O Diário do Príncipe Mestiço
5 Dia perfeito... Tarde terrivel
Notas iniciais
Continuávamos deitados na grama.
– Eu uma bruxa? – perguntou Lily perdida.
– Isso mesmo. – confirmei dando um largo sorriso. – Assim como eu.
– Mas eu não posso ser uma bruxa. – ela ficou observando as nuvens. — Eu sou só... a Lily.
– A sua natureza mágica é sua essência, sua inesgotável fonte de magia. E isso caracteriza um bruxo.
– Mas se eu sou mesmo uma bruxa... por que meus pais não são e os seus são? – ela perguntou.
– Na verdade, só a minha mãe é uma bruxa. – a corrigi. — Minha mãe vem de uma família de bruxos sangue-puro e se casou com meu pai, um trouxa. Eu sou bruxo mestiço.
–Não entendi Severus.
– Bem... acho que já deve ser a hora do almoço. – me levantei da grama e ofereci minha mão a ela. — Vá para casa e descanse. É informação demais por um dia ok?
– Mas eu quero saber mais. – implorou Lily pegando minha mão e se levantando.
– Lily, eu vou lhe explicar tudo que sei, mas no tempo certo. – afirmei. – Ainda tenho um ano até chegar o dia em que irei estudar em Hogwarts.
– Hogwarts?
– É uma longa História... Poderíamos passar dias aqui e ainda assim não terminaria de falar tudo sobre magia. – eu disse. – Até mais Lily. Quando nos encontramos novamente de ensinarei sobre a descendência bruxa e os nascidos trouxas.
– Ok. Até mais Severus.
Ela me deu um abraço inesperado e eu fiquei simplesmente sem reação. Depois ela sorriu e se foi. Eu passei alguns minutos parados no mesmo local, pensando em como uma menina daquelas poderia querer uma amizade com um menino sem categoria como eu.
Voltando ao mundo real, caminhei até minha casa com meus pensamentos ligados a Lily... Não pensem mal de mim! Ela é só uma amiga ouviu?
Quando cheguei a porta de minha casa senti o cheiro de comida recém preparada. Era anormal que eu não tenha presenciado a uma briga dos meus pais e que estávamos tendo refeições decentes. Entrei e fui até a cozinha onde mamãe estava com a varinha em mãos, colocando os pratos, talheres e as panelas de comida na mesa com magia. Ela me fitou.
– Por que está me olhando assim?
– Heim? – perguntei de maneira lerda. – Por nada, é que tem algo diferente aqui.
– Sente-se. – pediu mamãe, fazendo um rápido movimento com varinha. A louça parou de se lavar e o fogão apagou suas chamas. Depois guardou a varinha. – Seu pai está descendo.
Sentei-me e de fato papai já chegara do seu novo emprego de operário em uma das fábricas locais. Ele estava de banho tomado, vestia o seu macacão cinza de trabalho e carregava um capacete amarelo nas mãos.
– O que tem para o almoço? – perguntou papai com sua voz grave e severa, sentando-se e pousando o capacete na mesa.
– Temos arroz com pedacinhos de cenoura e frango cozido. – respondeu mamãe abrindo as panelas e servindo a mim e papai.
– Ótimo! — eu disse. — Eu estou faminto.
Papai me fuzilou com o olhar. Pensei que ele fosse me trucidar mas simplesmente voltou-se para sua comida e murmurou:
– Não é educado falar que está faminto.
– Desculpe...
Finalmente mamãe terminou de pôr o almoço e sentou-se no extremo da mesa contraria a de papai. Eu fique no meio. Ficamos em silêncio comendo até que meu pai começou a falar:
– Onde comprou essa comida Eileen?
– Na feira semanal de Cokeworth. Mas por que a pergunta? Ficou ruim?
– Que é isso? Ficou excelente! – me arrependi de ter dito isso quase que imediatamente.
