Notas iniciais
Oe *u* Bem-vindos a esta one-shot. Eu estou fazendo one-shots demais, mas enfim... Ela foi criada por causa de uma aposta (vocês já leram isso, mas é só para dar ênfase à maldade de umas amigas minhas), e, como eu fui a perdedora, escolheram um tema... "Russos, Copa do Mundo, Dia dos Namorados". E aí deu nisso. Ela tá atrasada (já que o Dia dos Namorados foi há quatro dias, mas whatever?) porque eu PENEI para achar algo que preste sobre russos e suas manias para poder aprofundar meus personagens. Além do google tradutor, esse meu companheiro de viagem. Enfim... Espero MESMO que vocês gostem, fiz com carinho e dedicação, mesmo que tenha saído de forma forçada. Deem aquela opinião nos comentários, ela é importante para mim *u* Boa leitura!

Você, alguma vez na sua vida, já acordou ao som de buzinas, cornetas e vozes gritantes, grossas e confusas? Bom, foi assim que eu acordei naquela manhã de quinta-feira. Eu estava completamente acabada por conta da noite anterior e meu corpo estava suado e grudento por causa do calor infernal que estava fazendo naquela manhã.

Movi meu corpo devagarinho, em completa contradição: não queria sair dali nem à base de pedradas — preguiça reina -, mas eu queria sair dali para poder tomar um banho e me livrar daquele suor.

Dei uma boa espreguiçada, abrindo devagarinho os olhos. A cama de Ivan era bem confortável e seu quarto tinha um cheiro bom, por isso eu adorava dormir ali. Nosso relacionamento não era recente — estará completamento sete meses semana que vem -, por isto nos adorávamos e estávamos acostumados a dividir camas.

Percebi que estava sozinha no quarto — muito desarrumado, no caso. Sentei-me na cama, sonolenta, coçando minha cabeça. Realmente, a barulheira que a família de Ivan estava fazendo era completamente destruidora. Não sabia ao certo o porquê dos vizinhos ainda não terem reclamado.

Levantei-me rapidamente, vestindo minhas roupas, que estavam jogadas em um canto no quarto. Abri a porta do quarto de Ivan, virando à direita logo em seguida, entrando no banheiro. Digamos que minha afinidade com a família dele era altíssima. Eles me amavam, eu os amava…

Eu estava ‘hospedada’ ali já fazia três dias, então todas as minhas coisas de higiene pessoal estavam guardadinhas em uma gaveta no banheiro. Tomei banho e lavei o cabelo enquanto escovava os dentes, sentindo-se três mil vezes melhor.

Enquanto me secava, percebi que bateram na porta.

– Bernadette? — Ah, essa voz. Era a mãe de Ivan, dona Ana.

– Sim, sou eu — respondi, vestindo rapidamente minhas peças íntimas; não poderia ficar ‘ensebando’ como se estivesse em minha própria casa.

– Ah, Doch*… Já acordar? É tão cedo ainda…

E, sim, como se mudaram há pouco tempo para o Brasil, não conseguem conjugar verbos direito. É meio adorável. Na realidade, a família Kuznetsov é toda adorável. São muito amistosos e hospitaleiros, além de educados. Realmente, eles quebraram todos os meus esteriótipos em relação aos russos.

Sabe? Do gênero: bêbados enlouquecidos causando vinte e quatro horas por dia. Acho que este este tipo de comportamento se aplica mais aos brasileiros, se quer saber.

– Não, imagina, dona Ana. Eu tenho algumas coisas para fazer hoje, então acordar cedo foi bom… — Falei, colocando um vestido de algodão que havia trago comigo do quarto. Estava um calor infernal, então a época dos vestidos havia chegado.

– Doch, saiba que Ivan está planejando algo para vocês dois hoje… Ele disse que é um dia memorável.

Abri a porta do banheiro devagar, me deparando com seu rosto sorridente. Ela estava mexendo em um cesto de roupas sujas, separando as coloridas das brancas — a máquina de lavar ficava dentro do banheiro.

Sorri para ela, dando-lhe um beijinho na bochecha.

