– Revolução de quê? – perguntei

– De Karma. – disse o Velho Joss

– Karma? Por acaso tem algo a ver com aquela crença de que se eu for pobre nessa vida... – Dan tentou terminar

– Em uma vida seguinte você será rico. – concluiu o Velho Joss – A história é longa então sentem-se, jovens. Há muito tempo, um homem chamado John Karma chegou a Lartheimeir e implantou algo chamado Sistema de Castas.

– Sim, utilizado pela religião hinduísta provavelmente há milhares de anos... mas foi abolida nos anos 2000. – eu disse

– Não sabia disso! Enfim, continuando. Karma era muito querido pelos chamados Brâmanes, que formavam a casta mais alta, e odiado pelos Dalits, a casta mais baixa. Os Dalits eram tão rejeitados que estavam predestinados à pobreza pelo resto da vida. Diz o karma hindu que se você for, por exemplo, um Xátria, que é uma casta intermediária, você será um Brâmane numa vida seguinte. Os Dalits nem isso.

– Isso... é mentira! John Karma é um mentiroso!

– Um mentiroso incrivelmente demagogo. Sua oratória era inacreditável. Bastou apenas um discurso para que todos os moradores de Lartheimeir começassem a acreditar em reencarnação e aderirem ao Sistema de Castas, exceto aqueles que foram condenados à pobreza para sempre.

– Dalits.

– Exato. Até que houve uma revolução. Os Dalits se revoltaram contra John Karma. O objetivo era muito simples: eles não iriam matar Karma. Eles não iriam matar os familiares e amigos de Karma. Eles iriam expulsá-lo para sempre de Lartheimeir e larga-lo à deriva pela parte desértica planeta.

– E eles conseguiram?

– Pensaram que conseguiram. Eles expulsaram-no da Torre do Comandante...

– Torre do Comandante?

– É onde os líderes de Lartheimeir moram e trabalham.

– Ele foi líder de Lartheimeir?!

– Foi. E foi o voto popular mais unânime do universo, literalmente.

– Mas você disse que os Dalits pensaram que haviam ganhado!

– E pensaram. John Karma, mesmo largado à deriva em um deserto de um planeta que queima os pés e a alma, ainda era John Karma, e por isso ele encontrou algo que virou o jogo para os Dalits.

– O que ele encontrou?

– Uma Estrada de Estrelas. Ele a utilizou para voltar à Lartheimeir, unir seu exército e matar todos os Dalits. Graças a John Karma, não existem mais pobres neste planeta.

– Então a Revolução de Karma é uma revolução dentro de outra?

– Exatamente.

– E onde está Karma agora?

– Não se sabe. Dizem que enlouqueceu, mas ninguém sabe ao certo. Desde a Revolução ele nunca mais saiu da Torre do Comandante.

O Velho Joss nos mostra uma foto de John Karma.

– Temos que encontrá-lo! – eu disse a Daniel

– Vamos. Já passou das três horas. – ele respondeu

– Boa sorte, peregrinos.

Saímos pela porta em meio a um deserto que parecia não ter fim.

– Onde fica a Estrada de Estrelas mais próxima? – perguntei ao Velho Joss

– À direita. Só seguir reto e você encontrará. Não esqueça de levar um cantil.

Peguei o cantil que o Velho Joss nos deu e enchi de água. Então finalmente, saímos pela porta e seguimos para a direita.

– Essa história da Revolução de Karma... ela é tão familiar pra mim... – disse Daniel

– Também acho que já ouvi essa história em algum lugar – eu disse

Encontramos uma Estrada de Estrelas e não havia nenhum segurança na entrada.

– É a nossa deixa. Vamos – disse a Daniel

Acho que essa é uma boa hora para dizer que nós caímos na Estrada. Ela nos balançou até eu e Daniel demos um empurrão um no outro e fomos separados – ele foi para um lado e eu fui para o outro.

– Daniel! – gritei.

– Buck! – ele gritou. Até que eu apaguei.

Acordei em meio a fogo. Tudo ao meu redor estava destruído. “Esse cheiro é familiar”. Não estava em outro planeta – ainda estava em Lartheimeir.

Prédios estavam destruídos, pessoas estavam correndo com tochas flamejantes, mas o que mais me impressionou foi o céu. Parecia um desenho animado: todo vermelho e coberto por uma fumaça preta.

– Daniel! – eu gritei dentro do capacete, aí eu lembrei que existe atmosfera em Lartheimeir. Mas antes que eu tirasse o capacete, ouvi chiados no rádio.

– Buck? É você?

– Daniel! Oh, meu Deus! Onde está você?!

– Faz tanto tempo...

– Do que você está falando?! Onde você está, caralho?!

– Estou na Torre do Comandante.

Tirei o capacete e fui correndo até uma torre gigante bem visível. Obviamente era a tal da Torre do Comandante. Enquanto corria fui pensando no que “Faz tanto tempo” poderia significar. Talvez Daniel estivesse ficando louco. Talvez não. Quando cheguei na Torre do Comandante, milhares de pessoas estavam em volta tentando arrombar a porta.

– O que está havendo aqui? – Pensei. Precisava encontrar uma entrada alternativa. Dei a volta no prédio e avistei uma escada que dava a uma porta.

– Como ninguém viu isso?

Subi a escada e entrei na porta. Mais um lance de escadas, com setas que apontavam para cima.

– Deve ser isso.

Fui subindo e gritando “Daniel” cada vez mais alto. Até que finalmente ele respondeu.

– Buck!

Subi mais alguns andares. Gritei de novo. Ele respondeu.

– Buck!

Estava mais para baixo. Desci algumas escadas. Gritei novamente. Ele respondeu.

– Buck!

Estava na porta certa, mas esta não parecia abrir.

– Saiam da frente! Eu vou arrombar a porta!

Joguei toda a minha força em cima da porta e, por um instante, pensei que tivesse quebrado meu braço, mas ele estava normal. Fui de novo. E de novo. E mais uma vez. Fui umas três vezes até que finalmente a porta se abriu e eu vejo John Karma na minha frente.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.