O Diário da Rainha Laura

3 Meu primeiro emprego


Notas iniciais
Oi Mãe! Até agora você é minha única leitora, e eu espero que isso mude em breve. Editei bastante coisa nesse capítulo, tomara que você goste! Ps.: A janta estava ótima!

Eu viajei até a primeira vez que ouvi sobre minha constelação de sinais. Estava no ônibus, voltando da faculdade, tranquila e pensante até que... Um mendigo tentou paralisar meu pâncreas* me fazendo voltar à realidade pós-entrevista.

Pedintes adoooram me assustar. Não pelas roupas nem nada assim. Mas é porque eles surgem do nada, bem no auge de algum pensamento que me deixa um tanto distraída. Eu posso ser má, mas sou meio boa. Dei um biscoito que tinha na bolsa, a entrevista foi mais rápida do que eu pensava, eu não estava com nenhuma fome. O cara agradeceu, com uma cara de quem preferia o dinheiro, e foi embora. Isso durou uns 30 segundos. Eu estava pensando em alguma coisa, e não tenho ideia do que seja.

*Seu pâncreas pode paralisar após um grande susto.

Três horas depois e eu me arrependi de ter dado o biscoito. Explicando, aqui no Rio, se alguém solta um pum numa ruela afastada de tudo, o centro da cidade para.Se o centro parar, todos os acessos ao centro viram uma fila de carros. Quando os acessos ao centro ficam congestionados... bem... até os confins mais afastados da baixada fluminense ficam completamente abarrotados de carros e ônibus. Um trajeto de 15 minutos pode levar duas horas (sério, sem exagero. Da última vez que aconteceu, o motivo foi um cano de água estourado). Esse foi um dia daqueles. Descobri que o caos era porque um embaixador estava de passagem. Demorei o triplo do tempo pra chegar em casa. Resultado? Cheguei com fome, PORQUE DEI O BISCOITO QUE EU TINHA LEVADO!!!

Dois meses depois da entrevista minha vida havia mudado radicalmente. Eu descobri em mim poderes que eu não sabia. Eu tinha 15 braços, 8 pernas, me dividia em 20! Era recebida com sorrisos pelos meu chefes, eu estava muito feliz. Eu jamais imaginei trabalhar nessa função. O que eu poderia pedir da vida? Um emprego de verdade, na área que eu estudei por anos pra ter um salário decente, talvez? Explicando: Peguei o serviço de babá mesmo.

Mas sério, em geral, eu gostei desse trabalho. Me fez descobrir que eu tenho mais de duas mãos, tipo na hora em que eu segurava o bebê, a mamadeira, a chupeta, o bichinho, a fralda que resolveu desprender a fitinha justamente na hora que o celular tocou. Nunca me esquecerei do diálogo que mudou minha vida.

“-A-Alô?

—Boa Tarde, esse é o telefone da senhorita Laura Ferreira?

Bichinho caiu.

—Sim, quem deseja?

— A sra. fez uma entrevista recentemente e foi selecionada.

Duas questões mentais: 1- A que entrevista ele se refere? 2- Cadê o bebê que eu estava segurando?

—Ahh sim... Quais são os procedimentos agora?

—Esteja em duas horas no consulado da Espanha.

—Ma-Mas eu não...

—Algum problema?

—Muitos. Primeiro, eu estou trab...ocupada. Segundo, estou fora de casa, sem documentos e eu nem sei onde fica o consulado! –e nem que eu tinha feito entrevista pra isso!.

—Chame um taxi, nós pagamos, venha do jeito que está. Consulado, em duas horas.”

Eu achei muito estranho. Ir como está inclui com um bebê no colo? Isso eu descobriria quando chegasse. Pedi permissão à patroa, aprontei o bebê, dei um jeito em mim. Procurei no google por uma cooperativa de taxi, achei e chamei um taxi pela primeira vez na vida. Em pouco tempo descíamos, eu e o bebê( e suas duas bolsas), na porta de um prédio magnífico.

Aí eu me dei conta de que o prédio era gigantesco e eu não tinha a menor ideia de qual sala ir, com quem falar e essas coisas que a gente precisa saber quando vai a um prédio desse tamanho.

“ –Senhorita Laura?

Uma mulher de meia idade alternava o olhar entre mim e o bebê, talvez porque ele não deveria estar aqui. Aliás, como ela sabe que eu estou aqui?

