O Dilema de Calic
3 Constrangedor? Imagina!
Assim que Calic saiu do palco sentiu uma sensação de satisfação que jamais tinha sentido antes! Seus colegas da companhia vieram cumprimenta-la, será que havia conseguido?
— Senhorita Fuller? — Morgana, a diretora da companhia, era uma mulher idosa mas as aparências enganam ela ainda dançava melhor do que muitos dos seus professores- Estou muitíssimo satisfeita com o seu desempenho minha jovem!
— Será que consegui?
— Vamos descobrir em um segundo, veja só- ela apontou para um dos jurados que vinha em nossa direção.
— Calic Fuller? Sou Peeter Ludwig, um dos professores da companhia russa de Bolshoi. Preciso dizer, essa foi uma das melhores apresentações que já presenciei e em nome da nossa escola gostaria de lhe oferecer o benefício de se juntar a nós. Estaria interessada?
— Sim!- Calic quase gritou e o homem sorriu- perdão, sim eu ficaria muito feliz!
— Ótimo, vou mandar as especificações mas esteja pronta para deixar Louisiana ainda hoje.
Sem dizer mais nada ele se virou e foi embora. Ao se virar viu seus pais (e nada de Dean e Kim) atrás dela.
— Ah meu bem! — sua mãe estava com os olhos cheios d’água- estou tão orgulhosa mas... tem certeza?
— Serafine! A nossa menina deu duro para isso então é claro que ela tem certeza, não é?
Seu pai a olhava de um jeito estranho, era como se ele soubesse de tudo!
— Eu tenho pai, precisamos ir agora- a voz de Calic era quase um sussurro.
— Tudo bem, vamos chamar sua irmã, o Dean e Noah- Serafine já estava quase saindo quando Calic segurou sua mão.
— Não. Eu quero ir pra casa e depois direto para o aeroporto.
— Como assim? Não quer se despedir da Kim? — ela parecia perplexa.
— Mãe, eu...
— Vamos meu bem, ela já está atrasada- Ted tocou o rosto da esposa que não entendia nada do que estava acontecendo mas decidiu não discutir.
Quando seu pai ligou o carro e estavam prestes a sair, Calic olhou para trás e viu Dean beijar Kim nas escadarias da escola, foi como levar um soco no estomago mas não podia reclamar, afinal já tinha tomado uma decisão.
10 anos depois...
Calic estava saindo do banho e olhou para cama vendo Marvin, um dançarino de dança contemporânea da Espanha, é ela realmente soube aproveitar, Marvin abriu os braços e sorriu.
— Vamos lá você venceu, sua flexibilidade é melhor que a minha, já está provado- ele riu e Calic atirou sua toalha nele.
— Mas é claro que sim, bailarinas clássicas são mil vezes mais flexíveis- ela engatinhou na cama e deu um beijinho nele, Marvin rolou para cima de Calic a deixando de bruços.
— Talvez sim, talvez não. Quer testar essa teoria mais uma vez?- Calic saiu habilidosamente de baixo dele e colocou seu vestidinho rosa de verão.
— Não. Você tem que ir embora ou vai perder seu voo- Marvin suspirou levantando da cama e colocando suas roupas.
— Me diz mais uma vez porque você insiste nesse lance de transa casual?
— Primeiro, não é da sua conta, segundo, Marvin você não presta e terceiro nós dois somos espíritos livres meu bem.
— Tem razão- ele gargalhou- bom, estou indo e da próxima vez que for a Espanha me liga.
— Pra quem mais eu ligaria?
— Quer que eu responda? — eles riram, Marvin se aproximou e beijou seus lábios.
Calic o levou até a porta e ao fechar sua colega de apartamento colocou a cabeça para fora da cozinha. Rubi era uma beldade negra africana e uma das melhores bailarinas que Calic já tinha visto.
— Noooooossa! Vocês não se cansam fazer sexo por tanto tempo? Pelo amor de Deus ficaram quase o dia inteiro dentro daquele quarto e os sons?!
— Já terminou? Você não tem nada de mais interessante para fazer do que ficar me ouvindo transar? E a sua namorada a Keila?
— É Kelly. Nós temos um relacionamento aberto e hoje eu fiquei de sair com aquele gostosão jogador de Hóquei.
— Você não presta- as duas desabaram no sofá.
