O Destino do Amor
4 Capítulo 4 - O Pacto
Notas iniciais

O silêncio reinou no ambiente por vários segundos. Até que Jon o quebrou com a pergunta:
— Então? O que me diz? É possível que possamos nos entender?
A cabeça de Annie girava confusa. Mil ideias cruzando rapidamente. Desde que ficara noiva, acreditava que sua vida seria um verdadeiro martírio junto ao pretendente escolhido pelo pai. Agora, o mesmo pretendente se mostrava interessado em tornar a convivência dos dois em algo suportável. Mas, a insegurança, aliada ao conhecimento de todos os defeitos cultivados por Jon durante anos, não permitiam que Annie tomasse uma decisão rapidamente.
— Como posso acreditar...? Confiar? – ela repetiu, mais para si mesma do que para ele. Era custoso crer que alguém com a má fama de seu futuro esposo pudesse propor algo semelhante ao que ela acabara de ouvir. Entretanto, o modo como Jon a observava. A firmeza em sua voz. A urgência nas palavras.
Ah! Que os céus a protegessem, estava prestes a acreditar e aceitar.
— Seja clara como fez desde o início desta conversa. Diga o que está impedindo que considere esse pacto como viável? — pelo modo como a testa dela se apertava e os olhos se moviam, ele conseguia perceber a luta interna pela qual sua futura esposa passava. E fazer uma certa insistência cautelosa poderia ajudar.
Annie resolveu ser direta.
— Seu comportamento, sua postura no que tange a moral, a ética, o respeito aos seus semelhantes. Sua falta de honra... o senhor não sabe o que essas palavras significam, como posso confiar que comigo será diferente? – Jon suspirou, já imaginava que fosse isso.
Ah! E como estava cansado disso! Dessa hipocrisia. Ele era o que era e todos sabiam disso. Muitos eram piores do que ele, mas se mantinham escondidos sob uma capa de seriedade, moral e honra falsos, por isso ninguém os criticava ou apontava. Como acontecia com ele.
— Estou lhe garantindo que cumprirei o trato. Estou lhe oferecendo minha palavra. – só isso não bastaria para ela, por isso continuou: — É certo que as pessoas falam do meu comportamento. Mas ninguém pode dizer que minto. Nenhuma mulher foi para a minha cama enganada. Elas sabiam que tipo de relacionamento teriam, o que receberiam. – ela o observou com desprezo, e ele quase sorriu, não era novidade. Continuou: — Nenhum dos negócios que fiz ou jogos dos quais participei foram mal intencionados. Talvez tivesse me aproveitado de momentos ruins para conseguir o que queria, mas se não fosse eu, seria outro... – as mãos se afastaram das costas e pararam ao lado do corpo, como se ele se sentisse cansado — Estou sendo o mais sincero que posso com você. Não estou lhe prometendo uma vida repleta de “amor conjugal”, não sou capaz de oferecer isso... mas uma vida tranquila, e sem brigas. Além de monogamia, até que me ofereça um filho homem. Depois, como já lhe falei, cada um seguirá sua vida. Você poderá ir para o local que quiser. Tenho muitas casas. E com a chegada do título terei...
Annie o interrompeu, era a hora de colocar tudo as claras.
— Sim, o título... quando seu pai morrer, eu serei duquesa. Então? Não terei que cumprir essa função ao seu lado?
Jon não parecia preocupado com isso.
— Não se altere por tão pouco. De vez em quando você terá que fingir ser a duquesa... mas será raramente. Lhe garanto. No resto do tempo, você pode ser e fazer o que quiser...
Annie suspirou longamente. Estava quase aceitando. Eles se casariam de qualquer forma. Jon não voltaria atrás nisso. E então, seria bem mais fácil uma convivência pacífica do que atribulada.
— Há mais algum impedimento para que aceite minha proposta? – ele insistiria, insistiria, até que ela aceitasse.