– Hm, o que será que ele está aprontando? Ivan e suas peripécias… — Brinquei, fazendo-a dar risada. Ela apontou para a escada.

– Vá logo para a cozinha, querida, sei que você não gosta de coisas doces, então eu fiz um pirojki*¹ especial para você. Se demorar mais, Dariya vai comer tudo!

Sorri, extremamente agradecida.

– Obrigada. E não se preocupe, eu irei dividir com ela.

A família Kuznetsov é constituída por quinze — isto mesmo, quinze– integrantes, em sua maioria mulheres. Dona Ana é a anciã da casa, dois anos mais velha que seu marido, senhor Nikolai. Ambos têm cinco filhos: Evokiya, Yvon, Ivan, Olga e Natasha. Evokiya é mãe de três pestinhas: Dariya, Yuri e Russell, os dois meninos com dez anos e Dariya com seis. Yvon é pai de primeira viagem, com sua filhinha de sete semanas, Raissa.

Olga, a mais velha dentre os irmãos, tem duas filhas: Sasha e Kira. Sasha, com dezoito anos, teve o presente de ficar grávida de gêmeos: Paulo e Czar.*² Todos eles vivem em uma única casa depois que se mudaram de São Petersburgo. Sem contar que seus maridos e esposas estavam hoje conosco também — incluindo eu, que sou apenas namorada.

Pode-se perceber que eles têm gostos bastante excêntricos para nomes.

Não tive tanto trabalho para secar o cabelo, já que ele é um chanel com franja bem desfiado; no geral tenho poucos fios, mas todos eles são castanhos avermelhados. Desci as escadas, percebendo que a barulheira só aumentava. Senhor Nikolai estava sentado em sua poltrona, na sala, lendo um jornal. Ele ergueu os olhos e sorriu para mim.

– Dobroe utro – cumprimentou-me, completamente desfamiliarizado com o português. Mas eu sabia o que ele estava dizendo. “Bom-dia”.

Sorri também, arriscando dizer:

– Spasibo. Kak dela? – que, espero eu, quer dizer: ‘obrigada. Como você está?’.

Ele assentiu, o rostinho idoso parecendo alegre.

– Pizdato, spasibo.

O.k., agora eu não faço ideia do que isto quer dizer. Sorri, fazendo uma cara de: entendi tudo, valeu, e girei os calcanhares, indo em direção à cozinha.

A maioria do pessoal estava lá, sentados em volta da mesa. As crianças estavam com vuvuzelas em mãos, não parando de tocá-las nem para respirar. Elas corriam em fila em volta da mesa, gritando e tocando o maldito do instrumento. Os pais gritavam para que eles parassem de correr, e os outros gritavam com os pais para que eles parassem de gritar com as crianças.

É, estava um inferno.

Ivan estava sentado na ponta da mesa, comendo os meus pirojki, com cara de poucos amigos. Provavelmente ele estava estressado com toda aquela correria e barulho. Ivan era um pouco temperalmental, diferente do resto de sua família. Sempre tem a ovelha negra, não é mesmo?

Me aproximei da mesa, recebendo vários ‘Dobroe utro’; respondi a todos educadamente, olhando-os nos olhos. Uma coisa que acho que todos sabem é que: os russos têm uma cara de poker face muito engraçada. Eles não costumam sorrir muito, mas demonstram amor e carinho nas pequenas atitudes do dia a dia.

Ivan pegou minha mão e me fez sentar do seu lado, pegando logo a cesta cheia de pirojkis, colocando-a na minha frente. Olga pegou uma jarra de vidro com conteúdo roxo escuro e colocou-a perto de mim também, enquanto Evokiya pegava um copo limpo no escorredor de louças. Yvon ofereceu-me pão francês e Natasha, agindo rápido, presumindo que eu aceitaria, também me ofereceu requeijão e manteiga.

E tudo isto com a cara impagável de poker face. A minha vontade era dar uma risadinha, mas seria meio desrespeitoso. Engoli a risada e neguei a maioria das coisas com educação.

