A notícia sobre as bestas de Umbra já devia ter se espalhado e com ela o presságio de tempos sombrios. Estava cada vez mais comuns os ataques de todas as classes entre alguns vilarejos e com ela pessoas oportunistas também aproveitando-se da situação para receber dinheiro do povoado. No dia seguinte, fomos convocados para o salão principal: eu e a Alarien.

— O que será que eles querem? — susurrei baixo conversando com a Alarien, enquanto caminhávamos pelo corredor.

— Eu não sei Liz, não é comum chamar os guerreiros. — Ela sussurrou novamente.

—Eu sei disso.— Eu suspirei, um pouco mais disposta do que a noite anterior. Porém, sentia meu corpo ainda pesado pela armadura e pela luta do dia anterior.

No salão principal fomos recebidos por conselheiros e pelo sumo-sacerdote de Arenlindor, um homem idoso, de longas vestes verde bordadas em dourado. Seus olhos quando pousaram em mim senti como se pudesse ver através da minha pele. O Príncipe Johan estava presente.

Ele se aproximou lentamente, apoiado em um cajado de cristal. A peça era longa e fina, feita de uma madeira escura e polida. No topo o cristal não era apenas transparente: dentro dele, corria uma névoa prateada que se movia como se tivesse vida própria, pulsando em reflexos que lembravam fragmentos de estrelas aprisionadas. A cada passo do sacerdote, o cajado tocava o chão com um som seco e profundo, mas o cristal cintilava suavemente, espalhando faíscas de luz pelas paredes do salão. Quando ele ergueu a mão enrugada em direção ao meu braço, tive a sensação de que não era apenas um objeto o cajado respirava, atento, como se também reconhecesse a presença da Rosa.

— Esse bracelete… — murmurou, quase sem voz. — A Rosa desperta em ti.

Um murmúrio percorreu a sala. Eu congelei, surpresa e por instinto puxei o braço para junto do corpo. O bracelete brilhou suavemente respondendo ao toque invisível do sacerdote.

— Não pode ser… — sussurrou um dos conselheiros. — A Profecia da Rosa era apenas lenda.

— Lenda? — a voz do sacerdote ecoou com força inesperada.

— Não, senhores. É promessa. E agora a promessa caminha entre nós.

O príncipe Johan olhou para mim, confuso e Alarien se pôs mais próxima, como se me proteger fosse sua primeira reação. Eu mal conseguia respirar. O peso das palavras dele me esmagava como se o mundo tivesse acabado de mudar diante dos meus olhos.

— O que isso significa? — minha voz saiu trêmula.

O sacerdote continuou:

— Significa que teu destino não é mais apenas o de uma guerreira. A Rosa te escolheu. E com ela, o fardo da guerra que ainda virá.

— A guerra do Caos virá? —Um dos conselheiros interrompeu o momento.

— Sim. Os ataques estão mais frequentes.— O sacerdote continuou.

Um arrepio percorreu minha espinha e por um instante, o salão pareceu girar ao meu redor. Apertei os pés contra o chão tentando me manter firme, mas dentro de mim tudo vacilava. Pela primeira vez compreendi que, por mais que eu desejasse apenas cumprir minha missão, a profecia já havia cravado suas raízes em minha vida. E então a dúvida me consumiu: quem eu realmente era? Não passava de uma fraude, sentia-me deslocada, como se habitasse um corpo que não me pertencia, uma história que não havia escolhido. Eu tinha tantas perguntas e nenhuma resposta na minha cabeça.

A Rosa brilhava em meu braço como um selo definitivo mas eu só conseguia pensar que aquilo estava errado. Talvez não fosse eu a escolhida. Talvez houvesse um engano, um erro cruel do destino. Porque, no fundo, eu não sabia se queria carregar esse fardo ou se teria forças para fazê-lo. Eu dependia das habilidades da Liz e totalmente do bracelete. O silêncio ainda pairava quando o príncipe Johan deu um passo à frente. Seu semblante, normalmente calmo, agora era firme, quase duro.

— Sumo-sacerdote Arvel, explique-se — disse, sua voz ecoando entre as colunas altas.

— O que significa essa fala sobre a Rosa?

Arvel apoiou-se mais forte em seu cajado, como se o peso daquilo que carregava fosse antigo demais. Seus olhos cinzentos percorreram o salão antes de voltar-se ao príncipe.

