O Despertar do Lobo
5 Capitulo 04 – O Lobo e a Lua
Notas iniciais
Depois de passados alguns instantes de tensão, a aura de fúria da Alfa havia dissipado e as pessoas espalhadas pela sala de estar da casa dos Lopez puderam respirar tranquilas. Santana mal esperou outro sinal de tranquilidade para correr pelas escadas para confirmar se estava tudo bem. Brittany se apressou em segui-la.
Russel respirou aliviado. Sua filha havia conseguido controlar a ira de sua companheira. Contudo, mesmo que isso fosse uma demonstração de extrema sintonia e confiança, demonstrando o quanto elas seriam perfeitas uma para a outra, ele sabia que o caminho ainda reservava inúmeros obstáculos para que Quinn finalmente aceitasse Rachel como sua outra metade.
Talvez ele fosse o único culpado por isso.
– Desculpe, Russel? — uma voz trêmula chamou, o desviando de seus pensamentos. — Nós só queríamos dizer que achamos melhor que você lide com a Alfa nesse primeiro momento...
Francine, que estava parada ao lado de seu pai, bufou indignada. Era óbvio que a grande maioria dos presentes estava apavorada com a mostra de grande poder da Alfa, e agora preferia sair de “rabinho entre as pernas”, com medo de ter aquela fúria direcionada para eles.
– Seu bando de frouxos. – murmurou a primogênita da família Fabray.
–... Nós confiamos plenamente no seu julgamento nesse caso. – Continuou o homem, dando uma tapinha camarada no ombro de Russel. Várias pessoas ao redor dele confirmavam sua concordância com a cabeça.
Assim, não levou muito tempo para que a antes abarrotada sala de estar, agora parecesse muito mais confortavelmente vazia, com os poucos membros que resolveram permanecer e aguardar para ver se a Alfa acordaria em breve... E se Deus permitisse, quem sabe? Um pouco mais disposta a interações sociais?
...
Enquanto isso, no andar de cima Bernardo Lopez era sufocado pelo abraço “quebra costelas” de sua filha mais nova.
– Papi, graças a Díos! Fiquei tão preocupada.
– Ei, eu também estou viva, viu irmãzinha?! – Helena se levantou devagar, ainda firmando as pernas bambas.
Do outro lado do quarto, Brittany levantava alguns carrinhos com suprimentos. O barulho chamou a atenção dos três latinos para as duas figuras no chão, um pouco mais adiante de onde eles estavam.
Rachel jazia desacordada no colo de Quinn, que estava sentada no mais absoluto silêncio, totalmente imóvel, observando à morena. Santana piscou os olhos espantada, obviamente perplexa com a ausência de ferimentos, ou cicatrizes no ombro da garota.
– Mas que demônios? – ela sussurrou entredentes.
Ao seu lado, Bernardo Lopez se levantou devagar, com uma das mãos apoiadas na parede, para conseguir firmar as pernas ainda tremulas. Sua mente ainda divagava com imagens da cura inacreditável que sua Alfa fora capaz de executar. E como qualquer pessoa comum, ele estava apavorado com o que mais a garota poderia ser capaz de fazer, mas ao mesmo tempo, o seu lado cientista, estava ansioso, senão curioso em descobrir as outras habilidades dela.
Dizer que Rachel era uma em um milhão era pouco perante aquilo que seus olhos testemunharam. E aparentemente, a demonstração de cura, ou a transformação parcial ainda eram vislumbres do ela seria capaz de fazer depois que a transformação em Lobo fosse concretizada.
Rachel seria uma Alfa absurdamente poderosa. E isso poderia ser muito bom, ou muito ruim.
– Papi? – o médico desviou seu olhar para os preocupados olhos castanhos escuros ao seu lado. Ele passou a mão pelos cabelos lisos de sua caçula, tentando tranquiliza-la. Santana não era o tipo de pessoa que demonstrava fragilidade com facilidade, mas a garota era extremamente apegada à família. E qualquer evento como esse era capaz de afetá-la profundamente.
– Está tudo bem, hija. Acalma-te. – disse ele se afastando, caminhando a passos lentos na direção de Quinn.
