O Deus do Sol
26 XXVI - O terceiro monstro
Após verificar que os rastros estavam mais fortes e que já estavam longe do finado irmão. Ipeleu retirou a espada do pescoço de Liceu, que levantou rapidamente buscando ar pra respirar e cuspindo sangue. O corte se fechou rapidamente, mesmo assim Liceu demorou para falar, enquanto Ipeleu o encarava com uma cara triste.
– Não acredito que você o deixou morrer. – Disse Liceu com raiva olhando para o chão.
– A decisão foi dele. – Respondeu Ipeleu se virando para não encarar o irmão mais novo.
– A escolha de deixa-lo viver foi sua. E você o matou. – Liceu falou se levantando.
– Não! – Gritou Ipeleu se virando para encarar Liceu. – A culpa foi sua. Você não o protegeu. Você não foi capaz de matar o Vampus. Você estava ao lado dele. Você tem a armadura. A culpa é sua. No estágio que ele estava não tinha o que fazer.
– Como não tinha o que fazer? – Liceu retribuiu o alto tom de voz. – Era só colocar a armadura nele que ele iria se regenerar e ficar vivo.
– Você nunca perdeu um membro em batalha? A armadura não faz uma perna crescer de volta! – Gritou Ipeleu estranhando.
– Claro que regenera. – Liceu já não gritava mais. – Nunca cheguei a perder algum membro.
– Olha isso. – Ipeleu mostrou na mão esquerda a ausência do dedo anelar e o dedo mindinho pela metade. – Eu perdi enfrentando um guerreiro que atacou o templo. E Hélio me explicou que a armadura só cura feridas, cortes, doenças, supre o corpo com energia, queimaduras e melhora o condicionamento físico. Não consegue constituir nenhum... – Ipeleu parou de falar e virou a cabeça para trás.
– Que foi? – Perguntou Liceu reparando que seus elmos estavam trocados.
– Acho que encontrei o terceiro monstro. – Ipeleu falou retirando a Castigadora e a Justiceira e indo em direção a uma floresta fechada.
– Ipeleu? O que você esta fazendo? — Liceu já sussurrava.
Ipeleu e Liceu foram andando sorrateiramente pela floresta adentro. Estavam em um final de tarde, o sol ainda não tinha encostado no horizonte, mas não estava longe de se pôr. Mas a floresta começou a ficar densa e a cobrir a luz do sol.
A escuridão foi aumentando gradativamente para Liceu, mas como ele estava seguindo os passos de Ipeleu, e sabia que ele enxergava muitas outras coisas tinha confiança que estava tudo bem. Enquanto Ipeleu ouvia sons estranhos e identificava uma anomalia ao redor.
Liceu viu uma casa dentro da floresta, mesmo ela estando em um campo razoavelmente largo, ainda assim as arvores em volta cobriam o céu, fazendo a casa ficar coberto por uma sombra.
– Ele esta ali dentro. – Falou Ipeleu sem se virar para trás.
– Vamos entrar? – Perguntou Liceu.
– Não sei. Tem algo de estranho no ar. Não consigo identificar. – Falou Ipeleu virando a cabeça.
– Deixe-me colocar o Cranio, talvez eu identifique. – Falou Liceu retirando o seu elmo e estendendo de volta a Ipeleu.
– Ok. – Ipeleu retirou o elmo e colocou o seu, enquanto Liceu colocava o seu elmo.
– Isso é estranho. – Liceu colocou o elmo e começou a processar as informações a sua volta. – Tem uma energia estranha vinda da casa. Ele esta lá dentro, isso é óbvio. Ele tem algum poder estranho.
– Não tem nada de estranho. – Vindo da casa, mas a voz foi tão nítida quanto se estivesse do lado deles. – Eu só mostro o que vocês não conseguem enxergar.
– Quem é você? – Perguntou Ipeleu retirando a Vingadora.
– Vocês sabem o nome do meu irmão mais novo. – Deveriam saber o meu. – Me revelem o porque estão atrás de mim.
– Apolo nos enviou para matar vocês três. – Gritou Ipeleu.
– Por que você falou isso? – Contestou Liceu.
– Ele ouviu muito de nossa conversa. Não temos o que esconder.
– Impossível nos matar. – Vociferou a voz.
– Os deuses nos deram uma arma capaz de tal feitio. – Retrucou Ipeleu. – Agora apareça e aceite seu destino.
– Você já esta me vendo. – Liceu falou virando a cabeça para Ipeleu.
– Como? – Perguntou Ipeleu vendo Liceu retirar o Cranio. Seu rosto estava sem nenhuma pele, apenas os músculos ensanguentados, os dentes podres e os olhos vazando um liquido amarelo mostrando ser de um cego. Ipeleu foi para trás e colocou a espada na frente de Liceu transformado.