– Agradeço, mas… Só vou pegar…

– Não, coma — insistiu Evokiya, erguendo as sobrancelhas — você ficar com fome depois…

– Da, coma, está muito magrinha… — Concordou Olga, juntando as sobrancelhas.

Isto é um ótimo exemplo de preocupação em massa.

– Deixem ela — Ivan abanou o nada. — Essa aqui come como uma babochka.

Todos sorriram de canto e pararam de insistir. O.k., agora… O que diabos é uma babochka?

oOo

Uma coisa que eu percebi enquanto ajudava Evokiya a desvendar algumas palavras do português — como ‘batata’ -, era que o restante da família estava estranha — muito mais. Em principal o Ivan.

O homem andava de um lugar para o outro, ora coçando o queixo, ora carregando mudas de roupas policoloridas para cima e para baixo. As irmãs Natasha e Olga conversavam em russo em um canto da sala, parecendo esconder uma certa animação.

Parei de prestar atenção no movimento alheio e voltei a me concentrar na folha nas mãos de Evokiya.

– Isto é… Um ditongue, certo? — ela me perguntou, apontando para uma palavra com vogais juntas.

Sorri, complacente.

– É ‘ditongo’– corrigi, olhando-a.

Ela fez uma cara confusa, de quem estava confundindo os cavalos com os bois.

– D-diton… Go…? — Ela olhou para mim, esperando uma avaliação positiva.

Sorri, assentindo.

– É isso mesmo. Você está indo muito bem, sabia? Aposto que daqui a alguns meses estará dominando a língua.

Ela ficou olhando para mim por alguns segundos, a mesma cara de poker face, só que agora cem vezes mais engraçada. Calma aí, Bernadette, não ria. Então Evokiya abriu um sorriso bonito.

– Nem brinque com isto, Beth. Eu mal sei pronunciar ‘ditongo’.

Balancei a cabeça em negativa, confiante. O português é muito complexo, e para alguém que mudou-se recentemente, era uma ótima evolução.

– Não diga isso. Você sabe bem o português. Se quer saber, sabe bem mais do que alguns brasileiros por aí.

Ela abriu mais um sorriso de agradecimento, mas tenho certeza de que ela ainda estava hesitante em relação ao seu português. Meu celular vibrou no bolso. Ergui um dedo a ela, pedindo-lhe um segundo.

Percebi que era uma amiga minha, Verônica. Ela havia me enviado uma mensagem.

[E aí, o que Ivan aprontou para você hoje?]

Fiz uma cara de confusa, encarando o telefone. Respondi-a.

[O quê? Por que Ivan aprontaria alguma coisa para mim?]

A outra mensagem chegou no mesmo instante.

[¬¬]

Seguida por outra.

[Não me diga que vocês dois esqueceram]

É, sim, aquilo estava meio complicado.

[Sim, acho que esquecemos. Diga você ‘o que’ esquecemos]

Suspirei; Verônica era complexa demais para o entendimento humano. Meu celular vibrou mais uma vez.

[O.k., querida, SE CHOQUE: hoje é o Dia dos Namorados. Eu e Kevin estamos comemorando isto na praia, queridona!]

Ai.

Meu.

Deus.

Realmente, eu havia me esquecido completamente. Provavelmente Ivan também havia esquecido, já que não dera nenhum sinal. Eu estava, em parte, nervosa. Era o nosso primeiro Dia dos Namorados, e eu queria fazê-lo ser algo legal e prazeroso para nós dois.

Mas, primeiramente, eu precisava conversar com Ivan sobre isto, é claro. Não é como se eu fosse até ele e dissesse ‘olha, hoje a gente vai fazer assim e assado, porque eu é quem mando nisto aqui’.

Subi as escadas enquanto as crianças desciam, animadas. Elas gritaram algo em russo e foram para a cozinha. Enquanto entrava no quarto de Ivan, percebi que o mesmo estava trocando de roupa, colocando uma camiseta amarela.

Dei duas batidinhas simpáticas na porta, chamando sua atenção.

– Oi — cumprimentei-o, esbanjando um sorriso.

O homem devolveu o sorriso — em menos proporções, é claro -, e começou a xeretar seu guarda-roupa, em busca de alguma coisa.