A garota deu um sorriso singelo, ainda não muito certa de que estava tudo bem. Talvez por isso, ela resolveu acompanhar o pai de perto, o seguindo quando notou aonde ele se dirigia. Do outro lado da sala, Helena observava tudo calada. Brittany tinha parado ao lado dela lhe oferecendo um copo que aparentava ter água dentro.
– Quinn? – o médico chamou baixinho. Um tanto temeroso em acordar Rachel.
Quinn não atendeu a princípio. Demorou um pouco para que o rosto angelical surgisse por entre os cabelos dourados que caiam em cascata sobre sua face, escondendo-a do mundo ao seu redor.
–Quinn? Você está bem? Consegue me entender? – ele tentou novamente, quando ficou evidente que ela não responderia.
– Ela está em choque? – Helena perguntou se aproximando, seguida por Brittany.
Foi então que a voz de Quinn pode ser ouvida, não tão mais alta que um sussurro.
– Eu não sei o que fazer agora. – ela confessou, e seus olhos se encheram de lágrimas. – Eu não sei o que devo ser... Ou como devo me portar. Ela achava que eu estava em perigo... E só queria me proteger. Mas, eu não mereço. Mereço?
Santana mordeu o lábio, tentando não cair em lágrimas também. Na sua frente, sua amiga estava visivelmente se partindo em pedaços. Quinn deveria estar totalmente destroçada com aquela situação. E é lógico que o fato de que Rachel até o momento só havia demostrado o quão longe iria para mantê-la a salvo, só piorava tudo. Afinal de contas, Quinn só havia causado dor e vergonha àquela que agora, sem hesitar, arriscava a vida por ela independente do que houvesse.
Infelizmente, Bernardo não podia compreender a complexidade do que ela havia dito, porque desconhecia os detalhes do conflituoso relacionamento que as Cheerios e Rachel sempre mantiveram. Então, ele se limitou a perguntar se Quinn podia continuar junto a Alfa, enquanto ele a transferia para o quarto de hóspedes.
– Ela precisa descansar, querida. Sei que seu colo deve ser bastante confortável para ela, mas não acredito que nem suas costas, ou as dela, vão aguentar ficar nessa posição por mais tempo.
HORAS DEPOIS
Rachel abriu os olhos e mais uma vez, ela não reconheceu o lugar onde estava. Só que diferente de antes, ela sentiu uma mão quente e suave sobre a sua, e a sensação daquela presença lhe trouxe calma.
A morena olhou para o lado e viu Quinn deitada à sua esquerda, adormecida, encostada num travesseiro alto que a mantinha suas costas elevadas, a deixando quase que sentada junto a ela, no centro da espaçosa cama de casal com dosséis altos, onde elas duas estavam acomodadas.
Não parecia uma posição confortável, e lembrava a maneira que alguns pacientes dormem em hospitais. Rachel não gostou de vê-la dormir assim, e cogitou a possibilidade de movê-la para uma posição mais aconchegante. Mas ela parecia tão tranquila, que a morena não teve coragem de arriscar acordá-la por tentar movê-la dali.
O queixo delicado estava encostado em seu ombro direito, e ela tinha os lábios rosados levemente partidos. Seus longos cílios adornavam as alvas pálpebras que se moviam inquietas, por causa da agitação de seus olhos durante o sono profundo em que ela se encontrava. Uma mexa dourada jazia caída sobre seu rosto, cobrindo uma pequena parte de sua testa, enquanto seu peito subia e descia compassadamente, fazendo que pequenos suspiros escapassem por seus lábios em intervalos regulares.
Rachel nunca havia visto algo mais belo em toda sua vida. E de repente a dor que fazia todo seu corpo latejar, e o nervosismo que havia tomado conta de sua mente no momento que a consciência do que estava realmente acontecendo com ela ficou clara, já não importavam. Porque Quinn estava adormecida tranquilamente ao seu lado, e só por causa disso, o tempo deveria parar, e o mundo ao redor delas poderia se extinguir.
Era estranho.
Não que Rachel Berry nunca houvesse parado para olhar para Quinn Fabray. Porque é evidente que ela havia. Todos na McKinley haviam. Era algo que fazia parte do dia a dia, assim como respirar ou a necessidade de se alimentar. Não havia como não vê-la.
Mas, antes, nunca havia sido tão doloroso.
