O Diário da Rainha Laura

4 Ameixinha com Chucrute.


Notas iniciais
Esse capítulo foi bem difícil de editar. Porque eu defini o formato depois de escrevê-lo, e o formato diário é bem difícil, tive que excluir uma penca de diálogo e outras coisas. Mas acho que está bonzinho. Espero que esteja.

Botei a música alta, num volume maior do que o dos meus pensamentos. Até cogitei ser isso aqueles sonhos malucos hiper-realistas, mas num sonho de três dias eu estaria em coma, e eu definitivamente não estava em coma(apesar de eu ter levado um tombo sério na semana anterior, então eu realmente poderia estar inconsciente). O que é pior, casamento obrigatório ou coma? Coma. É, acho que é coma.

Mas eu realmente achei (e ainda acho) que seria uma boa um soninho forçado. Sei lá, só pra dar uma descansada, uma descontraída. É sério, esse cansaço psicológico e essa dor de cabeça não vão embora com qualquer comprimido. Naquela altura, eu me perguntava o que do que eles falaram era verdade ou mentira: Será que tinham câmeras na minha casa?Será que tinham câmeras no meu banheiro? Será que eles viram quando eu fiz xixi? “Calma, Laurinha, eles não são maníacos que vão ficar te vigiando até invadir sua casa, matar seus pais e te sequestrar...”

Enquanto me passava esse pensamento, a porta foi aberta surpreendentemente. A histeria tomou conta de mim e eu cai de forma patética da cama. Fim da vida. The end of my life. El fim de la mi vida. Poderia ser a Abin, o Bope, a Força Nacional, espiões e... bem, era só minha mãe. “Só” minha mãe.

O hábito de bater três vezes na madeira, para afastar os “maus espíritos”, deu origem ao de bater três vezes na madeira da porta de alguém, anunciando que o visitante não se tratava de um espírito mal. Minha mãe não estava nem aí pra isso. Nem pra o papo de espírito, nem pra simplesmente não me dar um susto. Morrer é considerado empecilho matrimonial? Acho que sim. Obrigada pela tentativa mãe, mas não funcionou.

“Que isso menina, está devendo é?”—Pior que sim, mãe: Minha vida ao Governo Brasileiro.

“Não, mãe, que isso!”

“Mas alguma coisa aconteceu. Você tá estranha desde que chegou.”

“Eu sou estranha.”

“Mais do que você costuma ser.”

“Olha, era pra você ter dito algo como: “Não filha, que isso. Você é especial, uma florzinha, nada a ver, você é a ameixinha com chucrutes mais normal que eu conheço”.” –“Ameixinha com chucrutes?”

“ ‘Ameixinha com chucrutes’? Você realmente não tá nada bem.”

“Quem tem você como mãe não precisa de inimigos. Mas se tanto insiste, recebi uma proposta irrecusável” –Literalmente –“Uma oferta de emprego na Espanha.”

Daí se passou um diálogo mais ou menos normal quando um filho diz que vai trabalhar em outro hemisfério. Exceto pela parte em que minha mãe diz que vai comigo. E eu tinha que arrumar um jeito de avisar o Sr. Husky, que não havia me dado sequer um telefone de contato. É claro que se ele tivesse feito isso eu não o deixaria em paz, entretanto se fez necessário. Eu estava super vigiada e ao mesmo tempo incomunicável. Como resolvi? Tirei o fixo do gancho e liguei pro meu próprio celular.

—Eu sei que vocês estão ouvindo essa ligação. Só pra avisar que meus pais estão sabendo da proposta de emprego e que querem E IRÃO comigo. Contarei a verdade no caminho para o aeroporto, bjs tchau. Ah, já eu vocês tiraram minha internet podem, por favor, me mandar uma carta com as instruções de embarque e um telegrama explicando o que é Astúrias. Beijinhos.

Se você está pensando que eu tinha outras dúvidas mais importantes pra serem respondidas, eu concordo. Mas essa é a única que me agoniava de verdade. As outras estavam na caixinha do “ isso me assusta, não quero pensar nisso agora” que tem me ajudado desde... desde que eu a criei, o que eu não lembro nem um pouco quando foi. E de lá não vão sair até que eu reúna coragem pra encará-las.

Chegamos à Espanha no Outono. Sendo que o outono espanhol é bem mais frio que o inverno carioca.[Quer dizer, era né? Porque sério, naquela última semana o frio foi de matar! Mas voltando a história] No Rio, com 20°C, colocamos casacos de lã grossa. Em Madrid, eles põe biquíni. Exagero meu, eu acho, mas eu sou bem frienta. E mesmo que não fosse, essa é uma excelente desculpa pra não gastar dinheiro nem tempo comprando roupas eu sabia que seriam descartadas que assim que pisássemos lá. Eu só tinha duas semanas aqui, e aproveitei muito mais embalando lembranças, visitando parentes queridos e me despedindo de coisas que eu talvez nunca mais pudesse ter o prazer de curtir, tipo um X-Bacon da tia da esquina, ir à pracinha numa sexta à noite, ir à piscina num sitiozinho do interior, ou ir ao shopping com as amigas, como eu tinha acabado de fazer.

