O Diário De Mary Anne
1 Prólogo
Mal havia aberto meus olhos e já conseguia perceber a escuridão causada pela chuva que caia incessantemente ao lado de fora. Não tinha vontade alguma de levantar da cama, estava cansada, meu corpo estava indisposto, mas sabia que tinha algo a fazer, algo que infelizmente não poderia ser deixado para depois. Minha mãe já gritava para me arrumar logo, não podíamos nos atrasar, e mesmo não querendo ir, eu era uma das poucas pessoas que podiam revelar o que realmente havia acontecido naquela terrível noite.
Levantei-me sem vontade alguma, procurei no armário alguma calça jeans, e então peguei minha blusa azul clara de que tanto gostava, e por fim uma jaqueta bem grossa, e meus tênis; fui ao banheiro terminei de me arrumar rapidamente e então desci. No primeiro andar minha mãe me olhava com uma cara de reprovação e angustia, ela não gostava daquela situação, eu me encontrava em depressão pela perda recente. Não consegui comer nada, meu estomago estava repleto de borboletas, que ficavam de um lado para o outro me causando um enjoo terrível.
Já estávamos saindo de casa quando me lembrei de que havia o diário de Mary, eu não havia o lido inteiro, mas, havia lido o suficiente para esclarecer muitas coisas. Fui rapidamente para meu quarto, revirei minha escrivaninha, e segundos depois consegui o encontrar, voltei correndo para o carro, já estávamos atrasadas.
Não consegui prestar muita atenção ao caminho, à única coisa que fazia era percorrer meus olhos as letras que em conjuntos formavam frases, que muitas vezes não conseguia ler. Meus olhos já estavam encharcados de lágrimas, e minha cabeça em outro tempo, já não escutava mais nada que minha mãe estava me falando, estava completamente perdida em meio a tantos pensamentos.
Minutos depois finalmente chegamos, o prédio de onde eles faziam todas as investigações de mortes e seções para desvenda-las era incrivelmente grande e escuro, ao lado de fora não se via janelas, árvores, ou qualquer vestígio de que havia vidas naquele lugar, era morto e medonho, não havia casas por perto, era no meio do nada. De primeiro não tive coragem de sair do carro, respirei fundo, agarrei o diário em meus braços, ainda me encontrava perdida á tantos pensamentos. Ao lado de fora do carro vozes me chamavam fervorosamente, mas ignorava á todas, não queria entrar naquele lugar, não queria reviver tudo novamente, quero apenas voltar pro meu quarto, ficar lá, sozinha, apenas lembrando dos bons momentos que tive ao lado de Mary. Fiquei por mais alguns instantes em meu próprio refugio, e então em meio á um sopro de coragem sai rapidamente do veículo!
Fiquei em pé ao lado de minha mãe, enquanto pares de olhos desconhecidos me fitavam curiosos; de primeiro fiquei desconfortada com aquela situação, jamais havia sido o centro das atenções antes, nem mesmo de meus amigos! Finalmente alguém deu um sinal para entrarmos, agarrei forte o braço de minha mãe, se ao lado de fora aquele lugar já era assustador, imagina em seu interior. A cada passo que davamos meu rosto ficava mais serio e meu corpo tenso, notava-se facilmente em minha expressão o medo que no momento sentia; e então segundos após finalmente chegamos a imensa porta, e em um suspiro rápido e uma coragem involuntária, entrei!
Tive uma surpresa enorme e um alívio ao entrar no lugar, diferente do seu lado de fora, ele parecia um ambiente tranquilo e sociável, as paredes era de um azul claro da cor do céu em dias insolados, os moveis eram brancos por inteiro, as pessoas eram gentis e acolhedoras; de principio me senti horrível por ter julgado o lugar sem ao menos o conhecer, mas logo me distrai e esqueci daquilo.
E mais uma vez estava perdida em meus pensamentos quando me chamaram, desta vez não ouvi vozes alguma, só me dei conta que estavam á minha espera quando um toque no meu braço me fez voltar a realidade e ver a mulher que estava logo á minha frente chamando por mim:
– Mellanie Tuxester? — ela era alta, cabelos negros, pelo pálida e olhos verdes, estava usando um vestido formal azul escuro e saltos pretos, sua voz era doce e seu olhar gentiu.
– Sou eu mesma, senhorita... — respondi tentando ler seu crachá.
– Senhoria Hallenf, mas me chame apenas de Collin. Poderia me acompanhar até o salão principal querida?
– Claro. — respondi ofegante.
