O Diário De Mary Anne
3 O último dia (Parte 1)
Notas iniciais
O dia mal havia amanhecido e eu já estava ali, com lágrimas nos olhos, este seria meu ultimo dia, meu ultimo dia com minha pequena Collin que descansava tranquilamente em meus braços, meu ultima dia com meus pais, meu ultimo dia ali, na cidade da qual morei minha vida toda. Fiquei por minutos chorando, tinha que por pra fora toda minha dor, ali escondida, antes que qualquer pessoa acorda-se. Não demorou muito para que Collin acorda-se, aqueles pequenos olhinhos era a única coisa que colocava um sorriso em meu rosto pra enfrentar esse dia.
– Bom dia tata. – Aquela vozinha era um raio de sol nos dias de tempestades.
– Oi, bom dia meu amor, como dormiu? — Eu estava ali, disfarçando minha dor, não queria que esta doesse na minha pequena.
– Dormi que nem uma princesinha.
– Isso é porque você é uma princesinha. – Sentia suas pequenas mãozinhas acariciar meu rosto, era como um toque de veludo sobre minha pele.
– Tata você me promete que nunca vai me deixar né?
Isso me pegou de surpresa, não sabia o que falar, não sabia se devia contar a verdade, aquilo me pegou desprevenida, e as lágrimas começaram a ser impossíveis de segurar. — Claro meu amor, mais por que á pergunta?
– Eu ouvi a mamãe e o papai dizendo que você vai embora, é verdade? – Seus olhinhos se encheram de lagrimas, isso tornou impossível segurar as minhas lagrimas também.
– Sabe meu amor... – o que eu iria dizer á ela, como iria dizer aquilo; encolhi em seco e continuei. – Você sabe que eu te amo mais do que tudo no mundo e que prometi que jamais, que nunca iria te abandonar, certo? Mas a maninha tem que estudar pra ganhar direito pra te dar tudo que o papai e a mamãe não podem te dar, e então vou ter que me mudar pra um pouco longe pra poder estudar, mas eu juro que não queria isso, queria muito ficar com você meu amor, mas não posso...
– Mais tem muitas escolas aqui, por que você não fica comigo?
– É que aqui não tem a escola que eu entrei meu amor, aqui só tem escolas pagas e são muito caras, não podemos pagar, e lá as escolas são de graça.
– Então por que a mamãe e o papai não vão junto com você, ai não íamos nos separar nunca!
– É que eles não podem largar o trabalho meu amor, e você tem que ir pra escolinha.
– Você não me ama mais.
– É claro que eu te amo te amo mais que minha própria vida, você é tudo pra mim meu amor, você sabe disso, e mesmo longe sempre estarei pensando em você minha pequena, sempre!
Ver Collin chorando, acabou literalmente comigo, ter escondido tudo aquilo dela, por todo esse tempo, por mais protetora que foi minha atitude, sabia que havia sido errado, e sabia que uma hora ou outra iria ter que contar, mas ver suas lagrimas, seu rostinho todo vermelho de chorar, aquilo me deixou mais triste do que eu já estava; não estava apenas deixando ela, estava também quebrando minha promessa.
As horas foram passaram tão rápidas naquele dia que perdi totalmente a noção do tempo. Quando a noite chegou, minhas malas já estavam todas prontas, e eu já não tinha mais forças pra chorar; passei o dia todo ao lado da minha Collin, e arrumando minhas coisas, aquilo me cortava ainda mais meu coração.
No jantar o silencio predominou no ambiente, não se ouvia conversas como em todas as noites anteriores, não se via sorrisos, o ar estava cheio de tristezas, os olhares tristes, e os rostos cobertos de lágrimas, por mais que eu quisesse ficar ali, eu sabia que tinha que partir, claro, não seria pra sempre, seria por quatro anos, no máximo seis; mas ao ver Collin, isso iria parecer uma eternidade, e saber que iria perder seu crescimento, seus aniversários, me fez querer chorar mais ainda.
Após meu ultimo jantar ali, fui correndo pro meu quarto, não dava mais pra aguentar, peguei meu diário e comecei a desabafar.
Querido diário,
Será que nesses anos vai ser sempre assim, lágrimas, tristeza, dor; é tão difícil seguir em frente, querer ter um futuro digno e poder dar tudo pras pessoas que ama tudo que nunca pode ter? Eu queria ficar, de verdade, ou poder levar a Collin comigo, mas ambos são impossíveis; eu sei que ela não daria trabalho algum pra mim, mas já vai ser difícil me sustentar, imagina ter que sustentar ela também, e além de estudar terei que trabalhar, não iria poder me dedicar a ela como eu quero. Chorei o dia todo por isso, e sei que as lágrimas me acompanharam por um longo tempo ainda. Sinto-me tão culpada, mas sei que não estou fazendo isso por mal.
Pra acalma-la, prometi que escreveria sempre que pudesse, e que ainda iriamos nos ver nos dias de ação de graças, no natal, sempre que desse; e que em seu aniversário, iria comprar uma boneca linda pra ela. Sei que não acalmou muito, mas já ajudou ela á parar um pouco de chorar, e me senti melhor com isso, afinal, queria que a dor fosse inteiramente minha. Mas sei que quando entrar naquele avião as lágrimas vão voltar á ela, e me dói saber que não vou poder limpa-las. Meus pais tão segurando ao máximo o que podem, mas sei que eles estão sofrendo também, não tanto por mim, pois conversamos muito sobre isso, mas pela Collin. Bom, não posso demorar muito por aqui, logo minha pequena vem dormir comigo; pra dizer a verdade acho que já vou me deitar, o dia está bem difícil, não á razão para prolonga-lo!
Fechei meu diário, o guardei em uma de minhas malas e então me deitei. O tempo passou e nada da Collin vir, isso me deixou pra baixo, ela estava triste comigo, só podia ser isso, mas mesmo assim queria que ela fosse dormir ao meu lado, pela ultima noite. Quando estava quase adormecendo senti um toque de leve em meu rosto, era ela com sua cobertinha, sua voz doce inundou o quarto de uma ternura inexplicável.
– Eu posso dormir com você? – Escuta-la me fez sorrir pela primeira vez naquele dia.
– É claro meu amor, eu estava te esperando!
E então ela se deitou ao meu lado, me abraçando, e em pouco tempo pegamos ao sono, permanecendo do mesmo modo, abraçadas.
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