– Algum problema? — perguntou, sem olhar para mim.

– Sabe, Ivan… Você sabe que dia é hoje?

Ele parou de fuxicar no móvel e olhou para mim, a cara de poker face no rosto.

– É claro — disse ele, arqueando uma sobrancelha. — Como poderia esquecer?

Ah, o.k., ele se lembra. Ótimo, um passo dado.

– Então… — Mexi as mãos, andando pelo quarto e sentando-me na cama — tem algo para nós hoje? Porque, eu admito, eu havia esquecido. Se não fosse por Verônica, isto passaria totalmente batido por mim.

Ele começou a piscar, descrente.

– O quê? Que surpresa. Não sabia que Verônica se interessava por este tipo de coisa.

Espera. Hã? O mundo todo sabe que Verônica é terrivelmente apaixonada por coisas românticas e palavras doces. Esquecer o Dia dos Namorados para ela seria o pior crime que alguém poderia cometer e Ivan sabia disso.

Abanei os braços, piscando. Acho que havíamos confundido algumas coisas.

– Espera, calma. Sobre o que você está falando?

Ivan puxou de dentro do guarda-roupa uma camiseta verde e jogou-a em cima do meu colo.

– Estou falando sobre o primeiro jogo da Copa do Mundo. Sabe? Croácia contra Brasil…

Mas o quê?

Ergui a camiseta, percebendo que havia um número ‘7’ ali. Olhei para Ivan, que deu de ombros.

– Você… Ter um pai nordestino, não é? — Ele entortou o nariz — o Hulk, da Seleção, é nordestino, então eu liguei os pontos e pensei que esta seria uma boa escolha.

Fiquei piscando, entreolhando a camiseta e ele. O homem passou a mão pela nuca, pigarreando.

– Sabe, você querer vir comigo assistir ao jogo? Será divertido, eu suponho.

Fiquei olhando para ele, cética.

Que delícia de Dia dos Namorados. Bom, pelo menos eu estarei vestindo a camiseta do ‘bundão’, não é?

E isso foi meio desnecessário.

oOo

Em menos de três horas nós estávamos lá: no meio da galera, gritaria, caos, vuvuzelas infernais, fantasias e perucas coloridas. Sentamos abaixo de um pequeno grupo croata, que conversava amistosamente com alguns brasileiros.

Eu não estava — nem de longe — muito satisfeita em estar passando meu Dia dos Namorados sentada em uma cadeira dura, com barulheira e multidão por todos os lados. Chegamos nos nossos lugares após o show de abertura, já que eu nem Ivan estávamos entusiasmados para ver nem ouvir coisas a mais além de futebol — já eu nem estava entusiasmada para ver o jogo, para início de conversa.

Anteriormente, eu havia comprado um saquinho de pipocas doces, e assim — comendo calada, assistindo aquela correria de homens bundudos — eu permaneci até os primeiros cinco minutos. Ivan estava de pé, super animado, assim como a maioria das pessoas por ali.

Sabe, eu admito: simplesmente não consigo achar graça no futebol. Não consigo. Pra mim, um jogo de basquete vale mais do que seis jogos de futebol — deve ser porque eu jogava no ginásio. Mas Ivan amava. Sempre amou, desde a época em que nos conhecemos.

‘Cosmic Love’ começou a tocar dentro do meu bolso. Atendi meu celular, percebendo que era outra amiga minha, Olímpia.

– Olímpia? — Atendi, erguendo uma sobrancelha.

– Menina, onde você está? No meio de um furacão ou em um massacre em série? Que barulheira!

Sorri, tampando uma orelha para ouvi-la melhor.

– Não, eu estou aqui no estádio onde está acontecendo o primeiro jogo da Copa…

Houve um pequeno momento de silêncio.

– O QUÊ? É o primeiro Dia dos Namorados de vocês e irão passar em UM ESTÁDIO? VOCÊS FUMARAM MERDA?

Comecei a rir, surpresa pela reação dela; Olímpia sempre fora estourada, mas nunca pensei que eu daria razões para ela explodir.

