O Destino da Noite Escura

1 A Interminável Tormenta e o Narrador Oculto


Está escuro lá fora. Rajadas de vento varrem os campos juntamente com a tempestade que assola este lugar logo pela manhã. “pela manhã”, apesar de eu dizer isso, não hesite em duvidar de minhas palavras, pois ninguém sabe exatamente que horas são, dá janela para fora a única coisa que alguém é capaz de enxergar é a enxurrada e as árvores que agora se tornaram vultos, balançando junto da tormenta em um horizonte negro e homogêneo. Já faz algum tempo que o clima se desestabilizou. Há alguns dias atrás tudo estava bem, por isso às pessoas que moram por aqui não estavam esperando por tal coisa. Talvez Deus tenha se zangado com eles por algum motivo... Mas a verdade é que neste momento é impossível saber o que aconteceu.

Em meio às construções rígidas deste território, casas em sua maioria, há uma biblioteca. De fora parece ser um lugar um pouco sombrio e triste. É toda feita em pedra acinzentada, moldada no estilo gótico. O prédio espanta a alegria e a felicidade. É como se houvesse uma aura ruim em volta deste lugar, que suga a boa energia dos que fazem contato com o recinto, seja físico ou visual. Apenas estar em sua presença já é algo ruim. Estas paredes são frias como gelo. Mas não se engane: não estão frias apenas pela chuva que assola este lugar, estas são sempre frias e sem vida. Quem diria que tal local, que armazena os conhecimentos da humanidade seria tão negro, tão sinistro.

Adentrando mais este prédio enorme encontra-se um enorme salão com muitos livros, uma infinidade de exemplares dos mais diversos temas e assuntos. É conhecimento puro que está largado nestas prateleiras, tanto conhecimento que não poderia ser aprendido em um tempo de vida comum. Nenhum ser humano normal, mesmo que se lesse constantemente, não seria capaz de aprender tudo o que estes livros têm a oferecer. Mais acima há ainda outro andar, que se estende mais ao fundo. Este é tão grande quanto o salão principal na entrada. Mas ainda há muito mais para se descobrir no alto. Uma escada espiral moldada na parede segue o formato de ogiva altíssimo que complementa este prédio. Aqui há milhares de livros. Sim, incontáveis e intermináveis volumes. Gostaria de passar um pouco de tempo neste lugar para dar uma boa olhada nisso tudo, porem este não é meu foco principal aqui, não é mesmo? Continuaremos descendo o andar que está acima, vamos descer, descer e descer ainda mais, para baixo. Para o subsolo.

Aqui, abaixo dos intermináveis livros se encontra um laboratório de alquimia. Não posso dizer que o clima aqui em baixo é melhor, mas com certeza é diferente. É mais pesado. Ao olhar para a esquerda posso ver uma pessoa. Sim, certamente é uma pessoa. Mas o que ela estaria fazendo aqui? Não há mais ninguém neste lugar, A biblioteca está vazia. Essa é a hora em que todos aqueles que prezam por suas vidas estão em suas casas, escondidos da tormenta que assola os campos lá fora, rezando para Deus e pedindo perdão por seus pecados. Certamente tem algo de errado com este ser. Algo, um tanto que incomum, devo dizer. Um extremismo excêntrico talvez.

Dei uma volta pelo laboratório, olhei as pesquisas, os experimentos inacabados, até dei uma folheada no livro de anotações sobre as descobertas e o progresso em geral. Não havia nada de interessante, apesar de ser difícil ler os livros humanos sem luz, eu me virei. Agora que percebo, não há velas por aqui, nem queimadas, nem inteiras. O ambiente aqui em baixo também está frio. Frio o suficiente para fazer qualquer pessoas normal tremer, mesmo que bem agasalhada.

Ainda há, entrando por algum lugar, um pequeno feixe de luz fraco que incide em um cálice de prata deixado em cima da bancada, gerando um brilho acinzentado que fornece alguma luminosidade ao local. Mesmo daqui de baixo é possível escutar a tormenta e seus trovões lá de fora. Há um cheiro viciado pela sala que está me incomodando um pouco, mas não mais do que aquela pessoa acuada no canto. Não passou pela minha cabeça, mas será que ela ainda está viva? Alguém que foi deixado para trás nesta sala já deve estar morto a esta hora. Talvez tenha sido parte dos experimentos de alquimia ou algum ritual de bruxaria.

