O Dia-a-dia (quase)normal de Um Filho De

3 Capítulo 2- Escola nova de novo (Parte 1)


Notas iniciais
Desculpem a demora, mas aí está o capítulo 2. Estava ficando muito grande, então resolvi dividir em dois. Enjoy!

Eu saí do carro, e andei em direção à escola. De longe eu vi uns meninos, uns com casacos de time, outros tão grandes quanto os anteriores, enchendo o saco de alguns calouros. E eu ia ter que passar.

Os alunos estavam evitando a entrada, esperando o diretor chegar para livrar o caminho. Eu parei no único lugar em que me senti seguro: a sombra de uma árvore. Uma garota corajosa resolveu passar pelos valentões. Eles jogaram água, ketchup e maionese nela. Quando ela continuou entrando, as cheerleaders a puxaram pelo cabelo e a jogaram de costas no chão, pisando na sua roupa e jogando tinta nela. Quando se levantou, jogou um olhar raivoso para os delinqüentes que riam alto, e correu para dentro da escola.

Eu olhei com raiva para eles, que sentiram meu olhar carregado e me procuraram, encontrando, é claro, nada. Quando os olhares chegaram perto dele, ele viajou, por falta de lugar melhor, para debaixo de uma das mesas do refeitório. Eu saí correndo atrás da garota antes que ela entrasse no banheiro que era, obviamente, a sua meta.

Eu cheguei a tempo de vê-la entrando correndo no banheiro, espiei pela porta. Ela entrou no banheiro e foi para a primeira pia, deixando a porta aberta, pois pensava que era a única aluna na escola. Ela se abaixou para lavar o rosto na pia. A trança, que estava presa num coque foi solta. Ela tinha a pele branca, com saradas, com um cabelo ruivo liso que ia até perto do joelho. Ela tinha olhos verdes muito escuros, que, numa primeira olhada parecia negro, embaixo de cílios tão claros que pareciam não existir.

Quando levantou sua cabeça, me viu na porta pelo espelho. Ela ficou paralisada e seu queixo caiu. Água caia do seu rosto, ainda um pouco sujo. Que droga, eu assustei ela!

--Desculpa ter te assustado, meu nome é Nico di Ângelo, e ...—o queixo dela caiu mais ainda. Era impossível eu dar uma dentro?—Eu queria te ajudar, você se importaria de me deixar entrar...

Ela se virou para mim e disse:

--É o banheiro feminino, se te pegarem aqui você leva uma suspensão—ótimo, ela estava com medo de ficar sozinha comigo!

--OK, vou sair então. Desculpa aê. A gente se vê.—Quando eu saí, ela fechou a porta correndo, e bateu nela três vezes. Ótimo, eu assustei a primeira pessoa com quem falei na escola.

POV da “garota” sobre o acontecido

Eu estava lavando freneticamente meu rosto, e quando me levantei, nem sequer lembrei de secar meu rosto. Um deus grego estava parado na porta olhando para mim. Meu queixo caiu, e eu paralisei.

--Desculpa ter te assustado, meu nome é Nico di Ângelo, e ...— Que voz é aquela?—Eu queria te ajudar, você se importaria se eu entrasse, e...—E me ver imunda desse jeito? No way!Zettai! Mas e se ele pensar que eu dispensei ele? Me virei e disse:

-- É o banheiro feminino, se te pegarem aqui você leva uma suspensão— agora pareceria que eu estava preocupado com ele.

--OK, vou sair então. Desculpa aê. A gente se vê— desculpa pelo quê? Aimeugzuisinho, que vergonha! Corri e fechei a porta, batendo a cabeça na porta três vezes, repetindo: “burra, burra, burra!” Já comecei pagando o maior mico ever!

POV Nico

Todos vieram cedo para chegar antes dos valentões, e os valentões chegaram ainda mais cedo só para poder atormentar os outros. O diretor chega mais tarde, e os outros funcionários não tinham autoridade para pará-los.

Eu entrei na minha sala de aula. Melhor eu ficar quieto antes que eu assuste mais alguém. A camarãozinha (não me pergunte por que a chamei assim) bateu na porta três vezes, por superstição. Fico imaginando se alguém traria água benta para jogar em mim.

