O Diário de Jace Lightner
1 Introdução
Notas iniciais
Dia 1 de ano incerto
Permitam-me que eu me apresente. Sinto muito pelo trecho acima, mas não posso destruí-lo ou apagá-lo. Papel é quase que sacro nas terras de onde escrevo. Me chamo Jace Lightner, sou um jovem Manni e este é meu caderno de anotações e memórias pessoais. O escrevo agora em algum lugar entre o gigantesco caminho entre Calla Bryn Sturgis, meu atual objetivo, e o local de onde saí, Garlan, uma pobre cidade corrompida pela erva-do-diabo. Vivi lá grande parte da minha vida, apesar de não ser nativo da cidade. Para ser honesto, não sou nativo de lugar algum. Lembro-me da minha casa vagamente, nada mais do que imagens envoltas em névoas e sons difusos. O Mundo Médio se tornou minha casa aos sete anos, e mesmo assim, ainda me sinto um estranho aqui. Nasci em um local chamado Londres, em um mundo paralelo a este. Lá eu era um garoto de classe média, algo parecido com um filho de um fazendeiro importante. Às vezes fico me descobrindo tentando lembrar pequenos fragmentos daquele lugar. Como eram meus pais? A voz que as vezes me vêm a cabeça é mesma a de minha mãe? A quanto tempo estou neste mundo? Aqui o tempo é tão inconstante e intangível que nem mesmo consigo estimar mais a passagem dos dias ou minha idade…
Sinto que estou ficando indisposto novamente, espero conseguir escrever amanhã, ou mesmo voltar a escrever…
Dia 4 do mesmo ano
A febre alta voltou, junto com a falta de coordenação motora. Tenho que me concentrar muito para não deixar o lápis rolar d eminha mão até o piso. Eu nem mesmo consigo me levantar, minhas pernas não me obedecem. O ferimento parece estar melhorando, apesar de que penso que irei mancar pelo resto de minha vida. Mas o mais importante foi que funcionou, eu consegui, mas não posso fazer isso de novo, não hoje, nem em anos…
Dia 7 do mesmo ano
Lhe devo algumas explicações caro diário, se é que posso chamá-lo assim. Bem, comecemos do princípio. Como já escrevi, nasci em Londres, onde vivi até mês sete anos. O que eu consigo me lembrar é das tardes de domingo, quando eu saia com meus pais, meu cachorro do qual não me recordo o nome, e com minha pequena irmã, sim, havia uma irmã, e íamos a um parque próximo a nossa casa. Lá, eu jogava beisebol e nadava livremente no pequeno lago que mais tarde se tornaria minha entrada para uma nova vida. Eu jogava com meu pai, ele era o rebatedor e eu o lançador. Não consigo me lembrar ao certo sobre no que consistia o esporte, mas lembro que eu era bom, mesmo para um garoto de 7 anos, meu pai não conseguia rebater as bolas que eu lhe atirava. Um dia, no inverno, a mais bela época que consigo me lembrar, pois havia neve e o lago congelava com o frio, fomos novamente ao parque. Minha irmã, agora tinha cerca de quatro anos se bem me lembro. Sentamos na beira do lago congelado, observando os casais e as crianças menores brincando com aquela incrível força da natureza branca, mergulhando em montes gigantescos de brancura e emergindo totalmente ensopadas, porém, rindo com se a felicidade só depende-se de mergulhar, se molhar e mergulhar de novo na neve. Foi quando minha irmã se afastou de nós. Eu fui o primeiro a notar. Virei-me para perguntar se ela gostaria de se juntar as outras crianças, quando a vi caminhando sobre o lago congelado. Na sua frente, havia algo que lembrava uma borboleta branca, mas era tão pálida, quase translúcida, jamais me esquecerei dela, pois acho que houve um porque de ela estar ali. Desesperado, corri em seu encalço berrando com ele, pois o gelo era fino. Ela, rindo, dizia que a borboleta queria brincar comigo e com ela. Meu pai, percebendo a cena, seguiu em meu encalço, para nossa infelicidade, ele estava desesperado. O gelo poderia agüentar o peso de duas crianças com não mais do que 10 anos cada, mas de um adulto de 30 ou 40 anos? Lembro-me do frio e da dor de se