Aquele medo de quase tê-la perdido, a imagem dela indefesa perante aqueles Lobos monstruosos, parecia ter gravado em Rachel a inevitabilidade de que um dia, Quinn Fabray poderia não existir.
E isso doía mais do que ter o ombro dilacerado por uma criatura sobrenatural.
Era confuso.
Tão confuso quanto essa necessidade insana de protegê-la. Um sentimento que fez com que todo seu corpo pulsasse de fúria, no momento que ela percebeu a essência fraca da garota, misturada a de tantos outros Lobos... Sim, porque agora, riam, Rachel podia farejar outros seres como ela... E só foi preciso sentir a tristeza, o medo e a confusão que de alguma maneira, ela sabia que Quinn estava sentindo, que a fúria pareceu explodir dentro dela e sem nem ao menos perceber, ela havia mudado.
Para protegê-la.
Mais uma vez.
E ela mataria sem hesitar.
Rachel sentou-se devagar, arquejando um pouco por causa de suas costas doloridas.
“Ela mataria para proteger Quinn. “ Antes, talvez esse pensamento a deixasse paranoica, mas agora? Agora, parecia algo tão evidente, que não chegava nem mesmo a ser questionado por sua consciência.
Era surreal.
A morena desviou o olhar da garota adormecida ao seu lado e encarou as próprias mãos. Mãos essas que ela sentira se alongarem. Assim como seus dentes e corpo. Talvez por isso suas costas estivessem doendo tanto.
Mas seu ombro não doía.
Nem mesmo uma pontadinha sequer.
Na verdade ela se sentia capaz de suspender qualquer um daqueles brutamontes do time de futebol e rodopiá-lo no ar, antes de atirá-lo do outro lado do campo. Rachel podia sentir a força descomunal que percorria suas veias. E de certa forma, isso a assustava um pouco. Mas, não de um jeito que a deixava apavorada consigo mesma, e sim pelo simples fato de que parecia ser natural demais. Era como se finalmente ela estivesse livre para usar algo que ficara adormecido dentro dela por muito tempo. Como se ela finalmente estivesse livre para ser quem ela realmente era.
Os olhos castanhos, da agora não tão pequena morena, vagaram ansiosos pelo quarto procurando por qualquer coisa que distraísse sua mente. Porque Rachel Berry já sabia desde berço quem ela era.
Ela era uma futura diva da Broadway, dona de uma voz invejável! Um poço humano do mais puro talento dramático, que um dia teria seu nome brilhando nas marquises dos melhores teatros em New York.
Essa era a verdadeira Rachel Berry. Só que, então, por que esse sentimento já não era tão pleno?
Era estranho;
Confuso;
Surreal;
Intenso.
Porque se Rachel Berry não sentisse como se a voz de Quinn repetindo a palavra “família” em sua mente constantemente não fosse o bastante, a incerteza de que o despertar dessa nova consciência não seria capaz de obscurecer tudo aquilo que ela acreditava ser, já era um grande alerta. Porque a intensidade com que essa nova realidade se espalhava por ela, incitando e invadindo cada pequena parte daquilo que compunha sua mente, corpo e até mesmo alma, era a prova suficiente de que ela nunca realmente soubera quem era a verdadeira Rachel Berry.
– Você pensa demais. — A voz doce, e ainda rouca devido ao sono a trouxe de volta a realidade.
Quinn tinha escorregado o corpo pelo travesseiro alto, agora o usando para apoiar a cabeça. Ainda não parecia uma posição confortável para Rachel.
– Volte a dormir. — ela voltou a falar. Seus olhos ainda permaneciam fechados, enquanto ela tentava encontrar uma posição mais agradável na cama.
Rachel pegou o travesseiro extra, que sabe-se lá por que resolveram colocar ao lado dela, e gentilmente segurou a cabeça de Quinn, enquanto substituía a peça desconfortável que ela usava por um travesseiro normal.
– Obrigada. — ela agradeceu com uma voz sonolenta, usando a mão esquerda para cobrir um bocejo. — Vá dormir.
Uma mão macia encontrou a mão de Rachel, apertando-a levemente. E depois disso, Quinn já ressonava de novo.
Rachel sorriu afetuosamente para a bela novamente adormecida ao seu lado.