Ouvi um alvoroço e ao olhar pela janela eu vi o diretor expulsando os bagunceiros. Os calouros respiravam aliviados, e os delinqüentes protestavam com frases como: “Diretor, é um ritual de passagem”, “todos passamos por isso” e outros, mas no final acabaram entrando.

Me perguntei se a camarãozinha teria conseguido tomar banho. É melhor eu parar de pensar nela, afinal, ela não deve estar pensando muito bem de mim. Eu até imaginei ela fazendo a minha caveira para as colegas...

Divagação do Nico

--Amigas, quando eu passei pelos delinqüentes, fui no banheiro me lavar. Aí apareceu um maníaco, psicopata, assombração ou sei lá, vestido de preto de preto dos pés à cabeça, que queria entrar no banheiro com eu sozinha lá dentro! Eu ameacei ele com o diretor, que foi a primeira coisa que me veio à cabeça. Tava na cara que ele aceitou a ameaça só porque eu tava com medo, como se assim fosse me convencer que não mataria o diretor se precisasse. Aí ele saiu e eu fechei a porta correndo, e bati três vezes na madeira.

--Amiga, quer que eu traga água benta amanhã?

--Conte pra o diretor, querida...

--Vai que ele faz alguma coisa comigo por eu ter dito! Acho que é melhor eu ficar quieta.

Divagação off

Isso realmente chance de acontecer, tirando o “miga”. Ela não tem cara de quem diz isso.

Começaram a chegar uns alunos, um grupo de cinco garotos, que demorou para me notar, pois, com essa intenção, eu senti na última carteira da última fila e afundei nela. Assim que eles me notaram, começaram a conversar mais baixo. Pelo que eu entendi pela leitura labial, eles estavam apostando quem tinha coragem de sentar ao lado do “garoto com cara de delinqüente”. Um deles se levantou e se sentou do meu lado e me comprimentou.

--Oi!

Eu pensei se lançava “O” olhar para ele se afastar de mim ou se conversava rápido, afinal, não posso ter muitos amigos. Resolvi que seria melhor não assustar ninguém.

--Oi—respondi sem graça

--Qual o seu nome?

--Nico di Ângelo, e o seu?

--Dennis.

--Tipo Dennis, o pimentinha?

--Tipo isso—ele disse rindo

Me virei de lado, como um sinal de que não queria mais conversar. Mais alunos começaram a chegar, e uma garota morena, de cabelos cacheados com luzes e olhos verdes se sentou do meu lado.

Assim que bateu o sinal as pessoas que estavam do lado de fora se viram obrigadas a entrar na sala, que encheu rapidamente. Não demorou muito e uma professora com o cabelo liso e com luzes na altura do ombro, aparentando uns 35 anos, entrou sorridente na sala de aula. Tirou um lenço da bolsa, limpou a mesa, colocou os seus materiais nela, se virou e disse:

--Bom dia, classe!

--Bom dia, professora—responderam todos sem ânimo.

--Bom, não vou fazer aquele discurso de sempre sobre o que eu espero de vocês. É o mesmo que todos professores querem, e outros já farão esse discurso—todos respiraram aliviados e ela riu ao ver nossa cara—Espero que se respeitem e se comportem na medida do possível, é só. Eu sei que a maioria já se conhece de outra escola—vi um movimento, e olhei. Era a camarãozinha dando uma espécie de toque com duas meninas. Estava tão distraído que nem tinha notado que ela estava na minha sala! Estava limpa e tinha trocado de roupa. Espertinha ela, hein?—Mas mesmo assim vamos às apresentações.

Ela foi andando de fileira em fileira, perguntando: o nome, matéria preferida, matéria que menos gosta, coisa que mais gosta, coisa que mais odeia, e onde estudou. Na segunda fileira, tinha a amiga da camarãozinha, morena de cabelos ondulados com as pontas ruivas, no segundo lugar.

--Gabriela Lefreve, espanhol, história, tocar violino, filme de terror, Horst School—o que ela tem contra história? Humpf!

Na terceira fileira, onde a Gabriela ficaria de frente para elas, estava no primeiro lugar a camarãozinha e no segundo outra menina.

--Sabrina Bennet, matemática—eca!--, história, ler, preconceito e arrogância, Horst School.

A vez foi da amiga dela:

--Thamyres Castellan—o mesmo sobrenome do Luke!—inglês, história, escrever e ler fanfics, gente que se veste mal, Horst school.

