O Despertar do Lobo

13 Capítulo 12 - O Sol Negro Nunca se Põe


Notas iniciais
Dana: Eu só tenho a agradecer pelo apoio e mensagens que tenho recebido. Muito obrigada por entenderem e por serem solidários. Sei que é difícil entender, até mesmo porque vocês não tem muita noção do que está acontecendo, mas eu posso garantir que senti o carinho e o apoio de vocês, tem ajudado muito. Obrigado. A Deus, a vocês e a Chase. Chase: Eu só quero realmente agradecer a compreensão, e mais uma vez, pedir desculpas, espero não termos perdido nossa credibilidade com vocês. Prometemos que já estamos trabalhando no próximo que será postado entre três a quatro semanas. Sim, eu sei que é muita demora, mas a situação está realmente complicada. Como sempre, vivemos uma relação aberta, quem desejar maiores esclarecimentos basta mandar uma MP e teremos o prazer de responder. Não estamos respondendo os reviews, mas lemos todos e iremos respondendo aos poucos. Estamos realmente priorizando o tempo para escrever os capítulos e esperamos que estejam de acordo. Divirtam-se!

Capítulo 12 – O Sol Negro nunca se põe.

RESIDÊNCIA DOS FABRAY

Quinn sentou-se assustada. Havia visto a si mesma morta. Arfava assustada, levando as mãos ao rosto, sentindo mais lágrimas deslizando por suas bochechas. A porta de seu quarto foi aberta com força, rebatendo contra a parede e mais uma vez ela se assustou agarrando o edredom com suas mãos. Seu pai a observava assustado com lágrimas em seus olhos. Sua mãe, sua irmã e sua avó estavam junto com eles em diferentes estados de desespero.

– Quinnie! – O soluço saiu cortado da garganta de Frannie que correu para abraçá-la. Quinn a abraçou de volta, em completo choque, mais reagindo ao gesto dela do que por reconhecimento do que acontecera. Sua avó a abraçou em seguida, murmurando doces palavras em sua língua nativa ao seu ouvido. Sua mãe chorava, abrindo caminho para alcançá-la, a tomando em seus braços e a apertando contra o peito, e por fim, seu pai se aproximou as envolvendo em seu abraço. Alguém soluçava compulsivamente, e demorou algum tempo para que a realização de que era ela mesma.

Um estrondo no andar de baixo antecede a entrada de Rachel no quarto. Completamente lívida, a morena tremia dos pés à cabeça, mas ao se deparar com a cena à sua frente, Rachel congelou no lugar.

Ao vê-la, Quinn estendeu a mão na direção dela, seus olhos se enchendo de lágrimas mais uma vez.

– Rach... – sua voz mal passa de um murmúrio débil, ela parecia tão frágil, que Rachel correu para ela no mesmo momento.

Russel e Judy se afastam, abrindo caminho para Rachel, que segurou sua companheira firmemente em seus braços. Quinn escondeu o rosto junto ao corpo dela, abafando o choro. Ela tremia violentamente, o que só fazia que Rachel a apertasse ainda mais junto de si.

E então começaram os bips de telefones e celulares tocando e notificando mensagens, por toda casa. No mesmo instante, Rachel começou a sentir toda sua alcateia em estado de pânico. Uma raiva descomunal queimou por suas entranhas, arranhando sua garganta e enrijecendo seus músculos. Seus olhos se tingiram de negro e seus caninos começaram a se destacar, como lanças agudas sendo preparadas para o ataque.

“Escutem.”

O comando em tom duplo reverberou em todas as mentes lupinas de todas às famílias do Condado e quiçá ainda mais longe.

