O Diário Póstumo de Afrodite
9 Capítulo 8 - Adeus, Meu Amor
Notas iniciais
[...]
Não posso negar que me surpreendi quando te avistei atravessando a porta branca do quarto onde eu estava instalado. Presumi que a partir do momento em que começasse a ter uma verdadeira vida conjugal com seu novo parceiro, me esqueceria por completo. Mas é claro que eu devia ter imaginado – e imaginei — que uma doença tão horrível e devastadora como o câncer apiedaria até a pior das pessoas. Não que com todo o acontecido entre nós você tivesse se tornado a pior delas, não, de forma alguma, porém era de se supor que a partir daquele momento os acontecimentos que por ventura pudessem ou viessem a me acontecer não te atingisse ou incomodasse mais, afinal de contas, estavas apaixonado e deslumbrado por outro homem que não mais eu.
Enfim, sua presença ali, naquele momento, me comoveu seriamente. Certamente que por um breve momento, muito breve mesmo, eu diria até quase que imperceptível, eu pensei em disfarçar o abalo emocional que você me causou. Entretanto, eu estava cansado. Cansado de tudo. Primeiramente, a doença vinha me fatigando em grau elevado, tanto física quanto psicologicamente. Segundamente, o término do casamento, o motivo indecoroso por qual ele findou e, principalmente, a sua ausência vinham me aborrecendo e contribuindo para decair-me ainda mais. Por isso, solicitei que os outros saíssem e me deixassem a sós contigo; precisávamos conversar, digo, conversar como dois adultos que finalmente percebem que estavam agindo como duas crianças inconsequentes e por motivos infantis deixaram de se comunicar e expressar devidamente. Eu precisava antes do fim definitivo que me esclarecesse coisas que ainda estavam confusas na minha mente, e desculpar-me por ter sido tão impetuoso naquela outra ocasião.
Em pouquíssimo tempo de conversa, porém, percebi que o motivo que o levara até ali era nada mais que arrependimento. Você enfim tinha se dado conta que amor igual ao meu não teria jamais. O tal do Radamanthys tinha te abandonado, eu percebia. Não sabes como àquilo foi irresistível para mim. Eu poderia finalmente humilhá-lo como fez comigo. Essa, na realidade, não era a minha intenção, mas eu não consegui resistir. De certa forma, no momento da raiva eu tinha planejado vingar-me de ti, contudo, pensei que era bem provável que não tivesse tempo suficiente para tal, e quando então surgiu àquela oportunidade, não poderia desperdiçá-la.
Porém eu também disse o quanto te amava. Não consegui refrear meus instintos, língua e coração, e acabei falando. Obviamente que com essa declaração inesperada de amor, em circunstâncias que não eram nada oportunas, consegui te diminuir ainda mais. Sem pretender, o amor acabou por contribuir na tarefa de humilhá-lo, e você se sentiu extremamente envergonhado por suas atitudes.
Você nem teve tempo de responder, pois o Ângelo adentrou na sala no exato momento em que o faria. Ele estava sendo tão atencioso comigo. Como já disse em alguma página anterior deste diário, não nos deitamos mais desde a primeira e única vez, e eu também não tinha a intenção de repetir àquela noite, porque não me sentia bem iludindo um homem e depositando em toques para com ele o amor que seria e era somente para você. Não queria enganar a outro alguém da mesma maneira que me enganou. Não, jamais!
Você saiu da sala segundos depois e eu consegui me acalmar outra vez. Fiquei a sós com o Ângelo por alguns minutos antes dos outros retornarem a ela e se ajuntarem a nós novamente. Durante esse curto período então, eu o impus a tarefa de entregar a ti este diário, só teria que finalizá-lo durante a noite, pois tinha conhecimento que talvez não passasse dela. Eu havia sido rude contigo e teria que desculpar-me e contar-lhe do quanto te amo de outra forma que a não verbal.
A ideia do diário inicialmente seria para que se lembrasse de mim com carinho e soubesse por intermédio dele a intensidade do meu amor. Pretendia também contar através destas páginas sobre a minha doença. Pensava eu que morreria sem que ninguém viesse ter conhecimento dela antes da hora final, mas Zeus e o Destino infelizmente não permitiram.
Continuando: No tempo que fiquei a sós com ele no dormitório o encubi de tal tarefa pós a minha morte, e ele — ainda meio relutante — aceitou. Disse-lhe que procurasse o caderno com a enfermeira que cuidou de mim a maior parte do tempo e depois o entregasse a ti.
