O Diabo veste terno
8 Sexta-Feira muito louca
Notas iniciais
POV Bella
Quando finalmente consegui dormir, o alarme soou estridentemente.
Merda.
Vire-me na cama, olhando para o teto.
Eu não vou.
Vou ser demitida mesmo, que diferença vai fazer?
Vou ficar aqui, vou dormir...
Então meu subconsciente fez uma careta.
Covarde.
Suspirei puxando os lençóis.
Era assim que minha mãe fazia quando eu não queria levantar cedo.
Quanto mais cedo eu encarasse o monstro, mais cedo ele me deixaria em paz.
Pelo menos era o que eu esperava.
Resolvi não comer nada antes de sair, ainda sentia meu estomago embrulhado.
Depois de um rápido banho, coloquei um vestido cinza de tecido grosso e mangas longas, e uma meia calça preta fio 40. Calcei as botas e desci.
(...)
Estava encarando o imenso prédio da Elias Clark.
Coragem. – Eu dizia a mim mesma.
Engraçado, hoje a Victória não me ligou, e olha que ela sempre faz isso, geralmente para me mandar buscar alguma coisa, ou apenas para ser grosseira mesmo.
Mas como hoje eu estava me sentindo como alguém que acaba de quebrar o vaso favorito da mãe, resolvi ir até a Starbucks e peguei os cafés, mesmo sem ninguém solicitar.
Respirei fundo e abri a porta do carro.
Tomara que eu não encontre com ele no caminho.
Tomara que eu não encontre com ele no caminho.
Eu repetia esse mantra enquanto pegava o elevador.
Olhei o relógio: 06:45.
Ele costumava chegar aqui sempre depois das sete, mas ultimamente ele sempre estava aqui antes de mim.
Cheguei ao meu andar, e Angela estava em seu posto.
— Bom dia Bella. – Ela disse sorridente.
— Bom dia Angela. – Eu disse, desanimada devido a situação. – Edw, quer dizer, o Senhor Cullen já chegou? – tentei dizer em um tom despreocupado.
— Ainda não. – Ela informou.
Ufa. – Suspirei aliviada.
Mas isso não significava que eu deveria ficar calma.
— Obrigada. – Eu disse, e atravessei a porta de vidro equilibrando os copos.
— BELLA! – A voz de Alice me pegou de surpresa, que fez com que eu literalmente jogasse os copos de café para cima, derrubando em minha roupa.
— Eu te assustei? – ela disse dando um sorrisinho amarelo.
— Alice! – eu disse indignada. – É claro que você me assustou! Eu não esperava chegar e ter essa recepção!
Eu tentava limpar a sujeira com a mão mesmo.
— Desculpe Bella. – Ela disse se aproximando de mim. – Eu juro que não foi intencional. – Ela pareceu sincera. – Vem comigo. – Ela disse estendendo a mão.
— Como assim, onde? – Eu disse. – Alice eu preciso...
— Vem logo e não fala nada, só anda. – Ela disse mandona, e por um momento pareceu o irmão dela.
Nós atravessávamos um imenso corredor de vidro, logo viramos à esquerda, onde havia uma porta dupla que eu nunca havia visto. – Até por que eu nunca ficava andando pelo prédio. Depois de entrar por essa porta, eu vi vários rostos conhecidos de funcionários que eu só via casualmente, ou no refeitório.
— Bem vinda onde a mágica acontece. – Ela disse sorrindo. – Este é o departamento de roupas. – Ela disse estendendo os braços como se acabasse de realizar um número de mágica.
O cômodo era gigantesco. Haviam algumas estilistas discutindo, algumas mulheres com manequins e fitas métricas, e araras de roupas.
Araras e mais araras.
— Eu já volto! – Ela disse saltitante, então vi Alice sumir por um instante, enquanto eu admirava hipnotizada todas aquelas roupas.
Eram fascinantes.
Roupas que provavelmente custavam mais do que três meses do meu salário aqui.
Então vi ela voltando e parecia segurar algo nas mãos.
— Acho que esta deve servir. – Ela disse me entregando um tecido vinho. – Normalmente eu diria para você me devolver, mas aceite como desculpas por eu ter feito você se sujar. – Ela sorriu, e eu fiquei parada. – De nada.
— Err, obrigada, eu acho. – disse pegando o tecido de suas mãos. Era um vestido com um corte muito moderno e de mangas finas.
Que macio...
— Que tecido é esse Alice? – Eu disse enquanto apertava o tecido nas mãos.