“Minha outra metade jaz segura em meu abraço, o sangue de seus ancestrais ainda corre quente em suas veias, impulsionando a chama da vida a esse coração que tanto apreço dedico, dando cor as suas faces; seus olhos brilham esplendorosos, ainda abrigo de sua alma imortal, não tendo respondido a nenhum chamado eminente daquele que nos ceifa deste mundo, permanecendo unida à minha neste plano a salvo da escuridão eterna; inteira e lúcida, ela nesse momento responde ao meu calor e se aconchega em meus braços. No entanto, o vil verme propagador de tal afronta à minha prole não contará com a mesma sorte. Seu coração pulsará pela última vez em minhas mãos, porque vou arrancá-lo de seu peito enquanto seus pulmões ainda clamam por oxigênio. Olharei em seus olhos enquanto minhas mãos aniquilam a sua alma, esmagando sua vida; e posso garantir que mesmo antes que a morte lhe traga a paz, vou decepar sua cabeça e dilacerar seu corpo. Seu sangue e órgãos mancharão a terra envenenando toda sua descendência, e sua alma será torturada por toda eternidade. Minha Ira se estenderá pelo tempo, pedindo sua derrota em cada uma das minhas existências. Irei persegui-lo bastardo, você e os seus. Nenhum destino será mais cruel do que aquele que o alcançará pela minha justiça. ”

A sensação de temor que há minutos dominava toda a alcateia havia desaparecido. Ao invés disso, a declaração de sua Alfa atiçou os ânimos. Seus lobos pareciam prontos para segui-la e garantir que quem quer que fosse que tivesse ousado ludibriar a toda alcateia, pagasse pelo feito.

De volta ao quarto, Rachel ainda mantinha Quinn em seu abraço sobre os olhares atentos do resto da família Fabray. O lugar estava afundado no mais profundo silêncio, até que Santana, Puck e Brittany invadiram o quarto, todos falando ao mesmo tempo.

– Dios mío, Berry! Cadê a Quinn? – disse Santana, ultrapassando os outros e se abaixando ao pé da cama, ao lado de Rachel, para poder ver Quinn melhor.

– Mandou ver no recado, Alfa-babe. Quero ver esse maldito se ferrar! – exclamou Puck.

– Papai está lá embaixo cuidado dos outros lobos que correram até aqui... Vocês sabiam que alguém arrancou a porta da frente? – disse Brittany.

Russel ergueu a sobrancelha na direção de sua Alfa. Rachel deu de ombros, como se dissesse 'você faria o mesmo'. O homem suspirou profundamente olhando para sua família. Provavelmente ele teria feito pior.

Rachel passou as mãos pelos cabelos de sua companheira, no momento em que ela começou a 'responder' as perguntas de Santana com simples acenos.

– Q, você sentiu alguém aqui dentro? — Santana perguntou num tom preocupado, trazendo à tona a pergunta que toda a família Fabray queria respondida, mas ao mesmo tempo tinha medo de saber a resposta. Ela podia sentir o pavor contorcendo o coração de Quinn, a simples menção daquela possibilidade.

Foi o que bastou para que a fúria incendiasse seus sentidos. O Lobo Negro queria vingança.

Os uivos invadiram a noite logo em seguida, refletindo o humor da Alfa. Dentro do quarto, Santana se levantou de uma vez, ficando à direita de Rachel.

– É imprudente demais e provavelmente o que o inimigo deseja.

Rachel virou o rosto para ela. Seus olhos tão negros como a mais absoluta escuridão.

– Ele está perto. Posso sentir... — a morena respondeu bruscamente, sua voz se misturando a um rosnado distorcido pela ira.

Mas então braços alvos estavam ao redor dos ombros dela, e Quinn estava de pé pendurada em seu pescoço, sacudindo a cabeça fervorosamente junto ao seu corpo.

– Não me deixe, por favor. Não agora.

E a fúria do Lobo Negro abrandou. Rachel sentiu seu coração afundar e a razão começou a clarear seus pensamentos. Santana estava certa, e aquela também não era hora para deixar Quinn sozinha.

– Noah? — Rachel chamou.

O rapaz se apresentou batendo continência.

– Preciso que você ajude Santana a organizar o caos lá fora. Ela já sabe o que fazer. — Olhando para Santana, a Alfa mentalizou.