Aquilo estava chamando minha atenção, me incomodando de alguma forma, então me aproximei para dar uma olhada mais precisa no elemento.

Isso é sem a menor sombra de duvidas um humano. E fêmea. Sim, uma garota. Mas ainda é estranho. Deve ser uma jovem beirando os catorze anos, porem seu cabelo é prateado como o de uma pessoa idosa. Sim, prateado e sem vida, um longo cabelo que se estende até o chão. Seus olhos também eram incolores, diferentemente dos outros humanos que possuem cores vividas e alegres, como o preto, azul, verde e castanho. Todas são cores bonitas e alegres. Esta é, diferentemente das outras, chata, sem sentido, e o pior: sem vida. Ao olhar para os olhos acinzentados daquela garota me sentia estranho, algo como se sugassem minhas esperanças, estragassem meus planos e acabassem com minha felicidade. Com certeza algo bem incomum, perturbador, devo dizer.

Sua pele era pálida como a de um cadáver. Essa garota albina, aqui em baixo, encostada na fria parede abraçando suas pernas contra o peito chamou-me a atenção. O que há de errado com essa essência? Por que não está em outro lugar? Porque não está feliz? Porque não está triste? Tudo o que sou capaz de ver quando olho em seus olhos, é indiferença.

Que ser horrível. Dentre muitas coisas que já encontrei até hoje, esta é sem duvida a pior. Mas ainda não perdi meu interesse neste humano. O que faz aqui em baixo? Como pode estar tão calma, mesmo sabendo que as portas estão trancadas? Ela está sozinha aqui nesta escuridão congelante, e está calma e serena. O que está pensando? É isso! No que está pensando... Não... O que está pensando... Como está pensando... Preciso descobrir o que há dentro desta cabeça, preciso invadir seus pensamentos e sua mente para responder a esta pergunta, que perturba meu ser.

Muito bem, antes de começar dei uma bela olhada nela novamente: cabelos compridos e prateados, olhos acinzentados sem vida, pele pálida... Estou deixando passar algo. Certamente tem algo incomum neste humano. Algo de errado, uma coisa que falta. Vamos, o que é mesmo?

Passei um tempo refletindo, tentando imaginar o que era. Pensei em algo, mas não tenho certeza se é isso mesmo... Umm, agora que percebo, ela está nua. Não possui nenhuma vestimenta consigo. A única coisa que tem é sua própria essência, sua alma e seu corpo, nada mais. Humanos não andam pelo mundo sem roupas. Bem, que seja. Vou descobrir o que aconteceu neste momento e matar esta duvida que me inferniza desde que entrei nesta sala.

Primeiramente me aproximei de sua cabeça. Podia sentir uma leve respiração. O ar que era expelido de seus pulmões era gelado e sem vida, porem ela estava respirando, então com certeza está viva. Certo, agora vou roubar sua mente e finalmente encontrarei minha resposta.

Ao me aproximar dela novamente. Senti algo estranho: sua respiração mudou, seus olhos desviaram-se levemente à direita, me fitando. Isso é impossível, não tem como ela me ver. Humanos normais não podem me ver, não podem interagir com meu ser, com minha essência. Sim não tem como ela me ver, estou apenas ficando nervoso à toa. Seria muito imprudente assumir que ela realmente olha para mim, pois afinal eu não existo.

Ao chegar um pouco mais perto pude escutar. Eram baixos como sussurros, mas pude ouvir seus pensamentos: “o que estou fazendo aqui?” “porque todos agem de forma tão estranha?” “porque eu existo?” “Será que faria alguma falta se eu deixasse de existir em breve?”. O que mais me surpreendeu nisso tudo não foram as perguntas que ela se fazia em si, mas sim a resposta que ela mesma encontrou em seu coração para sua ultima pergunta: “não” . Aquilo foi respondido com um tom de tranquilidade assustadora, até mesmo para mim. Mas eu estava enganado. O que eu acabara de ouvir não eram pensamentos, mas sim ecos de suas ideias que surgiram no passado. Agora não havia nada. Absolutamente nada. Ela estava realmente olhando para mim.

