Notas iniciais
comentem o que acharam! :D

Querido diário,

Acabo de te comprar numa livraria bem legal daqui da cidade. Você era um dos últimos! Sabe diário, acho que o destino nos quis juntos.
Tenho a leve impressão de que vou gostar de você, afinal eu gosto de quase todo mundo, mas não sei se você gostará de mim. Primeiro por que pouca gente consegue gostar de mim de verdade, segundo porque estou praticamente te agredindo com esses meus garranchos.
Bom, meu nome é Cecília, que vem do grego e significa cega. Na antiga Grécia ser cego era sinal de sabedoria. O porquê? Nem eu sei. Cecília também é o nome de uma cobra. Tenho mesmo que te dizer que eu adoro meu nome?
Sim, isso foi sarcasmo. Não estou especificando porque te achei incapaz de entender, e sim porque você não tem olhos para me ver revirando os meus. Parabéns diário, você é um tipo de Cecília!
Tá, foi uma péssima piada. Mas voltando ao meu nome, meus pais me deram ele por causa da minha Nani, ou a minha avó, se você preferir. Fico imaginando a sua avó, diário. Imagino que ela serviu a Maria Antonieta, ou alguém muito famoso na Europa. Eu aposto que ela era uma daquelas vovós que faziam cookies à tarde e contavam historias…
Já a minha avó... bem ela era adorável. Leia-se adoravelmente rabugenta. Ela acharia esse negócio de escrever num diário uma bobagem. Mesmo sendo um pouco… Enervada, ela é a mulher que deu origem ao meu nome. E eu a agradeço por isso, e por varias outras coisas.
Diário, eu ainda não te disse a verdadeira razão de te comprar, te escrever significa muito mais que ter um diário e contar meus acontecimentos diários. Você é, simplesmente, o símbolo do começo da minha nova vida. Tá, você deve não estar entendendo, mas calma, eu vou te explicar.
Há uns 3 meses, tudo mudou. Eu era uma pessoa de classe média. Nem pobre e muito menos rica. Eu, o meu pai e a minha mãe vivíamos num bairro mediano de São Paulo… Até que, do nada, o meu pai ganha na loteria. O engraçado é que ele sempre foi contra jogos de sorte e apostas, mas naquela semana ele estava um tanto quanto supersticioso. Ele sonhou com vários números e animais, e então apostou os que lembrava. Resultado? De oito números ele acertou 7. Depois de alguns dias, tudo virou do avesso. Parentes surgiram do nada; vizinhos viraram nossos “melhores amigos” de repente; e o ápice foi quando invadiram a minha casa no momento em que estávamos dormindo. Eu e meus pais nos escondemos no sótão, e quando eles viram que não tinha nada de valioso na minha antiga casa… Foram embora.
Depois que invadiram nossa casa de madrugada, meus pais decidiram que não poderíamos mais morar aqui no Brasil. Antes mesmo de ganharmos na loteria, minha mãe tinha o sonho de algum dia nos mudarmos para Califórnia, onde minha mãe nasceu e morou até os 5 anos.
Ela teve que deixar os Estados Unidos por causa das dificuldades financeiras que estava passando por lá. Eu sei, o custo de vida aqui também é alto, só que não era só esse problema que estava os atormentando; Nani estava muito doente na época, e então meu avô achou melhor vir para o Rio de Janeiro, em busca dos parentes mais próximos. Sim, eu morava no Rio até 3 anos atrás. Eu não era essa ruiva branquela e pálida que você conhece agora. Eu tinha treze, era cheia de vida, loira (é, eu sou loira naturalmente), bronzeada e surfista. Acho que uma das únicas coisas boas de morar na Califórnia é que o clima é tropical e não se assemelha em nada de São Paulo.
O por que eu mudei para Sampa? Ah, isso já é outra história.
Depois do arrombamento nós três viemos morar aqui, num hotel de luxo, do qual estou há 2 semanas. Aqui pode ter a melhor comida do mundo, ou a cama mais macia, mas eu nunca vou ficar tão feliz quanto eu era, com o meu quarto, a minha cama, os meus posters.
Mas o que me acalenta é porque eu sei que daqui a dois dias vou ter um lar de verdade, no lugar onde minha sempre sonhou em morar. Se estou completamente contente…? Que pergunta difícil. Amo o Brasil, afinal foi aqui onde nasci. Mas vejo que lá fora, há tantas oportunidades... e a Califórnia parece ser o lugar mais legal do mundo. Mas, por outro lado, o medo de não me adaptar me sufoca.
Eu tenho medo por todo o espectro de preconceito e bullying pairando sobre aquele país. Eles podem ser cruéis. Ainda mais com novatos. Ainda mais para com uma latino-americana. Mas eu sei que não posso ter medo.
Afinal, eu não posso criar expectativas tão pessimistas. O que me deixa triste também é ver tudo o que eu fiz vou deixar no passado. Em 16 anos de vida eu aprendi muita coisa e fiz muitos amigos...
Porém nenhum deles permaneceu até esse momento. A maioria dos meus antigos amigos voltaram a falar comigo, mas eu não sei se é por causa do maldito dinheiro ou porque vou embora permanentemente. Enfim diário, eu acho que por hoje eu já escrevi bastante coisa sobre mim. Eu preciso mesmo dormir, porque são quase meia noite, amanhã eu tenho aula e é a décima vez que a minha mãe bate na minha porta mandando eu ir descansar.

Boa noite, D!