– Hey, calma aí. Eu não queria, mas quando percebi, já estava vestida com uma camiseta verde e com o rosto pintado com dois dedos de tinta verde e amarela… Acho que com esse meu namorado eu nunca terei uma vida normal.

Ela soltou um suspiro do outro lado da linha.

– Estou vendo, meu Deus! Mas, só para avisar mesmo… Joshua bancou o namorado clichê e me deu um urso de pelúcia enorme, cheio de chocolate dentro. Aproveitei e dei para ele um relógio lin-do. Mas, e aí, você deu alguma coisa para ele?

E, pensando bem, eu sou uma péssima namorada. Trinquei os dentes, semicerrando os cílios.

– Hm, não… — Disse baixinho, observando Ivan levantar de repente, gritando por causa de um gol perdido. Então ele começou a falar um palavreado bem feio em russo, e eu compreendia porque ele vivia dizendo.

Ela ficou quieta por um segundo.

– Não acredito. Tá, e ele deve ter dado algo para você, né?

Só o fato de eu ter ficado cinco segundos em silêncio já foi o suficiente para Olímpia perceber. Ela soltou um grunhido frustrado, como se fosse uma professora que acabou de ver seu melhor aluno tirando quatro em uma prova.

– Argh! Francamente, vocês são um casal terrivelmente… Sem graça! Apáticos! Depois que se separarem irão reclamar! Não gastarei um chocolate ao te consolar, tá entendido?

Dramática sim ou com certeza? Mas, em parte, Olímpia tinha razão; éramos… Apáticos. Eu e Ivan não éramos o tipo de casal que começava a se pegar do nada no assento do ônibus — por favor, é nojento e desagradável — e não demonstrávamos muito afeto por causa de nossas personalidades.

Desliguei a chamada com um ‘tchau, Olímpia’ emendado com um suspiro; meus olhos pousaram em Ivan, que olhava atentamente enquanto os jogadores tentavam bater uma falta. Pousei uma mão em seu ombro, tentando acalmá-lo; se aquele homem tivesse um ataque cardíaco eu seria a maior culpada.

Ele olhou para mim, surpreso. Ivan colocou sua mão sobre a minha.

– O que foi? — perguntou, um fiapo de preocupação em seus olhos.

Balancei a cabeça.

– Nada. Só estou me perguntando se esse croata vai conseguir fazer um gol.

Ivan sorriu de canto, olhando-me.

– Está com fome? — perguntou, sério de novo.

– Não — respondi, vagando meu olhar pelo campo. E foi aí que eu percebi um jogador brasileiro sambando e acabando fazendo merda — olha…

Ivan virou o rosto bem a tempo de ver um jogador brasileiro fazendo gol contra. Todos da arquibancada levantaram-se e começaram a gritar coisas que eu não consegui entender direito. Ivan abriu a boca, cético.

Os palavrões em russo voltaram, desta vez com mais ênfase e grosseria. O grupo croata que estava acima de nós começou a comemorar, e um jovem começou a chamar os brasileiros de ‘burros perdedores’ em inglês — que, no caso, e eu Ivan sabíamos muito bem -, para que pelo menos algum brasileiro pudesse entender.

Ah, só um detalhe: Ivan tem um forte — quase inabalável — orgulho nacional e um grande fervor pelo Brasil. Ama quase tudo o que tem aqui — principalmente a comida. Ivan acha que os brasileiros são terrivelmente batalhadores, amando cada coisinha que tem, mesmo que seja boba. Então, peço desde já: não xingue brasileiros perto dele.

A não ser que você queira ver a bomba Ivan explodir, é claro.

O homem levantou-se, o cenho franzido, e virou a cabeça na direção do garoto. Seus punhos estavam cerrados e ele estava com cara de poucos amigos. Segurei rápido e com força sua mão esquerda.

– Ivan, não, sente-se. Venha, você é um adulto, não precisa arranjar encrenca por causa de um comentário feito no calor do momento.

Era a mesma coisa que conversar com uma cadeira. Ele se virou para mim.

– Ele xingou você de burra perdedora.

