O Diário Póstumo de Afrodite

2 Capítulo 1 - O dia em que tudo começou a desandar


Notas iniciais
Primeiro capítulo curtinho. Acho que todos os capítulos vão ser mais ou menos nesse tamanho. Alguns maiores talvez. Beijos!

07 de Janeiro de 2010.

Foi nesse dia que o nosso fim se iniciou.

Estávamos em nossa festa de aniversário. Por coincidência – ou não – fazíamos sete anos de casados. Bem, se contássemos os oito meses de namoro, é lógico. Você estava lindo, vestido numa calça e camisa escura como tanto gostava. Eu pisquei um olho, e você apenas riu meio envergonhado. Eu achava muito charmoso esse seu jeito quieto.

"Quantos anos mesmo?” Foi o Aiolos quem te perguntou.

“Oito”, você respondeu e percebendo o olhar que eu te dei, me olhou como se me perguntasse: “Não é não?”

“Sete anos, sete. É impressionante como sempre esquece!” Retruquei meio emburrado. Não gostava quando esquecia as datas, pois você sabia que eu me importava com elas.

O Milo caçoou um pouco da nossa “briguinha”. Ele dizia que achava muito engraçado o jeito como nos comportávamos. Você sempre o machão calado no seu canto, e eu a mulherzinha chata dando sermões no maridão esquecido. Ah, o Milo, sempre fazendo piadas com todo mundo.

Eu o retruquei dizendo que eu era muito melhor do que uma mulher. Uma mulher com certeza não chegava aos meus pés na cama. Na realidade, nem mulher, nem homem. Alguém assim como eu, bonito, sexy e gostoso, era muito difícil de encontrar.

E você novamente ficou envergonhado com os risos e assovios que vieram depois do que falei.

A noite passou rápida. O jantar foi maravilhoso. Os amigos mais próximos estavam todos lá. O Milo e o Camus, o Aiolos e o Aiola, o Kanon. O meu irmão trouxe o novo namorado dele para conhecermos, o tal do Shion. E ele trouxe o sobrinho, o tal de Mu, um menino dos cabelos lilás. O Aiola não tirava os olhos dele, você reparou?

O Albáfica, como sempre, trouxe-me mais um vaso de rosas. Ele, como eu, as adorava. Como nossos pais cultivavam rosas, acredito que o carinho por elas nasceu em nós dois ainda na infância. Depois que eles morreram naquele terrível acidente, porém, esse carinho se tornou verdadeira adoração. Ter as rosas por perto dava-nos a sensação de tê-los sempre próximos. Sempre foi assim. Em todas as casas em que moramos sempre tínhamos um jardinzinho com algumas flores, sobretudo rosas.

Mas você não gostava delas, dizia que eram bregas. Que deixavam o apartamento cafona. Eu concordava com você em partes. Com certeza um apartamento não era o local mais indicado para se ter flores, mas não tínhamos mais condições de ter uma casa com jardim, então eu tinha que distribuir minhas adoráveis flores por cima dos móveis mesmo.

Tivemos uma briga aquela noite depois que os convidados partiram. Você disse que estava cansado de mim, das minhas flores, e, o que mais me magoou, do meu jeito afeminado.

Até aquele dia eu não sabia que o meu jeito te incomodava. Achava que o motivo do seu frequente mau-humor fosse as rosas e não eu. Te xinguei de diversos nomes, fiz um escândalo – mais uma coisa que descobri que você não gostava – e te mandei dormir no sofá.

Apesar desse meu jeito, do meu orgulho ferido devido às palavras ofensivas que me disse, eu chorei. Chorei a noite toda. Tanto que no dia seguinte tive de passar meus creminhos de beleza para disfarçar os olhos inchados e as olheiras profundas que marcavam meu rosto.

E de novo você me machucou com a sua indiferença. Sequer olhou no meu rosto quando se levantou. Nem fez o café como de costume. Somente se arrumou rápido e partiu para o trabalho.

Ainda era sexta-feira, e me culpou por ter dormido demais e se atrasado para sair de casa. Disse ainda estar cansado de me sustentar e eu ficar o dia inteiro sem fazer nada.

Aí eu explodi. Essas palavras foram verdadeiras afrontas pro meu orgulho, que por sinal, já estava ferido pelas coisas que tinha me dito na noite anterior.

Isso não era verdade. Eu tinha o meu trabalho também. Ele só não era tão lucrativo quanto o seu. Mas se eu conseguisse alguém que se interessasse por meus quadros, ele seria.

Já você era um corretor imobiliário e ganhava razoavelmente bem por isso. Trabalhava em uma das mais renomadas imobiliárias de Atenas e convivia com pessoas ricas e de classe o dia inteiro. Acho que foi por isso que começou a ver defeitos e a se incomodar com a minha personalidade.

Naquele dia, por causa do que havia me dito, eu rodei a cidade inteira atrás de um avalista pros meus quadros. Minhas pinturas não agradavam a todos, eu sabia disso; diziam que eu era ousado demais; mas, por alguma força maior, naquele dia eu consegui agradar alguém.

O nome dele era Ângelo Vetraska. Ele era carrancudo, conhecido por avaliar de forma negativa muitos dos pintores iniciantes, mas eu acho, quer dizer, tenho certeza que de alguma forma eu consegui chegar ao patamar do que ele julgava bom. Minha auto-estima foi nas alturas.

O engraçado é que ri na cara dele quando me lembrei do seu apelido: Máscara da Morte. Devia ser pelo fato dele estar sempre de cara fechada, bravo. Ele aparentemente não gostou do meu deboche, por isso deduzi que as minhas pinturas o agradaram, pois mesmo tendo o afrontado de maneira tão estúpida, ele me avaliou positivamente e me convidou a participar de uma exposição que faria. Ele também era pintor e o centro da exposição obviamente seria o trabalho dele, mas, em um lugarzinho reservado lá no fundo, minha arte estaria sendo divulgada. Talvez essa fosse minha grande chance.

Foi o que me animou aquele dia.

Passei no mercado chique lá perto de casa e fiz compras. Comprei carnes, legumes e um vinho caro. Gastei o pouco dinheiro que tinha guardado pra usar somente em um evento especial e comprei aquelas coisas. Iria fazer um jantar pra você, pra nós. Aproveitaria o momento para comemorar o que tinha conseguido e também para melhorar o clima ruim que ficou entre a gente.

Mas não sabia que você não iria gostar.

Eu me arrumei todo. Fiz uma trança toda trabalhada nos meus cabelos loiros, os adornei com algumas flores azuis – você me disse uma vez que azul combinava comigo – e pus uma roupa leve, meio transparente, pra deixar clara a minha intenção aquela noite. Você... Bem, você me destratou. Disse-me que não podíamos nos dar o luxo de gastar dinheiro à toa.

Pelo menos dormimos juntos. Te acariciei em certo momento, mas você empurrou a minha mão, dizendo que não estava afim. Meu orgulho novamente foi maculado. E aguentei quieto, porque, em meu interior, eu tinha motivos.

Te contarei mais adiante.

Notas finais
Até o próximo...