O Diário da Rainha Laura
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Notas iniciais
Ser pontual é mais que um capricho numa situação dessas. Ser precavida e pontual te dá pontos. Ser precavida, pontual e azarada, te faz, na melhor das hipóteses, só pontual. Essa é uma lição que se deve aprender rápido. Por sorte eu andava rápido. Por que o ônibus demora quando mais se precisa. E demorou.
Meus passos eram firmes, mesmo no salto. O “toc toc” das passadas ritmadas eram ouvidos no corredor. Há alguns metros da porta, olhei no relógio. 7:57 e quase 30 segundos. A entrevista estava marcada para as oito, mas todo mundo sabe que o ideal é chegar com pelo menos, 30 minutos de antecedência, caso haja imprevistos. Ou seja, chegar depois das 7h e 30m já era atraso, perdi a vaga. Mas aí uma ideia totalmente descompensada me passou pela cabeça. Eu adorava e detestava fazer isso. Mas eu teria que fazer. Era isso ou admitir o atraso. Eu já tinha feito isso diversas vezes, propositalmente, em situações de menos estresse. Mas era insano e perigoso. Ou jogaria a vaga aos meus pés ou me daria um pé. E vamos lá!
Respirei fundo tentando recuperar a calma perdida há uns... dois ou três meses. Então fiz.
Fiquei parada. Paradinha até que o relógio marcasse 7:59 e mais de 30 segundos. Respirei fundo outra vez. Olhei o maior ponteiro, marquei com passadas cada vez que ele passava em um dos “tracinhos”. Quando marcou os 57 segundos pus a mão na maçaneta. Aos 58, entrei na sala de espera. Aos 59, ouviu-se o suave bater da porta. Ás 8h mais que em ponto, um “Bom Dia” confiante, seguro, e um tanto autoritário deixou todas as outras mulheres da sala de olhos arregalados.
—Em cima da hora, não?
—Errado. Na hora. Nenhum segundo a mais do que o marcado, nenhum a menos do que o necessário. Isso é a verdadeira pontualidade.- retruquei pra outra candidata com uma leveza na voz que quase me surpreendeu. Como se fossemos amigas que marcaram um chá. Mas ela não recebeu assim, aliás se cara feia é fome, aquela mulher sentiu uma fome de dias depois do que eu falei. O que foi ótimo. Minha segurança ridiculamente fingida causou o efeito que eu esperava. Quer dizer... quase né, não era o plano inicial, mas tá valendo.
A secretária fez alguma anotação em algum papel. Orei para que não fosse na minha ficha, enquanto procurava com os olhos um lugar pra me sentar, já que minhas pernas pareciam perder as forças de nervoso. O único disponível era justamente do lado da mulher faminta. Com a graciosidade e postura de dar inveja a uma rainha, andei calmamente até o assento vago, e endireitei minha saia ao sentar de pernas cruzadas, enquanto movia inconscientemente a ponta do pé. O entrevistador chegou mais de 20 minutos depois. Por ser Laura, ia demorar um pouquinho pra ser chamada. Quer dizer, era o que eu pensava. Porque uma hora depois, eu estava naquela sala.
O homem de meia idade –bonito por sinal –e com cara de que odeia seu trabalho folheou meu currículo e um papel anexo, com outras informações recolhidas pela empresa.
—Então a senhorita chegou atrasada?
É, ela anotou na minha ficha.
—Não, senhor. Cheguei na exata hora agendada. Mais um segundo e eu concordaria com o senhor. Mais vinte minutos e eu sequer teria vindo a essa entrevista, afinal, creio que os senhores valorizam o tempo, e assim como eu, não gostam de perder qualquer segundo com atrasos.
