O Desfastio de Mara Dyer
15 15
NOAH
Meus olhos voam de Mara para o papel, do papel para Mara, da expressão de Mara para sua barriga e então novamente para o papel.
Releio outra vez o texto.
INTERPRETAÇÃO DA SUSPEITA DE GRAVIDEZ
Valores do Beta-HCG
De 0 a 25: resultado negativo, porém gestantes na primeira ou segunda semana de gravidez podem apresentar valores ainda inferiores a 25, então recomenda-se esperar por mais 10 a 15 dias e se persistir o atraso menstrual repetir o exame.
De 25 a 100: são considerados positivos ou indeterminados (depende do laboratório), na maioria das vezes são considerados positivos. Na dúvida deve esperar por mais 10 a 15 dias e se o atraso menstrual persistir deve repetir o exame;
Acima de 100: resultado positivo.
VALOR DO BETA-HCG DA PACIENTE:
Meus olhos piscam e minha garganta se fecha antes de reler a frase final, a grande conclusão.
Olho para Mara de novo, seus olhos não desviando dos meus nem por um segundo. Seu cabelo ainda está bagunçado e o rosto brilhante com o suor, mas a energia que ela transmite é... inacreditável. Há tanta vivacidade nela que reflete até nos meus ossos.
Abaixando o olhar para o papel novamente, visualizo as palavrinhas decisivas.
VALOR DO BETA-HCG DA PACIENTE:
107 (cento e sete).
Cento e sete. Acima de cem.
Acima de cem é positivo.
— Você está grávida — sussurro, meu cérebro sentindo a necessidade de pôr as palavras que eram meros pensamentos em sons.
— Sim — ela abraça a barriga, não evitando que meu olhar caísse por sobre suas mãos trêmulas —, estou.
A barriga dela. Queria eu estar com os braços à sua volta.
— Grávida — pisco algumas vezes, se para garantir que tudo isso é real ou se é o melhor sonho da minha vida, eu não sei bem.
— Lieben dissera que nos enviaria um anjinho em breve.
A menção do nome do meu garoto me faz fraquejar, levando a força que outrora estava comigo para longe de minhas estruturas. Caio de joelhos no chão, abismado e chocado, encarando as minhas próprias mãos trêmulas.
Visualizo todas as crianças que conheço. Cada vez que pisco, vejo um rosto diferente. Meu sobrinho. Leila, filha de Warner. Eli. Chloe. Cleo. Fecho os olhos e demoro-me em sentir aquela estranha e aquecida sensação que sobe por minha barriga e estômago, inebriante e vivaz que sucede num sorriso por minha parte, pois finalmente sei. Finalmente sinto. Finalmente finalmente.
A melhor coisa que nunca esperei precisar tanto.
Sou pai.
Sou um felizardo e orgulhoso pai.
Mara ajoelha-se à minha frente e olha-me intensamente. Chego alguns centímetros à frente, aproximando-me dela, joelhos encontrando joelhos. Solto os braços que prendiam-se na barriga dela.
— Posso? — indico que quero tocá-la, tocá-los, apreciar este contato tão esplendorosamente quanto desejo e necessito.
Como resposta, ela puxa meus pulsos em direção à sua barriga e fixo as palmas de minhas mãos paralelas uma a outra na altura do umbigo dela, suas mãos sobre as minhas.
Ainda não há volume algum, mas fecho os olhos e umedeço os lábios, concentrando-me. Sinto o hálito cálido de Mara encontrar as pontas de meus dedos. Sinto o coração dela bater contra minhas mãos. Rápido rápido e mais rápido. Atraindo-me rápido e puxando-me em sua direção rápido e acabando com minha concentração mais rápido.
Pendo minha cabeça para frente, minha testa encontrando a pele morna que abriga sua clavícula, as mãos dela, outrora livres e pendendo ao seu lado agora presas em minha nuca. Fico à vontade nesta bolha de calor e segurança e suspiro, entrando em harmonia com os batimentos de Mara e me focando para ouvir o que quero tanto escutar.
Meus ouvidos separam as notas do coração de Mara, disfragmentando o tum-tum em algo mais alto, mais espaçado e com mais sílabas, tornando-o mais um tu-um-tu-tu-um que revela algo no meio do som, como se estivesse no hífen entre as notas.
Não chega a ser uma batida. Está mais para um suspiro fraco e baixo, tranquilo e seguro, embora seja rápido, como se correndo para formar cada pequena e preciosa parte de seu corpinho. Uma confirmação. O check-in direto da barriga de Mara para meu coração atônito.
Meu bebê — nosso bebê está aqui. Posso ouvir seu pequeno coração.
— Você está grávida — repito, um soluço, uma benção, uma exclamação baixa e intensa.