— Alteza, a Profecia da Rosa é mais antiga que nossos reinos. Há registros gravados em pedra, lendas sussurradas entre sacerdotes e magos. Diz-se que quando as sombras de Umbra se moverem novamente contra as terras livres, uma portadora surgirá. Não escolhida por sangue real ou linhagem, mas pela Rosa em si, que desperta apenas diante da ameaça do abismo.

Meu coração batia forte demais como se quisesse fugir do peito. O príncipe desviou o olhar para mim por um instante, mas voltou-se rapidamente ao sacerdote.

— E o que exatamente essa profecia prevê?

Arvel respirou fundo, sua voz agora grave, carregada de solenidade:

— “A Rosa guardará o equilíbrio. A portadora será a lâmina e o escudo. O inimigo reconhecerá nela tanto a perdição quanto a salvação. Se ela tombar, a escuridão será eterna. Se ela resistir, da dor brotará a nova aurora.”

O salão pareceu encolher. As palavras ecoaram em mim como uma sentença.

Johan apertou os punhos.

— Está dizendo que o destino de todos nós repousa sobre uma guerreira? Sobre… ela? — apontou sutilmente em minha direção, sem dureza, mas com incredulidade.

— Não necessariamente. É um fardo recair tamanha responsabilidade sobre uma única pessoa. — Ele continuou.

— Continue sacerdote — O príncipe continuou.

— A lenda da Rosa é uma figura chave e central, as escolhas dela e os aliados determinam o presságio. Pelo menos é isso que interpretamos.— O sacerdote esboçou um leve sorriso.

— Não é a guerreira quem foi escolhida, mas o coração que pulsa em harmonia com a Rosa. A lâmina apenas respondeu ao chamado.

Nesse momento, Alarien deu um passo à frente, seu olhar afiado fixo no sacerdote.

— E o que exatamente ela deverá enfrentar? Quem é o inimigo de que fala?

Arvel fechou os olhos por um instante, como se pesasse cada palavra.

— O inimigo não virá apenas de fora. Ele caminha nas sombras, próximo, alimentado pela dor e pela perda. A portadora da Rosa será tanto seu alvo quanto sua chave de redenção… ou de ruína.

Um arrepio percorreu meu corpo. A sombra de um rosto desconhecido passou pela minha mente olhos tão escuros quanto a noite sem estrelas.

O príncipe, inquieto, deixou escapar:

— Isso é vago demais. Como vamos proteger o reino com enigmas?

O sacerdote ergueu o cajado e o cristal brilhou em reflexos prateados, tão parecidos com a luz da Rosa em meu braço.

— Porque, alteza, profecias nunca revelam tudo. Apenas guiam. E agora, queiram ou não, a guerra e a escolha repousam sobre ela.

Um silêncio pesado voltou a dominar o salão, e eu senti, mais do que nunca, que meu destino já não me pertencia.

— Vossa Majestade ficará contente em conhecê-la, Srta… — o sacerdote fixou os olhos nos meus, profundos e inquisitivos.

— Aurelis Lirae — respondi, mantendo a formalidade, mas sentindo o peso daquele nome. Em seguida voltei meu olhar para o príncipe Johan. Afinal, naquele momento, estava sob suas ordens.

— Tudo bem, Srta. Lirae, sem problemas — ele assentiu, tranquilo, enquanto o sacerdote esboçava um largo sorriso e se voltava para o conselho, organizando detalhes do encontro.

— Srta. Lirae… — O príncipe se aproximou, a voz baixa, quase um sussurro — soube pelo Goty e pelo nosso reino sobre a Espada da Rosa no dia da batalha, mas… o que realmente aconteceu?

— É exatamente isso, Vossa Majestade. Ainda estou reunindo fragmentos da profecia — respondi, controlando o tom.

— O Sr. Goty me disse que estaria ligada à Guerra do Caos.

Não mencionei a parte mais delicada: que a Rosa era uma ponte entre mundos, tempos e almas que se reencontram. Alguns segredos precisavam esperar. E nem que eu era uma "transplantada".

— Como você será convidada do baile hoje, conversarei com os conselheiros para providenciar roupas adequadas à ocasião — Johan sussurrou, quase aliviado, como se um problema tivesse sido resolvido.

— Perdoe-me pelo transtorno, Vossa Majestade — inclinei-me em sinal de respeito.

— Sem problemas, Srta. Lirae. Você não escolheu isso — disse ele, com um sorriso gentil.

