Depois de horas de viagem, finalmente cheguei àquele lugar que, de alguma forma, eu ainda chamava de casa. Era a minha última semana antes de retornar à capital, após o episódio na floresta. Em breve, eu teria que me apresentar novamente para o treinamento do batalhão. O exército de Luminara era responsável por patrulhar os vilarejos, enfrentando criaturas mágicas para manter o país e seu povo a salvo. Os materiais mágicos extraídos dessas criaturas eram levados ao comandante, que negociava com os moradores locais. Aqueles fragmentos se tornavam valiosos no mercado.

Tomei um banho demorado deixando que a água levasse parte do cansaço da viagem. Lavei os longos cabelos brancos e os enrolei em uma toalha. Vesti um vestido claro leve, que fazia contraste com a pele da Liz refletida no espelho.

— Liz... por que decidiu ser guerreira? — murmurei para o meu reflexo. — Você podia simplesmente ter se casado com algum nobre... É bonita demais pra ser bruta.

Soltei uma risada baixa ao imaginar a cena ridícula: eu casada com algum herdeiro mimado de Luminara. Afinal, a vida dela agora impactava diretamente a minha.

— Desculpa, Liz... — sorri, ainda penteando os cabelos lisos e longos, agora secos e levemente ondulados. — Eu estou feliz com a guerreira que você se tornou.

Continuei falando sozinha, como se esperasse que a verdadeira Liz me respondesse de algum canto da memória. Mas tudo o que ouvi foi o silêncio.

Eu não conseguia lembrar meu nome verdadeiro. Então, por enquanto fiz uma divisão simbólica: a Liz era o "eu" original a quem eu devia respeito e Aurelis era o nome que eu havia tomado emprestado.

Enquanto organizava alguns itens para a viagem, meu tio apareceu na porta do quarto.

— Já vai partir de novo? Mal chegou da capital — ele comentou, com um tom misto de preocupação e cansaço.

— Foi produtivo com o Sr. Goty. Ele quer que eu vá até Umbra-Nor — respondi, fechando uma pequena bolsa de couro.

Naquele momento, senti que devia ao menos metade da verdade a ele. Então, contei sobre a conversa com o Sr. Goty, a profecia, e o chá da flor de lua. Apenas omiti o que era mais difícil de explicar: o transplante.

— Umbra-Nor é perigoso, Aurelis... Por que não chama o Thereon para ir com você?

— Ah, tio, eu vou ficar bem. A rosa é forte. Além disso, Thereon está ocupado no castelo essa semana. Quero aproveitar esses últimos dias aqui.

— Você sabe que me preocupo com você, né?

— Eu sei. E agradeço por isso — sorri.

— Assim que eu chegar lá, mando uma magia de luz pra te avisar. — Continuei.

— Tudo bem... — ele suspirou, mais conformado.

— Aproveita a casa então. — provoquei com um sorriso

— O quê? Como assim? — Ele arregalou os olhos, ficando constrangido com o meu comentário

— Traz seu namorado pra cá, ué. — Eu continuei e ele ficou vermelho como um rubi encantado.

— O quê?! Menina, você sabe o que tá dizendo? Liz... você tem 19 anos! Desde quando...?

— Tio... eu sei que a gente nunca falou sobre isso, mas eu te amo. E quero te ver feliz. Sei que o mundo é hipócrita, mas não desiste de viver a tua felicidade por causa dele.

Ele se calou por um instante e então me puxou para um abraço forte. Podia jurar que ele deixou algumas lágrimas escaparem mas já era tarde, e a noite cobria tudo em sombra.

— Obrigado, querida... É bom ouvir isso. Mas e você... Já está namorando o Thereon?

— O quê?! Claro que não! — fiquei boquiaberta. — ''Você tá me confundindo com a Liz'', pensei.

— É que você não tem falado muito dele ultimamente...

— Acho que era só uma paixão infantil. Não tenho mais interesse.

— É... Acho ele um bom rapaz, mas meio mole, sabe?

Rimos juntos. De fato, as memórias da Liz com Thereon pareciam doces, porém imaturas. Não dava pra dizer com certeza se ele correspondia ou não. Ele era vago demais nas palavras, nos gestos. Confundia mais do que acolhia. E claro, isso deixava a Liz insegura.

Mas eu, como Aurelis, olhando de fora... via o quanto ela era incrível. Não só pela beleza, mas pela força, pela sensibilidade, pela luz que carregava e talvez isso o intimidasse. Quem sabe? A verdade é que... Liz era demais pra ele. Porém, eu entendo que no fim das contas, a gente não escolhe quem ama. É impossível controlar como o coração irá seguir o seu próprio ritmo ou a forma que ele irá bater.

— Que horas você parte amanhã? — ele perguntou.

— Depois do almoço, provavelmente.

— Quando voltar de Umbra-Nor... acho que está na hora de te apresentar ele. — Meu tio sorriu tímido.

— Olha só, finalmente! — sorri, animada.

Terminamos a noite como velhos amigos, conversando até tarde, como se o tempo tivesse voltado para antes de tudo. Assim que voltei para meu quarto, fechei os olhos e um flashback veio a memória.

*****

O sol ainda nem havia se erguido por completo, mas Liz já estava no campo de treinamento improvisado, com a espada de madeira em mãos e as tranças negras coladas à nuca de tanto suor. As mãos doíam. O orgulho também.

Ela ergueu a espada de novo meio torta, com os ombros tensos e atacou o boneco de palha com mais força do que técnica.

— Você vai acabar derrubando seu braço antes de derrubar um inimigo. — disse uma voz divertida atrás dela.

Ela se virou, bufando. Thereon estava encostado em uma árvore, com os braços cruzados e aquele sorrisinho torto que parecia zombar de tudo e de nada ao mesmo tempo.

— Se veio rir de mim, pode ir embora. — ela disse, virando de costas.

Ele se aproximou sem pressa, pegando a espada de madeira das mãos dela com um gesto leve.

— Não vim rir. Vim corrigir. Você está segurando assim — demonstrou de modo exagerado, com a espada pendendo para frente — mas devia ser assim. — firmou os dedos dela no cabo, ajustando a pegada.

Liz engoliu em seco. A proximidade dele a deixava desconcertada, embora ela jamais admitisse. Ele era alguns anos mais velho, já um dos recrutas mais respeitados, com fama de promissor. Mas ali, diante dela, só parecia um garoto com o olhar calmo demais e os dedos quentes demais.

— Você acha mesmo que eu consigo? — perguntou ela, baixinho.

— Acho que ninguém aqui quer tanto quanto você. — respondeu ele.

— E quando se quer mais do que os outros, não é questão de se, é só questão de quando. — Ele continuou.

Por um momento, o tempo ficou suspenso entre os dois.

Liz olhou para ele como quem guarda uma memória antes mesmo de ela se tornar passado.

— Obrigada. — disse, apenas.

Thereon deu de ombros, recuando um passo.

— Mas amanhã... nada de atacar bonecos como se fossem monstros invisíveis, certo? Técnica antes de força. Você me promete?

Ela hesitou, depois sorri um sorriso bem inocente e gentil.

— Prometo.

*****

Você sente falta dele, Liz?