Querido diario,

Hoje mi papá cantou uma linda canção para mim. Não entendi muito bem, mas sei que ele me ama, e que não quer que eu o esqueça.

Mas como poderia esquecer alguém que está sempre por perto, com su guitarra, sus canciones e su amor?

Mas decidi que quero guardar essa música para sempre em minha memória, não sei o porquê. Sinto algo dentro de mim, me dizendo para fazer isso. Ou talvez seja só fome. Mamá Amelia diz que sou muito esfomeada.

Por via das dúvidas, vou escrever a letra aqui, talvez eu a decore e cante para papá de surpresa em seu próximo aniversário.

Lembre de mim

Hoje eu tenho que partir

Lembre de mim

Se esforce pra sorrir

Não importa a distância

Nunca vou te esquecer

Cantando a nossa música

O amor só vai crescer

Lembre de mim

Mesmo se o tempo passar

Lembre de mim

Se um violão você escutar

Ele com seu triste canto

Te acompanhará

E até que eu possa te abraçar

Lembre de mim

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Querido diario,

Papá foi viajar. Ele partiu com su guitarra. Aquela que tanto amo, que me faz lembrar do tão importante Dia de Los Muertos. E com seu amigo, Ernesto. Não me falou quando voltava, mas me deu um grande abraço antes de partir.

Mamá está furiosa. Disse coisas horríveis, como que nunca mais poderemos ouvir música ou cantar. Disse que papá abandonou a família por ela e que por isso ela está banida da família.

Chorei muito. Não tanto por papá, porque sei que ele me ama, apesar de ter ido viajar e não ter dito quando voltava. Estou só um pouco magoada com ele, por não me levar junto. Mas chorei por causa de mamá. Ela está tão triste. Embora finja que não.

E também estou preocupada. Meu sonho é escrever bellas canciones, como papá. E agora que mamá disse essas coisas terríveis, ainda poderei fazer isso?

Mamá diz que papá não voltará mais a morar com a gente. Mas certamente virá me visitar daqui a um tempo, ele me ama, afinal. Com tudo isso, minha maior preocupação é: Quem vai me ensinar a tocar guitarra? Ainda vou poder tocar depois de mamá ter dito que la música está prohibida?

E ainda: o que será que papá me trará de presente?

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Querido diario,

Mamá falou sério sobre a música. Já se passou um mês desde que papá foi embora e mamá nunca mais ouviu música, ou me deixou ouvir. Ou tocar. Ou ver alguém tocando. Criou uma loja de sapatos, pequena, mas necessária para conseguirmos nos manter bem. Mamá diz que esse será o negócio da família. Mas e se eu não quiser isso?

Onde está meu papá? Sinto tanta falta de sus canciones, dele falando o quanto amava “su pequeña Ines”. De sua voz me dando boa noite todos os dias.

Espero que esteja bem.

E que volte logo.

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Querido diario,

Faz algum tempo que não escrevo aqui. Cinco anos, na verdade.

Tanto se passou na minha cabeça durante esse período que acabei esquecendo esse pequeno caderno, que me acompanhou por tanto tempo.

Papá ainda não voltou, mas me mandava muitas cartas, embora mamá não soubesse. Escreveu lindas canciones, me mandou a letra de todas, que estão fazendo sucesso. Mas as cartas pararam de chegar, de uma hora para outra.

Muitos dizem que ele está muerto. Não quero acreditar. Preciso abraçá-lo mais uma vez.

Apesar de toda a mágoa que tenho por ele ter me deixado aqui, para acabar em uma loja de sapatos, longe de toda e qualquer música, sei que ele me deixou para tomar conta de mamá. Mas não está sendo fácil.

Ela se tornou dura, nunca mais cantou. Sempre o fazia com papá. Sinto falta do cariño desses momentos.

Sei que ela me ama, tenho certeza disso. Mas antes de papá ir, ela demonstrava mais, sorria mais. Vivia mais.

Agora o chama de traidor.

Pegou a única foto que tínhamos juntos e rasgou o rosto dele. Dobrou para trás a parte do corpo dele que aparecia na foto, assim como su guitarra, e a colocou em um porta-retrato. Disse que essa seria a foto de su ofrenda, para o altar do Dia de Los Muertos. Embora ainda esteja jovem, quer garantir que poderá vir nos visitar nesse dia, mesmo depois de partir, ver como andam as coisas, e verificar se a música continuará longe da família.

Mas e papá? Se estiver muerto, como tantos dizem, ele nunca poderá vir me visitar?

Sinto tanta saudade que certamente poderia sentir seu espírito perto de mim.

Guardei a parte rasgada da foto com o seu rosto, para garantir que nunca me esqueça dele.

