Buckfield. Sim, esse é meu nome. Não é meu sobrenome como todos pensam. Quem vê meu rosto pensa que meu nome é Ivan ou Charlie, e o sobrenome é Buckfield. Mas, na verdade, meu nome completo é Buckfield Price, o que tornam as coisas ainda mais confusas. Mas todos me chamam de Buck.

Meu nome pouco importa. A Terra está acabando – literalmente, estávamos à beira de um apocalipse. Todos os suprimentos estavam acabando: água, comida e gasolina. O que mais vale neste deserto em que a Terra se tornou é energia elétrica. Poluente ou não, não fazia diferença, se alguém tivesse o poder da energia em mãos, este teria mais poder e influência que o próprio governo. E foi exatamente isso que aconteceu com a NASA.

Você deve estar estranhando, mas a NASA meio que se tornou um governo, tendo mais poder que a própria ONU. Era ela que organizava e regulamentava a energia elétrica, água e comida do mundo para que, assim, não saíssemos desesperados se matando por fome ou sede. Foi bem organizado e tinha potencial para seguir em frente, mas tudo tem um fim. Em uma tentativa desesperada de salvar aqueles que julgaram ser os “mais fortes, astutos e inteligentes”, iniciou-se um processo de seleção chamado Projeto Universo. O Projeto funciona como uma seleção natural: os que conseguiram se adaptar mais facilmente às condições em que a Terra se encontrava, ou seja, os mais fortes (ou mais inteligentes), iriam ser salvos da extinção da raça humana, mas nunca fora revelado como isso seria feito. É claro que algo assim causaria tumulto, mas a NASA não se pronunciou, nem deu algum aviso de mudança no Projeto Universo. E assim, seguiram-se anos e anos e nenhum sinal de vida do Projeto.

Eu não estaria contando esta história se eu não tivesse sido escolhido para entrar para a tripulação do Projeto Universo, mas a maneira de como eu fui escolhido foi... pesada. Tudo começou quando eu estava dormindo em meu quarto quando, de súbito, Anna, minha namorada, entrou correndo no meu quarto:

— Buck! O Wallace enlouqueceu!

— Como assim ele enlouqueceu, Anna? Do que você está falando?

— Ele tá no pico do Monte Hamilton, dizendo que vai se suicidar!

— Mentira.

— Venha ver!

Desesperado, entrei no carro com Anna sem saber o que estava acontecendo. Não expliquei antes, mas Wallace é meu melhor amigo desde que somos crianças, então a notícia de sua morte seria inaceitável para mim. Quando chegamos no pico do Monte Hamilton, lá estava ele, de braços abertos.

— Wallace! – gritei – Sai daí, volta pra cá!

— Buck? – disse ele – O que você está fazendo aqui?

— Eu vim te salvar, Wallace.

— Me salvar de quê, Buck? O mundo está acabando. Eu nunca serei selecionado para o Projeto Universo mesmo, então de que adianta viver nesse mundo?

— Ainda há esperança, Wallace. Nós podemos nos inscrever para o Projeto e dar o fora daqui!

— Blá, blá, blá, “ainda há esperança”, blá, blá, isso é tão clichê! Vê se acorda, Buck! Esse é o mundo real, porra!

— Wallace, não...

Corri para tentar salvá-lo, mas era tarde demais. Lágrimas começaram a cair dos meus olhos enquanto eu via o corpo de Wallace cair levemente pelo cânion.

— Ah... caralho! Porra! O que eu fiz pra merecer isso?! Hã?! Hein, caralho?! – comecei a gritar no pico do monte – Fala pra mim?! Eu não sou forte nem inteligente pro seu Projetinho de merda, NASA?! Hein, porra?!

Enquanto eu gritava, não vi que Anna estava indo em minha direção. Quando ela parou, eu parei também e nós ficamos nos encarando por um tempo. Ela tirou uma seringa com um líquido de um bolso e uma agulha de outro. Ela juntou as duas partes e eu já comecei a ficar nervoso.

— Anna... o que você está fazendo?

— Desculpa, Buck.

Ao terminar a sua frase, fincou a agulha no meu pescoço e eu adormeci. Ao acordar, estava em uma sala, com vários homens me olhando. Não era um hospital, era uma sala de reuniões.

— O que é isso?! – perguntei.

Um dos homens calmamente chegou perto de mim e disse:

— Este é o Projeto Universo, meu amigo.