ver queimado pelo gelo.Lembro-me de minha irmã se debatendo para tentar sair, enquanto éramos puxados para debaixo do gelo.Meu pai esmurrava o gelo na esperança de quebrá-lo, só conseguindo provocar rachaduras. Vi ele correr na direção do buraco onde caímos, mas ele foi impedido por homens que berravam e tentavam segurá-lo. Foi quando eu vi a luz. Era a borboleta branca que pousava no cabelo de minha irmã inconsciente e tão branca e muda quanto um cadáver. Me forcei a nadar e vencer o frio, agarrando-a pelos cachos castanhos de seu cabelo. O peso era gigantesco para mim, e meus músculos não agüentavam mais. Eu simplesmente caí e senti meus dedos afrouxarem-se um a um, soltando os cabelos de minha irmã,da qual não me recordo nem mais o nome, quanto mais o semblante…
Dia 9 do mesmo ano
Já estou me sentindo um pouco melhor, e agora parece que a dormência em minhas pernas tem fraquejado, o que não é de todo bom, agora eu sinto a dor da ferida na minha perna esquerda como uma faca aguda que afunda cada vez mais na pele. Mas ainda não é hora para isso, não devemos nos apressar, o que me permiti continuar é esta reunião de minhas memórias. Onde paramos? Ah sim, minha suposta morte. Não sei quanto tempos e passou desde minha última lembrança, mas lembro de estar flutuando envolto em sombras. Algo tão terrível e tão relaxante que poderia não passar de um sonho pós sensação de queda, como quando acordamos de um sonho repentinamente e percebemos que tudo foi irreal, que tudo está como sempre foi, e então nos acalmamos e voltamos a dormir. Mas não foi isso que ocorreu.
Quando acordei, eu não mais estava em Londres ou em qualquer lugar que me lembrasse o mundo em que eu morava. Eu não sabia como, mas eu sabia. Tudo parecia diferente ao meu redor O ar tinha um cheiro diferente. A sensação do lençol me cobrindo era mais suave. Os sons, ou melhor, a ausência de som, era bem mais mística e sagrada do que a encontrada em qualquer Igreja do Homem Jesus que já visitei, neste ou em outro mundo.
Eu não tinha forças para sequer me levantar. O máximo que consegui foi levantar meu corpo da cintura para cima, logo em seguida sendo amparado por um par de mãos idosas e masculinas, de unhas prodigiosamente grandes. Este era o senhor da tribo Manni que me acolheu, que por sinal de respeito, não citarei o nome deste ou de outro de meus irmãos, apesar de já não fazer mais parte dos viajantes do vento do ká a seus olhos. Ele me explicou sobre o que me havia ocorrido, como eu, em um momento de provável necessidade, havia criado uma porta entre este e meu mundo, caindo em meio a um antigo ritual Manni, que muito provavelmente deve ter auxiliado na criação d aporta, pois só de tentar criar uma porta para este mesmo mundo, acabei neste estado em que estou. Criança com dons fora de controle ou não, eu logo acreditei nele. Eu podia ver que ele era velho e sábio, um homem temido e respeitado por muitos, disso não havia dúvidas. Alguém como ele não haveria de mentir. Além disso, eu era jovem e havia acabado de passar por um terrível choque, minha mente estava quebrada, parte do que lhes contei aqui sobre minha chegada a este mundo só me veio depois de anos de sondagem e análise de minhas memórias através do Toque. Claro que procurei saber sobre minha irmã quando tudo se fez claro, mas foi uma busca infrutífera, eu havia chego sozinho e durante a semana que permaneci inconsciente, ninguém chegará ou partirá da vila. Todos queriam conhecer o viajante dos mundos, o garoto que viera sozinho de outro local muito além das fronteiras do mundo médio…
Dia 13 do mesmo ano
Já consigo me levantar tropegamente e me apoiando nas fundações deste local. Ainda não lhes disse, mas me encontro no momento em uma Dogan a muito esquecida do povo antigo. Como caí aqui? Bem, do mesmo modo que entrei neste mundo. Mas deixe-me avançar um pouco mais em minha história.