–Sim, sou eu. Desculpa o meu estado, mas me mandaram ir como estava. E bem... eu estava assim.

—Não há... muito problema senhorita. Me acompanhe, estão te esperando há horas!

—Estou 15 minutos adiantada, como eles –eles quem afinal –estão me esperando há horas? Aliás, desperdício de 15 minutos...

—Em breve vai entender. Boa sorte.

A porta se abriu revelando três homens, entre eles o do dia da entrevista, rigorosamente vestidos.

—Seniorita Laura, você tem... um filho?- Se pronunciou o cara que chamaremos de cara que fala estranho, porque eu não decorei o nome dele.

—Não, não... Ele é... o meu trabalho.

—Ah, sendo assim, pode sentar-se. Sou o Embaixador da Espanha no Brasil – Isso explica a fala estranha, é sotaque –acredito que no esteja compreendendo, cierto?

—Certo. Eu não me lembro de ter feito entrevista pra trabalhar na embaixada.

—Não vai trabalhar na embaixada, senhorita Pontual -Ialá, o carinha da entrevista!

—Então o que eu estou fazendo aqui?

—Vai assinar uns papéis.

—Que papéis?

—Muitos. Mas principalmente, o de seu noivado judicial com o próximo Príncipe das Astúrias.

Ri alto.

—Mas falando sério agora, qual é o emprego?

—Você acha mesmo que se fosse brincadeira eu estaria aqui? –Me xinguei mentalmente por ter me perguntado porque o cara n°3 ainda não tinha se manifestado. Ele era assustador! Depois eu fui descobrir era diretor da Abin, Agência Brasileira de Inteligência(que eu nem sabia que existia).

—Só acho que se não fosse brincadeira eu pelo menos saberia o que é Astúrias. Aliás, o que é Astúrias?

—Hoje não é dia para perguntas, mocinha -Disse o cara da entrevista- Mas que raio de cheiro é esse?

Já disse que eu amo esse bebê?

—Ué, o Sr. Não disse que hoje não é dia de perguntas? Mas como eu sou boazinha, te respondo. Preciso trocar a fralda do bebê, com licença.

Nem sei se ele me concedeu licença ou não. Saí dali o mais rápido que pude, me enfiei no primeiro corredor que achei, achei um banheiro, fiz a troca mais rápida ( qual é, não dá pra fugir, com esse cheiro eles me acham até em marte!) e corri o máximo que dava com esse tanto de peso.

Mas é claro, óbvio, evidente, que só na minha cabeça de cérebro de passarinho isso ia dar certo. No terceiro corredor eu já estava perdida e no quarto já me arrastavam de volta pra salinha do terror, só que dessa vez a mulher que me recebeu estava lá também.

—Achou mesmo que iria escapar? –Cara da entrevista.

—Não custou nada tentar.

—Dona Dolores, leve o bebê –Filho da mãe, acabou com a minha desculpa –Laura , o assunto a ser tratado é de suma importância e é um segredo de Estado.

—Se é segredo e vocês estão me contando, não deixa de ser segredo?

—Você não consegue mesmo ficar sem ironizar? –Carinha da entrevista outra vez.

—Não quando eu estou nervosa. E eu estou nervosa pra caramba! Eu não aceito o noivado e quero ir embora agora.

—Não é uma pergunta, Laura. Você fez um juramento de entregar até mesmo sua vida pela liberdade e bem de sua Pátria.–Cara n°3.

E então ele soltou uma gravação. “Ou ficar a Pátria livre, Ou morrer pelo Brasil”, e eu tinha certeza que era minha voz naquele agudo desgraçado. Senti a testa esfriando, perdi a sensibilidade dos dedos. Escutei os três falando ao mesmo tempo, alguma coisa bem baixinho, como se estivessem longe. E depois tudo apagou de vez. Mas é claro que não iam me deixar dormir o soninho da paz.”