– E? — Desafiei-o, juntando também as sobrancelhas. — Olha só como eu estou preocupada, acho que não dormirei hoje. Venha, Ivan, sente-se e fique quieto aqui. Estávamos bem até agora, não há porque se estressar. — Falei um pouco alto, tentando fazer com que minha voz fosse escutada.

Ivan continuou lançando olhares meio mortais para o torcedor croata, em meio àquela gritaria desgraçada. E foi aí que a bomba explodiu: o croata percebeu o que estava acontecendo ali e, não resignado, teve que fazer o infame comentário, ainda em inglês:

– É isso aí, moreno, por que não ouve sua puta e senta aí?

O croata nem havia acabado direito sua frase quando Ivan pisou no seu assento, esticou seu braço para cima e pegou o jovem pelo pescoço de um jeito bruto e animalesco, puxando-o para perto dele. Levantei-me em um pulo, percebendo os poucos olhares em volta de nós.

O.k., outro fato: Ivan era forte. Não, ‘ah, forte’, e sim ‘forte para caramba’. Na primeira vez que tivemos um toque mais íntimo, quase fui quebrada ao meio; depois de vários ‘desculpa’ e ‘bonita’ com sotaque russo, o perdoei — não que eu tivesse ficado nervosa, para início de conversa — e ele começou a se acostumar comigo e quanta força teria que usar para não amassar meus ossos toda vez que me abraçava — o que era difícil de acontecer se eu não abraçá-lo primeiro, diga-se de passagem.

– Ivan! — segurei seu braço, a expressão horrorizada — não é necessário, pelo amor de Deus! Pare com isso!

Mas, como eu disse anteriormente, era o mesmo que falar com uma cadeira.

Os dois começaram uma luta ali mesmo. Tentei pará-los, puxando a camiseta de Ivan e tentando ‘amaciar’ seus socos e chutes, mas era impossível; uma multidão se formou em volta de nós, afobada, todos gritando para chamar os agentes de segurança o mais rápido possível.

E — graças a Deus — os agentes conseguiram pará-los, dois segurando Ivan e empurrando-o, enquanto outro pegava o jogador croata e o arrastava para o lado oposto. Segui-os correndo, desviando habilidosamente das pessoas a minha frente.

– Hey! — Chamei-os, parando um agente. Ele olhou para mim, as sobrancelhas juntas — para onde vai levá-lo?

Os dois guardas se entreolharam. Um apontou para o russo, que estava com o rosto machucado e sangrando.

– Está com este cara?

– Estou — respondi, ríspida.

– Então vai cair fora também! — ele exclamou, pegando-me abruptamente pelo cotovelo e me arrastando junto com Ivan. — Vocês vão cair fora para refletir! É um jogo importante para o Brasil e não será dois jovens que estragarão isso!

Sim, fomos expulsos do estádio.

Que beleza.

Massageei minhas têmporas, ali no meio da calçada, sem paciência para encarar Ivan. Era óbvio que eu estava irritada e frustrada. Ivan parou bem na minha frente, apertando meus ombros.

Dei um suspiro, contei até dez e olhei em seu rosto. O russo estava com a boca cortada, sangrando e um feio machucado na bochecha esquerda. Abri a boca, divida entre ficar preocupada com o cretino ou ignorá-lo e ir para casa.

– Bom — deu de ombros — pelo menos não fui eu quem pagar pelos ingressos, né?

Agora até eu havia ficado surpresa.

– Não? Então quem pagou por eles?

– Yvon — respondeu, simples. — Mas, na realidade, ele não pagar nada. A empresa onde ele trabalha lhe ofereceu dois ingressos, mas ele sabia que não podia ir. Então ele me deu.

O.k., menos coisas a se lamentar. Olhei para o rosto machucado de Ivan, não evitando e ficando preocupada com o maldito. Ele era terrível, irresponsável, cabeça de vento, bruto e sincero, mas eu ainda o amava.

Passei a mão pelo seu rosto, fazendo-o exclamar um “ai” dolorido.

– Seu Kuznetsov descuidado… — Ele deu um risinho; Ivan gostava quando eu o chamava pelo sobrenome — venha, vamos tratar disso antes que infeccione.