*
– Por que você falou isso? – Contestou Liceu.
– Ele ouviu muito de nossa conversa. Não temos o que esconder. – Falou Ipeleu estando em um estado de hipnose olhando para casa.
– Os deuses nos deram uma arma capaz de tal feitio. – Retrucou Ipeleu. – Agora apareça e aceite seu destino. – Ipeleu continuava respondendo para o nada.
– O que você esta vendo? –Perguntou Liceu virando o corpo em direção a Ipeleu para analisa-lo.
– Como? – Perguntou Ipeleu indo para trás e retirando as duas armas e colocando um espaço entre Liceu e ele.
– O que você esta fazendo? – Falou Liceu indo para trás e tomando um susto com a atitude do irmão.
*
– O que você vai tentar fazer? Matar seu irmão? – O sangue do rosto pingava na armadura. O monstro foi tirando a armadura e mostrando o resto de seu corpo, que também não tinha pele, a carne estava negra em certos pontos, mostrando podridão, alguns ossos estavam a mostra, que estavam esverdeados e cheios de buracos.
– Você não é eu irmão! – Falou Ipeleu tentando cortar a cabeça do monstro que estava a sua frente.
– Bom que você percebeu isso. – respondeu enquanto ia para trás para desviar do golpe. Retirou o fêmur da perna. – Eu vou te matar, mas quero fazer isso lá! – Falou o monstro apontando para casa, depois saiu correndo em direção a porta de madeira fechada.
– Tenho que completar minha ultima missão. Volte aqui! – Gritou Ipeleu correndo atrás do monstro.
Ao entrar na casa, Ipeleu viu o monstro correndo por entre a casa, mas a casa estava um breu. Depois de rodar pela casa, viu o monstro parado em pé olhando para um homem no chão. Quando Ipeleu chegou perto. largou suas espadas e viu que era Kipédius caído com sangue negro escorrendo da perna da enorme ferida que ele tinha no pescoço.
– Kipédius! – Ipeleu começou a chorar. – Como você esta vivo?
– Ele esta morrendo, não conseguirá te responder. – Falou o monstro virando o rosto para Ipeleu. – E só tem um jeito de trazê-lo de volta.
– Qualquer coisa. Eu faço qualquer coisa para que ele volte a vida. – Ipeleu falou enxugava as lágrimas do rosto.
– Retire a Solaris e coloque nele. – Ipeleu tirou toda a armadura e colocou em Kipédius. – Agora para que ele volte a vida. Terá que enfiar uma espada na sua barriga e vomitar sangue na boca dele.
*
– Não esta me reconhecendo? Eu sou seu irmão. – Respondeu Liceu.
– Você não é eu irmão! – Falou Ipeleu tentando cortar a cabeça do monstro que estava a sua frente.
– Você esta fora de si . – Liceu desviou do golpe e retirou sua espada e apontou para casa. – O verdadeiro inimigo esta na casa.
– Tenho que completar minha ultima missão. Volte aqui! – Gritou Ipeleu correndo atrás do monstro.
Ao entrar na casa Liceu viu que os cômodos estavam escuros, logo e seguida Ipeleu entrou e começou a correr pela casa com as espadas nas mãos tentando acertar algo invisível. Liceu entrou em um quarto e viu um homem coberto por uma espécie de túnica com toca que o cobria todo.
– Você é irmão de Lobus e Varpeus? – Perguntou Liceu se aproximando do homem.
– Vai me matar por isso? – O homem perguntou sem se mexer.
– Você não morre. Só tenho que te levar para o submundo. – Falou Liceu guardando a espada.
– Não quero voltar para lá. – O homem aumentou o tom de voz.
Liceu percebeu que a realidade se distorcia e o homem tentava influenciá-lo assim como fazia com Ipeleu. – Não vai funcionar. Os deuses me deram um presente que me faz ver, como eles.
– Então terei que usar outros métodos para te impedir. – De repente Ipeleu gritou.
– Kipédius! – Ipeleu começou a chorar. – Como você esta vivo?
– Ele esta morrendo, não conseguirá te responder. – Falou o monstro virando o rosto para Liceu. – E só tem um jeito de trazê-lo de volta.
– Qualquer coisa. Eu faço qualquer coisa para que ele volte a vida. – Ipeleu falou enxugava as lágrimas do rosto.
– Retire a Solaris e coloque nele. – Ipeleu tirou toda a armadura e colocou no chão. – Agora para que ele volte a vida. Terá que enfiar uma espada na sua barriga e vomitar sangue na boca dele.
– Pare ou eu te mato! – Liceu falou apontando a espada para o homem.