Annie baixou os olhos, encarou as mãos que, sem que ela notasse, apertavam e dobravam a ponta da fita que enfeitava seu vestido, a tal ponto, que estivesse toda amarrotada.
— Preciso lhe confessar algo antes... – disse sem pensar.
Ele ficou ereto, encarando-a. E novamente a sensação de estar sendo desnudada a invadiu.
— Você está apaixonada por alguém. – ele disse sério.
— Sim... – era a primeira vez que Annie falava sobre isso com alguém além de sua melhor amiga. E era quase surreal perceber que essa pessoa se tratava de seu odiado noivo.
Após um breve momento de indecisão Jon decidiu perguntar:
— Vocês já...?
— Ele não sabe... – ela confessou pela primeira vez tímida.
Oh não! Ele pensou. Esse era o pior tipo de paixão, aquele no qual a pessoa se ilude formando teorias a respeito do ser amado, pois não o conhece intimamente. Alguns de seus conhecidos eram presas fáceis para esse tipo de sentimentalismo. E geralmente se tornavam imprevisíveis. Esse era sim, definitivamente o elo fraco do trato que ele acabara de propor. Annie parecia o tipo de mulher que quando se apaixona, faz de tudo pelo homem amado. Até mesmo burlar um trato. Especialmente se esse trato tiver sido firmado com o marido arranjado.
— Posso saber de quem se trata?
Esta era a melhor forma de saber o que fazer, como agir, de quem se proteger. A quem temer...
— Fará alguma diferença?
Falar o nome seria se expor demais.
— Gostaria de saber com quem devo me preocupar... – Jon parecia ter o dom de falar coisas que a incomodavam.
— Preocupar? – ela repetiu irritada – Posso garantir-lhe senhor, que se aceitar o seu acordo, jamais farei nada para descumpri-lo. Exceto, é claro, se o senhor fizer.
Orgulhosa! Ele pensou. Ela cumpriria o acordo porque queria alimentar o próprio orgulho. Sabendo que foi capaz de permanecer casada com ele sem manter qualquer relação com outro homem. Um pensamento estúpido! Como se Annie tivesse qualquer alternativa! O casamento aconteceria. E quando estivesse concretizado, ele seria seu dono, para o bem e para o mal. Para a felicidade e para a infelicidade. O trato fora apenas uma forma de manter certa cordialidade entre eles. Não estava interessado em brigas diárias. Em cobranças. Em exigências que jamais estaria disposto a cumprir.
Mesmo assim, quando falou, manteve a posição como se Annie tivesse algum tipo de voz ativa naquela união:
— Como já lhe expliquei, de minha parte, a despeito de tudo o que deve ter ouvido sobre mim, garanto que poderá ficar mais do que tranquila. Nosso trato será concretizado com exatidão matemática.
Ainda havia uma dúvida na mente feminina.
— O senhor não conta apaixonar-se por outra mulher? – ela perguntou de repetente, se isso acontecesse, será que seu futuro marido manteria o trato?
O sorriso irônico que escapou pelos lábios carnudos lhe responderam antes que a boca dele o fizesse.
— Apaixonar-me? Sinto desfazer sua ilusão quanto a possibilidade de um fim abrupto para o nosso acordo. Porém, se dependesse de um dia me apaixonar, ele poderia durar enquanto vivêssemos. Jamais me apaixonei na vida. Na verdade nem creio que esse sentimento exista realmente...
Annie se preparou para contestar, mas ele continuou:
— Paixão. Amor. Não passam de ilusões criadas pelos romancistas, pelos poetas com a finalidade de aprisionar mentes pouco determinadas. Ou enganar... “corações” solitários e sonhadores.
Algo estranhamente curioso aconteceu no momento em que Annie ouviu essas palavras, ela descobriu algo que nem mesmo seu futuro marido parecia saber a respeito de si mesmo. Jon, era adulto, repleto de defeitos, com a pior fama já criada por um homem. Mas, no que se tratava de sentimentos, era tão ingênuo quanto uma criança.