Talvez nessa nova realidade, Quinn fosse sempre assim, mais acessível.
Talvez nessa nova família, ela pudesse realizar o único sonho que parecia ser imutável em meio a esse pequeno caos que havia se transformado sua vida.
E talvez, só talvez, a garota ao lado dela, aceitasse sua eterna oferta de amizade.
Amizade.
Era tudo o que ela podia esperar de alguém como Quinn Fabray.
...
– Vocês têm certeza de que era a única alternativa? — Judith Fabray se apoiou no braço de seu esposo, enquanto caminhava pelo foyer atrás de sua sogra e Bernardo Lopez em direção à sala de jantar, onde Helena e sua mãe já aprontavam a mesa.
A matriarca da família Fabray e sua nora haviam ficado presas na estrada devido a uma pequena intervenção na pista, causada por um caminhão de carga que tinha deslizado no asfalto horas antes. Além do inconveniente causado pelo atraso das autoridades de liberarem o tráfego, o retorno das duas mulheres a Lima havia transcorrido sem mais transtornos.
Há algumas horas, os membros restantes do conselho que haviam ficado presentes, na esperança de conhecer Rachel, tinham retornado as suas casas. Russel os garantira que assim que a Alfa estivesse disposta, ele entraria contato com todos e convocaria uma reunião.
Sendo assim, não restou muito a fazer a não ser dispensar Santana e Brittany, que estavam exaustas e juravam precisar tirar uma longa e inocente soneca. Bernardo e Russel voltaram até a sala, para discutirem os acontecimentos recentes e aguardar o retorno de suas respectivas esposas e mães, ausentes durante toda a confusão.
Não havia muito que fazer, além disso, já que Helena e Caleb, haviam se adiantado para limpar a bagunça no consultório no segundo piso, onde se resumiram os estragos. O jovem rapaz foi o único membro da alcateia que decidira ficar para ajudar. Ele era bastante querido pela família, e apesar de não ser um membro do conselho, ou mesmo alguém de grande influência, sempre foi bem quisto por todos, justamente por seu comportamento doce e suas atitudes prestativas.
A única real providência tomada até o momento fora garantir que Quinn permanecesse ao lado de Rachel, como medida de precaução caso a garota retrocedesse a um comportamento hostil.
A loira não chegou a contradizer a solicitação de seu pai, quando ele apontou que ela seria a única capaz de controlar o temperamento da Alfa, até que sua transformação em Lobo fosse completada, e toda alcateia lhe jurasse lealdade.
Quinn se mostrava extraordinariamente calma, apesar de parecer absolutamente exausta. Ela assentiu silenciosamente, antes de seguir o doutor Lopez pelo corredor, até o quarto de hóspedes.
Russel viu sua filha caçula entrar de queixo erguido no quarto, já envolto pela penumbra por causa das grossas cortinas que cobriam as janelas, se posicionando graciosamente ao lado de Rachel, que já havia sido acomodada entre as cobertas da grande cama de casal de dossel de metal, como se aquela atitude fosse algo que já fizesse parte de seu cotidiano.
Porém Russel não se deixaria enganar. Quinn estava sob a pressão de prestar o papel que lhe havia sido designado desde a infância. Ele sabia que sua filha estava se protegendo por trás dessa máscara de aparente tranquilidade e resiliência. Tanto, que no último segundo, no momento em que ele fechava a porta do quarto, ele pode ver quão devastada era à expressão em seu rosto.
Russel já tinha ouvido falar de Rachel Berry. Quinn a mencionara com certo desdém algumas vezes durante os anos. Eram comentários esporádicos que foram se tornando mais frequentes durante o passar do tempo, mas todos demonstravam que o relacionamento entre as garotas não era muito promissor.
Ele podia ver nos olhos de sua filha o quanto isso estava pesando em sua consciência nesse momento, mas o que realmente o preocupava era saber se Rachel guardava um rancor maior por aquela que estaria fadada a caminhar ao seu lado por toda a vida.
Tanto ele quanto Bernardo não acreditavam que Quinn tivesse medo de Rachel. A forma como o médico descreveu a postura da garota no momento que ela conseguira aplacar a fúria de sua parceira, deixava claro para os dois o que esse não era o problema. Contudo, Bernardo achava que Quinn fora o principal motivo para a transformação parcial de Rachel.