Cresci entre os Manni. Quando me recuperei, logo fui incluído na doutrina Manni. De longe, minhas habilidades e inteligência eram as melhores entre as crianças. Eu aprendia rápido e parecia que desenvolvia cada vez mais minhas habilidades com o Toque. Em Londres, eu era capaz de sentir coisas que ninguém mais sentia, me sentia mal quando os outros estavam maus. Sabia quando alguém mentia ou me escondia algo. Neste mundo, essas habilidades cresceram quase que como por combustão espontânea. Eu logo dominava a litura e a proteção mental. Conseguia fazer pequenos objetos planarem no ar. Parece que neste mundo, minhas habilidades despertaram de sua latência e estão cada vez mais se expandindo, como pude perceber aqui na Dogan. Devo dizer que cresci sendo um garoto prodígio, cotado como o novo líder dos Manni de minha vila, e por isso mesmo, convencido. Eu aprendi sobre os outros planos, os feixes que sustentam o grande pilar e como ele assegura a existência de todos os mundos. Cresci ouvindo as lendas dos guardiões, do povo antigo, de Arthur Eld e seus pistoleiros. Aprendi sobre o espaço todash e sobre as criaturas do Primal que nele habitavam a tanto tempo quanto a magia e a própria Torre. Aprendi a focar minhas habilidades, criando pequenas fendas instáveis, fendas na realidade, passagens para outros mundos. Não duravam muito e não eram grandes o suficiente nem para um rato passar, para meu desalento.
Quando fiz 19 anos, cansado da passividade de meus irmãos que se negavam a deixar a vila, negando assim, o amor a nossa doutrina e amaldiçoado por nosso ancião como um dos integrantes do povo perdido e condenado a vagar pelo Na’ar após minha morte, eu roubei um antigo coff, uma caixa com um poderoso talismã que pode auxiliar na transição dos universos, cortei minha barba, minhas unhas, meu cabelo e me afastei de meus irmãos como um andarilho solitário em busca de reconhecimento e acolhimento nas tribos maiores, onde haveria de existir algum manni que compartilha-se de meu desejo de conhecer todos os mundos, pedaço por pedaço, e não só estar em todos os mundos. Mas tudo não passou de uma desculpa, a grande verdade é, que eu sem ter controle de meus poderes quando criança, poderia muito bem ter levado minha irmã para outro local, no qual, talvez ela me espera-se, talvez com habilidades tão fantásticas quanto as minhas.
Dia 19 do mesmo ano
Já estou completamente recuperado, com excessão da perna. Acho que mancarei pelo resto da minha vida. Ela ainda dó e têm um aspecto repugnante d se ver, mas não consigo me demorar mais aqui. É como se os mundos me chamassem. Pretendo partir assim que o dia nascer. Não consigo dormir. A ansiedade enfraquece minha mente, o que faz com que os pesadelos voltem. Como hoje, eu parti da vila dos manni em um número 19, um número poderoso e cabalístico. Andei muito. Conheci pessoas. Fiz amizades e passei por apuros. Em um certo dia, encontrei aqueles que são chamados de vagos mutantes. Fui cercado. Iria ser morto por eles e suas mãos pútridas e de brilho verde doentio e ofuscante. Em desespero, caí de uma ribanceira enquanto estava em fuga. Acordei aqui na Dogan. Fiquei, como hoje, dias sem poder nada fazer a não ser me arrastar. Quando me recuperei, explorei o local que Havia descoberto ser uma Dogan, um local sagrado para o povo antigo. Descobri caixas com o que o povo chamava de pomos de ouro, pequenas bolas, não maiores que nozes, que são capazes de destruir um homem em mil pedaços em uma terrível explosão. Decidi que não poderia continuar assim. Precisava dominar a mim mesmo. Não poderia sempre contar com uma queda milagrosa que me força-se a abrir uma porta. Residi aqui durante anos, ou teriam sido meses? Já não me lembro. O tempo ainda é um enigma para mim. Há comida suficiente para um exército aqui, e levo um bom punhado comigo, assim como cerca de quatro caixas cheias de pomo, além dos que carrego sobre o peito. Com treino e no mais puro isolamento, descobri do que eu sou capaz. Consegui manter as fendas estáveis e alargá-las a cerca de um metro e meio de diâmetro. Descobri que objetos arremessados por elas desaparecem, mas continuam seu caminho. Quando eu fecho uma fenda e abro outra, com um pouco de concentração, consigo criar uma saída por onde o objeto sai, o que se provou muito útil com os pomos. Descobrir que posso armazenar coisas dentro desta fenda. É como se fosse um grande depósito do qual desconheço o tamanho e onde as coisas continuam flutuando. Não consigo criar mais do que três fendas simultâneas.