Peguei-o pela mão e fomos juntos até uma farmácia próxima. As pessoas gostavam de olhar para Ivan porque seu rosto de poucos amigos era bonito e engraçado de se ver — só não era legal quando ele ia para cima de você e começava a te espancar.

O farmacêutico foi super legal conosco, nos oferecendo uma sala aos fundos para poder tratar dos ferimentos de Ivan — ou ele deve ter ficado com medo do russo, nunca se sabe. Obviamente eu paguei por todo medicamento que pegamos.

A sala era um cômodo ventilado, pequenino e aconchegante. Havia vários armários cheios de remédios, uma televisão pequena pregada à parede, duas otomanas e uma mesinha de centro. Era um local agradável para cuidar de alguém.

Ivan colocou a mesinha de centro do lado de um dos sofás, arrastando o outro para perto dele. O homem sentou-se e eu me sentei em frente a ele, depositando água oxigenada, algodão e um paninho macio em cima da mesinha de centro ao meu lado.

Toda vez que eu pressionava o algodão contra seu machucado, o russo soltava um ‘ai, ai, ai, Beth’ dolorido, contraindo-se.

– O quê? — perguntei, juntando as sobrancelhas e apertando o algodão contra o rosto dele de propósito — não reclama, você pediu por isto.

Ivan apenas apertou os olhos, resignado, e olhou para a minha otomana. Ele se esticou e pegou o controle da televisão como se estivesse em sua casa. O homem ligou o aparelho, deixando-o no mudo.

– Não se sinta tão à vontade, Ivan.

– Só quero ver quanto está o jogo, babochka.

Revirei os olhos enquanto trocava de algodão, jogando o usado no meio das minhas pernas. Fui avisar para Ivan levantar o queixo quando percebi que o homem olhava, vidrado, para a tela da TV. Girei a cabeça, curiosa, para ver o que ele tanto admirava.

Era uma propaganda de Dia dos Namorados. Ivan aumentou o volume do aparelho. A propaganda dizia claramente sobre o quão bom era os ursinhos de pelúcia de uma determinada marca, incentivando as pessoas a comprarem para seus parceiros.

Virei novamente a cabeça para encará-lo. Ivan ficou me olhando, mudo e apático.

– Hoje é o Dia dos Namorados? — perguntou por fim.

– Sim, é — respondi-o, cruzando os braços.

Ivan ficou me encarando por alguns segundos; ele não demonstrava, mas eu apostava meu braço que ele estava ficando envergonhado.

– Meu Deus, Beth… — Exclamou ele, coçando a cabeça. — Perdão. Eu me esqueci completamente.

Dei de ombros. Eu poderia antes estar aborrecida, é verdade. Mas não poderia me dar ao luxo de somente culpá-lo; eu também era culpada, afinal, aconteceu o mesmo comigo: me esqueci. Sorri, amistosa.

– Tudo bem, sério. Já passou.

Ele ficou me olhando por mais algum tempo.

– Não. Eu sou terrível. Sei que você gosta de coisas pouco românticas, mas o que fiz foi constrangedor… Me esqueci do nosso primeiro Dia dos Namorados, te arrastei para um estádio e fui expulso de lá antes mesmo de completar vinte minutos de jogo.

Olhando por este ponto de vista… Ficava engraçado. Comecei a rir, pensando que seria uma ótima história a se contar para as crianças. Só nós mesmo para nos metermos em algo deste porte.

– A Dariya irá amar ouvir sobre isto — falei, enxugando uma lágrima.

Ivan assentiu.

– Verdade. Mas ela irá inventar coisas absurdas, como termos matado um cara no caminho.

Ri mais um pouco, lembrando-me do rosto sapeca da Dariya. Ela era uma mentirosa de primeira.

Então voltei à realidade. Dei batidinhas nas pernas de Ivan, fazendo-o olhar para mim.

– O.k., chega. Vamos acabar logo com isto e irmos para casa, para podermos assistir filmes de época, como ‘Anna Karenina’.

