tempos haviam passado e aquelas lembranças já eram muito antigas.
De repente, um calafrio perpassou o seu corpo e a sua mente, mesmo com o sobretudo marrom que usava, e ele sentiu a aproximação de quem menos desejava encontrar. O coveiro já estava acostumado com aquilo, com as aparições repentinas do fantasma do seu pai morto, mas aquelas visitas diárias nunca o deixaram feliz, nem por um segundo.
O pequeno corpo flutuante, que mais lembrava uma chama azulada e espectral perdida no vazio noturno e que uma vez também já fora um coveiro, atravessou a porta da casa e parou atrás das costas de seu herdeiro.
— Ainda com isso, criança? — O seu pai ainda tratava-o como se fosse um bebê e sempre estava bravo com ele — Quando vai aprender que ela não está te escutando?
O coveiro tentava, em vão, ignorá-lo, mas sabia em seu coração que aquilo era verdade. Só não conseguia admitir.
— Um dia você vai perdê-la, idiota, e então nunca mais vai conseguir encontrar alguma razão para viver além do seu trabalho. E aí não vai adiantar chorar pelo leite derramado. Ouviu, idiota? — o fantasma aumentou a sua voz, mas o coveiro não lhe deu atenção e continuou com a sua solidão e as suas lágrimas.
Os dois ficaram ali, de costas um para o outro, por algum tempo, com o coveiro soluçando e o seu pai esbravejando, até o espectro ir embora e voltar para o seu túmulo. Sozinho, o coveiro foi tomado por sentimentos a muito esquecidos e tentou impedir a saudade de vir à tona. Deitou-se no chão e permaneceu olhando para os ossos silenciosos de sua mãe amada, mas agora sem lágrimas. As palavras de seu pai sugaram a sua vontade de relembrar os velhos tempos em família junto com elas.
Acordou em sua cama, ainda com o sobretudo marrom. Todos os sentimentos haviam sumido e só o que havia sobrado era a indiferença que sempre adotava ao trabalhar, então levantou-se e calçou os sapatos negros. Precisava cumprimentar sua mãe antes de sair para mais um dia enterrando corpos.
Olhou para a caixa e a indiferença logo sumiu: os ossos não estavam mais ali. Era impossível... Nem ele mesmo mexia neles, e o coveiro não conhecia ninguém que poderia ter feito uma atrocidade dessas. E foi aí que ele se lembrou da única pessoa que poderia ter feito aquilo, e começou a suar frio.

Escancarou a porta e correu rapidamente em direção ao túmulo do seu pai, e lá estava ele, observando-o com aqueles olhos mortos que há muito tempo haviam esquecido o que é a felicidade. Chorando como nunca antes, o coveiro correu e correu, porém algo o agarrou antes de chegar ao seu destino. Saindo de suas covas, braços esqueléticos e cobertos de carne podre e terra agarraram os seu pés, impedindo-o de continuar. As mãos agarravam o seu pescoço, braços e pernas e os dedos gelados tentavam, em vão, sufocá-lo.
— O QUÊ VOCÊ FEZ COM ELA?! — O coveiro estava tão furioso que nem percebeu o quê estava segurando-lhe. Não conseguia tirar os olhos daquele espectro cintilante que olhava-o com um leve sinal de desapontamento nos olhos.
— Ela pertence a mim agora, filho. Você está preso a ela há tempo demais — a calmaria da voz do pai surpreendeu-o, mesmo que no fundo de sua mente.
— MAS EU PRECISO DELA! É TUDO QUE EU TENHO! — O homem não conseguia conter suas lágrimas de raiva e tristeza que estiveram acumuladas por muito tempo no fundo da sua alma.
— Já chega! Está na hora de você crescer! — o grito do fantasma foi tão estridente que calou os do seu filho — Eu finalmente vou sair da sua cola, garoto, mas você precisa continuar o seu trabalho. E não tente vir atrás dela ou você vai se dar extremamente mal.
O corpo fantasmagórico desceu para o seu túmulo, dirigindo-se para sabe-se lá onde. As mãos mortas e insistentes finalmente largaram o coveiro, que caiu esparramado no chão. Ele não encontrou nenhum motivo para se mexer por algum tempo, mesmo que enviassem cada vez mais corpos para serem enterrados. Parado e quieto, ele se lembrou dos bons momentos que teve com a sua mãe e com os seus ossos. E assim permaneceu, soluçando e lembrando, até se dar conta do que tinha que fazer.
Estava óbvio desde o inicio, ele apenas não havia percebido: tinha que continuar o seu trabalho, assim como o seu pai tinha mandado.
O coveiro se levantou, pegou a sua enxada e se dirigiu ao túmulo do pai. Esse era o seu temeroso e doloroso dilema: ir atrás dela ou ficar e continuar com a sua vida. O homem parou para pensar por alguns instantes...
E então começou a cavar.
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