O Deus do Sol

2 II – Uma lição para toda a vida


O pai termina de contar a história para os três filhos homens (Ipeleu, o mais velho, Kipédius, o segundo mais velho e Liceu o, mais novo dentre os homens) e sua filha caçula (Mineléia) e faz a mesma pergunta que sempre faz quando acaba de contar uma história.

– Qual a moral dessa estória?– pergunta o velho pai.

– Ajudar os mais necessitados. – responde Ipeleu.

– Não. – responde o pai passando a mão na cabeça do filho mais velho.

– Saber que nossos inimigos também têm sentimentos. – responde Kipédius.

– Nem todos nossos inimigos têm sentimentos, você verá com o tempo – responde o sábio pai.

– Lutar até a sua morte ou até a morte de seus oponentes pelo que você quer. – respondeu o mais novo dos irmãos, Liceu.

– Às vezes as lutamos pelas coisas erradas, mas é um bom conceito para motivação. – responde sabiamente o pai.

– Sempre consultar os deuses em uma dúvida. – responde a única mulher que habitava a casa.

– É sempre bom e tudo o que vocês falaram está correto, mas a lição a ser apreendida é que: quando um deus manda você algo, você faz não importando o que é. Missão dada é missão cumprida, se não cumprir é porque você deve estar morto. – e essa foi a lição que o pai das crianças ensinou naquele dia – Agora vão brincar.

Ipeleu e Kipédius pegaram dois gravetos e começaram a brincar de soldados enquanto Mineléia foi brincar com sua boneca feita de madeira que seu pai tinha feito, mas Liceu não foi brincar, este foi atrás de um pedaço de madeira e começou a modelar o pedaço de madeira ao chão. Quando o pai se aproximou para perguntar o que ele fazia ali sozinho com sua faca e com um pedaço de madeira.

– O que você faz sozinho?

– Descascando essa madeira.

– Mas para que você faz isso?

– Para ter o que fazer.

– Mas você pode brincar agora.

– Eu já brinquei muito, agora tenho que começar a pensar em outra coisa além de brincar.

– Já brincou muito? Está bem, mas o que vai fazer com esse pedaço de madeira?

– Não sei, acho que espadas de madeira, já que da pena ver meus irmãos brincando com gravetos desses jeitos.

– Isso seria uma boa ideia, quer que eu te ajude?

– Pode ser. – o pai tirou uma faca que guardava no cinto e começou a fazer uma espada com o pedaço de madeira e resolveu puxar assunto, já que seu filho estava de cabeça baixa e com cara de choro – O que você achou da história de hoje?

– Legal, mas acho que os guardas deveriam morrer.

– Morrer?

– Isso! Eu percebi que os golpes que o jovem dava nos guardas eram para impossibilitá-los e não matar.

– Isso mesmo, pois a deusa mandou salvar o velho. Se você quer salvar alguém, para que vai querer matar outros?

– Não sei, mas se eles estão no caminho da deusa ou de um deus, não quer dizer que eles devem morrer?

– Se eles quisessem que eles morressem, por que eles mesmos não matariam?

– Por alguma lei louca deles.

– Não fale assim dos deuses.

– Eu peço desculpas por tê-los ofendido. Mas pai...

– O que é filho? – o pai ficou impressionado de o filho que nunca falava resolver puxar um assunto.

– Das histórias que você conta, sempre tem o protagonista como um homem e sempre tive suspeitas a esse respeito e depois da “estória” de hoje só confirmam minha teoria.

– E qual é sua teoria?

– Você é o protagonista das histórias que conta?

– Eu? Não, claro que algumas estórias foram parecidas com o passar de minha vida, mas não sou. Algumas nem são minhas, são de outros heróis que existiram.

– Outros? Então quer dizer que você é ou já foi um herói?

– Não. Essa é mais uma lição: um herói sabe que nunca é um herói, pois heróis morrem em combate. E ainda estou vivo, se estou vivo não sou herói?

– Por que heróis sempre morrem?

– Porque eles estão sempre ajudando os outros, colocando a vida deles em risco o tempo todo, até que chega uma hora que não tem mais como ele ficar vivo. Mas me responda: por que você brinca pouco com seus irmãos de soldado?

– Porque eu sou o mais fraco e o menos ágil e sempre perco.

– E aquela vez que te contei a história de que deve aprender com seus erros?

– Eu sei, mas não tem como, já criei até armadilhas, mas nada da certo.

– Não deu certo ainda! Quando disse aquilo não mandei você mudar seus golpes. Mandei você observar o que ele não usa em uma batalha e usar a seu favor. Em uma luta de espadas o que se usa são as mãos, mas o que move o corpo são os pés, então sem eles, como pode haver luta? Quando um jovem lutou com alguém maior que ele, percebeu que era mais fácil ele acertar as pernas do oponente, pois estava mais fácil ao seu alcance do que o rosto, então esse jovem tentou acertar as pernas e adivinha.

