O Devorador de Ossos
8 Um novo amigo
–Mallums! Droga! — gritou Gustavo.
Gabriela apontava para o sul. Ela parecia menos assustada, mas ainda estava em pânico.
–Bom. Vamos te deixar aqui e procurar os Mallums. — disse Gustavo à Gabriela.
–Certo. — afirmou Gabriela.
Levitei Gustavo e eu até o chão e seguimos ao sul do navio. Já era noite e uma tempestade se aproxima.
–Ei, — chamei Gustavo — os Mallums conseguem controlar a chuva?
–Não. Quer dizer, mais ou menos. Há um método que os Mallums criaram para isso. Guerreiros do raio, por exemplo. Eles conseguem, com muita dificuldade, trazer uma tempestade. Mas a energia maligna que eles trazem junto ao corpo já provocam uma tempestade. Provavelmente são os mesmos mallums que estavam nos seguindo no carro. Aquilo que a gente viu, com certeza, foi apenas uma pequena quantia de Mallums que nos seguem. Precisamos entrar em contato com o pessoal do Campo de Lorem, e rápido. — disse Gustavo.
Suspirei. Sabia que estávamos em perigo. Começou a garoar. O navio se mexia feito peixe fora d'água.
–Vamos voltar. — disse Gustavo.
Assenti. Começamos a caminhar de volta ao container. Levitei Gustavo e eu até o nosso container. A porta estava aberta.
–Gabriela? — disse Gustavo.
Nenhuma resposta. Gustavo começou a vasculhar o container, sem pistas de Gabriela.
–Ah! — gritou Gustavo. — Droga!
–O que houve?
–Gabriela. Ela não iria sair daqui sozinha. Alguém a pegou. — respondeu Gustavo.
–Não é possível... — fui interrompido por Gustavo.
–Mallums. Eles a pegaram. Malditos! Temos de achar Gabriela! Temos!
Franzi os lábios. Começou a chover forte. A porta do container se abriu. Uma brisa atingiu meu rosto.
–Vamos. Levite-nos. — ordenou Gustavo.
Ele parecia irritado. Assenti. Descemos calmamente até o chão. Rajadas de vento atingiam meu corpo. Não tínhamos passado nem um minuto na chuva e já estávamos ensopados. Eu estava com frio. Tirava a água de meu rosto com minhas mãos quando um raio atingiu o navio. O estouro foi grande. Toquei minha tatuagem e Bonzo apareceu em minhas mãos. Gustavo pegou seu arco.
–Como você vai usá-lo?
–Ah. Ele é mágico, Zane. Basta passar algo nele e ele já atira. Acho que vou conseguir. — respondeu Gustavo.
Achei aquilo legal. Viramos à esquerda. Seguíamos ao sul, como Gabriela dissera. O mar estava agitadíssimo. Uma onda bateu no casco. A água salgada nos atingiu. Gustavo e eu caímos no chão e esbarramos em um container. Avistei um homem com uma capa de chuva amarela e uma lanterna. Ele nos viu e veio correndo até Gustavo e eu.
–O que vocês fazem aqui? — perguntou o homem de cabelos pretos e olhos verdes. Ele tinha aproximadamente um metro e oitenta de altura e era magro. Possuía uma barba rala.
–Ahn, droga. — respondeu Gustavo. — Nada, ahn.
–Acalmem-se. — disse o homem.
Eu já estava com Bonzo na mão esperando o homem virar um monstro. Esperamos um momento, em silêncio.
–Bom, acho que você não é um monstro. — disse Gustavo.
–Espera aí, monstro? — questionou o homem.
–Ah. Nada, quer dizer. Ér, nada. — respondeu Gustavo.
–Vocês são guerreiros! — gritou o homem.
–Não, não somos! — retruquei.
–Sim, vocês são! — respondeu o homem. — Venha, sigam-me. Há mallums por aqui.
–Como? — perguntou Gustavo.
–Eu também sou um. — respondeu o homem.
–Como assim? Você é do Campo de Lorem? — perguntei.
–Bem, sou, ou era. Mas eu tenho de completar minha missão. — respondeu o homem.
–Não... Não é possível! — gritou Gustavo.
–Sim. Sou eu. — afirmou Gustavo.
–O.K. Quem é você? — questionei.
–Sou um dos guerreiros perdidos. Digamos que eu sou, ahn, uma mutação especial. Existem os quatro grandes. Ar, fogo, água e terra. Mas existem os raros. Os guerreiros paucis. Há apenas dois tipos. Gelo e lava. E eu, bem, sou o Guerreiro do Gelo. Eu me perdi há anos. Um monstro me mordeu e eu estou amaldiçoado. Não posso sair desse navio a não ser que um outro guerreiro me tire. — explicou o homem.
–Uau! Eu nem sabia que existia guerreiros do gelo! Que legal! — exclamei.
–Agora me sigam. Tenho um local seguro. — disse o homem.
Seguimos o homem ao norte. Chegamos à uma porta que estava no chão. O homem abriu-a e descemos as escadas.