Ainda segundo ele, Rachel agira tal qual qualquer Lobo em situação de perigo extremo agiria. Seu amigo acreditava que a dedicação da Alfa a sua parceira era incontestável.
“Ela estava no meio de mais de duas dúzias de Lobos desconhecidos, que até então, não faziam parte de sua alcateia, e ainda por cima, sua companheira que tinha acabado de ser atacada na sua frente, estava novamente fora de seu alcance e perdida no meio dessas fragrâncias ameaçadoras.”, ele argumentou junto a Russel. “É lógico que um Alfa iria priorizar a proteção de sua parceira acima de qualquer coisa.”
Bernardo tinha certeza que se Brittany não tivesse dito para Quinn subir naquele minuto, Rachel teria matado ele e sua filha, para somente exterminar todos os Lobos presentes no andar debaixo, na tentativa de afastar Quinn do perigo.
– Quer dizer, elas nem ao menos foram apresentadas formalmente como parceiras à alcateia... E já estão juntas na mesma cama? Não é de bom tom, Russel. — continuou Judy.
– Judy querida, acho que nesse momento a prioridade é manter a Alfa sob controle... — Russel respondeu sua esposa gentilmente, porém em seu íntimo, ele também não tinha gostado muito da ideia de sua menininha deitada numa cama com outra pessoa. Mesmo que essa pessoa fosse sua parceira... Ou sua Alfa. A confusão de sentimentos paternais e a preocupação com as atitudes de sua filha mais nova o estavam afetando imensamente.
O que não passou despercebido por Frannie, que pareceu adivinhar pelo menos parte dos temores de seu pai e riu alto, cutucando as costelas dele com seu cotovelo.
– Quem diria, hein? O velho papai Lobo Fabray mal encontrou o par de sua filhota mais nova, e já a atirou sobre as cobertas, bem nos braços de outro Lobo... Tantos anos protegendo a castidade de minha irmã... Todos os meus esforços foram jogados fora, assim, em segundos...
– Francine Marie Fabray! — foi Judy quem ralhou, mas a mão que alcançou a orelha da tagarela da família foi a de sua avó Victória.
– Você não consegue mesmo se comportar como uma dama, não é mesmo ma chère petite-fille?
– Ai ai ai tá doendo. Grandmère, mon oreille. Je suis tellement désolé! Pardon!
Do outro lado da sala, Helena escondia o riso tapando a boca com um dos pratos que ela tinha em mãos. Maria Lopez estreitou os olhos na direção da filha mais velha, mas tal qual como acontecera com Fran, à mão que chegou primeiro fora a da matriarca da família Lopez, que tinha acabado de colocar uma travessa enorme com salada de macarrão sobre a mesa.
– E quem disse que você pode rir da desgraça alheia, Helena? ¿Te eduqué para esto?
– Abuela! Por Díos! Vai arrancar! Vai arrancar!
Russel ainda suava frio devido à menção sobre a ameaça a castidade de sua menininha. A ideia de que em breve sua filha teria que corresponder às expectativas da alcateia e unir-se a Alfa, o deixava apavorado. Primeiro porque ele sabia que Quinn não estava pronta, e ele temia que ela decidisse fazer algo dessa magnitude sem maiores reflexões; e segundo, porque somente naquele momento, ele havia percebido que ainda não estava pronto para dar adeus ao seu “bebê”.
Os olhos esverdeados brilharam de repente, fazendo com que o homem sempre austero e controlado, decidisse sair “à francesa”, aproveitando a confusão, para ter certeza que ninguém o veria em seu momento “sim estou chorando porque minha filhinha não é mais meu bebê”.
Murmurando para sua esposa que havia se esquecido de lavar as mãos, Russel escapuliu da sala, ainda sendo capaz de ouvir Frannie e Helena implorarem a suas avós que não arrancassem suas orelhas.
...
Chamem de curiosidade, de maluquice, do que quiserem. Mas ninguém realmente podia esperar que Rachel Berry fosse ficar tirando uma soneca numa casa desconhecida, repleta de Lobos que podiam fazer sabe-se lá o que com ela. O mínimo que ela deveria fazer era explorar o lugar, para tentar discernir se ali era realmente seguro. Porque se não fosse, nem que ela tivesse que carregar Quinn a força, elas estariam fora dali nos próximos segundos.