"Quero que você investigue todos os lobos escalados para a guarda hoje. Alguém não estava fazendo o que devia. Tenho um pressentimento que nosso inimigo está nos manipulando por dentro. Falamos a respeito mais tarde."

A expressão no rosto de Santana era neutra. Ela meramente assentiu e saiu do quarto, levando Puck e Brittany consigo.

– Devo ajudá-los. — Russel concluiu, olhando de relance para Rachel.

– Ajude-os, mas não saia da casa. Nem você, nem ninguém da família. Preciso que Helena e o Dr. Lopez fiquem de sobreaviso. E se possível, peça para que Sue e Karofsky passem a noite aqui.

Russel concordou com a cabeça, deixando o quarto seguido por Judy e Frannie.

Rachel respirou profundamente sentando-se na cama, imediatamente aninhando Quinn junto de si. A imagem de sua companheira sem vida marcada em sua consciência.

Ela fechou os braços mais fortemente envolta de Quinn, puxando a garota para ainda mais perto. Nunca o medo de perder alguém foi tão grande.

Uma sensação de abafamento pareceu tomar conta dela, travando os músculos de seu abdômen no mesmo instante que um nó gigante se formou em sua garganta. Antes que ela pudesse se conter, as lágrimas já escorriam por sua face.

– Não vou permitir que nada de mal aconteça com você. — disse num sussurro, sua voz cortada, tingida pela dor que ameaçava corroer seu coração.

No mesmo instante Rachel sentiu Quinn pressionar o rosto junto a ela, apertando ainda mais os braços ao redor de seu corpo.

– Fica comigo esta noite?

O sussurro débil chegou aos ouvidos da Alfa, um pedido que ela nunca negaria.

...

– Certo. Frannie, para cama. — disse Judy no momento em que ela, seu esposo, filha e sogra saíram do quarto de Quinn.

A garota quase arrebentou a musculatura do pescoço na pressa olhar para sua mãe.

– Como é? — perguntou incrédula.

Sem se alterar, Judy apenas encarou sua filha mais velha, erguendo a infame sobrancelha direita, daquela maneira tão característica das mulheres do clã da lua.

Percebendo que não havia espaço para contra argumentação, Francine bufou irritada e saiu pisando firme até o final do corredor, abrindo a porta do seu quarto de uma vez e se enfiando lá dentro.

Judy revirou os olhos para a infantilidade de sua filha mais velha, mas respirou aliviada por Francine ter-lhe obedecido sem mais delongas.

– Você também deveria deitar um pouco querida. — disse Victória, que ainda estava parada ao lado de Judy. — Na verdade acho que todos devíamos. É evidente que essa brincadeira de mal gosto tem por finalidade nos desestabilizar. Melhor guardarmos forças para o que certamente virá.

Russel acenou, concordando.

– Vou ajustar alguns detalhes e logo estarei com você, querida. — disse beijando ternamente a testa de sua esposa, e depois beijou a testa de sua mãe. — Boa noite, mãe.

Judy assistiu seu esposo descer as escadas e olhou mais uma vez para a porta do quarto de sua caçula.

– Vai ficar tudo bem, Judith. – Victória voltou a garantir, apoiando a mão sobre o ombro de sua nora. Depois, depositando um beijo em sua testa a anciã se afastou, seguindo pelo corredor em direção ao seu quarto.

Disposta a crer naquelas palavras, Judy voltou aos seus aposentos. Seus pensamentos e preocupações se espalhando pela penumbra, talvez não tão merecedores da confiança de Victória ou de seu esposo.

Judy sentou-se em sua cama. Não era como se fosse voltar a dormir. Sua linda garotinha estava sendo ameaçada, e que Rachel a perdoasse, mas se haveria alguém que arrancaria o coração de quem quisesse machucá-la, seria ela própria. Com cuidado puxou sua perna ferida para cima da cama. Voltará a incomodá-la recentemente. Provavelmente por ter faltado em suas últimas sessões de fisioterapia. Mas, como podia deixar sua Quinnie agora que Rachel havia surgido, e que somente agora começavam a se acertar?