Isso é certamente uma surpresa. Humanos normais não podem me ver. Segundo os antigos filósofos na Grécia, muito antes desta era, apenas os “maledictus” eram capazes de enxergar seres como eu. Não que fizesse muita diferença, já que aqueles homens estavam a beira da loucura. Mas esta senhorita me parece bem sã. Como pode estar a beira da loucura? Isso não pode ser possível, na pior das hipóteses devo estar sendo enganado, me levando a creditar em tais besteiras.

Sentei-me a sua frente, olhando para ela. Seus olhos me acompanharam. Comecei a encará-la também. Ela se manteve observando por um tempo. Depois se moveu. Soltou suas pernas e as colocou para trás dobradas, mas com o corpo ainda no chão. Era como se estivesse sentada sobre suas pernas, porem estas estavam dobradas para trás ao lado de seu tronco. Colocou suas mãos à frente.

– Boa tarde – Ela disse.

As palavras que acabaram de sair de sua boca me atingiram: eram vazias, não continham ódio, nem alegria. Muito pelo contrario, tais palavras de tão vazias, pareciam sugar minha essência, assim como seu olhar sinistro. Este ser me perturba.

– “Boa tarde” – Falei com uma risada.

– Como você sabe que horas são, senhorita?

– Eu não sei – Ela respondeu no mesmo tom de antes, completamente indiferente – Estou apenas sendo educada com um estranho.

Ela olhou para um canto qualquer e voltou a me fitar novamente.

– Você pode responder minha pergunta senhor?

– Isso depende. Depende de qual é sua dúvida. Não sou dono do conhecimento, entretanto, posso passar o pouco que sei para ti.

– Acredito que você sabe sobre qual pergunta falo. Tenho certeza que tu podes escutar antes.

Estremeci. Ela com certeza não é uma maledictus, e ainda sim pode me ver e me ouvir. O pior, ela sabia o que eu tinha feito. Como um humano comum pode ser capaz de tais coisas?

– Não se preocupe. Eu já perdi toda a minha humanidade – Ela respondeu com um tom frio.

Não pode ser... Ela escutou meus pensamentos também? Recuso-me a acreditar nisso. Não há como uma pessoa fazer isso. Isso... Não é uma criatura ordinária. Isso não é obra do Senhor.

Me tranquilizei. Decidi responder sua pergunta, afinal não há nada que ela possa fazer de qualquer jeito.

– Se você deixasse de existir, mesmo que em um futuro próximo, isso não faria diferença alguma. As pessoas não iriam se importar, talvez até nem notassem. O mundo não choraria sua perda, pois ele ganha milhares de vidas novas todos os dias, não tem tempo de lamentar a perda se seus seres que um dia já foram. Afinal, você é somente uma pessoa ordinária, senhorita.

Ela desviou o olhar para o chão por um breve momento. Aproveitei para perguntar sobre suas ideias, já que tinha falhado em roubar sua mente.

– Porque você está aqui neste lugar sozinha, senhorita? Com essa tormenta terrível, você não deveria estar em sua casa, escondida em algum lugar, enrolada em um cobertor?

Ela olhou novamente para mim.

– Eu não tenho casa. – A garota respondeu tranquilamente com o mesmo olhar perturbador — Na verdade eu posso dizer que perdi tudo o que tinha. Todos os meus bens materiais, todos os meus familiares e tudo o que era realmente importante. Até as coisas tolas e superficiais também foram perdidas. Mais do que perdidas, estas coisas foram destruídas, e jamais poderão ser reconstruídas, ressuscitadas ou reformadas.

– Ohh, entendo senhorita, eu sei muito bem o que é a sua situação, porem não posso dizer que realmente sei como você se sente, pois é a primeira vez que eu vejo um humano em tal estado. Diga-me, o que aconteceu com você?

– Para saber tudo o que se passou comigo até que chegasse a esse momento, e entender como me tornei no que sou levaria uma historia de minha vida inteira. Desculpe, mas não quero ser um incomodo a você, nem todos tem tempo sobrando.

Ela é bem educada. Não pode ser da ralé. Com certeza é filha de um nobre ou algo do tipo. Não deve ter isso usada em experimentos de alquimia ou em rituais macabros, muito menos estuprada. O motivo pelo seu estado espiritual permanece um mistério a mim.

– Senhor? – Ela falou olhando diretamente em meus olhos.

– Você é um demônio, não é?

– Sim, eu sou um demônio – Respondi — Vago por estas terras desde a criação, sem rumo e sem destino. Estou condenado a ficar neste mundo até o fim dos tempos.