Tomado pelo antigo orgulho, criei um cinturão como os dos pistoleiros, que escondo sobre a capa negra com fundo azul dos manni. Ele cruza meu peito e minhas costas em forma de X. É feito de algo chamado plástico pelo que pude ler da embalagem onde o encontrei. Tem a forma de um grande tubo maleável e termina em um cinto que se ajusta a minha cintura. O cinto tem quatro saídas, duas na frente e duas atrás, onde os pomos descem de dentro dos tubos. Eu estava quase pronto, só faltava o último detalhe. U precisava tentar criar uma porta. Não algo grande como o que me trouxe ao mundo médio, mas algo como o que me trouxe até a Dogan, uma porta deste mundo para esse mesmo mundo. Em princípio, pareceu algo fácil, quase como automático. Pude sentir a diferença de poder daquilo. Parecia haver uma energia transbordando da fenda, oq eu não ocorria com as outras fendas. Era difícil manter aquilo aberto, mas eu sabia que consegui, já havia feito aquilo duas vezes sem saber que estava fazendo, agora, com minhas novas habilidades, seria muito mais fácil. Criei o mesmo padrão de fenda em outra sala, a cerca de cinco metro de onde eu estava, o meu limite em relação a distância, além disso, eu necessito saber onde está a fenda e como é o local. Confiante, eu saltei. Não demorou mais do que um milésimo de segundo, mas tenho certeza que muito mais tempos e passou entre eu emergir do outro lado e eu saltar na fenda. Eu cai no chão do outro lado, batendo a cabeça com força no piso. Meu corpo todo doía e tremia. U estava soando frio e sentia minha consciência ir se apagando. Tentei me levantar, mas descobri minha perna presa a feda. Para alguém de longe eu deveria parecer um idiota deitado com a perna levantada para o ar, sumindo em pleno ar, pois se fosse comparar as fendas com algo, compararia a um prato ou disco, olhado de certo ângulo, não passa de uma fina linha.
Algo segurava minha perna. Algo que apertava com uma força medonha e tinha olhos brilhantes. Olhos vermelhos brilhantes e ameaçadores. Esta “coisa”, não só me puxava, ela me usava como âncora! Pude ver quando uma garra disforme, envolta na mesma energia negra e nebulosa que sai da fenda, fincou-se na extremidade da fenda, com um terrível barulho de vidro quebrado. A criatura estava tentando sair e a culpa era minha! Desesperado, comecei a me debater e me sacudir em vão, o aperto da criatura era forte, então senti a dor. A garra da criatura tinha espinhos em sua palma. Senti minha perna se rasgando levemente. A dor foi tão excruciante que quase perdi a consciência por completo. Foi quando ouvi o uivo da coisa. A fenda estava se fechando, eu não tinha mais forças para mantê-la. Desmaiei.
Quando acordei, minha perna e minha calça estavam totalmente rasgadas. A coisa havia aberto pequenas feridas por onde havia afundado os espinhos para ter um melhor local para aplicar força para sair, como fizera com a fenda. A garra havia sumido quase que por completo, se liquefazendo em uma gosma esverdeada e negra, de um pútrido aspecto e com um cheio de morte e podridão. A fenda, havia se fechado precariamente. Eu ainda podia ver a energia saindo em pequenos fiapos em forma de névoa negra de uma tênue linha branca que restará onde antes havia a saída minha e da criatura. Nunca mais tornei a entrar naquele cômodo e ainda agora a criatura me visita em sonhos. Seja como for, o dia já raia, para minha sorte, pois na mais pura escuridão ainda vejo os olhos vermelhos a me cercar quando me distraio.
Ainda não tenho o conhecimento nem o poder muito menos a coragem de tentar abrir aquilo de novo. Meu cabelo embranqueceu em alguns pontos e sito que perdi peso, seja o que foi que fiz, isso me drenou khef… E aqui termino este meu relato e início minha viagem…
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