— O Peeter ligou, ele queria confirmar o ensaio de amanhã a noite.
— E o que você disse?
— O que você acha? Que sim é claro, nem sei porque ele ainda liga perguntando e...- Rubi olhou para ela com uma expressão estranha.
— O que foi?
— Sua irmã ligou- Calic quase engasgou. Kim não falava com ela já fazia 10 anos!
— O que?! Por que você não me chamou?
— Talvez porque você estava entre gemidos no quarto com o Marvin!
— O que ela queria? Coisa boa não deve ser, se não mamãe ou papai teria ligado- será que eles estão bem?....
— Ela não disse, só pediu pra você retornar. Posso perguntar uma coisa?
— E eu tenho opção?
— Nos dez anos que eu te conheço porque você nunca quis ir pra casa? Não sente falta dos seus pais? E a sua irmã, por que vocês não se falam?
— É complicado, eu acho que ela ficou irritada porque na noite em que eu foi para Russia eu não quis me despedir.
— Porra... Que tipo de irmã você é?
— Do tipo que não te interessa Rubi. Cadê a droga do celular? Preciso falar com meus pais.
Calic digitou os números e ligou, por um minuto pensou que ninguém iria atender até que escutou a voz de sua mãe.
— Mamãe?- Calic estava um pouco hesitante pois sua mãe também estava chateada com ela só que continuava falando com ela mesmo assim.
— Calic... Você precisa vir para casa- a voz dela não soava nada bem.
— Porque? O papai está bem?- seu coração quase parou por um instante.
— Sim e não. Seu pai está arrasado filha. O Noah... ele sofreu um acidente de carro e...- a voz da sua mãe ficou embargada. Ah não, Noah era o melhor amigo do seu pai.
— Sinto muito mamãe.
— Dean está acabou de chegar da Itália, ele cancelou todas as suas corridas dessa temporada ele está arrasado. Mas Kim está tentando dar todo o apoio possível.
— Bom pra ele, mas mãe eu não sei se vou poder ir e afinal o que eu vou poder fazer?
— Calic! Pelo menos uma vez na sua vida pense em alguma coisa além da sua carreira.
A linha ficou muda. Nossa ela desligou na minha cara!
— O que foi que aconteceu? Seu pai está bem? — Rubi parecia aflita, em todas as conversar pelo Skype ela sempre fez questão de conversar com meu pai.
— Fisicamente sim mas o melhor amigo dele faleceu.
— Deixa eu ver se entendi, mesmo assim você não quer ir pra casa? — Rubi parecia chocada- O que tem de tão horrível em Mooringsport?! Uns dias lá não vão te fazer mal.
Calic suspirou, ela tia razão, não poderia fugir a minha vida toda e seu pai precisava dela. Dean que fosse para o inferno.
— Vou arrumar a minha mala e é bom você fazer o mesmo pois vai comigo- Rubi pareceu gostar da ideia.
— Sim senhora!
Algumas horas depois elas já estavam no aeroporto esperando pacientemente o seu voo ser chamado. Uma menininha que estava fantasiada de bailarina arregalou os olhos quando a viu, ela começou a puxar freneticamente o casaco do pai até que desistiu e veio correndo na direção de Calic, para ficar na altura da garotinha Calic se ajoelhou.
— Olá- a menina sorriu e Calic percebeu que faltavam alguns dentes- Meu nome é Ella!
— Oi Ella!- Calic sapecou um beijinho na bochecha da menina e Ella parecia que ia desmaiar.
— Sou sua fã! Vi uma apresentação sua na Russia com meu papai, sou uma bailarina também vê? — ela rodopiou seu collant.
— Ella! — um homem veio correndo até onde as duas estavam- Você não pode sair de perto de mim.
— Eu tentei te chamar mas você não quis ouvir- Ella parecia brava com o pai. O homem olhou para Calic até que entendeu o que estava acontecendo.
— Sou Charlie, pai dessa moça- ele sorriu.
— Acho que sua filha tem muita força de vontade, isso fará dela uma bailarina incrível.
— Viu papai! — Charlie riu e pegou Ella nos braços.
— Sim querida esse é um grande elogio, agora diga tchau o nosso voo já foi chamado- Ella deu um tchauzinho triste para Calic e os dois foram se afastando.
Calic sorriu, era ótimo ser fonte de inspiração para crianças. Rubi apareceu do seu lado e deu uns tapinhas em seu braço.