— Ah, é lã Vulcana, é um tecido muito nobre que venho trabalhando com os estilistas. – Ela me informou. – Enfim, se troque, agora eu preciso voltar ao trabalho. Depois me conte o que achou.
(...)
Eu finalmente voltava para a minha sala.
07:09
Que silêncio.
Edward ainda não chegou?
Nem Victória?
Estranho.
Será que o buraco do inferno abriu e resolveu levar os dois?
Por um momento me diverti com o pensamento.
Resolvi ir no computador de Victória para me adiantar, e imprimir a agenda dele.
Eu tirava a folha da impressora quando a porta foi aberta.
— INFERNO – Ouvi uma voz familiar. Olhei para trás para ver se a Carminha da Avenida Brasil não tinha encarnado ali, mas a voz era masculina. –ENTÃO APENAS DIGA A ELE QUE EU NÃO VOU ACEITAR ESSE TIPO DE MERDA . – Uma pausa. – NÃO! – ele disse agora em um tom mais ameaçador. Ele estava metade com o pé dentro da sala e metade fora.
Vi uma das funcionárias mudar a direção quando viu ele parado e gritando com sabe-se lá quem no celular.
Era um péssimo dia para ser demitida, ainda mais se ele já chegou assim soltando os cachorros.
Ai Jesus Cristinho, tô ferrada.
– POIS DIGA AO INCOMPETENTE DO SEU SÓCIO QUE EU NÃO VOU MAIS ENCOMENDAR NADA! NÃO, EU JÁ DISSE QUE NÃO! NÃO IMPORTA SAM, EU DISSE CLARAMENTE O QUANTO ISSO ERA IMPORTANTE NA REUNIÃO. – Ele pausou novamente bufando. – Você tem até as oito horas. Nem mais nenhum minuto.
Então ele finalmente desligou o celular. Seu rosto estava vermelho. – De raiva. Fez-me lembrar da primeira vez que eu o vi, e coincidentemente ele estava nervoso e gritando com alguém.
— Bom dia. – Ele disse olhando em minha direção e entrou em seu escritório batendo a porta.
BOM DIA?
COMO ASSIM?
Olhei para trás para ver se era comigo.
Eu tô sonhando.
Já sei.
Eu não tomei o café da manhã, e devo estar delirando.
É só pode ser isso.
Não tem outra explicação.
— Bella? – Ouvi Alice me chamar.
— O que?
— Eu perguntei o que achou do vestido. – Ela disse com as pastas embaixo do braço. Eu nem tinha reparado que ela estava falando comigo.
— Ah. – Eu disse arrumando a postura na cadeira. – Eu gostei Alice, muito confortável.
Seu rosto se iluminou.
— Ele vai ser lançado no mês que vem – Ela disse colocando as pastas na mesa. — Na verdade Bella, eu vim aqui te pedir um favor. – Ela disse mordendo a boca.
— Pode falar. – Eu disse enquanto digitava o cronograma no computador.
— Eu queria que você viesse comigo até a sala do Edward para mostrar para ele o vestido. – Ela disse como se tivesse me pedido um batom emprestado. – Sabe, é que ainda ele não viu o modelo no corpo.
Ai Alice, por que você quer me meter nessas enrascadas?
Se eu negasse eu seria mal agradecida?
Por outro lado, eu não queria ter que encarar meu Chefe.
— Alice, eu não sei se...
— Ah Bella, por favor vai, nunca te pedi nada. – Ela disse fazendo beicinho.
Ela estava me pedindo de um jeito que eu não sabia se seria possível dizer não.
Franzi a testa. Então olhei para a mesa vazia a poucos metros da minha.
— O que aconteceu com Victória? – perguntei tentando mudar de assunto.
Alice olhou para trás.
— Ela não te contou? – ela disse franzindo a testa.
Ah claro, como se Victória fosse do tipo que trocava confidencias comigo.
— Não. – Respondi.
— A mãe dela teve que ser transferida para um hospital em Albany, e ela precisou ficar com ela. – Ela informou. – A mãe dela tem câncer.
Nossa.
Será que era por isso que ela era tão ranzinza assim?
Por um momento me senti mal por ela.
— Então. – Ela disse me tirando de meus devaneios. – Você vem?
— Onde? – Eu disse fingindo não saber do que ela estava falando.
— Na sala do Edward! – Ela disse revirando os olhos.
Nesse momento a porta foi aberta.
