Hoje fui à feira. Meu pai mandou. Ele mandou eu roubar tomates, então roubei dois. Mas isso não é importante. Quero contar outra coisa. Mas essa é segredo, por isso vou guardar bem guardado pro Morfin e o pai não lerem. Ninguém pode saber.

Hoje, quando eu estava voltando, eu o vi. Eu vi o Tom.

Espere, eu tenho que falar direito do Tom.

O Tom é um rapaz trouxa. Por isso eu não posso olhar nem pensar nele. Mas eu penso, porque pensar é escondido. Ainda bem.

Ele é de uma família rica aqui de Little Hangleton, os Riddle. E o Tom é bonito e alto, com cabelos pretos e limpos, e eu posso quase jurar que ele tem um cheiro bom. Eu nunca cheguei perto dele, mas eu gostaria.

Hoje ele estava com dois amigos. Nenhum dos dois era bonito como o Tom, mas aparentavam ter posses também. Eles estavam indo para a cidade, porque eles podem ir lá.

Eu nunca vou à cidade porque o pai diz que meu lugar é aqui, que eu não devo bisbilhotar e nem me interessar nos assuntos importantes. Ele falou pra eu me contentar com a casa e a comida, por isso fui roubar os tomates.

Mas o Tom parece tão livre! Eu sei que ele é trouxa. Eu sei. Meu pai nunca aceitaria que eu me juntasse a um trouxa.

Aqui, na nossa família, nós nunca nos misturamos. Nós nos casamos com primos para que o sangue continue puro. O meu sangue é puro mas não vejo a importância disso quando olho no espelho, quando vejo Morfin, quando olho para nós.

Moramos nessa casa pequena e suja, e minha roupa está velha demais e eu tenho medo, às vezes, do Morfin e do meu pai. Eles não ligam para o meu sangue quando o derramam com socos e chutes, quando me empurram em qualquer lugar. Eles se importam que eu não compartilhe desse sangue com um ser misto e fraco como um trouxa. Ter o sangue tão puro nunca me fez sorrir de verdade, mas meu pai diz que é bom, que é certo.

Nossa família está pequena e pobre. Morfin é louco e imundo. Eu também sou, provavelmente. Meu pai diz o tempo todo. Eu sou imunda e louca. Mas eu tenho certeza de que Morfin é mais imundo e mais louco do que eu sou.

Hoje, quando vi Riddle, ele não me viu. Ele nunca me vê. Às vezes, eu fico me perguntando se ele já me viu... se ele já passou os olhos livres dele por cima de mim... eu espero que sim. Espero que ele tenha notado algo bonito em mim, algo dentro de mim que é possível de se ver quando se quer ver.

Eu não sei se tenho algo bonito, mas espero que Tom possa ver isso um dia, porque ele é a coisa mais bonita que eu já vi.

Eu vou costurar alguns pergaminhos uns nos outros antes de voltar a escrever, porque senão as folhas se perdem e isso não pode acontecer. Os pensamentos são escondidos, mas quando eu os escrevo não são mais.

Notas finais
Por favor, se alguém tiver alguma crítica, alguma dica, alguma informação adicional, alguma correção... é tudo muito bem-vindo!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.