O Diário de Sarah
5 Raiva - Desespero
Notas iniciais
Raiva
''Certos atos fodem com tua paciência...''
–É o seguinte, faremos um exame de sangue em você, analisaremos e se tudo sair bem, a quimioterapia será suspensa. Tá bom pra você?!
–Tá de boa...
–Muito bem Sarah! Não tenha medo, tudo vai acabar bem.
Depois que tive aquele pequeno surto, meu amigo me convenceu a fazer o tratamento. Ele repetiu as palavras que falei no dia do show e... aquilo foi muito profundo para mim. Naquela hora, me dei por vencida e só fui ao consultório por ele, por minha mãe. Mas, no fundo... lá no fundo, eu estava sentindo um grande desespero. Estava querendo gritar, correr, puxar os cabelos, mas preferi guardar tudo para mim.
Mais tarde, naquela noite, tomei um banho e fui tentar dormir. Havia tantas coisas passando pela minha cabeça: preocupação, medo, fé... E no meio de tantos pensamentos, o sono me pegou desprevenida. Tive um sono muito pesado naquela noite, mas pelo menos, por algumas horas, estava esquecendo de tudo, toda agitação.
* * *
–Como ela tá, Patrick?!
–Ela tá bem, Sam. Não cem por cento, mas tá bem. -ele sentou-se no amplo sofá da amiga.
–Como conseguiu convencê-la de fazer o exame? -a moça de longos cabelos ruivos e ondulados estava curiosa quanto o ocorrido na tarde passada.
–Eu só fiz repetir as mesmas palavras que ela disse no show do Metallica, lembra? Ou você pelo menos ouviu? -seus olhos castanhos se encontraram nos verdes do dela.
–Não, não... estava tão animada com os solinhos, que nem prestei atenção.
–''Não importa o que aconteça, sempre terei fé. Jamais deixarei que os fatos da vida me abalem...'' Olha Sam... a gente tem que fazer algo muito especial pra nossa amiga. -ele falou com um tom triste.
–O quer dizer com isso? -eles se olharam por uns minutos e logo Samantha já havia ''capitado'' o que Patrick queria dizer.
–Reúne a galera, a gente tem que conversar.
* * *
Na manhã seguinte, levantei e fui fazer minha higiene matinal, pois logo após o café, iria ao consultório do Doutor Carlos tirar um pouco de sangue. ''Será que esse câncer tá muito agressivo?!'' Pensava comigo mesma, enquanto escovava os dentes.
Desci as escadas sem muita pressa. Cheguei a cozinha e vi que a mesma estava vazia. Ué, pra onde foi minha mãe e meu pai?! Bom, já devem ter ido trabalhar. Então, me sentei a mesa que tinha sob si um bolo de milho, café e leite. Logo me servir, é comida, não posso perder tempo.
Depois do segundo pedaço, olhei para o relógio e vi que já eram sete e meia. –Puta merda, tenho que tá lá as oito!–gritei e corri para me arrumar. Já que meu pai não estava para me levar de carro, tinha que ir andando mesmo. Andei pela rua em passos rápidos para não me atrasar, logo cheguei ao hospital. Graças a Deus que não tive nenhuma tontura ou desmaio na rua.
–Bom dia, sabe me dizer...
–Se o Doutor Carlos já chegou? Sim, ele está a sua espera, Sr. Parloviquez. -então, segui para a sala do doutor bigodudo.
–Entre!
–Mãe?! Pai?! Porque diabos não me avisaram que estavam aqui?! -para minha surpresa, meus pais já estavam no consultório. -E se eu tivesse desmaiado pela rua?! Quem iria me ajudar?! -estava incrédula e um pouco alterada.
–Ela tem razão. -doutor Carlos se intrometeu.
–Nos perdoa, Sarah... Nós só queríamos conversar com o médico a sós. -minha mãe tentou me explicar.
–E porque a minha presença não foi convocada?! Quem está com câncer sou eu! Eu deveria está na droga dessa reunião também!
–Filha tenha calma... -meu pai estava assustado, eles não esperavam aquela reação.
–Quer saber? Continuem com seus segredinhos! Fodam-se vocês três!
E batendo a porta da sala, sai praticamente vermelha de raiva. Eu simplesmente odiava quando alguém ficava escondendo as coisas de mim, principalmente meus pais. Liguei pra Valentina, mas o telefone dela estava na caixa postal. Tentei o número de todos eles, mas estavam na caixa postal. Legal, fera, agora meus amigos haviam sumido da porra do mapa! Já estava indo atravessar a rua quando minha mãe segurou em minha mão.
–Não filha, espera!
–Porque eu deveria?!
–Sarah, não é com a ira que se resolve as coisas, filha. -ela tentava me acalmar.
–E escondendo as coisas também resolve, Dona Célia?! -sério, eu estava muito alterada.
–Filha, não faz isso! Espera Sarah... -eu tentava me soltar das mãos dela. -PARA SARAH! -logo sentir a minha bochecha arder... minha mãe havia me dado um tapa.
Por alguns segundos, minhas íris verdes encaram as dela que estavam completamente molhadas pelas lágrimas. Foi a primeira vez em anos que minha mãe havia me batido. Abaixei a cabeça e afundei as mãos em meu rosto.
–Desculpa mãe... perdi a consciência... -ela me abraçou e cochichou no meu ouvido.
–Tudo bem filha... Agora vamos tirar esse sangue.
Autora: Velho, até eu me surpreendi com essa reação aí da Sarah. Caralho! Bem, voltando...
* * *
Desespero
''Em algum momento da vida, você vai se desesperar, pode ter certeza...''
(Três dias depois — Domingo)
Tinha dormido naquela tarde entediante de domingo. Meus amigos ainda estavam fora do mapa e minha vida estava começando a ficar sem sentindo. Levantei-me da cama e fui em direção ao banheiro para pentear meus cabelos loiros que estavam totalmente embaraçados.
Quando comecei a passar o pente, vi que o mesmo estava deixando uma grande quantidade de fios entre os dentes do pente. Passei mais umas duas vezes e mais fios estavam se soltando. Meus olhos já estavam cheios de lágrimas ao ver aquela cena.Passei mais uma vez e quando vi os sedosos loiros no chão, um grito agudo foi arrancado de meus timbres.
–Não, não pode ser, meu Deus! Nãaaaaaaaao!!! -o choro foi se intensificando.
–O que foi Sarah?! -meu pai entrou no quarto assustado com os gritos.
–Meu cabelo... -estava soluçando, não conseguia falar.
–Meu Deus o que houve aqui!
–Mãe, mãe... me ajuda, meu cabelo já tá caindo. Eu vou morrer mãe! -corri até a minha mãe e a sacudia de leve.
Foi muito difícil para os meus pais me controlarem naquela tarde. Meu cabelo era tudo para mim e perdê-lo estava sendo extremamente inaceitável! Me joguei na cama, em meio aos fios e as lágrimas. Uma forte dor de cabeça me atingiu por conta do susto e do desespero. E mais uma vez a minha fé, a minha promessa.. estava sendo quebrada por mim mesma.
Continua...
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