— Isabella. – A voz de Edward soou da porta. – Providencie a minha agenda e cancele a reunião das 15:00.
— Sim, senhor Cullen. – Eu disse sentindo nervosismo em minha voz. – Já providenciei a sua agenda. – disse indo em direção a ele.
Entreguei a ele, e senti seus olhos no vestido.
Tempo demais do que o necessário.
— Hum, hum, — Ouvimos Alice pigarrear. – Edward, era isso que eu estava tentando falar para Bella. – Ela disse vindo em minha direção. – Este vestido será lançado no mês que vem pela revista. – Ela disse orgulhosa.
Ele levantou uma sobrancelha.
— E por que ela está usando agora? – Ele disse a encarando.
— Longa história. – Ela disse. – O que achou?
— Acho que não tenho tempo para isso agora Alice. – Ele respondeu seco. Então se virou para mim. – Preciso que Jane providencie o ensaio para segunda, e peça para Irina ir até New Rochelle. Quando Embry chegar, mande-o direto para o departamento de tecidos. Quero que ligue para o escritório da Victoria Secret´s, e peça para falar com Nahuel. O pessoal da Banana Republic já ligou para confirmar?
— Não. – Eu disse tentando me concentrar para não perder nenhum detalhe.
— Então ligue e peça para falar com a administradora e confirme a reunião das 13:30. Quero água com gás, e traga uns comprimidos de dor de cabeça também. – Ele disse, dando mais uma olhada no vestido, e depois olhando para os pés, então se virou para abrir a porta de sua sala . – Alice, preciso discutir alguns detalhes com você para a reunião da tarde.
Alice olhou para mim, dando um sorriso e entrou na sala, então ele fechou a porta.
E posso jurar que vi um sorriso escapar de seus lábios.
Fiquei parada por um momento.
Nossa.
Ele não me demitiu, e nem parece ter se incomodado com o ocorrido.
Isso era bom?
E se ele estivesse fazendo isso, e resolvesse me demitir mais tarde?
Era melhor eu começar a anotar tudo o que ele disse, antes que eu esquecesse tudo.
(...)
Já era quase hora do almoço, e eu terminava de fazer algumas planilhas. Isso era o trabalho de Victória, mas como ela não estava aqui, eu tinha que fazer o trabalho dela e o meu.
— ISABELLA. – Ouvi a voz de meu chefe me chamar.
Por que será que toda vez que ele fazia isso eu sentia que ia infartar?
Abri a porta e só depois que me dei conta que não havia batido.
Bati na porta depois dela já estar aberta, e ele me olhou como se eu tivesse algum problema mental, e revirou os olhos.
Ué, melhor do que não bater.
— Você já providenciou o meu almoço? – Ele disse enquanto olhava a tela do notebook.
Merda, esqueci.
— Não senhor, mas eu já vou...
— Não. – Ele disse me interrompendo. – Não precisa encomendar nada hoje.
Franzi a testa sem entender.
— Você já está saindo para o almoço? – Ele perguntou, ainda sem tirar os olhos da tela.
— Estou. – Disse, e soou quase como uma pergunta.
— Ótimo. – Ele disse fechando o notebook. – Então vamos.
Fiquei parada em choque.
O QUÊ?!
Eu ouvi direito?
Não é possível.
Quem abduziu meu chefe?
Desde quando ele usa o refeitório da empresa?
Era piada.
Só pode ser piada.
Primeiro ele não me demitiu.
E ele tinha motivos para isso.
Depois ele me deu bom dia.
E agora vai almoçar no refeitório?
— Você não vem? – Ele disse pegando o paletó na cadeira, indo em direção a porta, onde eu ainda estava paralisada.
— C-claro. – Eu disse desnorteada, sentindo as pernas bambas.
Ele abriu a porta me dando passagem.
Assim que ele veio ao meu lado, senti olhares em nós, com se eu estivesse com uma grande placa de neon pendurada no pescoço.
Pegamos o elevador, e foi como ontem quando eu cheguei.
Só nos dois.
Isso estava começando a me deixar nervosa.
Eu estava tentando absorver essa novidade.
— Você sempre come aqui? – Ouvi a voz de Edward me tirar do transe.
— O que?
— No restaurante da empresa.
Sério mesmo que ele estava puxando assunto comigo?
— Ah, claro. – Respondi. – E você já comeu aqui?
O elevador então abriu.
— Nunca. – Ele respondeu.
Nunca?
E resolveu fazer isso hoje, sabe-se lá quantos anos depois que ele trabalha aqui?
