Capítulo 4

Fim de tarde. Malthus chega ao prédio do Missão Arte. Sol se pondo por trás dos prédios. Sobe as escadas em direção à sala dos testes. No corredor, ele para diante da janela de vidro, que estava fechada, de modo que não podia ouvir o que se dizia lá dentro, mas identificou feliz quem estava lá dentro: de um lado, uma banca julgadora composta por Ana Carina e mais dois homens, do outro lado, Dália fazia seu teste. A luz do sol poente entrava através do vidro na sala e iluminava por igual Dália e Ana Carina. A sombra que a cabeça de Malthus projetava no chão da sala chamou a atenção de Dália, que olhou na direção da janela e viu o homem da praia fazendo um gesto afirmativo com a cabeça, como sinal de aprovação. Por instantes, Dália saiu de seu personagem, mas logo retornou, mais concentrada do que antes. Além de Ana Carina, a banca julgadora era composta por Paulo Damasceno, ator e diretor de prestígio nacional reconhecido, dono da companhia de teatro e diretor do Missão Arte e Sebatián Ortíz Nuñes, um dramaturgo chileno. Se Paulo acompanhava o teste com atenção, Fernando já estava exausto e feliz por este ser o último teste. Já a reação de Ana Carina era totalmente diferente da de seus colegas.

Algo em Dália era muito familiar para Ana. Só que ela não conseguia identificar o que era. Observava a garota de cima a baixo, não dando a mínima atenção ao desempenho dela no teste, nem fazendo nenhuma anotação, comportamento oposto ao que tinha com os outros candidatos. Num momento, o coração de Ana dispara: os olhos! Aquele azul penetrante... Não é possível, seria coincidência demais! Só pra ter certeza, Ana confere na ficha de inscrição da candidata seu nome completo. Dália Constantino Silva. Constantino. Uma enxurrada de lembranças e sentimentos conflitantes inunda o coração da mulher. Há muitos anos, Ana Carina conheceu um homem, homem que representou a fase mais louca e intensa de sua vida, homem que lhe abriu as portas das artes cênicas, a memória mais marcante de sua história. Flávio Constantino, a paixão mais arrebatadora que Ana já teve. Angustiada, Ana observou a data de nascimento da jovem apenas para constatar o óbvio. Nascida em 1998, ainda estava no útero quando ocorreu aquela noite terrível, quando Ana Carina viu Flávio ter uma morte trágica bem na sua frente. Silmara, a rival odiada, estava mesmo esperando um bebê do falecido, e aquela candidata tinha não apenas a idade pra ser a filha deles como realmente se parecia bastante com Silmara, com exceção da pele branca e dos olhos azuis. Fim do teste. Os avaliadores elogiavam o desempenho de Dália. Ana, que fazia ótimos comentários de todas as apresentações, silenciava, pois estava mergulhada nas próprias memórias.

Dália flutuava pelos corredores do Missão Arte, sorrindo a toa e cheia de esperança. Tudo estava dando certo pra ela, até o homem da praia apareceu! Na saída do prédio, Tygor, um rapaz e duas moças conversavam, e Dália aproximou-se deles.

— Você ainda por aqui? Pensei que já tivesse ido embora... – disse Dália para Tygor.

— O pessoal tá esperando chegar o Uber, e eu to esperando a coragem de ir a pé até a parada de ônibus, haha. A gente pode ir juntos. – respondeu Tygor, apresentando em seguida seus amigos a Dália.

Iago era um amigo de Tygor, que Dália conhecia de vista, também aparentemente gay. As moças eram uma negra lindíssima de cabelos longos e lisos, uma tal de Salete, e uma ruiva de estilo neo hippie. Pela conversa, Dália entendeu que os todos ali eram alunos do Missão Arte e pela convivência com eles Tygor conheceu o projeto e se interessou. Apesar de que, de baixa renda Salete não tinha nada: era filha de Paulo Damasceno, o dono de tudo aquilo. Enquanto Tygor e Luz Vida eram super simpáticos com Dália, Salete olhava com cara de desconfiada, e Iago também, só que ele forçava um sorriso sempre que Dália olhava em sua direção. Do nada, Salete e Iago sorriram e acenaram para alguém que estava atrás de Dália. Quando ela se virou para ver o que era, deparou-se com Malthus e Ana Carina saindo pela porta principal. Eram um casal perfeito.

Ana Carina tinha sido uma das mulheres mais lindas da TV na década passada. Atriz de novela, acabou ficando no ostracismo e indo trabalhar numa emissora que ninguém assiste depois da sua idade e de seu peso aumentarem. Apesar disso, era uma mulher vaidosa, loira com a raiz sempre retocada e pele bem tratada sem sinal de rugas. Os futuros colegas de Dália conversavam animadamente com a mulher, que também era professora do Missão Arte. Enquanto isso, Malthus puxava assunto com a garota tímida perguntando sobre o teste e logo em seguida os dois já estavam conversando animadamente.

Ana Carina tratou Dália de uma maneira que ninguém imaginaria que ela desejava intimamente que a mocinha sumisse de sua vida. Ana é atriz, e não cogitava em usar seu talento em situações como essa. Durante a conversa, Dália olhou pro lado e seu olhar se encontrou diretamente com os olhos castanhos de Tygor. Ele parecia observar de um jeito que parecia que conseguia ler cada pensamento e sentimento de Dália e Malthus. Curiosamente, Tygor já pressentia o que iria surgir entre esses dois antes mesmo deles próprios reconhecerem ou admitirem o estranho prazer que crescia entre eles a cada conversa, a cada olhar.

Luz Vida, Salete e Iago foram embora de Uber. Malthus ofereceu uma carona para Dália e Tygor até a parada de ônibus. No carro, uma troca de olhares entre Malthus e Dália fez a menina corar. “Melhor olhar pra janela”, pensa ela. “Melhor ligar o som do carro”, pensou ele. Estava tocando a música Caçador de Mim, de Milton Nascimento:

Longe se vai sonhando demais
Mas onde se chega assim
Vou descobrir o que me faz sentir
Eu, caçador de mim

E, como na letra da canção, Dália estava prestes a descobrir o que a faz se sentir ela mesma. E Malthus também.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.