A verdade era que havia ficado bem menos entusiasmada em saber que Quinn seria companheira do Alfa Verdadeiro do que Russel. Sua preciosa Quinnie... Ela havia sido treinada para se tornar a melhor Loba da alcateia e de fato havia conseguido... Porém, apenas uma mãe sabe como é a alma de seus filhos. E ela sabia que Quinn tinha uma alma gentil e sensível. Ela, desde pequena, havia existido de um jeito mais sensível e delicado, de uma forma elegante quase... Lembrava de como detestava lidar com mudanças, mas jamais abriria sua boca para reivindicar se aquilo não fosse estritamente necessário. Era como... Como se tivesse medo de quebrar algo, empurrando, o mais delicadamente possível qualquer coisa que viesse em seu caminho.

Por mais que afirmasse seu amor pelo piano, pela torcida, pelos treinamentos... Sempre lembraria daquela garotinha... Quieta demais para a própria idade e afundada em seus mundos de fantasia... Como toda mãe gostaria de ter podido realizar cada um de seus doces sonhos. Contudo, vira a decepção em seus olhos quando fez 11 anos e nenhuma carta entregue por coruja chegou. A mesma decepção quando descobriu que não importasse por qual armário da casa tentasse, não havia uma floresta coberta de neve no fundo do guarda-roupa. A mesma decepção quando nunca encontrou a toca de um coelho branco em que pudesse cair levando-a para um outro mundo. E como poderia negar o pedido de não trancar a varanda de seu quarto, esperando que um dia Peter Pan viesse buscá-la?

Russel podia negar o quanto quisesse, mas Judy sabia que Quinn sonhava em escapar do destino que havia lhe sido tão pesadamente imposto.

E enquanto seu marido rodopiava sua filha mais nova por suas proezas, ela rezava todas as noites, fervorosamente para que, quem quer que fosse o companheiro de sua doce Quinn, ele pudesse a compreender... E aliviar a carga que lhe fora exigida. Alguém com quem Quinn pudesse compartilhar seus livros, melodias clássicas e compostas, e seus filmes da Old Hollywood...

Mesmo com o começo difícil de Rachel e Quinn, Judy agradecia a Deus por sua Alfa. Ela sabia que agora, o coração bondoso e gentil de sua doce menina poderia se manter puro. E mesmo com seu medo desse inimigo das sombras, sabia que poderia contar com Rachel para ajudar a protegê-la.

Rachel atendia tudo o que havia pedido nos últimos anos e tanto mais... E agora só lhe cabia rezar pela segurança de sua família.

Mas tudo naquela situação só fazia seu peito apertar. O receio de que mais uma vez, a felicidade fosse roubada de uma de suas filhas era aterrorizador.

Os ‘e se’ acabavam torturando seus pensamentos ainda mais do que qualquer ameaça que se apresentasse em sua frente.

Era impossível não lembrar do que acontecera com Frannie.

Sua querida primogênita era muito diferente da caçula. Frannie era barulhenta, gostava de atenção, e bastante estabanada. Na verdade, a herdeira Fabray gostava demais do som da própria voz.

Quando Joshua apareceu, Judy riu ao lembrar o quão parecido eram. Podia se ouvir o casal chegando pelo som das gargalhadas de Joshua e os risos de Frannie. Eram o perfeitinho casal americano. Quando Joshua morreu... Judy não gostava nem de pensar na época. Havia chegado tão perto de perder sua preciosa Frannie... Ela havia se esquecido de como viver, e somente reaprendeu por sua irmã caçula. E pouco a pouco se recuperava. Judy sabia que Frannie ainda não era a mesma. Ela jamais seria a mesma, mas eram nas percepções sutis, nos olhos de sua filha que ainda via a sombra de sua tristeza. E sua risada jamais foi a mesma.