Ela podia ouvir vozes vindas do andar de baixo, e se ela se concentrasse um pouco talvez fosse possível ouvir o que diziam. Rachel caminhava devagar por um corredor repleto de portas, que deveriam levar a mais quartos ou consultórios, até que um movimento mais adiante capturou sua atenção.
...
Russel havia deixado à companhia dos outros na intenção de seguir até os jardins e tomar um pouco de ar. Mas aparentemente suas pernas resolveram guiá-lo em outra direção. Ele subira as escadas até o segundo piso da residência de seu amigo de infância, até perceber que se ele não se detivesse, ele acabaria indo até o quarto onde estava sua filha.
Ele passou a mão pelo rosto um pouco atordoado. “Francine merece umas boas palmadas por trazer essas ideias à tona.” Se a avó dela lhe poupasse a orelha, ele iria cogitar a possibilidade de retomar velhos hábitos disciplinares, e cortar a mesada da garota.
Suspirando resignando, ele passou pela pequena sala comum que antecedia o corredor que dava acesso aos quartos da família, e abriu uma porta grande de vidro que levava a uma espaçosa varanda.
O vento frio atingiu sua pele em cheio, algo que trouxe um alívio momentâneo para o cansaço de um dia estressante como aquele.
Ele olhou para o céu estrelado desse novo começo de noite em Lima. A lua estaria cheia em breve, marcando a primeira transformação de sua Alfa.
Uma leve brisa balançava as folhas do imponente Salgueiro no quintal dos Lopez, a sombra criada pela árvore se estendia pelo gramado até o deck da piscina situado bem no meio do terreno. Russel sentiu os pelos de seus braços eriçarem e suspirou profundamente.
– Eu peço perdão por não apresentar-me antes. Mas, tendo em vista o desenrolar dos acontecimentos, acho que mereço uma chance de me redimir perante você... Minha Alfa.
Ele se virou lentamente, para finalmente estar cara a cara com Rachel. Seus olhos negros pareciam ser capazes de desnudar sua alma, e estavam a centímetros de sua face. Ele só conseguiu sentir a presença dela quando a garota já estava a uma distância que impediria qualquer chance de defesa da parte dele.
– Você é aquele que senti antes. Aquele que ocupa o meu lugar. – a voz da Alfa não soava somente como a voz da garota. Parecia que dois seres estavam falando ao mesmo tempo. A voz de Rachel se misturava a outra voz de um tom mais rouco e rude. Era como um rosnado baixo. O Lobo parecia estar falando juntamente com sua metade humana.
– Eu era o Lobo Beta de seu antecessor. Depois da morte dele, eu assumi a liderança de nossa alcateia e do nosso conselho. – Russel respondeu polidamente, se mantendo o mais sereno possível.
Pelo o que ele ouvira de Bernardo, a aparência da morena a sua frente, indicava que Rachel estaria usando uma técnica até então nunca vista por eles; uma transformação parcial. Mas seu amigo descrevera uma forma sobre-humana que parecia fora de controle e quase primitiva, demostrando dificuldade até em articular bem as palavras. Aparentemente, aquela versão na sua frente não era a mesma que seu amigo Bernardo havia conhecido.
Contudo, infelizmente para ele, a proximidade dela o incapacitava de ver se outros aspectos dessa transformação parcial haviam surgido. Naquela posição em que eles se encontravam, ele só conseguia constatar o quanto ela estava maior, e o negro absoluto de seus olhos. Não havia presas, ou dentes pontiagudos. E Russel tomou isso como um bom sinal.
– Esse não é mais o seu lugar de direito. – a Alfa sibilou entredentes.
– Eu estou ciente disso. Seu despertar marca a minha aposentadoria. Estarei junto com todos os outros, jurando minha mais sincera lealdade na cerimônia que marcará sua primeira transformação completa.
Rachel se aproximou ainda mais, invadindo o espaço pessoal dele. Os olhos negros se estreitaram de maneira ameaçadora, e a respiração dela praticamente se misturava a dele.
