O Diário Atrás Das Pedras
1 Prólogo : O Diário Atrás Das Pedras
Notas iniciais
Eu realmente não gostaria de ter que escrever isso. Houve um tempo em que eu realmente eu não imaginaria ter que escrever isso. Eu não tenho muito tempo, inclusive acho que não há tempo nenhum. Eles estão vindo, e o meu esconderijo me dará apenas alguns minutos. É correr ou morrer, mas eu morrerei de qualquer jeito, amanhã ou depois, quem sabe? Por isso, estou escrevendo este diário. Ele é o que eu deixo para a posteridade.
Sempre tive o medo de morrer e ser esquecido entre as próximas gerações. É um tanto quanto perturbador perceber que toda a sua existência foi em vão, não digna de lembrança. E agora eu estou aqui. Dentro de uma parede falsa, em uma caverna, somente com o velho punhal, esperando que dezenas, talvez centenas de soldados venham me achar, e então seu líder me matará. Não que ele não tenha motivos para isso.
Enfim, um diário não é exatamente o que por toda minha vida — uma curta, por sinal — eu imaginei, sonhei como a minha herança para a posteridade. Dentro de uma parede falsa, em uma caverna, somente com o velho punhal, é o que posso fazer.
Esta não é uma história sobre mim. Tecnicamente, é de alguém que tem muito a ver comigo, apesar de nunca termos nos visto fisicamente. Esta pessoa é a razão de eu ter nascido. Todos os seus atos, até os que parecem mais sem importância, afetaram o meu destino. Todas as suas decisões, foram decisões que me afetaram crucialmente. Porém eu nunca o vi. Nunca estive ao seu lado verdadeiramente. Nunca cheguei a ver seu rosto. Para falar a verdade, o pouco que eu o conheci foi o suficiente. A Árvore e todas as suas servas , a Pedra e todos os seus servos, assim como a Morte e todos os seus seguidores, fizeram com que nós, justo nós, nunca estivessem lado a lado. Sem saber eu fiz com que inclusive a Árvore, a Pedra e até mesmo a poderosa Morte me temesse. Temessem a ele. E a nós dois. Modéstia a parte, seria um estrago sem precedentes.
O chamaram de diversos nomes. Dunks, O Herdeiro, O Mártir,e até mesmo de O Canalizador. Sem sombra de dúvidas, o nome a quem todos são gratos, a quem todos cultuam e homenageiam, é Fallcor.
Embora eu não tenha o conhecido, o admiro. E se for você a ler esse diário, irá admirá -lo também. Aqui contarei sua história e a minha. Isto é o que eu deixo para a posteridade.
Este é O Diário Atrás Das Pedras.
As memórias ricocheteavam sua mente como o descer das cordas em um criminoso. Era tão doloroso quanto. Seus olhos sem vida nem cor, não viam mais nada de bom. Para ele, sequer existia algo de bom. Não o restara nada de bom. Ali, isolado, ele podia ver a força e a imponência do reino que ele mesmo construiu. Dali, poderia ver seu povo, vivendo uma vida próspera e feliz, de um modo que gerações e gerações não conseguiram. Então, tudo iria a ruína. Torres e palácios em chamas, fome, guerra, doenças. Morte. Seria tudo culpa dele.
Cego por seu ódio. Movido por vingança. Foi assim que ele deu poucos anos de esperança para então sim fazer tudo vir abaixo. Eles— sim, eles — foram baixos, terríveis, monstros.
Interrompeu seu momento sem movimento na cama e levantou lentamente, até ter em mãos a única coisa que pudera pensar a respeito de quem deveria fazer algo a seu respeito depois de hoje. Um bilhete.
Entregar para o Duque Williams de Artor, amigo e fiel companheiro.
Querido Amigo, quando você vir esta mensagem, provavelmente estarei morto. Então leia com atenção. Devido a minha ausência de filhos, passo a você o cargo de Rei de Artor, e sei com total absoluta de certeza, que será melhor do que eu. Tenho um segredo que não pode ser revelado. Porém, é minha obrigação te dizer. Uma grande ameaça vem aí. Defenda este Reino com a sua vida. No nosso velho lugar de sempre, você descobrirá tudo que precisa. É com prazer e orgulho, que Hector, primeiro da dinastia dos Dark, lhe declaro meu sucessor, com poderes plenos de Rei, Duque dos Duques e honroso defensor do Leão.
Até um dia, amigo.
Hector Dark dirigiu se a janela do último andar do símbolo de seu poder. O Palácio de Artor. As negras e sem vida paredes da torre representavam o que sentia. Tudo e nada. Foi quando ele chegou ao topo. Com toda a sua fúria, descontando uma vida triste e obscura,golpeou a parede da torre, deixando um buraco suficientemente grande.
Seu corpo imóvel, a poucos centímetros da borda finalmente tremeu. Inclinou seu corpo, até seu pé não sentir mais o chão. Fechou os olhos e mergulhou numa queda da qual não voltaria mais.
Silêncio absoluto. Nada se mexia, nenhum rastejar de cobra, piado de águia ou até o leve passo de um rato ao algo do tipo. Até mesmo os animais sentiam a tensão do momento.
Pela primeira vez em anos, ele tinha falhado na tentativa de dominar clandestinamente. Quando se viu por si, os quarenta o cercavam. Conseguiu fugir para o campo de árvores onde agora se espreitava sem ser visto.