Aparentemente mais uma vez, a felicidade e a vida de suas tão preciosas filhas estavam em risco.

O desejo de toda mãe é ver seus filhos felizes. E Judy queria mais do que qualquer outra coisa, que Frannie e Quinnie fossem felizes. Rachel estava se mostrando forte o suficiente, mas será que essa força seria o bastante para proteger sua pequena? Enquanto a Frannie? Haviam pouquíssimos casos de lobos jovens que sobreviveram a perda do companheiro. E mesmo que Frannie tivesse reagido, ela seria capaz de encontrar a felicidade ao lado de outro alguém e finalmente superar a perda de Joshua?

E, assim como todas as noites, ela rezou. Ela pediu a Deus por sua família, pediu que os antigos estivessem ao lado de Rachel... E rezou para que de onde estivesse, Joshua, conduzisse sua Frannie a felicidade em nome de todo o amor que ele, em vida, sentia por ela.

...

Quando Russel chegou até a varanda de sua residência, a situação já estava parcialmente controlada. Ao que parecia Santana Lopez era mais persuasiva do que ele esperava.

– Você quer que eu chute o seu traseiro mole até sua cama, McMiller? Eu já falei que a Alfa me deu carta branca para ir ‘All The Lima Heights’ com qualquer um que quisesse dar uma de esperto.

–Lima Heights? – o antigo Alfa em mérito perguntou intrigado ao seu amigo de infância, pai da morena em questão, que observava a filha berrar com um membro um tanto mais empolgado da alcateia.

– Pois é... Eu nunca soube. Ela só apareceu com essa quando tinha cinco anos... – Bernardo Lopez admitiu um tanto desconcertado. – Mas pelo que sei, tem algo a ver com Quinn, uma professora que gostava muito de cantar, uma canela inchada e uma bela repreenda de uma diretora furiosa direcionada a dois pais inocentes...

Russel ergueu as sobrancelhas, contemplando a informação.

– Bem, ela tem talento... – disse Brandon Pierce, se aproximando de seus amigos e indicando a cena que se desenrolava.

Os três velhos amigos se voltaram para assistir Ash McMiller se transformar em lobo e correr com o rabo entre as pernas de volta para a floresta, com Santana quase que rosnando atrás dele, sacudindo os braços irritada.

– Volte aqui seu bundão! Você conseguiu tirar a minha santa paciência! Volte aqui porque eu quero chutar esse seu traseiro fedorento!

Bernardo escondeu o rosto entre as mãos, enquanto Brandon dava tapinhas amigáveis em suas costas. Russel Fabray no entanto, estreitou os olhos na direção da garota. Um meio sorriso adornou suas feições e ele cruzou os braços pensativo.

Há alguns metros dali uma figura escondida entre as sombras de algumas árvores se esgueirou de volta para a floresta.

– Parece que o plano não funcionou exatamente como o planejado, meu Alfa e Senhor. – disse um homem que havia se prostrando de joelhos logo atrás daquela figura misteriosa.

O vulto continuou seu caminho pelas árvores, protegido pelas sombras, sem dar muita atenção ao comentário de seu subordinado.

“Pelo contrário, meu caro” A voz rouca e grossa ressoou pela mente de todos os lobos escondidos junto ao homem de joelhos. “Agora eu sei que Rachel Berry não pode discernir a minha presença... Mesmo eu estando tão próximo ao seu maior tesouro... E é por isso que vou exterminar tudo que ela tocar. Do mesmo jeito que ela exterminou tudo aquilo que me era sagrado”

...

O minúsculo apartamento, carinhosamente apelidado de ‘caixa de fósforos’, onde Caleb morava ficava nas regiões próximas a Lima Heights Adjacents. Aquilo era tudo o que ele poderia bancar, sendo quem era e ele não poderia pedir muito mais de sua alcateia após já ter sido tão maravilhosamente bem recebido por todos eles.