Ela não pareceu se surpreender, nem se amedrontar. Sua indiferença era suprema. E pensar que a ausência de expressões e sentimentos, torna o ser humano algo tão desconfortável.

– Como sabes que sou demônio, humano?

– Tu não és um anjo. Anjo algum visitaria um ser como eu. Na duvida, só pode ser um demônio.

Belo raciocínio, tenho certeza de que anjo algum se aproximaria de tal criatura neste mundo. Talvez ela seja algo mais Digno do que aparenta ser.

– E você senhorita? Você está viva? – Perguntei a ela diretamente.

Ela desviou o olhar. Pareceu ficar pensativa, mas rapidamente me fitou novamente.

– Eu não sei. Pessoas vivas tem sentimentos, emoções e expressões, porem tu já deve ter percebido que isso está ausente em meu ser. Entretanto, ao contrário dos mortos, eu posso respirar, falar e pensar. Por isso não sei se estou viva ou morta. O que você acha, demônio?

– Senhorita, você certamente é uma existência bem peculiar, quase que não parece ser obra do Senhor. Mas ainda sim, se tivesse que arriscar, diria que você está viva.

Ela escutou tudo sem mudar sua posição, seu tom ou sua expressão fria de neutralidade e indiferença. Por um momento ficamos sem dizer nada.

Depois de um tempo ela falou novamente:

– Você não me disse qual é o seu nome, demônio.

– Me desculpe, mas acho que você deve saber: o único jeito de que os humanos possuem para derrotar demônios, são rituais complicados que só podem ser realizados se o nome de tal for conhecido. Por este motivo, eu infelizmente não posso dizer-te meu nome.

– Eu entendo. Desculpa-me por perguntar.

– Por outro lado, não sei qual é o seu nome. Como se chamas, senhorita?

– Meu nome é Nox.

– “Nox”, assim como em “noite”? – Perguntei.

– Não. Nox assim como “escuridão”, aquela mesma escuridão maligna que desvia as boas almas de seu caminho, permanecendo perdidas pela eternidade.

Isso é estranho. Humanos não costumam colocar nomes com significados negativos em si mesmos. Qual é o sentido disso?

Por algum motivo ela não parecia estar mais interessada no assunto. Não faço ideia de como notei isso, mas com certeza fui capaz de sentir algo. Talvez ela não seja tudo o que estou esperando afinal.

A garota parou de me encarar, desviou seus olhos para meu corpo, e perdemos nosso contato visual direto:

– O que aconteceu com você, demônio? Seu corpo está apodrecendo. Você parece machucado. Sente dor? – Ela perguntou com o mesmo tom perturbador.

Essa garota é estranha. Por algum motivo tenho uma sensação ruim sobre isso. Como ela é capaz de fazer tal pergunta para um ser como eu sem nenhum tipo de sentimento em suas palavras, em seu semblante e em seu ser? Pensando bem, já faz um bom tempo desde que eu não vejo meu reflexo, não faço a menor ideia do estado de meu corpo.

Olhei para baixo na intenção de visualizar melhor meu corpo. Realmente, era como a senhorita havia dito. Eu já estava em um estado de decomposição razoavelmente avançado.

– Não sinto nada. Estou perfeitamente bem. – Respondi confiante.

– Mas o que se passa com seu corpo? Você vai simplesmente continuar apodrecendo até morrer?

– Desculpe despontá-la, senhorita Nox, mas eu sou imortal.

– Então, porque tu apodreces?

Fiquei relutante em responder, mas decidi contar. Não era algo tão importante, mas também era verdade que nenhum outro humano neste mundo tinha consciência sobre tais fatos que eu iria revelar.

– Depois que fui expulso do paraíso e me tornei um demônio, perdi meu brilho e minhas asas que me possibilitavam transitarem entre os mundos livremente. Ao ser mandado para o inferno, comecei a apodrecer, assim como os outros demônios. Da mesma forma que o corpo dos humanos precisa de carne para se manter vivo e funcionando, os corpos de demônios se alimentam de almas. Os únicos seres que possuem almas neste mundo são os humanos, pois esta é a garantia de que eles terão uma vida após a morte no paraíso eterno, ou no sofrimento interminável do inferno. Se demônios, como eu deixam de se alimentar de almas por um tempo, nós iniciamos um processo de putrefação, onde começamos a apodrecer e perder nossa carne.