– Deu certo.

– Mas saiba que, do mesmo jeito que seu oponente tem defeitos em uma luta, você também tem – Nesse momento Ipeleu segurou com sua mão livre a mão que Kipédius segurava o graveto e com a mão que carregava o seu graveto, o encostou no peito de Kipédius.

– Ganhei! Ganhei! Mais uma vez – e assim pulava e gritava de felicidade Ipeleu.

– Quero mais uma vez, essa não valeu – pediu Kipédius entre gritos nervosos.

E assim se passou a tarde daquele dia, Ipeleu e Kipédius brincando com suas espadas de graveto, Mineléia brincando com suas bonecas de madeira e o pai das crianças e seu filho Liceu moldando pedaços de troncos de madeira.

Depois de alguns dias moldando os troncos, as espadas ficaram boas. Pelo menos quando comparadas a gravetos, uma no formato clássico (feito por Liceu) e a outra feita no formato de gladius (feita pelo pai). As duas foram entregues a Ipeleu, com a gladius de madeira, e Kepédius, com a espada tradicional de madeira. Os garotos brincaram o dia inteiro com aquelas espadas, enquanto o garoto deu a ideia para o pai de fazerem escudos, lanças, peitorais, caneleiras, e braceletes de madeiras para os garotos brincarem. O pai deu risada da inocência do filho e perguntou se ele estava disposto a fazer tudo aquilo, pois era muito trabalho a fazer, o garoto sorriu e balançou a cabeça positivamente o pai fechou a cara e falou de um modo grosso que não poderiam esquecer-se dos elmos, e abriu um sorriso, o garoto mostrou até os dentes de feliz. E assim fizeram, passaram várias luas até acabar todo o armamento de madeira, mas terminaram e entregaram tudo a Ipeleu e Kepédius. Eles gostaram dos novos brinquedos, mas perguntaram a Liceu por que ele não tinha armas, ele não soube responder a única coisa em que pensou foi falar que os irmãos brincavam mais com as armas de madeira do que ele. Os irmãos deram risada para o pai, o pai retribuiu o riso, entrou em casa e saiu com outro equipamento de madeira, afirmando que esse era o de Liceu, o que deixou muito feliz. Liceu chegou perto do pai e falou que tinha aprendido uma lição, então virou para o irmão Kepédius e começou a falar.

– Kepédius, já que sempre perdemos para Ipeleu, por que não nos juntamos para tentar derrotá-lo?

– Dois contra um não é justo?

– Você acha que em uma guerra dois mil contra mil é desvantagem? – respondeu o pai.

– Na guerra e no amor vale tudo – disse Kepédius.

– E já que você é tão bom, por que não ganha de nós dois juntos? – disse Liceu.

– Está tudo bem. Nenhum de vocês é páreo para mim, nem mesmo que estejam juntos – disse se gabando Ipeleu.

E assim foram brincar os três garotos, agora “fortemente” armados e com motivações extras, com novos desafios. O pai sentou na árvore onde o filho Liceu teve a ideia de criar brinquedos de madeiras e resolveu criar brinquedos para a filha Meneléia, já que ultimamente só tinha criado para os filhos.

Os dias foram passando e os filhos já estavam grandes o bastante para começarem a ter um treinamento de verdade. O pai começou ensinando os golpes básicos e o que deveriam aprender em combate, o que ele sempre fazia os garotos repetirem antes de qualquer combate:

1 – Ou eu caio ou você cai;

2 – Se eu cair eu caio batendo;

3 – Se eu não levantar quer dizer que ainda vivo;

4 – Se eu cair e levantar, quer dizer que falhei e estou no submundo;

5- Se eu conseguir levantar eu volto pra te pegar.

Os garotos repetiam como um grito de guerra toda vez que começavam a treinar e até antes das lutas de brincadeira, eles foram melhorando e as lutas começaram a ficar até mais emocionantes de se assistirem. O pai vendo o progresso de seus filhos deu tarefas para seus filhos. Os filhos homens teriam que caçar animais terrestres para todos comerem, o pai era incumbido de caçara pássaros e peixes para comerem e a filha frutas legumes. E assim foram crescendo os garotos, o pai até era que novo. Mesmo tendo três filhos já homens e uma filha quase moça.

Com o passar do tempo Kipédius e Liceu pararam de lutar em conjunto e voltaram a ser cada um por si nas lutas o que facilitava a vitória de Ipeleu, mas não deixava tão simples a vitória, fazia com que ele sempre ganhasse, mas não facilmente. Liceu uma vez falou para Ipeleu que queria ver se poderia lutar com Kipédius sozinho e ver quem era o melhor dos dois. Ipeleu achou a ideia muito boa, ver seus dois irmãos disputando para ver quem tinha mais chances de derrotá-lo.