– Você está preocupado. Está lamentando a perda de uma de suas fêmeas. Daquela que está destinada a ser minha.
Os olhos cor de avelã se arregalaram incapazes de esconder sua surpresa. “Ela foi capaz de ler seus sentimentos? Como isso era possível?” O homem deu um passo para trás, se apoiando no mármore gelado que adornava a beirada da varanda.
– Por acaso acha que não sou um pretendente digno? Você não terá orgulho de receber sua Alfa como um membro de seu clã? A linhagem de Fenrir não é merecedora de dar segmento a do clã da lua de Hati, meu caro Lobo Beta?
A voz dela reverberava pelo corpo de Russel, que estava boquiaberto com o conhecimento que a metade Lobo de Rachel possuía. Diferente de sua metade humana, aquela parte dela estava plenamente ciente de sua origem. E a julgar pela informação que ele acabara de adquirir, a grande habilidade e poder que a garota exibia, estavam mais que justificados.
A linhagem de Fenrir, o grande Deus Lobo. O primeiro Lobo.
– Por favor, não me interprete mal. – ele falou num sopro de voz, mas manteve seu olhar firmemente conectado ao de sua Alfa. – Só é difícil para um pai, admitir que sua preciosa filha mais nova, já não é o bebê que ele teve em seus braços um dia. E ainda me preocupo com essa situação tão delicada entre ela e a sua parte humana, minha Alfa. Sei que pode parecer confuso, mas são preocupações de um pai que teme ter sido muito rígido na criação de sua filha, na tentativa de querer o melhor para ela.
Rachel inclinou a cabeça para o lado. Analisando a expressão no rosto dele. As duas vozes que falavam através da garota, se manifestaram mais uma vez.
– Há muito tempo espero estar ao lado daquela que nasceu para caminhar comigo em todas as minhas existências. Tê-la tão perto durante todo esse tempo e nunca ser capaz de tocá-la, foi uma tortura imensurável. É com pesar que admito que existe uma parte de mim que ainda ignora a magnitude de meus sentimentos por ela. – Rachel se afastou um pouco, assumindo uma postura menos ameaçadora. – Mas devo confessar que apesar da atitude dela para comigo, durante todos esses anos, ferirem meu orgulho em diversas ocasiões, não posso condena-la por sua falha. Ela não era capaz de reconhecer-me.
– Eu compreendo. Só peço que tenha paciência, e lhe dê tempo. Quinn está confusa. Sei que ela vai tentar assumir seu papel perante a alcateia, mas temo que ela ainda não esteja pronta para lidar com seus sentimentos por sua metade humana... E admito minha Alfa, que sou o maior culpado por isso. Fiquei cego perante as responsabilidades que ela teria no futuro, e esqueci que o que iria unir minha filha a você é bem maior do que qualquer papel que ela venha exercer em nossa sociedade. Peço perdão por meu erro, minha Alfa.
A morena se aproximou mais uma vez dele, mas diferente de sua conduta inicial, Russel pode notar que o Lobo não procurava ameaçá-lo dessa vez.
– Deve guia-la para mim. – Rachel concluiu, dando as costas para ele e se retirando. – Sinto que sua lealdade é sincera, meu caro Beta. Não desejo mais derramar seu sangue. Quero que continue cuidado do meu tesouro por enquanto. Estarei esperando até a hora que ela esteja pronta.
Só então ele notou as garras afiadas, que se retraiam nas mãos dela.
Rachel não proferiu mais nenhuma palavra. Russel assistiu a morena desaparecer pela porta de vidro, provavelmente voltando para junto de sua filha no quarto de hóspedes. Suas mãos tremiam, suando copiosamente sobre o mármore da bancada da varanda.
Sua Alfa havia desenvolvido a habilidade de camuflar sua presença completamente. Algo que somente os Lobos mais habilidosos eram capazes de fazer... Algo que só era possível, após a primeira transformação completa.
Ela poderia tê-lo matado, e ele nem ao menos teria sabido o que o havia atingido.
– Essa foi à conversa mais interessante que já tive na vida. — ele admitiu com um murmúrio.
Uma grande nuvem escurecia o céu naquele momento. E, de alguma forma, Russel a enxergou no formato de um grande Lobo Negro, que, sorrateiro, engolia a lua completamente.
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