Lembre de mim

Hoje eu tenho que partir

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Querido diario,

Sinto dizer que mais de trinta anos se passaram... e nunca mais vi papá.

Casei, tenho uma linda hija chamada Elena, mas nunca mais toquei ou ouvi música.

Mamá faleceu há algum tempo, mas o resto da família insistiu em permanecer com a tradição iniciada por ela.

Nada de música, muitos sapatos.

Não guardo rancor dela, ou de papá. Ambos seguiram caminhos diferentes com as oportunidades que lhes foram dadas.

Só queria reencontrar papá algum dia e dizer que o amo.

Ainda guardo aquele pequeno fragmento de imagem rasgada do rosto dele. E isso me dá forças pra continuar todos os dias vivendo e dando amor a mi hija querida.

Infelizmente ela não conhecerá a música, pois não tenho forças para tentar mudar a visão que foi criada na família de que meu papá não é um exemplo a ser seguido, pois ele abandonou a família. Seguindo seu sonho, ou não, isso é verdade.

Mas será que todos deveriam julgá-lo tão duramente por isso?

Sinto-me adoecendo. Estou ficando fraca a medida que envelheço.

Mas não é quanto a qualquer doença que me preocupo.

É quanto a memória.

Será que vou esquecer mi querido papá?

Lembre de mim

Se esforce pra sorrir

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Querido diario,

Tenho uma família completa agora. Netos e bisnetos.

Escrevo aqui com a mão fraca de quem adoeceu com a velhice, mas não poderia evitar fazê-lo depois de encontrar meu velho amigo de infância.

Minha memória está começando a fraquejar. O que eu mais temia.

Mas ainda lembro da canção de papá e de como nos amávamos.

Ainda lembro de mamá e a amo mais a cada dia. Ela lutou por nós. Talvez não do jeito certo para mim, mas do jeito certo para ela.

Temos agora várias fotos da família como ofrendas, mas nenhuma de papá. E ainda me pergunto se algum dia verei ele novamente.

Não importa a distância

Nunca vou te esquecer

Cantando a nossa música

O amor só vai crescer

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Querido diario,

Lembre... Lembre de...

Lembre do que????

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Querido diario,

Permaneci enferma demais em minha velhice para continuar escrevendo aqui. Não sei dizer quantos anos mais passaram, mas foram muitos. Incontáveis anos de medo do esquecimento.

E, em minha enfermidade, realmente quase esqueci de papá. Mi querido papá.

Mas algo incrível aconteceu. Meu querido bisneto, Miguel, o mais sonhador entre todos nós, partiu em uma inenarrável aventura no Dia de Los Muertos. Tudo por querer ser músico.

Músico!

Eu sabia que a música ainda corria nas veias da família!

Ah, e sua história poderia virar um filme!

Descobriu que papá foi morto por seu amigo Ernesto, pois ele queria voltar para nós, mas isso deixaria Ernesto sem música, e sem fama. Então ele envenenou papá. E pegou todas as suas músicas, dizendo que eram dele. Mi querido papá.

Tudo o que queria era voltar para nós e nós, sua família, nem ao menos havíamos colocado uma ofrenda em sua homenagem.

Mas isso mudou.

Miguel tocou e cantou aquela música. Aquela linda música que papá escreveu para mim e cantou antes de ir embora.

Então me lembrei daquela pessoa tão importante da qual estava quase me esquecendo. Minha doença cedeu, minha lembrança clareou e eu fiquei mais feliz. Mais viva.

Entreguei, então, as cartas com as letras de música que ele mandou para mim, como provas para o mundo que las bellas canciones foram escritas por papá. Entreguei também o pedaço de foto em que aparecia o rosto de mi papá.Miguel o colocou junto do resto da imagem. Agora temos uma ofrenda para Hector Rivera.

Eu o reencontrarei um dia.

Lembre de mim

Mesmo se o tempo passar

Lembre de mim

Se um violão você escutar

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Querido diario,

Fazem apenas alguns meses desde que escrevi aqui. E não poderia deixar de escrever pela última vez.

Sinto que é hoje que reencontrarei mi papá.

Minha família está feliz novamente, com a certeza de que seu rumo é a música, ou os sapatos.

Eu estou feliz novamente, com minhas lembranças mais vivas que nunca.

Será minha vez de ter uma ofrenda para visitar a todos no Dia de Los Muertos. E fico feliz por isso. Pois tenho certeza de que o farei com papá e mamá.

Mal posso esperar pelo descanso. Pelo abraço. Pelo amor.

Adeus, diario. Que algum dia você seja lido por alguém de minha família. E mostre que o amor nem sempre faz e acontece como queremos.

Ele com seu triste canto

Te acompanhará

E até que eu possa te abraçar

Lembre de mim

¡Hola, papá!

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!