Todo mundo odiava história?! A próxima pessoa interessante foi aquela menina sentada do meu lado.

--Bárbara Stryder, história, geografia—essa é das minhas!--, tocar violão, rap, rappers e machismo—a professora sorriu ao ouvir a última parte—Horst school.

Ela finalmente chegou ao Dennis.

--Dennis, geografia, português, ouvir música, falsidade, Lincoln School.

--Seu sobrenome, Dennis.

--Professora, por favor, não...

--Ah, vai!—Ela fez um olhar de cachorro irresistível.

--Dennis Sarnado—disse ele com vergonha. A professora prendeu o riso, mas outros não tiveram essa preocupação. A sala toda explodiu em risada, exceto por mim e pelo seu grupo.

Ela estava quase indo para a frente, e eu suspirei de alívio, mas ela parou, girou nos calcanhares e olhou para mim.

--Você- estava rezando para este momento não chegar, ela viu a minha cara quando ela disse o meu nome, e juntando com todo mundo me procurando por que ninguém me via, ela pediu para eu levantar. Eu afundei na cadeira, e ela disse:

--Vamos, assim todo mundo vai poder te ver...?

--Nico.

--Levante, Nico!

O pescoço da camarãozinha girou imediatamente ao ouvir o meu nome, ela cutucou as amigas e apontou para mim. Com o olhar da sala toda sobre mim, eu me levantei.

--Nico di Ângelo, história, geografia, tocar guitarra, gente intrometida, Westover.

--Meu sobrinho estuda lá. Não lembro de você na foto dos formandos da oitava série, e se eu te visse não esqueceria.

Todo mundo arfou, e alguns depois fizeram aquela cara de “quero ver agora”. Como sou um mentiroso muito bom, tentei pensar em uma mentira rápido, escondido atrás daquela cara de “não quero contar isso”. Todo mundo com aquela cara de curioso, eu disse:

--Eu não estudo lá faz um tempinho, mas depois que saí de lá não me matriculei em nenhuma escola.

--Quanto tempo você ficou sem estudar? E por que?—perguntou ela antes de poder se conter—Desculpe a intromissão—disse ela ao perceber que estava sendo inconveniente. Todos fizeram uma cara de decepção ao ver que ela não conseguiu nenhuma resposta. Se eu falasse que não pude ir no dia da foto, ela ia perguntar para o sobrinho dela se eu estudei lá, e isso não ia prestar.

--Bom, meu nome é Juraciara, eu sei que é horrível, vou ser sua professora de iglês, adoro ler e já vai bater o sinal—disse ela abruptamente ao olhar para o relógio—Tenham um ótimo dia de aula—pegou os seus materiais e saiu.

--Assim espero—dissemos eu e Dennis juntos. Tocamos na mochila verde dele e um no outro.

Eu passei as próximas aulas encarando a “camarãozinha”, e morrendo de curiosidade para saber o que ela e as amiguinhas estavam falando. No terceiro horário, tinha um professor chato que só sabia falar, e nem prestava atenção na turma, então todo mundo estava conversando.

--Pelo visto você já conhece aquela tal...

--Sabrina. Não.

--Então não sei por que você não para de olhar para ela.

--A gente teve um pequeno acidente—ia ser meio complicado explicar tudo omitindo a viagem pelas sombras—Acho que ela ficou com medo de mim.

--O que você fez?

--Quis entrar no banheiro quando ela estava lá sozinha, só me manquei depois. Mesmo assim, nunca precisei de muito para assustar as pessoas, minha aparência já cuida disso.

--O que ela fez quando viu você?

--Recusou minha ajuda e...

--Conta do começo.

--Ela levou um trote, eu fui oferecer ajuda, ela fez uma cara esquisita quando me viu, fechou a porta e bateu três vezes nela.

--Sei não... Já passou pela sua cabeça que ela estava com vergonha por ter sido vista assim?

--Não... e nem me parece possível.

--Eu acho é que você com esse jeito de bad boy pode derreter todas as garotas.

E comecei a rir da idéia. Eu não fazia o tipo encantador.

--As pessoas têm medo de mim. Até seus colegas tiveram—e apontei para o grupo dele.

--Eles só falaram que você parece um gangster, não vejo nada de mau. Aliás, muitas meninas irão considerar um charme.