Sorte minha que todas moram longe, que me deu bastante tempo de ônibus pra pensar. Uma delas até disse brincando: “Já pensou se você encontra por lá um bofe gringo?”. Quase engasguei com o refri. O resultado? Mais risadas. Algumas pessoas das mesas adjacentes olharam feio, outras curiosas. Já não era a primeira vez que ríamos estranho assim. Na verdade, rimos por tudo –Absolutamente tudo. Acho que tinha alguma coisa errada com o manjericão daquela pizza... Mas enfim, foi uma noite inesquecível e que dificilmente vai se repetir. Foi quase uma despedida de solteira. Tipo uma despedida de vida normal. Foi impossível não chorar no ônibus de volta. Chorei mesmo, pra valer. Lá e no ônibus. E em casa, na minha cama, na escada, em tudo quanto é lugar. Dormi bem, apesar de tudo. Minha mãe fez um combo de suco de maracujá no jantar + leite com açúcar queimado me fez capotar na hora. Acordei cedo sem precisar ser chamada, pronta (o máximo que dá pra estar, porque né) pra um dia cansativo física e psicologicamente, afinal, nunca é fácil contar aos pais que você vai se casar. Minha patroa, e amiga da família, fez questão de nos levar de carro, então meu plano inicial de um bom lugar pra contar aos meus pais a verdade foi por água abaixo. Passei a viagem quieta, me despedindo silenciosamente das ruas e observando um taxi e dois carros pretos que nos seguiam. Todos com uma fitinha com as cores da Espanha na antena. Muitos discretos... só que não!

Despedidas, despedidas, ficamos à sós. Era hora.

“-Vamos.

—Ainda não chamaram nosso voo, Laurinha.

—E nem vão chamar, pai. O avião está nos esperando, me sigam.

—Laura, o que você está falando?

—Calma, mãe. Assim que entrarmos no avião te explico tudo.

—Que mané calma, Laura! Me explica essa história a-go-ra!!!”

E tinha três formas na cabeça de contar a verdade aos meus pais:

Opção 1: “Mãe e Pai, estamos sendo sequestrados!” –Muito assustador.

Opção 2: “ Papais queridos, estou sendo forçada a me mudar para Espanha, ou matam vocês e todos que conhecemos!” –Cérebro, pega leve. Please.

Opção 3: “Vou me casar!” –É isso aí! Papai vai ficar orgulhoso, mamãe feliz, e vai todo mundo feliz e contente pro jatinho, onde eu vou poder explicar a bagunça e dormir o resto das sofridas 10h de voo.

“-Mãe, Pai. A verdade é que... bem, eu... EU VOU CASAR!!!!”

E o efeito não foi o esperado. Minha mãe ficou pálida( quase verde). Meu pai ficou vermelho. Ou quase, porque pela cor dele é meio difícil de corar e talz, mas ele estava bem nervoso.

Nunca ouvi meu pai gritar em público. Nunca, até o dia de embarque;

“-Pai, shhhhh! Quer que o aeroporto inteiro saiba? Acalmem-se os dois. Me sigam naturalmente que assim que chegarmos ao avião eu vou explicar. Agora chega de escândalo, por favor!”

Eles me olharam atônitos. E pareciam ter se acalmado. Pegaram as bagagens e me olharam desconfiados. Respirei fundo, ainda tensa pelo tom de voz que tive que usar com meus pais. E entendi um pouco do que me trazia aqui, do porque de terem me escolhido. Eu sabia ser autoritária quando era preciso. E estava com medo e com vontade de chorar, e eu mantive a calma e passei isso aos meus pais com autoridade, firmeza e sem faltar com a educação ou o respeito. Cheguei perto do portão onde me encontrariam. Eu quis correr. Tentar outra vez fugir, mas eu sabia que seria inútil quando encontrei os olhos de cão de esquimó. Não lembro qual é o nome desse tom de azul, mas enfim, eu os vi cravados em mim. O tal do chefão da ABIn. Com um gesto ele me mostrou que o lugar estava cercado e caminhou na nossa direção. Eu sou assim previsível?

-Senhorita Laura, não pretendia fugir não é mesmo?

É, eu sou previsível.

Notas finais
"Continue a nadar" -Lispector, DORY.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.