– Você falou que eu não posso morrer.
Liceu arremessou a Vingadora na direção do homem que estava sentado com a capa. A espada ultrapassou a túnica e cravou na parede. Liceu correu em direção ao homem com a túnica, trouxe a espada para sua mão e decapitou o homem com capuz. Depois de ver o pano cair com uma cabeça embolada dentro, Liceu arremessou a espada perto de Ipeleu com poder acumulado. O impacto fez a armadura se espalhar e Ipeleu cair para o lado.
– O que? Cadê o Kipédius? – Ipeleu falou o procurando no chão seu irmão.
– Não tem Kipédius. O monstro tem a habilidade de criar miragens. Coloca sua armadura e não a tire por nada. – Gritou Liceu vendo que a túnica não tinha nada dentro. – Não ataque nada e nem ninguém. Tudo pode ser uma armadilha.
– Vagabundo! – Uma nova miragem apareceu na frente de Ipeleu. – Droga.
– Que foi agora? – Perguntou Liceu se juntando a Ipeleu.
– Estou vendo Mineléia. E Hélio esta falando que se eu não me matar. Ele a mata. – Falou Ipeleu olhando fixo para o nada.
– Não estou identificando nada nessa direção. – Falou Liceu tentando reconfortar Ipeleu.
– Hélio esta falando que você é uma ilusão e tenho que te matar. Kipédius morreu por causa que você é uma visão, se fosse real teria protegido Kipédius. – Falou Ipeleu olhando fixamente para um corte que Hélio abria no pescoço de Mineléia.
– São tudo ilusões. Veja você mesmo. – Liceu retirou o elmo de Ipeleu e colocou o Cranio nele.
– Você tem razão são apenas ilusões. – Falou Ipeleu olhando para Liceu ao seu lado.
– Ipeleu não estou te ouvindo. Não estou mais na casa. Não vou me deixar influenciar por nada. Procure e leve ele para o segundo portal.
– Liceu não esta me ouvindo? Eu estou aqui do seu lado. – Ipeleu encostou no braço de Liceu.
– Vai logo! – Liceu tomou um susto levando a mão ao cabo da espada quando Ipeleu encostou em seu braço.
Ipeleu deixou Liceu no chão e saiu de casa, após sair de casa um homem estava virado de costas para ele. Ipeleu retirou a espada após perceber que da cabeça e das mãos estava emitindo algumas ondas que distorciam o ar.
– Então você é o responsável por essa confsão? – Ipeleu falou caminhando em direção ao homem com Castigadora na mão esquerda e a Justiceira na direita.
– Então o elmo supera minha magia. – O homem falou mostrando o rosto.
– Como você pode ser tão horrendo? – Ipeleu falou recuando após ver o rosto do homem. – Volte para o submundo. As pessoas não acostumariam com sua aparência, e você seria caçado até o fim dos tempos.
– Eu seria um rei. – Disse o homem abrindo os braços e distorcendo ainda mais realidade por perto. – As pessoas não me veriam como eu realmente sou.
– Viveria uma mentira?
– Viveria várias. Quando me cansasse de uma, inventaria outra nova. Seria rei, deus, semideus, heroi, titã e tudo o que o tempo trouxesse de novo.
– Pena que não viverá aqui. Te levarei para o submundo. Só me diga o seu nome, para saber quem levei para o império de Hades.
– Direi meu nome para que você saiba quem te matou. Papus.
Ipeleu corria enquanto Papus tirava a capa que cobria seu corpo. Ipeleu parou de correr e observou Papus e seu corpo. Ele era um homem que não tinha pele, os músculos ficavam a mostra e deles vazavam um pouco de sangue. Das pontas dos dedos, cotovelos, joelhos e coluna os ossos ultrapassavam os músculos ficando a mostra e na cabeça tinha alguns fios de cabelos longos.
Ipeleu ficou em choque vendo o monstro que estava por vir a enfrentar, chegou a largar a Castigadora no chão. Depois que viu a espada caída e o monstro vindo em sua direção, Ipeleu recobrou a consciência e pegou a espada caída e a guardou. Ficou apenas com a Justiceira na mão acumulando poder e esperando o ataque de Papus.
Na trajetória, Papus fez os ossos aumentarem e até cobrirem parte dos músculos, parecendo uma armadura. Ipeleu esperou Papus chegar, e quando chegou desferiu um arco na horizontal com o intuito de ser desviado, e assim Papus fez. Depois de desviado Ipeleu pulou e tentou uma fincada no tórax de Papus, que desviou novamente. Mas o golpe de Ipeleu não era para acertar Papus, e sim, descarregar toda a energia acumulada no chão.