Á segui por um longo corredor cheio de salas que se encontravam fechadas. Mais uma vez estava nervosa, e rígida, até que finalmente encontrei o olhar de minha mãe bem ao meu lado, de certa forma estar com ela me acalmava. Depois de andarmos ao que pareceu um longo caminho, finalmente chegamos á última sala do lugar; era enorme, com uma bancada bem a sua frente com umas 3 pessoas nela, de fundo havia cadeiras enfileiradas com um corredor em seu meio; todos ali presentes me fitavam curiosos como havia acontecido antes; logo me escondi atrás de minha mãe, até que uma voz finalmente cortou o silêncio:
– Não precisa ter medo querida, estamos aqui para ajudar, você não vai precisar fazer nada que não queira. — disse um homem de cabelos grisalhos, mas aparência juvenil, que se encontrava ao meio da bancada.
Sai de trás de minha mãe e fui sentar ao lugar que Collin me indicava, ainda estava tenso, mais pensava comigo mesma "Respira Mel, respira." Quando me virei pra frente já sentada um guarda estava em minha frente com uma mão levantada indicando que eu fizeste o mesmo, e quando finalmente levantei minha mão direita ele começou a falar:
– Senhorita Mellanie Tuxester, promete diante a todos aqui presente dizer a verdade, somente a verdade e nada além da verdade?
– Prometo. — disse fitando.
Todos olhavam diretamente á mim, se fazer questão alguma de disfarçar.
– Então querida, como eu disse não tenha medo, não vai lhe acontecer nada, só queremos desvendar o que houve naquela terrível noite. — era o mesmo homem que me acalmará com suas doces palavras quando entrei naquele lugar.
– Tudo bem, eu estou bem, pode prosseguir se quiser. — não queria prolongar muito a conversa, só queria que aquilo acabasse logo.
– Então querida, o que poderia nos contar daquela noite?
Mergulhei em pensamentos novamente, não queria lembrar daquilo, por que eles estavam me obrigando? Por que queriam me fazer lembrar da morte da minha melhor amiga, em? Por que? Lágrimas começaram a escorrer involuntariamente pelo meu rosto. A não, eu não podia começar a chorar, não ali, não agora, não enquanto estivesse milhares de olhares em minha volta; procurava alguma voz pra tentar responder alguma coisa, mas não á achava, o desespero já tomava conta de mim quando lembrei de respirar fundo, limpar minhas lágrimas e me acalmar. E então quando finalmente consegui encontrar minha voz, disse:
– Me desculpe senhor, mais não posso responder, não quero lembrar daquilo tudo, por favor, não me obrigue a isso, por favor!
– Ei calma, ta tudo bem querida, como eu disse, não vamos obriga-la a fazer nada que não queira; mas realmente precisamos que responda isso..
– Me desculpe eu não.. — milhares de olhares me fitavam furiosos, entre esses olhares finalmente encontrei o de quem queria tanto ver, ele estava lá, no fundo, quase invisível, mas estava, Math, á meu querido Math, não nós falavamos desde aquele dia, eu sentia sua falta e precisava tanto do ombro amigo que sempre me deu, mas sabia que ele estava igualmente chocado; voltei a fitar o juiz que esperava com que eu acabasse de falar, respirei fundo mais uma vez e então retomei minha voz — .. eu não posso, eu sinto muito.
– Tudo bem, não deve ser fácil, nos entendemos. — ele disse me olhando, e então se levantou e pronunciou o mais alto possível — Vamos interromper nossa seção hoje, marcaremos um novo dia, para assim, quem sabe ela não esteja mais calma e consiga nos dizer algo, e também chamaremos nossa outra testemunha para...
– Esperem! — o interrompi ao meio o juiz, e então me levantei e mostrei o pequeno diário que estava comigo o tempo todo. — Eu disse que não podia dizer, mas tenho algo que pode esclarecer muita coisa pra vocês. Este é o diário de Mary Anne, não sei se deveria mostra-lo, afinal é um pouco intimo, mas creio que é por uma boa causa.
– Ótimo, irá nos ajudar bastante, poderia me dar ele para que eu possa ler?
– Me desculpe, mas se for para entrar nos detalhes da vida da minha melhor amiga, eu quero fazer isso, e se o senhor não se incomodar, quero o ler aqui, para todos.
– Tudo bem, como você quiser, pode prosseguir!
Segurei firme o diário em meus braços, respirei fundo tomando coragem, e com lágrimas nos olhos, o abri, e naquele momento único, naquele lugar que jamais havia estado antes, comecei a lê-lo.
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