Caleb não havia nascido em Lima. Seus pais trabalhavam em uma fazenda bem no interior de Ohio e ele havia crescido entre vacas, porcos, plantações de milho e galinhas. Mas, desde menino seu sonho sempre fora viver numa cidade grande. E, bem, Lima podia não ser grande para os padrões de muita gente, mas para ele aquela cidade parecia gigantesca.

Ele era filho único de uma lavadeira e um fazendeiro, de um clã fraco e não tão importante, onde há gerações não nasciam lobos. Na verdade, há muito o pequeno clã dos cerrados tinha perdido a esperança de ter um representante digno de se juntar a uma verdadeira alcateia. Tanto que quando a transformação dele ocorreu, foi algo bastante confuso e inesperado. Ele correu durante dias, sem saber o que fazer ou para onde ir, até que seu pai finalmente o encontrou num dos bosques nos arredores de Lima, completamente exausto e assustado. Mas, foi graças a Russel Fabray e a Bernardo Lopez, que ele conseguiu voltar a forma humana e finalmente entender o que havia ocorrido.

Depois disso, Caleb jurou lealdade ao Alfa em mérito e tornou-se o único representante do clã do cerrado na alcateia.

‘Sua família não podia ter ficado mais orgulhosa...’

Algumas luzes de polícia passaram tinindo em sua janela, e ele as observou enquanto se ajeitava junto à mesa. Seu primeiro instinto fora correr até a casa dos Fabray, mas a mensagem de sua Alfa, e a ligação do senhor Lopez davam instruções para que os membros da alcateia ficassem em suas casas, e que caso algo suspeito acontecesse, se transformassem imediatamente e comunicassem aos outros.

Olhando de relance para o relógio digital sobre um banco de madeira do outro lado da sala, Caleb suspirou um tanto inquieto.

22:48 PM

Amanhã cedo ele deveria ir concertar a porta dos Fabray. A amarração que o senhor Pierce e o doutor Lopez haviam feito, seria o suficiente para passar a noite, mas pelo que ele soube... Rachel havia feito um belo estrago. Ele mordiscou o lápis que estava segurando.

Trabalho braçal. Nisso era bom.

Ele seria capaz de fazer uma porta tão perfeita que nem mesmo sua Alfa poderia passar por ela, sem que o pedaço de madeira oferecesse pelo menos uma resistência digna.

Mas, isso teria que esperar pela manhã do dia seguinte. No momento, Caleb estava perdido em uma outra missão... Algo mais pessoal.

Ele voltou a se ajustar sobre a cadeira, aprumando o lápis na mão calejada e encarou mais uma vez as páginas daquele livro surrado. As letras do alfabeto pareciam brilhar em tinta preta, reluzindo ironicamente, como se ainda troçassem dele através da cartilha. Deveria ter sido mais fácil aprender aos seis anos, mas na época ele estava sendo mais útil com um arado na mão.

A letra ‘H’ era particularmente uma das mais difíceis de escrever. Mesmo assim Caleb se debruçou sobre a mesa, com afinco, sentindo-se desafiado a ser melhor, a ser digno... A ser mais do que um mero acaso num clã quase extinto. Até que batidas desesperadas fizeram com que ele corresse para abrir a porta.

Seus olhos se arregalaram de pavor ao ver a pessoa parada diante dele.

– Como você chegou aqui? — disse assustado, olhando pelo corredor de entrada, ao mesmo tempo que puxava a figura envolta numa grossa capa de chuva negra para dentro do apto. – Alguém pode ter visto você!

A capa negra agora jazia sobre o encosto da cadeira junto à mesa, e ele pode ver claramente as feições irritadas o encarando de volta.

– Eu já esperei tempo demais, Caleb. Nós vamos resolver isso agora.

...

RESIDÊNCIA DOS FABRAY – 01:20 AM

Rachel se levantou de supetão assustada, suando frio, quase sem ar. O pesadelo que a acordara bruscamente tinha exibido novamente as imagens daquela visão de Quinn morta em sua cama, mas dessa vez, Rachel estava no quarto e não conseguira agir a tempo.