Ivan pegou minha mão, erguendo-a e dando um beijo nas minhas falanges. Fiquei surpresa, encarando-o.

– Sabe, Beth, há uma coisa que eu preciso te contar, que acho que você ainda não sabe. Sei que este é um lugar inapropriado, mas… — Ele estralou a língua — dentre todas as coisas maravilhosas que o Brasil pôde me proporcionar, conhecer você foi a melhor delas. — Ele balançou a cabeça, sem jeito — sei que eu não sou tão expressivo, meio cabeça dura e impulsivo, mas você me aceitou. E é por isto mesmo que eu amo você, Beth.

Ah, o.k., isto é muito melhor do que assistir Anna Karenina.

Apenas fiquei encarando-o, boba. Fiquei assim porque quando alguém sério e fechado, talvez tímido, se abre de forma tão convicta e bonita deste jeito, a gente fica meio idiota mesmo.

Dei um suspiro e passei meus braços em volta de seu pescoço, abraçando-o com veemência. Ivan retribuiu meu abraço, gentil. Aproveitei este momento para botar meu russo em prática, e, em um sussurro, disse perto de sua orelha:

– Ya tozhe tebya lyublyu. – Que, passando para o português, significa ‘eu também te amo’.

Ivan ficou tenso de repente, como se tivesse levado um tiro. Ele me agarrou pela cintura e me sentou ao seu lado, forçando-me a desagarrá-lo e olhar em seu rosto. Ele estava pálido.

– Isto é sério, babochka?

Assenti, ainda inconformada com o fato de não saber o que era “babochka”. Ergui uma sobrancelha, em um momento de dúvida.

– Espera, acho que estou equivocada — Ivan pareceu surpreso e magoado — acho que ‘Adoráveis Mulheres’ é bem melhor que ‘Anna Karenina’, já que assistimos juntos umas quinze vezes… Ou você prefere assistir aos jogos da Copa?

Ivan abriu o maior sorriso do universo, parecendo terrivelmente aliviado — abrir um sorriso deste tamanho foi uma novidade até para mim.

– Assistir qualquer filme de época com você vale mais do que vinte Copas, Beth.

Sorri também, animada para ir para a casa dele logo.

Acho que, no fim das contas, ‘Dia dos Namorados’ está representando o fato de você se esforçar para caramba para poder aprender russo e agradar seu namorado ou namorada. E esta data também representa a incrível sensação de andar de mãos dadas com a pessoa amada e ficar constrangida, já que você está suando. Mas aí ela olha para você, abre um sorriso e aperta com mais força sua mão, dizendo que não se importa porque a mão dela está suando também.

Mas… Acho que, para o Ivan, ‘Dia dos Namorados’ representa o fato de você aceitar assistir Anna Karenina e Adoráveis Mulheres sem reclamar um pio, quando na realidade você quer é assistir a Copa do Mundo.

E eu aqui, ainda sem saber o que é ‘babochka’.

Fim.

Notas finais
Oláaa /o/ E aí? Estou aprovada? Espero que sim, hahahaha. Realmente, fazer este texto me comeu a alma! Foi SUPER TRETA conseguir juntar tudo, mas está aqui... Vamos queimar meus dedinhos nas '*', hehehe. Nota: "Doch" significa "filha", em russo. Dona Ana não usou-o em sentido literal, e sim de uma maneira carinhosa de chamar a Beth c: Nota¹: pirojki são pãezinhos cujas formas e recheios não têm outro limite do que a imaginação de quem os confecciona, ou seja: podem ser doces, salgados, podem ser recheados com carne, queijo, almôndegas... Nota²: só para avisar que... PQP eu penei PARA CARAMBA para conseguir esses nomes, na boa... Na segunda parte do texto eu já tava confundido o Ivan com Yvon e a Dariya com a Evokiya, foi uma be-le-za! E mais uma nota aqui: babochka significa 'borboleta'. Um amor, eu sei. Chame sua namorada assim, ela vai gostar -qq A não ser que ela odeie insetos, aí serão outros quinhentos... Espero meeeeeesmo que tenham gostado, Comentem bastante! /o/
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!