Os outros rapazes voltaram ao quarto minutos depois e voltamos a dialogar sobre os assuntos que tratávamos antes da sua chegada, assuntos nostálgicos, situações engraçadas ou constrangedoras. Ríamos à beça. Aioros entrou depois; devia estar conversando contigo, imaginei. Kanon não retornou e eu soube que ele deveria estar te consolando em algum lugar. No fundo eu sentia tua falta ali conosco. Sentia uma vontade quase incontrolável de despedir-me de ti adequadamente.
Aioros me deu o teu recado e eu, mesmo que com certa resistência, fiquei imensamente feliz e satisfeito em escutar aquelas palavras.
Terminei de escrever no diário sentindo uma angústia enorme no meu coração. Não sei dizer se ela é decorrente do fim dessas minhas escritas, ou da morte de que se aproximava. Porém, antes que ela chegasse de fato, escrevi aqui, nessas últimas linhas o quanto e por quanto tempo te amo:
“Mais do que minha própria vida; para toda a eternidade.”
E como já escrevi no ínicio, desculpe-me por quaisquer situações constrangedoras, chatas e desagradáveis pelas quais te fiz passar em todos esses anos. Não queria de forma alguma que terminássemos do jeito que terminamos e nas circunstâncias que terminamos, mas, ainda assim, não deixei de te amar um segundo sequer. Você foi o grande amor da minha vida. Te amarei para todo o sempre, meu amor. Disso nunca duvides.
Adeus, Saga.
Do seu e para sempre seu, Afrodite Laursen.
[...]
Saga leu a última página do diário e o fechou. Depôs ele sobre a mesa e seguiu para o banheiro. Tirou suas vestes e entrou debaixo da água quente.
Enquanto massageava suavemente seu coro cabeludo, lágrimas brotaram dos seus olhos e se misturaram à água que escorria por seu rosto. Ajoelhou-se no chão frio e molhado do banheiro, se apoiou com as palmas das mãos no vidro do Box e deixou-se chorar dolorosamente as saudades do seu amado. E aquela situação lhe era tão familiar. Outra vez chorava daquela maneira.
Saga se incomodara com a chegada do tal Máscara da Morte no quarto e por isso saiu dali. Passou pelos demais rapazes pelo corredor e seguiu para fora do hospital. Precisava de ar. Precisava pensar.
Kanon o seguiu. Aioros também.
O encontraram no pátio em frente ao complexo hospitalar, andando de um lado para o outro, com as mãos nas laterais da cabeça, por cima dos cabelos e tampando os ouvidos. Balançava a cabeça negativamente, como se tentasse convencer a si mesmo de que aquilo não estava realmente acontecendo.
Aioros o parou, segurou os braços dele e os puxou para baixo. Seus olhos estavam avermelhados e inchados. O remorso era evidente na face dele. O medo de perder Afrodite o estava assolando. Como não se dera conta de que o homem que vivia consigo, debaixo do mesmo teto, e o qual ele via todos os dias estava doente, como? A verdade é que a paixonite que sentiu por Radamanthys foi tão súbita e intensa que ele sequer olhava com atenção para o seu companheiro. Uma das coisas as quais não gostava em Afrodite era o egoísmo e, cego pelo pseudoamor que sentiu por seu colega de trabalho, ele mesmo, Saga, havia sido egoísta. Não pensara um segundo sequer no bem estar do loiro metido com o qual vivera durante sete anos. Não reparara que a insistência dele em permanecer naquele relacionamento fracassado poderia significar alguma coisa fora do normal.
— Saga, acalme-se. Vá para casa, tome um banho quente e relaxante, descanse o corpo e a mente, e depois, só depois, retorne aqui. Ficar aqui agora não fará bem nem a você, nem ao Di.
— Isso mesmo Sá. Se quiser eu vou contigo para que não se sinta sozinho. – Kanon, concordando com Aioros, disse.
Saga apertou o amigo num abraço e pôs se a chorar nos ombros dele. Com os carinhos que recebia em seus cabelos e as palavras de apoio que ele proferia, logo foi se acalmando e em minutos erguia-se e enxugava os olhos com as costas das mãos.
— Obrigado Oros. O Kanon vai comigo então, e você fica aqui cuidando dele. Eu confio em você... E... Pede desculpas a ele por mim? Diga que o amo muito e que estou muitíssimo arrependido.
— Tudo bem meu amigo, pode deixar que eu irei cuidar dele sim, e não só eu. Os outros provavelmente não sairão daqui. Ele está em boas mãos. Agora vá e descanse. Te vejo quando estiver melhor.
— Qualquer coisa avise ok, Aioros? – Kanon disse por fim e Aioros concordou com um simples menear de cabeça.