— É minha amiga, acho que um dia você vai ser uma excelente mãe- Calic se assustou com o comentário de Rubi.
— Daqui a vários anos- elas riram.
— Comprei uma revista, olha só quem está na capa! Aquele gostosão piloto de de F1 que você é fã, Dean O’Nel- Calic se sentiu culpada por nunca ter contado sobre Dean para Rubi.
— Não sou fã dele!
— Então porque você assiste todas as corridas?
— Você sabe gosto das corridas...
— Sei, bom eu vou no banheiro- Rubi jogou a revista do lado de Calic e saiu andando.
Calic pegou a revista e ficou admirando Dean, ele estava espetacularmente sexy os anos fizeram muitíssimo bem a ele. Dean estava mais forte, seus ombros mais largos, a mandíbula maior e perfeitamente quadrada, suas feições estavam mais maduras. As únicas coisas que permaneciam as mesmas era o cabelo loiro que caia em seus olhos azuis e o sorriso malicioso. Pelo amor de Deus! Dez anos longe e Calic ainda se sentia uma verdadeira adolescente ao pensar nele.
Calic tomou um susto ao ouvir seu voo ser chamado, Rubi apareceu do lado de fora do banheiro e a chamou, as duas foram em direção ao embarque. Calic rezou silenciosamente para que as horas passassem mais rápido, estava ansiosa para chegar e ver todos mas não sabia como iria ser recebida afinal foram dez anos longe, felizmente o sono chegou logo e em um piscar de olhos já estava em Louisiana.
As duas alugaram um carro e foram para a casa de sua infância, Calic observou que poucas coisas haviam mudado até que chegaram em frente à sua casa, Rubi estacionou e elas subiram as escadarias da varanda. Calic nem precisou tocar a campainha pois Serafine abriu a porta, as duas se assustaram, sua mãe estava linda e elegante como sempre e com apenas alguns fios brancos escondidos no cabelo. Uma lágrima escorreu pelo rosto de Serafine que agarrou a filha pelos ombros e a abraçou.
— Você veio! – Uma sensação de conforto se espalhou pelo corpo de Calic.
— Oi mamãe, trousse uma amiga comigo, essa é Rubi.
— É um prazer Sra. Fuller- Rubi sorriu calorosamente e Serafine retribuiu o sorriso.
— Vamos entrem! Calic seu pai está no jardim, deveria ir lá com ele e Rubi você deve estar com fome porque não me acompanha?
Serafine foi arrastando Rubi para a cozinha, sua mãe era assim, Calic foi andando até o jardim que era o orgulho e alegria do seu pai e lá ela o viu sentado em um balanço, quando Ted a viu ele colocou uma mão no coração e correu para abraça-la. Calic não conseguiu quase desabou nos braços do pai, ela precisava disso.
— Minha menina...
— Sinto muito papai, queria ter estado aqui com você.
— Você está aqui agora- ele a olhou e sorriu- por que não avisou que vinha? Eu teria ido te buscar no aeroporto.
— Não quis incomodar, vocês deveriam estar ocupados organizando tudo. Sei que Noah era como um irmão.
— É.... aquele cabeça dura deveria ter esperado a chuva passar mas prefiro acreditar que Deus quis assim.
— Onde Kim está?
— Sua irmã foi no mercado mas daqui a pouco aparece por aqui e Dean está dormindo.
Calic quase caiu para trás.
— Ele está aqui? — ela tentou parecer calma.
— Sim, sua mãe insistiu para que ele ficasse aqui e não naquela casa.
— Entendo, muitas lembranças não é?
— Isso.
— Pai eu trouxe uma amiga e se não tiver lugar aqui nós vamos para um hotel...
— O que?! Nem pensar, sua mãe e eu fizemos umas reformas e acrescentamos alguns quartos então sem desculpas, você vai ficar em casa. Preciso entrar um instante mas já volto.
“Merda, merda, merda” ela viu que não tinha como convencer seus pais do contrário, perfeito, os três em baixo do mesmo teto, Calic fechou os olhos massageando a têmpora até que...
— Calic? — uma voz grave e familiar chamou seu nome, os pelos do seus braços ficaram arrepiados no mesmo segundo. Ao abrir os olhos viu Dean descalço e de cabelo bagunçado como se estivesse acabado de acordar, se nas fotos e na televisão ele parecia grande pessoalmente era bem maior.