Ipeleu sentou ao pé de uma árvore e pensou que aquilo acabaria rápido com a vitória de Kipédius, por ser mais velho, o pai dos garotos e Mineléia se juntaram a ele. Kipédius e Liceu se posicionaram frente a frente, os dois só seguravam as espadas, então colocaram suas espadas em posição até que Kipédius deu o primeiro golpe, Liceu defendeu com a espada e deu um contragolpe que não acertou, mas que surpreendeu a todos mostrando em que direção ele mirava, no pescoço. Kipédius achou que poderia ser a emoção da batalha fazer Liceu dar um golpe tão rápido e tentando acertá-lo em um lugar tão inesperado. Posicionaram-se de novo e recomeçaram a batalha.

Kipédius deu o primeiro golpe de novo, mas que de novo foi bloqueado por Liceu que tentou um contragolpe, mas dessa vez visando à barriga do seu irmão que tirou facilmente o golpe de espada com sua espada girando as duas e já emendando um golpe na atrás do joelho de Liceu, que levantou a perna, alto o suficiente para esquivar do golpe e tentou mais um golpe no pescoço de seu irmão, que abaixou e tentou “perfurar” o abdômen de Liceu, mas com um tremendo esforço conseguiu desviar encurvando suas costas para a esquerda fazendo seu irmão passar reto e em um último impulso Liceu enquanto se esquivava desceu a espada levemente nas costas de Kipédius. Os três espectadores levantaram sem acreditar no que tinham visto enquanto Kipédius olhou para Liceu, que apertou estendeu sua mão, mas Kipédius rejeitou o aperto de mão e abraçou o irmão. Liceu sussurrou no ouvido do irmão uma única frase.

– Obrigado por me deixar ganhar – Falou Liceu a seu irmão Kipédius.

– Você fez progressos maiores que eu e Ipeleu, então não vejo porque você não ganhar uma luta, já que Ipeleu nunca nos deixa ganhar mesmo – Kipédius sussurrou de volta.

– Kipédius deixou Liceu ganhar. – Falou o pai dos garotos à sua única filha.

– Mas por que ele faria isso? Isso diminui a moral dele com Ipeleu. – Retruca a filha confusa.

– Mas a moral dele aumenta comigo e com Liceu. Ele ganhou uma aliança para as batalhas, Liceu sempre deverá algo para Kipédius. Mesmo podendo usar isso de mal grado, ele terá alguém devendo algo para ele e será alguém que sempre pode contar.

Os dias foram passando até que um dia aparece um homem perto da casa deles, carregando um arco na mão e praguejando coisas que só bêbados praguejavam contra os deuses. Mineléia ouviu o homem e foi ajudá-lo, já que não tinha ninguém em casa, pois os garotos caçavam enquanto o pai dela estava fazendo comércio na cidade de Argos.

– Posso te ajudar em algo moço? – Perguntou Mineléia saindo de casa e enxugando as mãos que estavam molhadas pelo sabão que esfregava no chão.

– Ajudar? Pra que eu precisaria de ajuda? Garota insolente! Deveria te dar uma boa surra para você ter mais respeito. – falou o bêbado que carregava o arco em uma mão e na outra uma garrafa de vinho.

– Me desculpe, mas o senhor está perdido? – falou a garota ignorando os insultos do velho homem.

– Por que eu me perderia? Você sabe com quem está falando? Eu sou o maior dos arqueiros, abençoado pelo deus Apolo e pela deusa Ártemis e estou aqui à procura.

– O senhor me desculpe, mas já ouço histórias de mais por parte de meu pai e então já passei da idade para isso – interrompeu a garota falando rudemente – Se o senhor souber onde está ótimo! Pare de me incomodar e vá logo para seu destino.

O homem olhou como se a garota tivesse falado que ele era pior que fezes de um escravo importado de graça. O homem ficou furioso e largou a garrafa de vinho e pegou com a mão livre o arco e com a outra puxou uma flecha e mirou na garota. Lançou a flecha, a garota nem se mexeu, mas mesmo assim a flecha passou longe dela, nem mesmo pegou na casa. A garota desceu os degraus e foi de encontro ao homem bêbado que pegava mais uma flecha e tentava mirar na garota que se aproximava com a vassoura que ela carregava. Antes de ele soltar à flecha, a garota bateu com a vassoura na cabeça do homem que soltou a flecha sem intenção, que percorreu rumo ao céu. O homem estava caído no chão, começou a chorar pedindo para a garota o deixá-lo em paz e que pedia desculpas, não estava perdido, só estava cansado de vagar pelas cidades como um velho mendigo louco.