– Rachel? Respire. Está me ouvindo? – a voz doce de sua companheira finalmente chegou até ela, amenizando os efeitos do susto.

– Isso. Respire... – Quinn continuou a pedir ao perceber que os olhos castanhos haviam se fixado aos dela. – Estou aqui. Estamos bem.

O ritmo da respiração de Rachel diminuiu gradativamente em vista daquele olhar cândido, malmente iluminado pela luz da lua que invadia o quarto por uma das janelas ao lado da cama, os feixes claros de luz abrindo caminho pelas frestas da cortina, no momento que o tecido fino balançava preguiçosamente de um lado para o outro por causa do vento.

Elas haviam adormecido abraçadas e agora estavam à milímetros uma da outra, suas respirações se misturando, enquanto Quinn acariciava o rosto de sua companheira, tentando apagar as lembranças de um pesadelo que ela sabia muito bem sobre o que se tratava.

Rachel tentou conter as lágrimas, mas o toque daquelas mãos quentes e sedosas sobre a pele de seu rosto, fizeram seu coração se encher com tantas emoções diferentes que ela se viu incapaz de manter tudo aquilo dentro de si.

Alivio, angustia, calma, medo, alegria... Amor.

– Não chore, Rach. Vai ficar tudo bem. — a loira voltou a afirmar, enxugando as lágrimas com os polegares.

Mãos suaves alcançaram o rosto de Quinn antes que Rachel se desse conta do que fazia. Então ela viu sua companheira inclinar o rosto em sua direção, e as pontas de seus dedos resolveram tomar a liberdade de passear pelas feições delicadas da garota que a olhava nos olhos com um novo brilho inundando seus olhos cor de avelã.

Rachel queria que aquele olhar brilhasse ainda mais. Ela tinha certeza de ter visto pequenas estrelas douradas emergirem em meio aquele mar esverdeado, e a cada respiração, ela podia jurar que todas aquelas estrelas douradas sempre estiveram ali, perdidas naquele olhar meigo, somente esperando que ela as vinhesse reclamá-las.

Seus rostos estavam praticamente colados, testas juntas e olhos fechados. Elas quase podiam ouvir seus corações batendo em uníssono.

– Rach...

Um simples sussurro que mais pareceu um pedido por mais. Por 'algo' que desejava mais que tudo poder se encontrar novamente em algum lugar.

Foi natural. Rachel a tomou em seus braços e extinguiu a distância entre elas.

E talvez por já pertencerem uma a outra, aquele ínfimo momento que antecedeu o primeiro encontro de seus lábios, as fez lembrar o instante em que finalmente alcançamos a superfície d’água. Porque ao invés de perderem o fôlego uma na outra, elas pareciam ter reaprendido a respirar.

Rachel deslizou as mãos pelo rosto de sua companheira, sentindo seus lábios se moverem devagar sobre os dela. Uma carícia suave, inocente, pura. Um beijo casto. Enamorado. Envolto de promessas que não precisam ser feitas em voz alta.

Quinn sentiu seu corpo flutuar por alguns segundos, para depois ser ancorado junto ao abraço de sua outra metade. Foi como retornar para casa depois de muito tempo ausente. Ela viu a Loba Branca caminhando devagar sobre uma superfície estrelada, indo ao encontro de um imenso e imponente Lobo Negro que a esperava protegido pela luz etérea de um sol negro. Seus olhos castanhos eram quentes e transbordavam de felicidade e afeto, enquanto seu focinho se perdia sobre a pelagem alva de sua companheira, quando ela finalmente se aninhou junto a ele. Quinn pode sentir o quanto ele reverenciava a alegria de estar ao seu lado.