Isso Laurinha! Ironiza com o chefe. Cutuca, vai. Sorte que por algum motivo, ele gostou do comentário. Ou é muito lerdo pra perceber o sarcasmo, ou era muito inteligente pra se importar com isso, ou qualquer outro motivo que eu não quero saber. Na verdade eu quero, mas não importa agora. O que importa é que a entrevista seguiu normalmente, quer dizer, o normal de uma entrevista: Perguntas doidas, sem pé nem cabeça, simples pra qualquer um, mas pra mim era um convite à filosofia, que tinha que ser gentilmente negado. Perguntas desinteressadas sobre meus conhecimentos profissionais, perguntas sobre meu interesse em história e o que eu faria se estivesse morrendo em campo de batalha. E a cereja do bolo, a esquisitice final:
—A última coisa: você conhece o Hino da Independência do Brasil?
—Sei um trechinho... no começo...
—Então cante!
—Só um instante para me lembrar
—Quando estiver pronta.
Eu lembrava do hino... estava vagueando bem acima dos meus olhos, eu só tinha que pescar. Tentei lembrar da agendinha da escola, que continha a letra Hino do Brasil e o da Independência. Toda segunda-feira formávamos na quadra para cantar o primeiro. Só nas vésperas do feriado da Independência os dois eram cantados. Busquei por esse momento... nada, exceto os risos contidos da coordenadora quando tinha confusão nas partes do Hino Brasileiro, ou quando todos, exceto o oitavo ano, cantavam o clássico: “E diga o verde-louro dessa fóoooorrrmula” . Incrível como em uma vida cantando o hino só lembro disso. Meu professor bem dizia: A gente só grava sacanagem*. Peguei!!! A voz brincalhona do meu pai passou na minha cabeça “Japonês têm quatro filhos, todos quatro aleijados. Um é surdo, o outro é mudo, e os outros são barrigudos” depois a minha vontade de saber como era a verdadeira letra e antes que eu pude concluir o pensamento todo –que durou uns quatro segundos –escutei minha própria voz:
—“Já podeis da pátria filhos, ver contente a mãe gentil. Já raiou a liberdade no horizonte do Brasil”
Aí me dei conta da enrascada que havia me metido. Quando se canta um pouquinho bem, se aprende a ouvir muito bem. E eu ouvi o tom que eu entrei na canção. Sou soprano, a voz mais aguda, então tirei um tom alto, confortável pra mim. Eu só não lembrei na hora, que o bendito hino tem um agudo desgraçado, que não dá pra encarar na minha voz de “não sei cantar”. Essa melodia havia sido escrita no tempo áureo dos internatos de canto. Foi escrita pra cantores líricos profissionais e não crianças no pátio da escola. Mas eu não me importava com isso. Me importava com o agudo que viria e ou me obrigaria a desistir, ou a mudar de tom- falha grave pra quem canta e terrivelmente desconfortável à ouvidos mais aguçados(inclusive os meus próprios)- ou a encarar e revelar que eu sabia( um pouquinho) cantar. Eita tonzinho desgraçado. Vamos lá!!!( ps.: esse pensamento durou o suficiente entre uma respirada e outra da música)
—“Já raiou a liberdade, já raiou a liberdade no horizonte do Brasil;
Brava gente brasileira, longe vá temor servil;
Ou ficar a pátria livre, Ou morrer pelo Brasil;
Ou ficar a pátria livre, ou morrer pelo Brasil.
—Está bom, está bom. À propósito, você tem uma bela voz.
— Obrigada.
Até hoje não sei se agradeci pelo elogio ou por ele ter me interrompido, visto que eu não lembrava nada depois daí. Hoje, vejo que não o teria agradecido nem por um, nem por outro, pelo contrário, teria batido e xingado o máximo possível. Ou agradecido muito mais. Me virei, e mas antes de chegar à porta ele disse:
—Você sabia que tem As Três Marias no rosto?
—Já haviam comentado algo sobre isso...
Então saí. Passei antes no balcão da secretária, praxe. Enquanto era falava o tradicional “analisaremos o seu perfil, e entraremos em contato se necessário”, minha cabeça estava em outro lugar.
*Sacanagem aqui no Rio, não é só coisa de mente pervertida. Quer dizer, também, mas também pode dizer zoeira, pilhagem etc. O “tá de sacanagem, né?” Pode equivaler ao paulista “Tá me tirano, mano?”
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