A garota respirou fundo, deu as costas para o velho e foi para dentro de casa, mas enquanto ela caminhava para a casa o homem bêbado a agarrou pela cintura e a colocou deitada no chão enquanto ele ficava por cima segurando seus braços.

– Agora você vai aprender o lugar de uma mulher – disse o homem bêbado com um sorriso maligno em sua cara.

A garota olhou aterrorizada para ele enquanto tentava fugir, mas o homem era mais forte que ela. Quando prenderam as duas mãos da garota, com apenas uma de suas mãos, começou a passar a mão livre pelo corpo da garota. Primeiro passou pelos seios, desceu mais um pouco e chegou a barriga, mas ele visava outra coisa. Quando chegou a apertar a mão nas coxas dela, algo o segurou pelo cabelo e o jogou para trás.

A garota levantou os olhos e viu seu irmão Ipeleu vermelho de raiva segurando apenas uma lança feita de madeira, mas largou a lança quando partiu para cima do homem. Sem falar nada o garoto pegou o homem pescoço e o levou de encontro com uma árvore, mas o bêbado não seria derrotado tão fácil e para ele era um ultraje um garoto o desafiar.

O bêbado acertou um soco nas costelas de Ipeleu, que se curvou largando o bêbado, mas ele não se feriu muito e desviou do golpe que Ipeleu tentou acertar em seu rosto. Ipeleu afundou a mão no abdômen do bêbado, que acabou batendo as costas no tronco da árvore, além da ferida do soco. O garoto acertou mais um golpe no bêbado, antes dele cair, mas o jovem estava nervoso demais para parar de bater, então pegou uma das flechas do bêbado e enfiou o máximo que pode na coxa do homem bêbado. O homem rugiu de dor, mas o garoto sentiu repugnância só de ouvir a voz do bêbado, então pegou o arco do bêbado que estava ao lado deles e bateu com tanta força no bêbado que fez o arco quebrar e o homem desmaiar.

Mineléia estava tranquila para o que tinha acabado de presenciar, Ipeleu mesmo assim perguntou se ela estava bem. Ela voltou a limpar a casa e Ipeleu prendeu o bêbado na árvore e esperou seu pai voltar do comércio.

Kipédius e Liceu voltaram dando risada de um dia de boa caça, mas quando viram seu irmão Ipeleu amarrando um homem bêbado na árvore, pensaram que Ipeleu se meteu em confusão.

– O que você fez para esse homem ser amarrado? – perguntou Liceu ainda descontraído do dia.

– Você quer dizer, o que esse homem fez para você prendê-lo na árvore? – corrigiu Kipédius.

– Ele tentou fazer algo com nossa irmã que me repudiou muito – respondeu secamente Ipeleu.

– Você está brincando? – Liceu pareceu não ter ouvido o que o irmão dissera.

– Isso é verdade? – Kipédius não acreditara no fato – Ela está bem? – Kipédius olhou na direção da casa para ver a irmã e Ipeleu olhou para o chão, como se estivesse vendo a cena de novo.

– Sim, a sorte foi que eu vi uma flecha atravessando o céu, vindo à direção da nossa casa. Fiquei desconfiado e vim correndo para ver se algo estava acontecendo. E graças aos deuses eu consegui impedi essa catástrofe.

Liceu entrou em estado de choque, depois que Ipeleu confirmou as perguntas dos irmãos mais novos, não conseguiu entender mais nada que veio do irmão. Quando Ipeleu terminou de falar Liceu foi na direção do bêbado e começou a esmurrá-lo com força no rosto, o bêbado acordou com as pancadas e começou a gritar de dor. Kipédius quis intervir, mas Ipeleu o segurou e falou em seu ouvido.

– Liceu está nervoso e se nós tentarmos impedi-lo ele nos atacará. E eu acho que esse idiota merece tudo o que Liceu vai dar.

– Você é louco Ipeleu? Liceu irá matá-lo!

– Então que assim ele faça. Prefiro vê-lo morto a ter que olhar para esse homem de novo, enquanto vive.

Mesmo Kipédius explodindo de raiva após receber a notícia, ele segurou os braços de Liceu e o arrastou para longe do homem bêbado, que agora não se via mais a cor do rosto por estar completamente sujo de sangue.

Kipédius arrastou Liceu para dentro de casa, enquanto eles se debatiam e derrubavam uma coisa ou outra, mas finalmente Kipédius conseguiu segurar Liceu antes que ele fizesse alguma coisa que o pai deles desaprovasse. Kipédius falou para Liceu que se o pai concordasse com a atitude do filho ele não impediria de Liceu fazer o que queria fazer, por outro lado, até ajudaria o irmão a matá-lo. Mas antes teriam que falar com o pai.