— Está querendo dizer que estou ilusionada por um sentimento que não existe? – sua voz estava tranquila, não se sentia incomodada com a forma do homem a sua frente falar sobre o sentimento que ela nutria por Peter. Bastava a ela saber que era real e que Jon jamais o experimentara.
— Acho que todos precisam se apegar a algo para continuar vivendo... a vida não tem sentido algum... o amor é apenas uma forma de tentar faze-la valer a pena.
Outra vez! Quantas vezes esse homem a surpreenderia com sua sinceridade?
— A que se apega?
Perguntou sem querer.
— Você já sabe o que espero da vida.
— Quer um filho legitimo...
— Sim.
Uma sensação esquisita preencheu o peito de Annie e ela achou que iria chorar. Um filho... talvez ele tivesse razão. Um filho era a certeza da continuidade. De viver para sempre, de ter descentes. A experiência que tivera com o irmão mais novo lhe comprovara que gostaria de ser mãe. Um filho preencheria seus dias. Seria algo em que se apegar. Algo pelo que... viver.
— Aceito sua proposta... – falou determinada e rapidamente – faremos como o senhor espera. – nada mais havia que pensar. Melhor viver com um amigo do que com um inimigo. Melhor saber de antemão as condições do que estar iludida, e sofrer. Além do mais, quem lhe garantia que um dia Peter se daria conta de que ela existia? Ou que a aceitaria. Seus olhos examinaram Jon com mais cuidado. Apesar de tudo, não seria capaz de traí-lo.
Ele ergueu a mão, estendendo-a para ela. Como entre cavalheiros, um aperto de mão selaria o tratado. Annie não titubeou, aceitou o gesto de seu futuro marido como um sinal de paz, e de promessa de dias tranquilos. Pelo menos, até que o bebê nascesse. Depois, ela suspeitava que ele voltaria a vida de fornicador, e ela então, só então estaria livre da obrigação de satisfaze-lo.
Jon segurou a mão dela com firmeza e lentamente se aproximou, até que estivessem frente a frente. Olhos nos olhos. Sentindo a respiração um do outro.
— Você ainda não me disse o nome...
Aqueles olhos castanhos intimidadores pareciam estar dentro dela. O aroma de verão e charuto penetrando em suas narinas.
— Peter... – sussurrou baixo.
— Mitchell? – ele perguntou se afastando e soltando a mão dela.
Ah! Jon respirou aliviado. Peter Mitchell não representava problemas. Era certinho demais. Jamais se envolveria com a esposa de outro homem. Mesmo que essa mulher estivesse apaixonada por ele. Como era o caso da sua.
— Sim...
Ouviu a noiva confirmar.
— Quem sabe... – ele começou, pela primeira vez se sentindo inseguro naquela conversa – até poderei ajuda-la a resolver esse caso quando tudo estiver acertado entre nós.
Annie não compreendeu exatamente o que ele queria dizer com aquilo. Será que pretendia ajuda-la a realizar o sonho de estar com o homem amado? Não! Primeiro porque Peter não a amava, e segundo, se chegasse a amá-la, não esperaria indefinidamente até um filho homem nascesse.
Suspirou baixo, pensando que eles estavam fadados a se tornarem pessoas com uma convivência pacífica e infeliz. Jon não sabia, e nem parecia querer saber o que significava amar alguém. Ela já amava, mas não tinha esperanças de um dia concretizar esse amor.
— É melhor voltarmos para a festa. Precisamos concluir essa fantasia de noivado. – a voz masculina disse de repente.
Ereto, se virou para a jovem e lhe ofereceu o braço, que só foi aceito por necessidade.
A criada, parada ao lado da porta os observou detidamente. Ouvira boa parte da conversa. Sabia de que se tratava o acordo. Mas jamais daria qualquer opinião sobre o assunto. Apenas se prepararia para as situações difíceis que sua ama viveria em pouco tempo. Disso não tinha dúvidas. Nenhum trato resiste a falta de interesse. A falta de entendimento. A falta de amor.
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