O resto diálogo não tenho memórias nem paciência de narrar. Foi um papo longo e chato sobre as relações comerciais delicadas entre Brasil e Espanha. Nenhum rumor de guerra, pelo contrário. As duas nações estavam fortemente unidas e desejavam se reunir ainda mais, para isso, um povo deveria se juntar ao outro. E, nada melhor do que um casamento de contos de fadas para fazê-lo. A moral da Família Real da Espanha estava completamente devastada (tanto é que mesmo eu sabendo que a Espanha ainda era uma monarquia-parlamentar, eu nunca havia parado pra pensar que possuía uma família Real. Entretanto, eu me lembro bem do dia que me atrasei só pra ver o casamento do príncipe da Inglaterra. Foi exibido em todo mundo, todos se comoveram com a história, e era essa comoção que queriam causar comigo. Descobri depois que o casamento deles foi forjado também.) e a minha missão era restaurar o antigo prestígio, ou pelo menos aplacar a revolta da oposição. Eu havia sido minunciosamente escolhida entre diversas meninas do país inteiro para essa tarefa. O mendigo que me assustou, tinha sido contratado para verificar minha reação, segundo eles, perfeita –Gentil como a lebre, esperta como a raposa, eles disseram- outro ponto foi a entrada no dia da entrevista( maldita entrada). Cada resposta, cada palavra cada passo desde do dia que me candidatei para o, que eu pensava, emprego, fora vigiado e marcado, e contou pontos positivos e negativos. Minha personalidade, meu nome, minha cor, a tal histórias das Três Marias, meu corpo, minhas regras, meus ascendentes até 5 gerações anteriores. Coisas que nem eu sabia sobre mim mesma e coisas que eles não quiseram revelar. Muita coisa. Desmaiei mais umas duas vezes, e na terceira eu aproveitei de uma tonteira pra fingir um desmaio. Eles não perceberam, mas não me levaram pra o hospital, como eu queria, o que estragou meu plano de fuga. Não tive mais nenhum direito de escolha naquele dia. Fui alertada de ninguém poderia ficar sabendo de nada, se muito meus pais. Se a informação vazasse, qualquer pessoa que soubesse passaria a correr risco de vida. Todos os meus próximos, que poderiam comprovar minha existência, seriam mortos ou transferidos (sabe-se lá pra onde) se alguém descobrisse. Minha família e amigos próximos seriam mortos ou transferidos se eu fugisse ou cometesse suicídio ou engravidasse ou se desse qualquer passo não autorizado que impedisse o casamento. Minhas escolhas sobre mim se limitavam à o que comer, quando comer e o que vestir. E em quinze dias, quando eu partiria do Brasil, nem isso poderia escolher. Pra todos os efeitos, eu havia recebido uma oportunidade de trabalho imperdível na Espanha. E passei a tarde tratando disso e assinando os documentos relativos ao processo. Até segunda ordem, meu acesso à internet era limitado e meus telefones foram grampeados. Seguranças disfarçados estariam na minha cola até o embarque. Aí eles já não estariam disfarçados. Gravadores e câmeras estariam por toda parte, de forma que a única coisa que escaparia do conhecimento deles eram pensamentos. Pensei bobagem só pra me certificar disso, era verdade. Quer dizer, em parte, porque a postura corporal denuncia os pensamentos. Eles não me disseram isso, é claro, porque se eu soubesse(como eu já sabia, já havia lido a respeito) faria exatamente o que eu fiz: postura neutra ou enganosa. A tal Dolores me devolveu o bebezinho, já trocado, alimentado e dormindo. Ele me abraçou quando voltou pro meu colo. Fomos assim pra casa, num carro blindado disfarçado de táxi. Ele chegou em casa ainda dormindo, meio sujinho de tanto brincar( vez ou outra dava pra ouvir a risada dele ou da D. Dolores lá da sala. Ele acordou por um instante, tempo suficiente pra dar um banho, e depois voltou a dormir tranquilo. Logo logo a patroa chegou. Ela foi a primeira a saber da minha ida à Espanha, antes mesmo dos meus pais. Ficamos conversando uns 30 minutos, antes de eu sair e ir ao ponto de ônibus. Não me preocupei com assaltos ou sequestros, pela primeira vez. Sabia que até se eu caísse, apareceria gente do nada pra me ajudar. Peguei o ônibus já de fone no ouvido, volume no máximo. Desci em casa, me tranquei no quarto, nem sequer jantei. Música alta no ouvido, pensamentos na cabeça(até porque, né, se eu pensasse na barriga ia ser um problema sério).Dizer não era dia de perguntas foi uma ironia da grandes. Não era dia de perguntas pra eles, que mal me deixaram falar. Mas em mim, as perguntas fluíam sem cessar. Afinal, Que raios é Astúrias?

Notas finais
No primeiro parágrafo, a viagem não é literal, é figurativa, no sentido de divagar. Acho que só tem isso pra esclarecer. Te amo mamãe. E, futuro leitor, diga um oi!