Papai me fuzilou com o olhar novamente e eu baixei a cabeça. Era sempre assim, aquele olhar dele me assustava. Melhor não encara-lo...
– Com que dinheiro? – ele continuou a questionar mamãe com aquela voz sinistra.
– Eu... eu tinha um pouco guardado.
– Como se você não trabalha?
Já senti o cheiro de confusão. Que ótimo... toda a ótima semana indo por água abaixo...
– Bem eu comecei a trabalhar como lavadeira aqui mesmo... já deu para melhorar as coisas um pouco. Até consegui garantir comida por uma semana.
– Lavadeira não é...
– Sim... – disse ela sem olha-lo nos olhos. Até minha mãe tinha medo do olhar dele.
– Não seria bruxadeira? Ou varinhadeira?
– Não xingue minha magia!
– Você está usando magia! Deveria ser como as outras lavadeiras pelo menos... Use as mãos!
– Olha aqui... – ela se levantou e olhou nos olhos deles. – Não vou renegar minha magia... ela me facilita fazer coisas maravilhosas! A casa estaria no chão se eu não reparasse-a com magia!
– Magia... Magia! Seu pai me ameaçou com ela.... Eu odeio magia... eu odeio tudo! — ele bateu na mesa com tanta força que as panelas de comida viraram e derramaram tudo que tínhamos.
– Olha o que você fez!
– Não grite comigo!
– Então pare de gritar comigo!
Peguei o meu prato de comida e subi o mais rápido que pude. Tranquei a porta e coloquei o prato no criado mudo. Droga! Eles começaram a brigar novamente. Que raiva deles... será que é tão impossível eles conviverem sem brigar? Eu odiava tudo aquilo com todas as minhas forças. Chutei o guarda roupa.
Sentei-me e comi a comida e depois fiquei pelo quarto andando de um lado para o outro, ouvindo barulho de coisas quebrando e a gritaria dos meus pais. Passou se um pouco mais de meia hora até a brigar acabar. Em seguida ouvi a porta da frente batendo. Meu pai fora trabalhar.
Peguei o prato de comida e abri a porta do quarto. Fui pelo corredor em direção a escada e escutei soluços vindo do banheiro. Era a mamãe. Deixei o prato cair no chão, espalhando vidro para todo o lado. Bati na porta feito um louco, chamando por ela.
– MAMÃE! ME DEIXA ENTRAR! MAMÃE! – meus olhos estavam ficando marejados.
– Severus... por favor saia e me deixe aqui. – sua voz soava falha.
– MAMÃE! ABRE LOGO O EU MESMO DESTRUO A PORTA. – continuei a gritar.
– Você não pode...
“Sim eu posso!”, metalizei e a fechadura da porta se escancarou magicamente.
– Severus... – ela estava sentada no chão chorando com a cabeça baixa. – Como...
– O que o papai fez? – perguntei, me ajoelhando ao seu lado. — Ele te bateu? Mamãe responde...
– Não foi nada... agora vá brincar... passear... só me deixa aqui sozinha.
– Olhe para mim mamãe... – pedi.
– Severus vá...
– Mamãe olhe para mim... – e sabendo que ela não olharia, coloquei as mãos no seu rosto com cuidado e levantei-o para que ela me visse. Quando a vi, deixei as lágrimas fluírem.
Ela estava com rosto vermelho e sangrava no canto da sua boca. Meu pai agrediu ela. Eu pulei nos braços delas, abraçando com toda minha força e ela retribuiu. Acariciei seus cabelos e ficamos abraçados ali no chão por um bom tempo. Mamãe chorava muito no meu ombro. Não me lembro qual foi a última vez que abracei minha mãe. Ela parecia necessitar muito. Eu pude sentir no seu choro a amargura e o sofrimento, mas também um pouco de amor e carinho.
Sabia que eu tinha que fazer algo... algo para que isso não voltasse a acontecer.
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