Ao me ver uma cara de “duvido”, ele falou:

--Pisque para aquela garota.

--Se a camarãozinha me ver mexendo com outra garota e depois com ela, vai pensar que eu sou um galinha. Estou longe de ser isso.

--Tudo bem, sorria para a camarãozinha, e lance aquele “olhar 43”. Tente.

Eu comecei a encarar a camarãozinha com o que eu imaginava ser “O” olhar. A tal Gabriela me viu olhando para a camarãozinha e por leitura labial, vi ela falar:

--Sabrina, ele está te olhando—ela falou olhando para mim, com virada para elas estava consequentemente virada para mim. Pelo vidro, vi a Thamyres ficar boquiaberta e dizer “Sério?!” espantada. Ela ia se virar para olhar mas a camarãozinha segurou ela.

--Eu posso senti-lo olhando. Que sensação esquisita. ELE é muito estranho—e se virou para me olhar. Ao me ver, ela gelou, e nosso olhar ficou preso. Depois de alguns segundos, as amigas a cutucaram, e como não viram resultados, a sacudiram com força. Ela se mexeu e olhou para elas com raiva, mas a Thamyres pegou um leque e começou a abanar ela, e todas caíram no riso.

--Algum problema, senhoritas?—perguntou o professor para elas. Não que a sala estivesse exatamente em silêncio, mas por elas estarem sentadas na frente, o professor implicava mais.

--Nenhum—responderam em uníssono.

--Ainda bem que estamos atrás—disse a Bárbara--Eu adoro sentar na frente, responder às perguntas, que é raro eu não saber responder. Mas a minha prima que já estuda aqui disse que hoje seria uma chatice, então aproveitei para sentar ao fundo e conversar ao menos um pouco. Aquele professor é do tipo que acha que quem senta na frente tem o dever de ser santo, e f***-se o fundão. Coitadas das garotas—falou, embora eu não tenha sentido o mínimo tom de pena na voz dela.

--Vocês eram da mesma escola, não?—perguntei. O Dennis só olhava para ela com aquela cara de bobo, pois tinha que admitir, ela era bonita.

--Sabrina, Thamyres e Gabriela. As quase trigêmeas siamesas. A Thamyres e a Gabi eu conheço desde o jardim de infância. Na sexta série a Sabrina e a Thais apareceram, aí não desgrudaram mais.

--Mas e a tal Thais?—perguntou Miguel, pelo que eu podia ver, ansioso para falar qualquer coisa com ela.

--Ela só ficou um ano. Depois ela teve que voltar para o Brasil.

--Voltar?—foi minha vez.

--Ela nasceu lá, e veio para cá na sexta série. Parece que ela foi criada com os dois idiomas, pois o sotaque dela era quase inexistente.

--Então como assim não soltaram mais?

--Elas passam umas duas horas por dia no msn.

--Devem ser péssimas na escola—observou Miguel.

--Muito pelo contrário. Competem muito comigo no quesito inteligência. Mas não no elegância, beleza e classe.—falou a última parte baixa, mas como eu tenho ouvido absoluto*, eu pude ouvi-la.

--Que amizade—resmunguei também baixinho.

O sinal tocou e o professor parou de tagarelar e disse:

--Tchau turma, até amanhã.

--Um chato e entediante amanhã.

Todos se levantaram e foram se agrupar, mas quando Miguel olhou para mim eu disse:

--Pode ir se juntar a eles.

--Você pode passar o intervalo com a gente se quiser.

--Não—Ele me olhou com um “Por que?” estampado na cara—você deve ter percebido que não sou de “fazer a social”.

--Ok, mas você não acha muito depressivo passar o primeiro dia de aula sozinho não?

--Anti-sociais não se importam muito com esse tipo de coisa...

--Então tá. Mas se você mudar de idéia...

--Eu sei.

E ele saiu da sala. Eu olhei para trás, e só tinha eu e as TAB na sala. Ops, deixe eu me explicar.

S

G A

T A B

H B R

A R I

M I N

Y E A

R L

E A

S

* Ouvido absoluto: A pessoa tem capacidade de detectar e classificar todos os 97 sons da escala geral, além de poder ouvir sons mais baixos.

Notas finais
Espero que tenham gostado, e por favor deixem reviews, nem que seja para me xingarem. Onegai!