Talvez percebesse demais o peso daquelas palavras: destino versus responsabilidade, expectativas alheias e olhos atentos a cada gesto. Era mesmo difícil ser da realeza, lidar com cobranças externas e internas ao mesmo tempo. E eu… como poderia corresponder a tudo isso? Mal sabia o que havia acontecido, quem era Liz, onde ela estava, ou de onde eu havia vindo. Tudo ainda era vago, um quebra-cabeça que eu precisava montar às pressas, com peças que insistiam em se esconder.

***

Após algumas horas de reuniões diplomáticas e de explorar o castelo, finalmente tivemos um momento de privacidade no quarto que eu e Alarien dividíamos, antes do baile.

— Como está se sentindo? — perguntei, percebendo que o príncipe realmente se preparava para oficializar sua união no reino.

— Estou bem… ele foi uma ótima fantasia — Alarien esboçou um leve sorriso, mas havia uma ponta de desânimo em seus olhos.

— Acho que você precisa observar melhor ao seu redor — repliquei, com um sorriso discreto.

— Como assim? — ela me olhou, surpresa.

— O que acha do Sr. Darian? — perguntei, lançando o nome com naturalidade.

— O conselheiro e melhor amigo do príncipe? — Ela arqueou as sobrancelhas, incrédula.

Darian Vosser, da nobre família Vosser, era alto e atlético. Seus cabelos castanho-escuros caíam levemente desalinhados sobre a testa, dando-lhe um ar de juventude e liberdade que contrastava com sua disciplina militar. Seus olhos verdes captavam cada detalhe ao redor, revelando inteligência, vigilância constante e um profundo senso de dever essencial para quem compartilhava segredos e decisões do príncipe.

— Na batalha, ele parecia estar preocupado com você — continuei, observando a reação de Alarien.

— Antes achei que fosse coisa da minha cabeça, mas aqui no reino, percebi que ele te olha discretamente.- continuei.

A expressão dela mudou, surpresa e corada.

— Claro que não… ele é só um amigo — murmurou, tentando disfarçar.

— Talvez o amor esteja do seu lado — sorri, atirando um travesseiro nela. Por um instante, rimos juntas, e o peso do dia pareceu se dissipar, mesmo que apenas por alguns segundos. Não demorando muito fomos interrompidas por algumas elfas que foram me ajudar a me arrumar para o baile. As criadas élficas moviam-se com uma graça quase silenciosa, cada gesto estudado, cada passo calculado como se dançassem ao ritmo de uma melodia invisível.

— Segure aqui, Srta. Lirae — disse uma delas, entregando-me o vestido do baile. O tecido era leve como nuvem, translúcido em camadas sobre camadas de seda azul-prateada e refletia a luz de modo a criar pequenas constelações que se moviam a cada gesto meu.

Enquanto uma das criadas ajustava a cintura do vestido, outra penteava meus cabelos, presos com delicadeza em tranças que se entrelaçavam como galhos de árvores antigas. Pequenas jóias de cristal lunar foram inseridas entre os fios, captando a luz e refletindo faíscas tênues, como se a própria noite tivesse se infiltrado no penteado.

— Respire fundo, Srta. Lirae — murmurou uma terceira criada, aplicando um perfume sutil, feito com flores raras de Arenlindor. O aroma era doce, quase mágico e parecia acalmar cada nervo do meu corpo, embora a ansiedade permanecesse escondida atrás do coração acelerado.

Quando terminaram dei um passo para frente e me vi no espelho. Meus olhos percorreram na imagem refletida: o brilho da seda, a suavidade da pele iluminada pela luz prateada e o semblante ainda nervoso, mas pronto para o desafio que a noite traria. Eu detestava ser o centro das atenções, e eu estava com inveja da Alarien que estaria nos bastidores do baile, apenas certificando da seguraça do Príncipe.

— Você está pronta para o baile, Srta. Lirae — disse a mais velha das criadas, com um sorriso discreto.

— E a magia do vestido parece brilhar mais forte— uma delas afirmou.

Senti o calor do bracelete da Rosa em meu pulso. Não era apenas um adorno ou um amuleto. Era a lembrança de que aquela noite marcaria mais do que encontros sociais seria o ponto em que o destino começaria a se revelar, lentamente, diante dos olhos de todos. Agora eu não poderia voltar mais atrás, o meu destino estava oficialmente coberto com um selo.