Após a explosão, Papus foi jogado para longe enquanto se debatia no chão. Ipeleu retirou a Castigadora e começou acumular nas duas espadas, trocou a posição, correu em direção ao Papus, que ainda estava se levantando, Ipeleu pulou e fincou as duas espadas no chão. Gerando uma nova explosão e arremessando Papus ainda mais longe.
Ipeleu guardou a Castigadora e viu que tinha um portal no chão. Colocou o punhal no chão e um buraco se abriu. A terra começou a ser engolida pelo próprio buraco até aparecer um túnel escuro e profundo. Ipeleu virou para ver Papus vindo em sua direção e ficou pronto para o combate.
Papus apareceu e desferiu um soco, Ipeleu abaixou e cortou o braço passando a lâmina pelo musculo. A sangue começou a escorrer mais do que escorreria em um mortal normal. Papus desferiu outro soco, onde Ipeleu abaixou novamente, mas ao invés de cortar o braço como fizera antes, fincou a espada no abdômen do monstro e a tirou em seguida. O monstro recuou dois passos e viu muito sangue escorrer do furo e Ipeleu viu que as distorções estavam ficando mais fracas.
Ipeleu começou a atacar para matar Papus. Os golpes foram desviados com certa dificuldade por Papus. Ipeleu viu que não sairia conseguiria acertá-lo, então começou a dar golpes para que Papus ficasse encurralado entre ele e a passagem para o submundo. Mas quando conseguiu deixar Papus encurralado estocou a espada em seu peito, fazendo a atravessar até pelas costas, Papus não tinha feito o menor esforço para desviar.
Após receber o golpe Papus virou o corpo de lado rapidamente, o que fez Ipeleu largar a espada. Papus acertou um chute em Ipeleu, fazendo o cair a uma certa distância, retirou a espada do peito e esperou Ipeleu se levantar e retirar a Castigadora e se portar para o combate.
Com Papus armado a luta ficou mais difícil para Ipeleu. Sua sorte era que estava com Solaris e ela o regenerava a tempo antes mesmo de ele pensar em sentir dor. Conseguiu aplicar alguns truques com Papus, sendo atingido para conseguir atingi-lo junto.
Depois de ser derrubado Ipeleu identificou algo de estranho por perto. Algo o fez se distrair, algo grande que se aproximava pelo túnel, pensou que era Cérberus ou algum titã que tinha encontrado a saída. Foi se lembrar da luta quando papus fincou a espada em sua garganta.
– Então aqui esta o terceiro! – Falou uma voz grave.
Papus se virou para ver quem estava falando, e foi quando Ipeleu aproveitou para se livrar de Papus. Cortou o joelho e em seguida a mão de Papus que segurava a espada no pescoço de Ipeleu, com a Castigadora, que fez ele soltar a espada e cair segurando o joelho.
– Tânatos! – Falou Ipeleu olhando para o deus que se portava a sua frente. – Veio buscar essa criatura?
– Não. Minha intenção era descobrir o que fez abrir a passagem. – Tânatos abriu um sorriso. – mas ficarei feliz de levar esse monstro.
– Não me levará! Porque eu sou Hades! – Ipeleu conseguiu ver a tentativa de Papus fazer parecer Hades para enganar Tânatos.
– Não me enganará monstro. Sou um deus! E você virá comigo agora. Depois que me for, feche essa passagem. – O deus apontou para Ipeleu.
– Sim, senhor.
Tânatos abriu duas asas negras e voou em direção a Papus que se preparou para a briga, antes que chegasse Ipeleu desferiu um golpe com a espada nas costas do monstro, que caiu no chão ao ser surpreendido.
Tânatos só precisou segurar a garganta com sua mão esquerda e tirar o monstro do chão, depois foi só voar de volta para o buraco. Ipeleu se aproximou e retirou o punhal que Apolo lhe deu do chão e ver o buraco encher se encher com terra novamente. Ipeleu retornou a casa e viu Liceu sentado no chão observando ele se aproximar. Retirou o Cranio e trocou pelo elmo de Liceu.
– Conseguiu jogá-lo no buraco? – perguntou Liceu se recompondo.
– Não. Mas Tânatos apareceu em seguida e o arrastou para o submundo.
– E como voltaremos para casa. Será uma longa viagem. – Falou Liceu já pensando na volta. Ao saírem da casa Liceu viu uma luz forte aparecendo na frente de ambos.
– Apolo? – Perguntou Ipeleu ao vê-lo longe do templo.
– Me devolvam a adaga sem ponta que abre as portas do submundo. – Apolo parecia concentrado e irritado. – Os deuses precisam dela.
– Quando partiremos para enfrentar Hélio? – Perguntou Ipeleu entregando o objeto.
– Agora. – Falou Apolo levando eles de volta ao templo.
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