Ela levanta minha cabeça o suficiente apenas para que meus olhos se tornassem visíveis. As lágrimas felizes deslizam de meus olhos, indo para minhas bochechas, e Mara as enxuga com as pontas dos dedos. Deito no seu colo de modo que minha cabeça descanse sobre sua barriga e abraço sua cintura, firmando-me nela, entrelaçando-me nela e em nosso filho. Embalando-me nela, seus braços me rodeando e suas pernas me apertando, unindo-nos em corpo e mente numa escala elementar impossível de ser enumerada, limitada e finita.
— Posso ouvi-lo — Sussurro no que pode ser um minuto, uma hora, um dia depois. —, posso ouvir seu pequeno coração.
Mara sorri de olhos fechados e acaricia minhas costas, suas feições num estado de compleição que só poderia batizar de desfastio.
— Ele será o melhor desenho que eu poderia fazer. Nossa melhor obra de arte.
— Nossa obra prima. É claro que será nossa melhor obra — sorrio presunçosamente em seu colo —, ele uniu nossos moldes para transformar-se em uma combinação de nós.
A gargalhada dela faz meu coração acelerar. Ainda focado naquele mais novo batimento, ouço uma leve agitação nele também.
— Sabe, tenho certeza que nosso anjinho está nos ouvindo agora mesmo.
— A ciência já não comprovara que isto é verídico? — Mesmo caçoando-me, vejo seus olhos ficarem assombrados com a perspectiva de já sermos três e estarmos sincronizados harmoniosamente.
— Já fora comprovado, mas todo cientista gosta de ver para crer. E agora eu estou vendo. Estou sentindo. — inspiro o cheiro de Mara e beijo o abdômen dela, respondendo ao desejo de querer dar todo o carinho possível a nosso pequeno anjo. — Se aconchegue aí, criança. Serão longos nove meses.
— Sete. Ele já se aconchegou há dois meses e algumas semanas.
— Tenho inveja de você, meu bebê. Quisera eu poder ficar tanto tempo dentro da sua mãe — ela me dá um tapa e sorri, radiante. Pensando no que Mara dissera, digo — Se ele está com dois, então isso quer dizer que ainda estamos na terrível fase de perigo dos primeiros três meses.
Não pergunto, mas ela acena, confirmando.
Suspiro e abraço-a com mais força, transmitindo para ambos, bebê e Mara, que não sairei de perto deles de modo algum e não permitirei que eles se afastem de mim também. Nunca.
— Nós vamos conseguir — conforta-me ela —, Lieben está cuidando de nós.
Fecho os olhos, contendo as lágrimas, e sussurro baixinho um agradecimento a ele, nosso filho, nosso anjo.
É uma grande responsabilidade a sua, meu filho. Estou muito grato. Estou muito feliz, e ficarei ainda mais quando estiver com seu irmão em meus braços. Mas nunca, em hipótese alguma, deixarei de sentir sua falta. Ou de te amar. Aprendi, ao longo dessas três décadas décadas de vida, que poucas coisas são, de fato, impossíveis. Posso contá-las nos dedos, Lieben. E deixar de te amar está entre elas. Não posso esperar pelo dia em que iremos nos encontrar, apesar de não estar ansioso para morrer — tenho que cuidar de sua mãe, agora de seu irmão; sua tia e seu priminho merecem minha atenção também. Sei que você compreende. E isso só me faz amá-lo mais e mais.
Oro silenciosamente para que ele fique bem, contudo Mara fala comigo, tirando-me de meu devaneio.
— Qual sexo você acha que é? — os dedos dela estão sobre os meus. Antes de respondê-la, despeço-me de Lieben. Conversar com ele se tornou um costume, um dos poucos hábitos que gosto verdadeiramente de ter.
— Um menino, talvez? — Jogo para ela, mas não me importo com o sexo. Só espero que seja uma criança saudável. — Quero ensinar minhas técnicas de sedução para ele.
— Técnicas de sedução com meu pobre menino? Nem pensar — Mara me encara um tanto indignada por alguns segundos —, seria ótimo se nós tivéssemos uma menina, assim você pagaria sua língua. Sem contar que vingaria todo ódio de suas exs.
— Minhas exs não me odeiam. Elas me amam. Por isso são tão loucas a meu respeito. E — pisco para ela — ensinarei técnicas de sedução mesmo se for menina.
Ela me olha, intrigada.
— Será divertido vê-la destruir todos os corações dos bastardos que não a merecerem.
— Você é podre.
— E você me ama.
Ela sorri.
— Amo mesmo.
— Bem, eu também amo você. Eu amo vocês. Ouviu, bebê? — curvo-me para mais perto, tentando me fazer audível.
— Será que ela gostará de nós?
Ergo uma sobrancelha, achando curioso o ela usado na frase, como se já fosse definitivo.
— De você eu não sei, Mara, mas se for realmente uma menina, você sabe que eu serei o grande amor da vida dela.