–Nossa... — disse eu. — Que legal!
Tínhamos chegado em uma sala de aproximadamente cem metros quadrados. Era forrada por um carpete vermelho-sangue. Havia uma cama, um sofá, uma televisão, uma geladeira, um fogão, uma pia e uma porta, que dava no banheiro, decifrei. Tinha quadros nas paredes. Havia também uma rede de pescas no chão. As paredes eram acinzentadas. Tinha uma gaiola com um papagaio. Ara ara ara, disse o papagaio.
–Bom, acho que não me apresentei formalmente. Meu nome é Fabrizio. Tenho quarenta anos e estou há vinte nessa missão. — disse o homem.
–Prazer, Zane Thois.
–O meu nome é Gustavo Lheo, prazer em conhecê-lo.
–O prazer é meu! — disse Fabrizio.
–Desculpe a pergunta, mas qual é a sua missão? — perguntei a Fabrizio.
–Ah, Zane. A minha missão era matar o Devorador de Ossos.
–Devorador de Ossos? — questionei.
–O Devorador de Ossos é o pior monstro que já habitou a Terra. Aliás, que habita. Foi uma criação fracassada da Força Suprema. Ele estava adormecido até alguns anos atrás, quando os Mallums fizeram um feitiço e o reviveram. Agora ele provoca caos nos lugares que passa. Eu deveria ter o matado, mas fracassei. Éramos em três. Bacco, um homem de cabelos compridos e morenos. Teodoro, um homem de cabelo raspado. E eu. Os dois estão perdidos na Terra do Inexistente. A única maneira de chegar até lá é pelo o avião. Um avião mágico, mas ele foi destruído há décadas. — disse Fabrizio.
–Sinto muito por seus amigos. — disse Gustavo.
–Por que você foi amaldiçoado? — questionei.
–Eu fui enganado. Os mallums tinham feito uma proposta. Eu me entregava e eles soltavam meus amigos. Eu me entreguei. Fui amaldiçoado. Mas fui traído. Os mallums levaram Bacco e Teodoro à Terra do Inexistente e eu fui levado até esse navio. — explicou Fabrizio.
Suspirei. Ficamos parados por um momento.
–O que aconteceu com vocês para estarem ali fora com essa chuva? — perguntou Fabrizio.
–Nossa amiga, Gabriela, foi sequestrada pelos Mallums. Fomos procurá-la. — respondeu Gustavo.
–Lamento, Gustavo. Vocês não querem passar a noite aqui? E amanhã nós vamos procurá-la? — propôs Fabrizio.
–Não! Temos de achar Gabriela. Ela é uma Guerreira da Água. — recusou Gustavo.
–Da água? Ela é uma dos quatro grandes? — questionou Fabrizio.
–Nós somos. Eu sou dominante do fogo. Zane é o Guerreiro do Ar.
–Uau... Surpreendente. — suspirou Fabrizio.
Fabrizio nos levou até o lado de fora. A chuva já tinha passado. O piso do pátio estava extremamente molhado e escorregadio. Seguimos ao sul.
–O cheiro de chuva é bom. — disse.
Todos permaneceram em silêncio. Gustavo usa uma chama para vasculhar cada pedaço do pátio e Fabrizio usava sua lanterna. De repente, escutamos um barulho. Olhei a frente e disse:
–O que é aquilo?
–Não. Não. Não. Mallums! — disse Gustavo desesperadamente.
Toquei minha tatuagem e Bonzo surgiu em minhas mãos. Gustavo pegou seu arco e a lanterna de Fabrizio se transformou em uma espada de gelo.
–Ha-ha-ha. Parece que esse navio é muito pequeno para nós. — disse um Mallum de aparência nova, aproximadamente doze anos. Seus olhos eram pretos, seu cabelo extremamente escuro e sua pele branquíssima.
–Isso é o que veremos. — provoquei.
Eram três mallums. Todos de aparência parecida.
–Oh! Quanta falta de educação. Meu nome é John. — ironizou o mallum que já havia falado conosco.
–O meu é Stuart. — disse o mallum do lado direito.
–E o meu é Louis. — complementou o mallum do lado esquerdo.
A única maneira de diferenciar John, Stuart e Louis era pela roupa. John usava um sobretudo preto, Stuart uma camisa de manga comprida negra e Louis um casaco preto. Eles possuíam armas. John tinha um cajado, Stuart uma faca de caça e Louis uma foice. John ameaçou nos atacar.
–Não quero briga. Mantenha distância dessa área, caso contrário, minha opinião mudará. — afirmou John.
–Ótimo. Não se aproxime de nossa área, também. — disse Fabrizio.
–Gabriela. Eu quero Gabriela. — exigiu Gustavo.
–Não sei do que se trata. — explicou John com um ar de inocência.
Eu tinha certeza que John sabia do que se tratava. Mas seu olhar convencia, porém não me rendi a ele.
–O.K. — disse Gustavo, com um olhar furioso.
Viramos e voltamos para a moradia de Fabrizio.
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