A jovem Fabray sentia seu coração pulsar descompassado em seu peito e seu estômago parecia ter sido invadido por incontáveis borboletas. Por dentro, ela queria gritar de felicidade, pular no colo de sua parceira, agarrar Rachel pelo pescoço e rodopiar com ela pelo quarto. Mas, mesmo prestes a explodir de felicidade, totalmente envolta pelo êxtase absoluto que a sensação de beijar Rachel proporcionava, sua mente estava plena, leve, tranquila, contente.

Aqueles lábios conseguiam capturá-la por inteiro. Não existia nada mais no mundo.

Quando elas se afastaram e seus olhos voltaram a se encontrar, as írises castanhas estavam negras como a noite.

– Seus olhos... – Quinn começou vendo as írises castanhas surgirem lentamente por entre a escuridão do olhar dela, mas foi interrompida por Rachel que falou suavemente.

– Os seus também... – disse a morena, assistindo a cor retornar ao olhar de sua companheira, voltando a acariciar o rosto alvo que agora começava a corar. – Você os viu?

Quinn sabia que ela falava de seus lobos e assentiu timidamente.

“Você os sentiu?”– Rachel mentalizou inclinando a cabeça para o lado, e assistiu Quinn arregalar os olhos por um segundo, antes de devolver.

“Posso ouvir você.” — E um sorriso bobo brotou na face dela, fazendo Rachel rir baixinho.

– Ele me disse que agora estava completo. – Rachel esclareceu, se referindo ao seu outro eu, o Lobo Negro. – Acho que agora vai ficar tudo bem. Quer dizer... Entre a gente? Eu... Quer dizer, foi repentino, mas eu... A gente! É! Foi bom... E...

O sorriso no rosto da loira só cresceu antes que ela resolvesse calar sua companheira com mais um beijo, enlaçando seus braços ao redor do pescoço da morena e a trazendo ainda mais para junto de si, aprofundando o beijo no mesmo instante.

Naquele momento, Rachel decidiu que Quinn poderia interrompê-la daquele jeito sempre que quisesse.

...

2:00 AM – LIMA MEMORIAL

No princípio os sons eram confusos, torpes, quase como uma melodia arranhada num instrumento mal tocado, mas agora o bipe incessante corroía seu cérebro tão irritavelmente quanto uma buzina de uma campainha tocando continuamente.

Os flashes ocasionais de claridade também não eram agradáveis. Seus olhos queimavam e ele se sentia extremamente desorientado. Um enjoo terrível ameaçava revirar seu estômago, cada vez que um desses lampejos assaltava-lhe a vista e apesar de desejar reagir, escondendo o rosto, todo seu corpo parecia adormecido e totalmente fora de seu controle.

Não era uma sensação boa. Ele mais se sentia um fantoche abandonado num canto qualquer de um teatro ambulante de beira de estrada. E ainda tinha o cheiro. Ele lembrava desse cheiro. Era um cheiro que sempre vinha acompanhado por um aroma de baunilha.

Baunilha.

Ele gostava de baunilha. Era como uma tarde de verão sobre a relva suave, ou como sentir o orvalho nas flores logo após o nascer do dia. Lembrava o toque suave de uma pele sedosa, de dedos longos trançando seu cabelo afetuosamente e no minuto seguinte ele viu aquele sorriso lindo fazer a luz da lua refletir seu brilho nas belas orbitas cor de avelã.

– Isa... Bela...

O murmúrio chamou a atenção da enfermeira de plantão que naquele mesmo instante conferia os sinais vitais do rapaz que ela julgava estar em coma, e que agora esticava debilmente a mão para o alto, como se tentasse alcançar alguém.

– Liguem para o Dr. Lopez com urgência. – a mulher gritou ao acionar um botão de emergência perto da cama.

Mas o rapaz permaneceu perdido em devaneios, ainda brigando para se manter lúcido em meio aquele sonho sem sentido. Diante de si, ele via sua Isabela sorrir à distância, enquanto mãos que não eram as dela, acariciavam seus cabelos.

Notas finais
Chase & Dana: A-a-a-a-até a próxima pessoal!!!