— Durante cinco anos. Ela superará muito bem o complexo de Édipo.
Viro os olhos.
— Você sabe que não gosto das teorias de Freud — recrimino sua referência a ele —, e não se esqueça que estamos falando de mim, Noah Shaw E Meu Poder Irresistível Sobre As Mulheres.
— Esse é seu nome completo? Noah Shaw E Meu Poder Irresistível Sobre As Mulheres?
— Está mais para um livro que você escreverá sobre mim. Você poderá colocar relatos sobre meu charme, chamar algumas mulheres para depor, sabe, torná-lo uma verdadeira descrição de minha pessoa maravilhosa.
Mara gargalha e debruço-me em seu calor.
— Maravilhoso é só o seu ego, Shaw. Tomara que minha filha não o herde de você.
— Mas essa é a característica que passamos de geração à geração. Ela é especial.
— Nem sua modéstia. Tomara que ela não tenha sua modéstia — Mara continua.
— Isso, definitivamente, ela não terá.
Minha esposa pisca, surpresa, e questiona.
— Ah, é? E por que seria?
— Não posso passar a ela algo que não existe em mim.
É a vez dela revirar os olhos.
— De fato.
Beijo seu umbigo e respiro fundo, ficando sério.
— Ela pode ter qualquer característica possível e ainda assim será perfeita para mim, senhora Shaw.
— Sei. Jogarei essa frase na sua cara daqui alguns anos, durante a puberdade dela.
Bufo, gozando de seu argumento.
— É melhor você tatuar isso, sabe, pois nesta época você estará velha e não se lembrará de fazer isso.
Mara fuzila-me com os olhos.
— Pois eu aposto que me lembrarei.
A proposta me interessa no mesmo segundo em que sai da boca dela. Umedeço os lábios, preparando-me para uma grande oportunidade.
— Você aposta o quê?
— O que você quiser.
— É uma resposta perigosa, Mara. Você tem certeza?
— Absoluta.
Pego a mão dela e a aperto na minha, saboreando cada segundo.
— Está apostado. E, com Deus, Lieben e nosso bebê como testemunhas, Mara, cobrarei isso de você. E pensarei com muito carinho no que vou querer quando você perder.
— Tá bom, tudo certo — ela menospreza o que digo, dando como certo a vitória dela —, enquanto você pensa com carinho em algo que não acontecerá porque eu vou ganhar, quero fazer uma tatuagem.
Olho-a, surpreso.
— Tudo bem. Aonde você quer ir?
Ela se solta de mim e sai do quarto. Aguardo estupefato seu retorno e fico mais confuso ainda quando ela volta com um cartão na mão.
O cartão de Anya.
— Você quer ir para a Rússia apenas para fazer uma tatuagem?
— Sim.
— E por que não fazer em um estúdio de tatuagem daqui de Miami?
— Porque este é o meu primeiro desejo e você deve me ajudar a cumpri-lo.
Rio de sua desculpa, inconformado com tamanha barganha.
— Pensei que os desejos fossem só por comida.
— Pensou errado.
Sorrio mais uma vez e concordo, querendo agradá-la e curtir mais este clima entre nós. Depois de tudo o que David fizera, cheguei a cogitar que nós dois nunca teríamos esse aspecto de nossa relação de volta.
Fico feliz por ter me mostrado errado também desta vez.
— Noah — Mara está em pé a minha frente, encarando-me com olhos muito castanhos.
— Sim?
— Preciso que você atenda um desejo meu que não pode esperar e só você pode me ajudar a obtê-lo.
— E o que seria?
— Preciso tomar um banho. Você pode imaginar como desmontar essa cama me deixou. E devo cobrar aquela proposta de abuso de mais cedo.
Meus olhos se tornam fendas desconfiadas.
— E por que você precisa de mim no banho?
Ela dá de ombros.
— Para lavar minhas costas. Para depois me pôr de costas contra a parede do box. E talvez, depois, não sei... as chances são muitas, as possibilidades infinitas. Muita coisa pode acontecer durante um banho, principalmente com meus hormônios loucos como estão. Afinal, algo me diz que este calor todo que estou sentindo não é apenas por causa da temperatura, sabe?
Levanto-me imediatamente, sem que ela precise insistir, e caminho rápido para o banheiro, tirando minha roupa no caminho e abrindo o jato morno de água.
— Você vem? — Pergunto-a.
E Mara Shaw, minha mulher e mãe de meus filhos, caminha feliz até o box, junto à mim, como assim prometemos a algumas testemunhas um tempo atrás. Sempre juntos. Sempre nos amando. Sempre nos querendo. Sempre achando que sempre nunca será suficiente para nós dois, mas agarrando a chance de tê-lo com toda a garra possível.
Sempre.
— Sempre — Mara responde, em sintonia com meus pensamentos.
Fale com o autor