Os gêmeos seguiram para a casa do mais velho e Aioros retornou para dentro do hospital e logo se ajuntava com os demais.
Quando os irmãos chegaram até o apartamento, Saga trancou-se no banheiro e sob a água morna que massageava suas costas, pôs se a chorar. O barulho da água impedia que seus soluços fossem ouvidos por Kanon do lado de fora.
Kanon preparou um café bem forte e o serviu a Saga quando ele terminou de se vestir depois do demorado banho. Depois disso ele ouviu os desabafos do outro, o consolou e o aconchegou em seus braços quando ele dormiu abraçado a si na cama.
Acordaram ambos somente no dia seguinte e vendo a hora, seguiram imediatamente para o hospital.
No caminho, Saga agradeceu a Kanon por ele ter ficado e cuidado de si durante toda a noite como faziam quando eram menores. Porém, naquela época, era o contrário. Ele, Saga, era quem vivia cuidando e consolando o irmão das suas desilusões amorosas.
O hospital estava mais calmo naquele dia. Um clima tenso e fúnebre pairava no ar. Saga sentia que o seu amado estava prestes a partir.
Entraram no quarto onde os rapazes já conversavam sobre alguma coisa engraçada com Afrodite. Este último estava mais abatido, parecia não ter dormido bem durante a noite. O Máscara da Morte também estava lá, porém, encostado próximo a janela enquanto observava a paisagem do lado de fora. Saga aproveitou que a cadeira ao lado de Afrodite estava vaga e sentou-se ali, puxando em seguida a mão direita dele para entre as suas. Fazia nelas um carinho leve do qual o loiro não recuou.
— Te amo. – sussurrou quando ele virou o rosto em sua direção.
Afrodite fez uma pausa e em seguida respondeu, também de forma sussurrada.
— Eu também te amo.
Conversaram por mais algumas horas. Saga permanecia calado ao lado do loiro e Afrodite diminuía a frequência com que respondia às palavras dos amigos. Dizia-se cansado.
Em certa hora começou-lhe a faltar o ar. Milo apavorou-se imediatamente enquanto os outros permaneciam meio atônitos e aflitos em seus lugares. Saga e Albáfica derramavam lágrimas no mesmo instante que procuravam socorrer Afrodite da melhor maneira que conseguiam. Camus, o mais controlado entre todos, procurou por uma enfermeira no corredor e ela buscou um médico o mais rápido que conseguiu.
Afrodite foi socorrido rapidamente. Os médicos e enfermeiros que agora enchiam o quarto, o entubaram e o levaram para a UTI. Os rapazes seguiam atrás aflitos. Os funcionários e enfermeiros do hospital tentaram os impedir de prosseguir, mas eles ainda assim insistiram e seguiram atrás dos médicos.
Tiveram todos que ficar de fora da sala da UTI. Podiam observar somente pelo vidro espesso que separava a grande sala branca do corredor. O aparelho que mostrava os batimentos cardíacos dele apitava pequenos sons agudos sincronizados a todo o momento, indicando que o paciente estava estável.
Alguns instantes depois, porém, Afrodite começou a convulsionar sobre o leito e os médicos vieram o socorrer de prontidão dessa vez. Saga aparou-se enquanto esmurrava o vidro com força, o que por sinal, não ocasionou nada no material resistente do qual ele era feito.
Mesmo os médicos sendo extremamente rápidos no socorro, eles ouviram o som agudo e estridente do aparelhinho soar de uma única vez e sem parar. Afrodite estava partindo. Um aparelho desfibrilador foi posto ao lado do corpo e com as duas placas de metal dele os médicos tentaram reanimar o corpo inerte, todavia, a morte havia mesmo vindo buscar Afrodite.
Os rapazes do lado de fora da sala consolavam uns aos outros, abraçavam-se entre si. Saga sentia-se mais do que nunca sozinho vendo seu amado partir. Todos os sentimentos possíveis se misturaram no seu peito que parecia querer explodir. E Saga rezava para que ele explodisse mesmo, pois queria ir junto do seu amor. Ele notando todas as tentativas falhas dos médicos de reanimar Afrodite e vendo a mão do loiro escorregar para fora do leito por conta dos movimentos dos médicos, escorregou choroso pelo vidro que o separava da outra sala, sentou encolhido no chão abraçado a suas pernas e chorou como nunca antes debruçado sobre os joelhos.
Kanon, Aioros e mais alguns de quais exatamente ele não se lembrava, vieram lhe acudir e consolar, mas nada, nenhuma palavra era capaz de suprir e acabar com seu sofrimento.
Afrodite estava morto e mais nada poderia ser feito.
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