Ela ouviu tudo atentamente. Assim que eu acabei de falar, Nox levantou calmamente e veio até perto de mim. Quando estava de em pé era possível ver que seu cabelo não era tão grande como parecia ser: não estendia-se até o chão, mas sim até sua cintura. Seu corpo estava em um estagio de desenvolvimento adolescente e pude ver claramente que ela ainda era pura.

– Posso tocar? – Ela perguntou calmamente.

Aqueles olhos me deixavam preocupado. Nunca estive frente com um humano deste tipo, mas apesar de tudo ela não será capaz de fazer nada contra mim. Talvez eu esteja exagerando.

– Fique a vontade – Respondi confiante.

Ela aproximou sua mão de meu peito, que estava aberto, devido a seu estado de decomposição. Senti sua pele tocando em minha carne amaldiçoada e apodrecida. Assim que ela encostou em mim sua mão começou a queimar, como se encostasse em uma chapa quente. Sua pele estava gelada. Apesar de tudo, ela continuava do mesmo jeito: inexpressiva e indiferente. Era como se não sentisse nada.

Sua mão acariciou meu peito calmamente. Que sensação estranha senti naquela hora. Não é como se eu já tivesse tido esta sensação antes, mas mesmo assim parecia um pouco familiar. Será que eu já vi isto em algum outro lugar?

Calmamente ela tirou sua mão de meu peito e lentamente a aproximou de meu rosto até que seu membro fizesse contato com meu ser novamente. Mais uma vez ela acariciou minha face, porem sua expressão não mudava. Também não conseguia sentir nada vindo dela. Ela estava completamente vazia, sem emoções e sem sentimentos. Isso raramente seria obra do Senhor. O que será ela?

Depois que terminou de tocar ela se afastou novamente e sentou a minha frente na mesma posição de antes. Eu podia ver que sua mão realmente havia queimado, como se encostasse em uma espada da forja, ainda quente.

– Sua mão – Falei – Você não sente dor?

– Sinto – ela respondeu.

Isso realmente não está certo. Não há como algo assim existir neste mundo. Algo aconteceu. Será essa a razão por Deus estar furioso? Mas se esse for o caso, o que uma tormenta resolveria? Será um aviso? Talvez ele realmente esteja planejando algo desta vez.

– Demônio? – Ela falou.

– Não tenho mais razão para existir neste mundo. Não tenho mais sentimentos ou emoções. Não sobrou nada para mim. Perdi minha humanidade.

Ela levantou-se após dizer isso. Aproximou-se um pouco mais e ficou parada de pé na minha frente.

– Por favor, me leve embora deste mundo. Não desejo mais existir aqui. Por favor, acabe com minha vida, queime meu corpo e destrua minha alma. Faça com que minha essência desapareça eternamente, e certifique-se de que ela nunca mais poderá voltar.

Apesar de inexpressiva, era possível sentir que tais palavras eram sinceras e que partiam diretamente do fundo seu coração.

Isso não é um mero macaco do Senhor. Este ser... Não é como os outros humanos. Seria realmente um desperdício se ela morresse de tal forma.

– Destruir humanos não é a minha função. Porque acha que sou capaz de fazer tal coisa?

– Porque tu és um demônio. Ex-soldado do senhor, apesar de ter perdido seu brilho e a maior parte de seu poder, ainda é mais supremo que qualquer outro ser que vaga por este mundo. Eu seu que você é capaz de realizar meu pedido.

Ela realmente não é como os outros seres. Não teme sua morte. Não parece temer a nada. Isso certamente confere a ela um ar de superioridade que perturba o ambiente a sua volta. Mas... Será que é apenas um ar? Que seja! Querendo ou não ela foi capaz de me entreter por algum tempo, então acho que poderei fazer este pequeno favor a um humano desconhecido.

– Para isso, você vai ter de jurar lealdade a mim. Ainda sim quer fazer isto?

– Pagarei qualquer preço pelo meu pedido. Darei-te tudo o que eu tenho.

– Muito bem, farei como tu desejares. Levarei seu corpo e sua alma comigo, para longe deste mundo.

Levantei e fiquei em pé assim como ela. Dei um passo à frente esticando minha mão e tocando em sua cabeça com meus dedos

– Ajoelhe-se – Falei com um ar de superioridade.

E assim ela o fez.

