O Diario Da Mamãe
3 Capítulo 3
13.09.12
Ah, diabos. Hoje me sinto verborrágica.
Por que será?
Será que a catapulta foi o domingo? Minha sede de vingança só me leva a pequenos equívocos, que seriam nulidades caso não fosse a dimensão que tomam. Mas a gente cria a dimensão, não?
Nossos valores, crenças, tudo pontua o que queremos ou não dar valor. Aquela máquina extraordinária parece tão distante, tão longe do que já vi, vivi em tão curto espaço de tempo. O pior é ver tudo isso acontecer na sua frente e não ter nada a dizer ou melhor, não ter nada a sentir. Como domingo.
Escrever para esquecer.
Escrever para reviver e talvez dar à dor a dimensão que talvez merecesse.
Escrever para esquecer e voltar a reviver a dor.
Escrever para ter a dor do esquecer.
Escrever para voltar a ter dimensão que talvez mereço.
Bar. Bebida. Homens. Muitos deles. Caio em clichês de sofrer. Um homem para sorrir. Dois para esquecer de outro. Três para me afirmar. Quatro, cinco.
Uma dúzia deles para me lembrar que de caçadora à caça, tudo vai num piscar de olhos. Maldita doca. Maldito bar de doca. Maldita eu, puta barata.
Puta intelectual, puta da carne, puta do sofrimento. Eu aguço a dor. Ela me cobra, não tenho como pagar. Puta. Puta.
Puta, assim você consegue pagar. Aquele marinheiro de barba rala, olhos fascinantes, azuis. Azuis como seu barco, foi como ele sorriu ao dizer. Por que ele fez o que fez? Por que eu deixei?
Imensidão. Talvez o ar marinho? Talvez a praga em meu sangue? A trepada ocasional, roubada, dentro de um banheiro tornou-se uma profusão de corpos, de dores, de orifícios penetrados, de violência. Mas a violência está dentro de mim, latente, pujante, mas covarde o suficiente para se render.
Cá estou recolhendo os cacos de meu corpo violado, machucado, sem vida, sem brilho, sem cor. Penso que devo me reinventar, mas minha reinvenção é como a linha do horizonte que pontua o mar e o céu: rasa, única, sem dimensão.
Cacos?
Deveria eu, então, pegar um deles e rasgar mais um pouco minha pele e deixar escorrer essa gosma que me monta, que me faz funcionar, que tenta dar sentido há alguém tão sentido?
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