Ele se aproximou e Calic teve que levantar a cabeça para conseguir olhar seu rosto, ele parecia realmente assustado ao vê-la, ela nem precisava de um espelho pra ver a expressão abobalhada que estampava seu rosto.
— É...- ela precisou tossir um pouco pois sua voz tinha saído meio fina de mais- Oi Dean.
Ele balanço a cabeça como se tentasse espantar alguma coisa de sua mente.
— Você está ótima- ele disse meio sem jeito e Calic observou Dean correr os olhos pelo corpo seu corpo.
— Obrigada, olha sinto muito por seu pai.
— Obrigado- ele assentiu- Sua mãe não me disse que viria.
— Bom nem ela sabia que eu vinha, decidi de última hora então aqui estou- ela abriu os braços para enfatizar e ele entendeu isso como um convite para um abraço. Dean a ergueu enquanto a abraçava e Calic aproveitou o momento e agradeceu a todos os santos que existiam, ele ainda cheirava a brisa do mar e algo a mais, um cheiro que era só dele.
— Calic? — ela escutou a voz de Rubi vinda da porta, ela pulou para longe de Dean.
— Rubi esse é...- Rubi largou o biscoito que estava comendo no chão e arregalou os olhos.
— Puta merda Calic! Você sabe quem está agarrando? Dean Gostoso O’Nel! — ela quase gritou e Dean segurou o riso ao olhar para Calic que estava com o rosto escondido nas mãos. Rubi correu para perto dos dois e com um dedo cutucou o peitoral de Dean como se não acreditasse no que via.
— Jesus, Rubi não...- ela sussurrou mas a amiga maluca não ouviu ou fingiu não ouvir.
— E você quem é? – Dean perguntou para ela, Rubi parecia que ia entrar em combustão espontânea.
— Sou quem você quiser meu bem- Dean gargalhou- mas meu nome é Rubi, sou amiga e colega de apartamento da Calic.
— É um prazer- Dean a beijou no rosto só para provocar.
— Não me entenda mal mas o que você está fazendo aqui? — Rubi perguntou, Dean olhou Calic com dúvida.
— Ela nunca falou de mim? — Dean apontou para Calic, merda estava ferrada.
— Vocês se conhecem? — Rubi parecia um pouco irritada.
— Nós crescemos juntos- Calic disse e Dean a olhou levantando as sobrancelhas como se dissesse “só isso?”
— E você sua piranha não me disse nada?!
— O momento nunca surgiu? — ao dizer isso Calic percebeu que tinha feito uma besteira, Rubi gargalhou.
— Jura? E todas as vezes que assistimos as corridas dele? Você poderia ter dito “a propósito eu sou amiga de infância dele” – Calic arregalou os olhos pedindo silenciosamente para Rubi calar a maldita boca.
— Espera um segundo, ela assistiu as minhas corridas? – Dean não sabia se ria ou se ficava surpreso.
— Ela é uma grande fã... — Calic tapou a boca da amiga com a mão antes que ela dissesse mais alguma coisa.
— Ora, ora isso é surpreendente- Dean riu ao olhar para Calic.
— Não se empolgue, tenho uma reputação a zelar- Calic resmungou.
Dean estava com um sorriso que dava para ver até de costas.
— Mas o que está acontecendo aqui? – Kim apareceu na porta e Calic quase correu para abraça-la mas a expressão irritada da irmã a impediu, ela caminhou até o lado de Dean.
— Oi Kim- Calic sorriu mas Kim não disse nada- Obrigada por me ligar.
— A mamãe me obrigou mas felizmente você não atendeu então presumi que não iria vir- a voz de Kim era fria que nem gelo.
— Kim, por favor menos- Dean disse entredentes.
— Nossa vocês duas são realmente idênticas- Rubi finalmente se manifestou.
— E você quem é? — Kim perguntou.
— Sou amiga da Calic. E você pelo visto é a irmã- Kim resmungou algo como “infelizmente”.
— Que seja, Dean eu trouxe aqueles pãezinhos que você gosta- ela o olhou e antes que ele dissesse algo Kim ficou na ponta dos pés e o beijou, Dean a segurou pelos ombros e a afastou.
Bom isso sem dúvidas isso acabou com o resto do meu dia.
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