– Nox, tu juras lealdade a mim? Promete servir-me com tua alma e teu espírito sob qualquer circunstância? Nunca abandonarás teu novo mestre? Jura e entrega teu ser em minhas mãos?

– Sim – ela respondeu firmemente, sem nenhuma alteração em seu ser.

Ergui meu braço esquerdo e quebrei um dos chifres de minha cabeça. Com aquilo, forjei uma armadura feita com os próprios ossos de meu crânio: um de meus chifres.

Entreguei o presente a ela e disse:

– Vista isso. Agora você vai precisar mais do que ninguém, minha serva.

Assim ela o fez. Vestiu a armadura que eu havia feito. Ficou perfeita em seu corpo. Assim que acabou de coloca-lá, o contato com sua pele e a armadura fez com que seu corpo queimasse, assim como quando me tocou, fundindo assim o artefato com sua carne.

Arranquei uma de minhas asas e com ela fiz uma espada. Entreguei-a nas mãos de minha serva.

– Você usará esta arma que te provi com carne do meu próprio corpo para destruir meus inimigos e os que ameaçarem-te. Não tema a ninguém, nem mesmo ao Senhor.

Ela fez um gesto positivo com sua cabeça.

– Agora, minha serva, tu deves conhecer meu verdadeiro nome. Eu sou Vassago.

– Prazer em conhecê-lo, meu mestre – Ela falou fazendo uma reverência — Então me diga: agora que sou tua serva, o que tenho de fazer para que tu me leves deste mundo para sempre?

Abaixei a cabeça. Se ela conhecesse meus reais planos jamais teria feito tal juramento.

– Desculpe-me Nox, enganei-te. Não cumprirei nenhum pedido vindo de você, nem de nenhum outro humano. A partir de agora, não és mais tu a pessoa que irá me servir... Sou eu que serei teu servo a partir de agora.

– Qual é o significado disso Vassago? Não havia prometido me levar deste mundo?

– Sinto dizer senhorita Nox, mas acontece que eu também estou sem rumo. Desde o dia em que nos organizamos para trair o Senhor eu estive relutante quanto se o que eu fazia era realmente certo ou não. O fato foi que nosso ataque falhou, pois alguém nos dedurou. Foi duro ser derrotado daquele jeito e ser mandado para um local tão terrível como o inferno logo após. Naquela época eu vivia o fervor da conspiração com os companheiros e com nosso líder Lúcifer, que dizia que não era certo o poder ficar na mão de um só senhor. Ele acreditava que Deus não deveria ter todo o poder para si, claro, também estava descontente por ele simplesmente ter parado de dar-nos sua atenção e seu amor para focá-lo em apenas uma raça: vocês, humanos. Ele não estava errado, e tampouco era o único que se sentia assim, porem se levar em consideração o fato de que ele foi criado pelo próprio Senhor, então ele não estava certo também. Como uma mera criação poderia ser tão perfeita a ponto de ter consciência de tais noções sobre poder e clamá-las para si, numa tentativa de igualdade? Além de ser insultante é ultrajante. Isso ainda só provaria que Deus era muito superior, ao criar seres tão bem feitos como nós. A verdade é que não existe nada maior do que ele, e ter nos criado foi a maior maldade que ele já fez. Uma criação tão gigantesca apenas para satisfazer um capricho. Foi mesmo muito egoísta. Apesar de tudo agora existimos, e temos que lidar com isso. É realmente uma pena saber que meus companheiros apenas ficaram cegos com o ódio e enlouqueceram naquele buraco maldito... Por todo este tempo eu estive vagando por este mundo e então agora percebo que fui capaz de descobrir apenas uma coisa: não existe certo ou errado. Nox, eu não sei o que aconteceu com você, mas tu ainda não deve desistir! Eu já não tenho mais tempo, mas você... Você ainda tem chance, e o melhor, tu tens um inteiro feito para ti viver nele, fruto da obcessão de Deus, diferente do mundo horrível em que fui jogado. Nox, eu te proíbo de desistir e abandonar sua vida. Te ordeno que continue vivendo, viva para achar um motivo pelo qual viver, e assim que o fizer, lute por ele! Você deve buscar o sentido de sua própria vida, pois tenho certeza de que ele está em algum lugar, esperando por ti. Lembre-se disso minha jovem: você manda no seu próprio destino, você faz o certo e o errado. Te darei meus poderes e minha imortalidade. Sou governante de vinte e seis legiões de demônios que esperam por ordens no inferno. Esse posto também será seu. Se você se encontrar em apuros, não hesite em comandá-los! Assim como eu, eles também não tem mais chance e lutarão por você, morrerão por você, apenas para que você consiga alcançar o que deseja. Nox, encontre um sonho que vale a pena lutar para defender e faça de tudo para que ele se torne realidade. Aqui eu entrego minha alma para ti. Aproveite este mundo que foi feito para você, pois ele não é eterno.