O Arqueiro se amaldiçoou por usar um uniforme tão estrondoso. Pela necessidade de se cobrir, não conseguiu um esconderijo com campo de visão. Em outras circunstâncias teria admirado a beleza do lugar. Uma floresta intocada pelo homem. Uma das poucas vezes que viu isso. Imaginou quão belo seria o céu noturno. Uma infinidade de estrelas.
Estrelas. Talvez fossem elas que o davam energia para continuar. Toda noite, quando ele se perguntava porque ele simplesmente não largava essa missão interminável de vingança. Um forte destruído, eram mais cinco erguidos. Se ele juntasse todo o dinheiro que saqueou, sem dúvidas poderia viver três vidas ótimas. Então ele olhava as estrelas. Se lembrava de tudo. Se lembrava do dia em que de uma hora para outra seu mundo foi despedaçado. Incendiado. Sua família, seus amigos, seus mestres, sua comunidade. Nesse momento, ele percebe porque não pode abandonar sua vingança. Nesse momento, tudo vem a tona. De novo. Nesse momento, o último da Liga dos Arcos, detentor da Capa Branca sente de novo o gosto de fogo na boca. E ele jurou fazer com que seu malfeitor sofresse muito mais.
Agora não importava mais, a dor que sentisse, o mal que passasse. Se fosse morrer, que morresse lutando.
Juntou todo o vigor que lhe sobrara, e soltou um assobio arrepiante. Ele precisava escutar. Julgando o brilho que vinha irradiando o seu corpo, ele supôs que sim. A Benção dos Capas Brancas.
Como um demônio, ele irrompeu das árvores. Seus inimigos também se revelaram. Eram quarenta pelo menos.
Uma.
Duas.
Três.
Quatro lanças desviadas. Em um segundo, o Arqueiro derrubara mais quatro oponentes. Era instintivo: Aljava, mão, arco : Menos um.
Recuando diante das perdas, seus oponentes o cercaram. Cada um que tinha coragem de atacar era interrompido depois de dois passos. Quando veio um de cada lado, foi a hora do Arqueiro mostra sua mais nova engenhoca. Um aperto de botão e como dois braços esticados, um para cada direção, o arco se dividiu em dois. Um flecha disparada à esquerda, uma à direita. Simultaneamente. Um arco duplo.
— Lhes darei o benefício da lealdade — Sua voz preenchendo o ar como um trovão. — Vocês já devem ter ouvido falar de mim. De joelhos, ou tudo que ouviram virará verdade.
Um a um, os remanescentes foram se ajoelhando.
— Jurem lealdade ao Arqueiro Salteador!
Um leve movimento nas vestes de um dos guerreiros atraiu a atenção do Arqueiro, que percebeu um deles se aproximando de uma das lanças. Atirou a flecha com a mão, perfurando o crânio do oponente.
Mais alguém?Do alto das pedras, o Tigre sorriu satisfeito.
Não importava o quão importante fossem mundanamente. Ali todos se viam por igual. Se vestiam igual. Se comportavam igualmente. Só obedeciam a um senhor.
Os mascarados olhavam atentamente a porta que se abria. Um garoto de um pouco mais que um metro e sessenta caminhava lentamente. Não podiam ver, mas por trás da máscara, o garoto estava encantado. A sala circular de tão quanto ouvira falar. Desenhos e gravuras aleatórias no chão, que refletidas no teto de vidro formavam a história daquele clã tão antigo como o vento.
Foi quando escutou aquele gemido. Aquele gemido que o faria arrepiar durante a sua vida inteira. A sua primeira vítima.
Quando seu pé esquerdo ultrapassou a linha que delimita a sala, todos se levantaram.
Atrás da mesa onde todos se sentavam, uma espécie em miniatura de um redemoinho foi cada vez mais se intensificando, e ganhando a cor preta. Quando Atilla conseguiu encará-lo, o redemoinho era na verdade, infinitos morcegos voando em círculos, até formarem uma forma humanoide, inteira negra, de três metros. Suas feições eram largas e severas. Enquanto caminhava, acontecia a mesma coisa sobre os morcegos, formando um trono, na outra extremidade da sala onde o gigante estava. Enquanto ele caminhava, todos abaixaram as cabeças.
— Irmãos, hoje estamos todos unidos aqui para receber nosso mais novo membro. O nome dele é Atilla, é um predestinado. — Sua voz era calorosa, espantosa, mas receptiva. — Mostrou talento pelas Artes ainda cedo, e seu falecido pai era um dos nossos. Ao tocar nesse assunto, lembro que a recompensa para o assassino conhecido como Arqueiro Salteador, acaba de dobrar. — Ao tocar na palavra do arqueiro, o rosto de Atilla estremeceu, e seu corpo se irradiou de raiva. — Hoje é o dia da iniciação dele e todos sabemos as implicações. A vítima de hoje é um dos piratas que juraram lealdade ao Arqueiro Salteador. TRAGAM -NO!
Dois homens robustos entraram na sala, carregando um homem que se não parava de se rebater. O ajoelharam em frente a Atilla, que tirou de suas vestes uma pequena espada.
— Seu nome. — Disse, superior.
— O que? — Disse o pirata, exaltado.
— Preciso saber o seu nome?
— Julian — Falou, um tanto quanto confuso.
— Você se arrepende?
Julian sequer fez questão de responder verbalmente, e cuspiu diretamente no rosto do garoto, dissolvendo assim qualquer resquício de dúvida que habitava a mente da criança.
A mão de Atilla descreveu um horizontal perfeito. A cabeça rolou, até repousar em seus pés e enquanto o pescoço jorrava sangue. O corpo foi caindo gradativamente, até encontrar o gelado do chão.
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