Acordei no meio da areia. “Areia? ”, pensei. “Mas eu estava no espaço... será que foi tudo um sonho?”. Daniel me levanta e tira meu capacete.

– Buck! Ufa! Ainda bem que você não morreu.

– Onde estamos?

– Não consigo dizer também, só sei que a gravidade é semelhante à da Terra e tem atmosfera aqui!

– Onde está Anna?

– Buck... eu não sei.

– O quê?!

– Ela deve ter se perdido no buraco negro, sei lá!

– Ah, não, não... isso não pode estar acontecendo... não pode... estamos no meio da porra do nada, sem água, sem comida, sem civilização aparente, em um planeta a milhões de anos-luz da Terra, depois de um buraco negro e uma “Corrente Estelar”, sozinhos aqui!

– Buck! Cale a boca!

Daniel conseguiu me acalmar, embora eu continuasse chorando.

– Daniel... vamos morrer aqui.

– Não vamos, não. Não vou deixar. Temos que andar e ver se conseguimos encontrar algo.

– Encontrar o quê?! Nem sabemos se este... planeta é habitado.

– É o que veremos.

Eu e Daniel fomos andando no meio de um deserto acinzentado, sem contraste. Carregávamos nossos capacetes enquanto dávamos uma grande respirada após uma corrente de ar gelado passar por nós. Ficamos repetindo esse processo até cairmos no chão, sem forças.

– Buck... eu tô com medo.

– Eu também, Dan. Eu também.

Já estávamos quase mortos de sede e exaustão quando, no horizonte avistei um homem. “Deve ser miragem”, pensei. Estava errado. Era um homem velho, porém saudável vestindo farrapos.

– O que os dois peregrinos fazem aqui? – perguntou

– Viemos... da Terra... – eu respondi, mas desmaiei logo em seguida, achei que fosse morrer. Acordei em uma cama ao lado de Dan dias depois. O homem que nos resgatou me encarava. Olhava-o de volta.

– Qual é seu nome, peregrino? – ele perguntou

– Buckfield. Mas me chame de Buck.

– Buckfield? Que tipo de nome é esse?

– É o meu nome.

– Buckfield do quê?

– Buckfield Price.

O velho riu.

– Estranhei teu nome, mas eu mal sei o meu. Gostaria de dar um nome para mim?

Fitei o velho com estranheza, mas respondi.

– Que tal... Joss?

– Joss? Que merda de nome.... Mas se é esse o nome que você me deu, então este nome será.

Daniel acordou.

– Bom dia, Dan.

– Olá, Buck.

O velho riu novamente.

– Dan? Vem de Daniel?

– Exato – respondeu Dan

– Buckfield e Daniel... acho que ouvi falar de vocês antes. Você disse que vieram da Terra.

– Viemos.

– Deixa eu te perguntar.... Como é que vocês vieram da Terra e por que a deixaram? – perguntou o velho. Olhei para Dan e ele me deixou explicar a história.

– Entramos em buraco negro chamado GRS 191... – olhei para o velho e percebi que ele não entenderia — ... Chamado Willy e...

– Willy? O nome de um buraco negro? Vocês só fazem nomes ruins, impressionante!

– Continuando – interrompi o momento de risada arrogante do velho – pulamos no buraco negro e demos de cara com uma “Corrente Estelar”...

– Ei – interrompeu – chama-se “Estrada de Estrelas”. São o nosso meio de transporte entre galáxias, mas são muito caras.

Olhei para Dan.

– Como vamos sair daqui? – sussurrei a Dan

– Só há duas maneiras de pegar uma viagem na Estrada: pagando ou ilegalmente. A segurança nas Estradas não é brincadeira, então é melhor gastarem o que tiverem.

– Mas... nós não temos nada!

– Então vocês estão presos aqui, ha!

O velho, ou melhor, o Velho Joss, como o apelidei, ria e ria sem parar. Em um ato de raiva, levantei da cama e saí da barraca em nós estávamos. O sol queimava meus olhos, voltei correndo.

– Caralho! – Eu gritava – Meus olhos! A porra dos meus olhos está queimando!

– Pega aquela toalha ali no fundo! – Ordenou o Velho Joss a Dan. A toalha estava seca, mas meus olhos pararam de arder imediatamente, como se fosse mágica.

– Que porra é essa, Velho Joss?!

– O Sol está muito perto de Lartheimeir. Das 12h às 16h ele fica tão perto que queima. Às 15h ele já está mais longe.

– E por que temos que esperar até às 16h se às 15h ele já está longe?

– Bom, vocês têm que pisar no chão sem queimar os pés! Ha, ha, ha!

– E.... o que é Lartheimeir?

– É o nome do planeta. Eu sou o único sobrevivente dessa área.

– Como assim, área?

– Lartheimeir é dividido em duas áreas: a rica e a favela. A favela foi massacrada na Revolução de Karma, só eu sobrevivi.

– O que foi a Revolução de Karma? – perguntou Daniel

– Ah, peregrino, essa é uma longa história.

Notas finais
No próximo capítulo, O Velho Joss vai explicar o que foi a Revolução de Karma e Daniel descobrirá que tem muito mais em comum com essa revolução do que poderia imaginar.