Saímos e fomos em direção ao corredor que nos levaria até o restaurante dos funcionários.
É claro que não era só eu que estava surpresa em vê-lo no restaurante da empresa. À medida que andávamos pelo imenso salão do refeitório, senti os olhares cobiçados das outras pessoas.
É gente, eu sei, também estou chocada.
Agora será que dá para parar de olhar para ele, como se fosse um doce na vitrine?
Edward se virou em minha direção.
— O que eu pego? – ele disse franzindo as sobrancelhas assim que chegamos em frente as cubas térmicas de self-service.
Ele estava perguntando para mim o que comer?
Sério?
Quando eu ia responder: “sei lá, não sou sua mãe.” Mudei de ideia e resolvi ser educada.
— O que você gosta de comer?
Ele pareceu pensativo.
— Eu gosto dessa coisa amarela.
Olhei para o que ele estava apontando.
— Purê?
— Sim. – Ele sorriu.
Então naquele momento eu estava na fila com o meu chefe, fazendo o seu prato, e as pessoas não sabiam nem disfarçar enquanto passavam e olhavam surpresas.
(...)
— Vamos sentar aqui. – Ele disse apontando uma das mesas vazias.
Coloquei o seu prato na mesa, e segurava a minha bandeja.
— Você não vai se sentar? – ele disse enquanto desembrulhava os talheres dos guardanapos.
Me sentar?
Com ele?
— Ou você prefere comer em pé? – Ele disse levantando uma sobrancelha em desafio.
Segurei a língua para não mostrar-la como uma criança de cinco anos faria, e me sentei da forma mais elegante possível.
(...)
Comíamos em silencio, nesse meio tempo, tentei ignorar os olhares vindos em direção a nossa mesa.
Que foi gente, caiu o balão aqui?
Coisa mais desagradável.
— O que foi? – Edward perguntou olhando em minha direção.
Balancei a cabeça.
— Nada. Só acho que os seus funcionários estão surpresos por ver finalmente a majestade descer da torre e se misturar com os plebeus.
Por um momento me arrependi de ter dito isso, mas para a minha surpresa, ele torceu a boca de lado, revelando um sorriso divertido.
— Não sabia que os meus súditos ficariam tão honrados assim com a minha majestosa presença. – Ele devolveu no mesmo tom sarcástico.
Convencido.
Então olhei para o salão.
Alice não havia aparecido, geralmente era ela quem me fazia companhia na hora do almoço.
— Está procurando por alguém? – Edward perguntou olhando para mim.
— Alice. – Eu informei. – Ela não está aqui.
— Ela foi para Yonkers em uma reunião com a administradora da Banana Republic.
Alice em uma reunião sem a presença dele?
Não era muito comum.
O restante do almoço conversamos sobre poucas coisas, todas relacionadas ao trabalho, e pela primeira vez não foi uma conversa desagradável.
(...)
— ...E diga que preciso que a encomenda chegue na segunda feira cedo. – Ele falava ao celular enquanto o elevador nos levava ao nosso andar. – Sim, diga a ela que quero cinco estampas florais de diferentes modelos. – Uma pausa. – Então selecione as melhores. – ele continuava ao celular, mas desta vez ele apenas conversava, e não gritava como sempre costumava fazer.
Hoje o dia estava estranho.
Meu chefe estava de bom humor?
Era por que hoje era sexta-feira?
Ou talvez a mulher em seu apartamento fez um bom trabalho.
Por um momento me senti incomodada ao pensar isso.
Balancei a cabeça para tirar esse pensamento.
Chegamos ao nosso andar e Edward já havia desligado o telefone.
— Quando Alice chegar, diga a ela que as encomendas chegarão na segunda, e ligue para o Demarchelier e desmarque a reunião da terça. Mude o cronograma da minha agenda invertendo a reunião da quarta para a segunda, peça a Kate para vir em minha sala. – Uma pausa. — Quero meu café puro sem açúcar e descafeinado me esperando.
Voltando para o modo normal.
Então ele se dirigiu a sua sala.
— E Isabella? – ele parou em sua sala. – De agora em diante você que vai fazer a entrega do livro em minha casa. – Ele disse, e senti minhas pernas tremerem.
— E-eu...- gaguejei nervosa ao me lembrar da noite passada.
— Não se preocupe. – Ele me interrompeu. – Você sabe exatamente onde deixar o livro. – Ele disse e piscou ao fechar a porta.
Senti minha boca abrir.
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