O Desfastio de Mara Dyer
21 Cena extra
— Por que ela não se mexe, mamãe? — Ani olha para minha barriga, que agora abriga uma Syrena de seis meses, um tanto chateada.
Acaricio seu cabelo, a maciez me reconfortando. Também fico chateada pela quietude da bebê, e muito preocupada.
— Não sei, querida. Outrora, quando era você quem estava no lugar dela, não havia sossego.
Ela sorri, sua janelinha bem na frente deixando-a tão fofa que minha vontade é de apertá-la para sempre.
— Eu já aprontava aí, não é mesmo? — Fazendo um carinho na minha barriga, Ani parece quase nostálgica.
— Sem dúvida. Você sempre fora muito bagunceira.
Ela me olha confusa por alguns segundos.
— Então a Syrena não é a minha irmã?
Rio e explico-a que Syrena é sim irmã dela.
— Ela apenas... não acordou ainda.
Ani considera a sério o que eu disse.
— E vai demorar para ela acordar?
— Não sei, anjinho. Espero que não.
Mesmo depois da conversa, Ani parece chateada. Ela apoia a cabeça sobre minha barriga e fica deitada, como se querendo ouvir a irmãzinha.
Lieben, oro aos céus, faça com que tudo esteja bem.
Ouço Noah sair do banho e olho para Ani. Ela está tão tristinha que nem fora atrás do pai. Ele passa pela cama que estamos deitadas e percebe que nossa garotinha não está bem.
Ele sussurra um o que houve para mim, bem baixinho, a compreensão sendo possível apenas porque li seus lábios. Respondo-o do mesmo modo, dizendo que Ani está chateada.
Ele senta ao nosso lado e apoia a cabeça na barriga de Ani, imitando a posição que ela e eu estamos. Segurando a minha mão, ele começa a cantar uma canção que não conheço. Uma música que diz para permanecermos firmes pois Noah está conosco, mesmo nas horas mais sombrias em que não lembremos mais das cores, da temperança, e só soubermos o que é medo. Fecho os olhos, apreciando sua voz, e sinto-me emocionada com o momento. Fico numa confusão de sensações, sentindo-me triste e aliviada, angustiada e viva. Afogo-me no poder das palavras e da voz de Noah, confortando-me com o apoio e o contato de minha família.
Sinto algo na minha barriga de repente, mas tenho a impressão que fora Ani se mexendo sobre ela.
— Mamãe?
— Sim, filha?
— Você sentiu isso?
Levanto minha cabeça do travesseiro.
— Isso o que?
— Acho que Syrena se mexeu.
Fico mais atenta e aguardo, Noah e Ani olhando fixamente para minha barriga junto a mim. Minutos se passam e nada acontece.
— Deve ter sido impressão — comento, desanimada, e preparo-me para deitar novamente, mas Ani me para.
— Espere. O papai parou de cantar. — Ela olha para ele e diz — Comece outra vez.
E ele começa.
E, para nossa absoluta surpresa, Syrena se mexe.
Enquanto Noah canta, ela se mexe o tempo todo.
Aperto a mão dele sobre minha barriga e Ani põe a dela também, entrando em contato com sua irmãzinha.
— É como se a voz do papai a encantasse. Como se ele fosse o Papai Noel e encantasse tudo ao redor dele.
— Como se ela fosse uma rena — sussurro, piscando para ela.
— É! Syrena, Rena... acho que podemos apelidá-la assim, mamãe.
— Não sei se ela vai gostar quando for mais velha.
— Ela terá de se habutuar — ela diz, e eu rio, corrigindo-a. — Habituar. Ela terá de se habituar. Eu sou a mais velha e uma das vantagens é poder apelidar os mais novos.
— Você está certa.
Ouvimos Noah cantar por vários minutos, até que decido ser o bastante. A essa hora, ele provavelmente está até com a garganta seca. No momento exato em que ele para de cantar, Rena para de se mexer, como se fosse realmente um encanto.
— Ela ama a sua voz — digo-o, acariciando seu queixo.
— Todos amam a minha voz — Noah pode ser tudo, menos modesto. — Mas...
— Mas? — Fico curiosa.
— Mas eu só amo vocês.
Ani sorri, banguela, e o beija na bochecha.
— Eu te amo também, papai, mas não só você. Tem a mamãe, a Rena, a titia, o tio Jamie, os tios Joseph e Daniel — ela vai contando nos dedinhos enquanto fala —, vovôs e vovós, e é claro, chocobate.
Nós rimos de sua conta amalucada e de seu erro.
— Você me ama mais ou menos do que o chocolate? — Noah pergunta.
Ela testa a palavra antes de dizê-la.
— Eu te amaria mais se não me fizesse escolher entre chocolate e você.
Noah a olha, espantado, e eu gargalho alto.
— E você, senhora Shaw — ele me olha de um jeito um tanto suspeito —, o que ama mais?
— Ah, — esnobo sua pergunta — essa é fácil.
— E o que é, então?
— O chocolate.
Ani ri tanto que nós somos levados a acompanhá-la. Quanto mais histérica sua risada fica, mais engraçada é.
— Fui trocado por chocolate — ele finge estar chateado.
— Não se preocupe, papai — Ani põe a mão na bochecha dele —, ainda amamos muito você.
Pego a mão de Noah e levo até meus lábios.
— Ela tem razão, amor. Nós ainda amamos muito você.
Ele sorri para nós duas e nos confidencia um segredo.
— Aposto que Rena não amará chocolate mais que a mim.
— Claro que não — ela bate palmas uma vez, como se tivesse solucionado um problema —, ela amará mais sovete.
Com lágrimas nos olhos de tanto rir, finalizamos uma tarde que se iniciara triste com muita risada e felicidade.
É isso que te espera, Syrena. Essa loucura intrinsecamente feliz, essa insanidade totalmente compartilhada, penso.
Você será muito amada aqui. Acredite, você já é.
FIM
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