Com um movimento rápido enterrei meu braço em meu peito e puxei minha alma para fora. Que sensação estranha. Será que é isto que os humanos sentem quando estão prestes a morrer? É como se meu corpo estivesse ficando pesado, e meus sentidos estão ficando lentos. Sinto que preciso me apressar. Com um sopro, fundi minha alma com a de Nox. Minha visão está ficando embaçada, meu corpo está quebrando a divisão da realidade. Desequilibrei e caí no chão. As coisas estão ficando estranhas. Não consigo mais ver nem ouvir direito.

– N-Nox... Nã-não desista – Falei com dificuldade – Lute... Lu-lute até o fim!

Acho que estou desaparecendo. Sinto minha carne e meu corpo subindo pouco a pouco, como se estivesse evaporando. Acredito que finalmente, fiz algo de que posso me orgulhar, de que posso contar a meus camaradas. Algo digno de ser louvado, diferente daquela corrupção desgraçada que o abismo se tornou. Agora, finalmente posso descansar em paz. Poderei voltar até o início, até a criação novamente. Vá em frente Nox, você ainda pode mudar as coisas. Não desista.

O corpo dele desapareceu. Estranha a sensação que tive, foi como se ele tivesse subido rapidamente até as estrelas. Bem, acho que devo retribuir esse gesto de confiança que foi depositado em mim. Cumprirei a ultima ordem daquele demônio ao qual jurei lealdade eterna.

Peguei minha espada. Não era mais tão pesada como da primeira vez que a segurei. Andei até a porta e a derrubei a com um só golpe. Sinto que estou muito mais forte. É verdade, agora tenho o mesmo poder de um demônio que comanda vinte e seis legiões de anjos caídos, ex-soldados do senhor.

Subi novamente as escadas que pensei que nunca veria outra vez. Segui-as até o salão principal da biblioteca. Vazio como sempre, este lugar nunca muda. Apesar de que agora, seu ambiente pesado não me afeta mais, uma vez que passei a fazer parte dele. Andei até as enormes portas frontais que protegiam a entrada da biblioteca. Olhei para trás. Todos estes livros... Este ambiente... Quanta lembrança me vem à mente ao ver isso. Infelizmente não posso sentir mais nada, por nada, devido ao que me tornei. Fitei a enorme porta novamente. Cheia de detalhes esculpidos em sua madeira por grandes artistas, passei a mão sobre aquela superfície. A mesma mão que tinha tocado o demônio, agora não estava mais machucada. Havia voltado ao normal. Segurei a espada com as duas mãos novamente, e com um golpe brusco coloquei aqueles portões abaixo, livrando minha passagem dos enormes obstáculos que me prenderam neste lugar por tanto tempo. A chuva ainda caia, mas a tormenta havia passado. Pouco a pouco era possível ver os raios de sol vindos do céu, iluminando algumas nuvens que agora já não eram mais negras. Pela primeira vez em muito tempo, fui capaz de ver o horizonte. Um raio de sol iluminou meu corpo diretamente, incidindo em minha armadura e nas partes ainda visíveis de meu corpo.

Buscarei uma razão para viver. Vou recuperar minhas emoções, meus sentimentos. Cumprirei a ultima ordem de meu mestre de bom grado. Nesta fraca chuva, abençoada pelo sol que ilumina este vilarejo, eu partirei entre estes campos até achar o que procuro. Não serei mais aquela garotinha que apenas existe neste mundo, e eventualmente desaparecerá. Me tornarei um cavaleiro, um cavaleiro demônio, e seguirei pela eternidade até achar o que procuro. Não serei mais apenas Nox, mas sim Nox Vassago. Lembre-te de mim como aquela que não desistiu, aquela que percorreu seu caminho até o fim dos tempos para recuperar seu tesouro mais precioso: minha própria essência.

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