Capítulo 16 — Monstro

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Akemi se contorceu e pôs a mão no peito quando uma súbita dor a atingiu.

–É melhor você ir — ela disse, sem nem conseguir abrir os olhos — Eu não tenho mais salvação.

–Espera — Aya não estava mais se importando nem entendendo mais nada — Como assim você não tem mais salvação?!

–Parece que o Kyubey não te explicou sobre a Jóia da alma, não é? — Akemi falava com dificuldade. — Quando fazemos um contrato com ele, nossas almas são tiradas do nosso corpo e colocadas em... recipientes. Esse bracelete que você tem no braço — ela apontou — é a sua alma. Nunca se separe dele.

Aya olhou para sua “alma”. Algo como um líquido claro era o que havia dentro do bracelete.

–E a sua alma, Akemi? É um bracelete também?

A garota baixou os olhos, olhando para um anel em seu dedo. Diferente da alma de Aya, a dela estava coberta pela escuridão, com apenas um ponto de luz no centro do anel.

Aquela escuridão não parecia significar algo bom, Aya imaginou com medo. Ela não importava em ter sua alma transformada nisso, não se importava em ter que lutar com bruxas pelo resto de sua vida. Ela só queria ficar ao lado de Akemi.

–E sabe o que acontece assim que esse último ponto de luz for corrompido pelas trevas? — Akemi perguntou, fazendo o coração de Aya latejar de tremor. — Eu me torno uma bruxa.

Aya escorregou para trás, suas mãos enterrando-se dentro da areia. Faça alguma coisa, faça alguma coisa!, algo dentro dela gritava.

Akemi contorceu-se mais uma vez.

–Vá embora, agora! — ela gritou, lançando com seu báculo um vento que foi capaz de tirar Aya de perto dela.

Foi então que o caos finalmente veio.

Aquela não era uma praia do mundo real, era apenas uma cópia projetada no mundo das garotas mágicas. E Aya percebeu isso quando toda a luz, todo o calor do céu, foram roubados pela escuridão.

Aya viu com horror sua melhor amiga se transformar num monstro.

Uma figura gigante, coberta com algo que se parecia lodo endurecido, levantou-se do chão e agitou os enormes braços no ar. Ele não tinha olhos, nem nariz ou boca. Akemi agora era um monstro.

Aya fechou os olhos como se não suportasse mais ver nada daquilo. Ela tinha que transformar-se em garota mágica. Bastou ela pensar nisso com toda a força de sua alma que um calor e uma luz a envolveram. Suas roupas ganharam uma nova cor, um novo estilo. Um vestido substituiu seu uniforme escolar e botas ocuparam o lugar de suas cotidianas longas meias. Um arco e flecha dourado repousou sobre sua mão.

Não havia mais tempo para o medo.

Era hora de fazer alguma coisa.

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Capítulo 17 — O Fim

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Fugindo dos ataques do guarda-chuva negro, Aya se lembrava cada vez mais de seu sonho — o sonho em que eram ambas que estavam desde o início. Quando os espinhos a atingiam ela não sentia dor, quando sangue jorrava de seus braços ou pernas, era como se não houvesse sangue ali, apenas um líquido qualquer que não fazia mais de seu corpo.

Tudo acabaria assim então? Aya via todo seu passado diante de seus olhos e por mais que soubesse que Akemi tinha se tornado uma bruxa e era seu papel destruí-la, a garota não conseguia atacar sua melhor amiga.

–Tudo isso é minha culpa — ela sussurrou tão baixinho que as palavras se perderam depressa naquela escuridão.

Ela tinha o arco apontado diretamente para Akemi, no entanto, não era capaz de lançar a flecha. Quando a figura gigante de Akemi juntou os guardas chuvas para formar um só, Aya sabia o que viria em seguida.

Seria o fim dela.

Como se quisesse mudar seu sonho — criar um novo final — Aya afastou-se depressa e lutou para pensar numa maneira de salvar a amiga. Depois que uma bruxa morresse, para onde ela iria? Uma guerreira mágica transformada em bruxa. Elas mereciam uma recompensa no final, algo que dissesse a elas que todas as batalhas que enfrentaram não foram em vãos.

A felicidade eterna.

Só podia ser isso.

O arco e flecha tremeu nas mãos de Aya. Ela tinha que matar a amiga, tinha que devolver a felicidade para ela. Afinal, não foi para isso que ela se tornou uma garota mágica?

Por mais que ela soubesse que era essa a escolha que tinha que tomar, por que algo dentro dela doía tanto?!

No momento em que os olhos de Aya se encheram pelo horror de ver Akemi preparando-se para lançar o golpe final para destruí-la, foi uma voz que gritou desesperada dentro dela:

–Salve sua amiga!

No mesmo instante em que ela lançou a flecha e esta acertou a figura de Akemi, os espinhos caíram sobre Aya numa força tão grande que a derrubaram no chão.

A explosão em seguida foi tão forte que Aya, sem forças, só conseguiu fechar os olhos.

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Capítulo 18 — Vazio

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Ela encarava a suave fumaça que saía da xícara de chá a sua frente sem nem sequer piscar. O mundo dela se resumia àquele objeto, àquela única lembrança que sobrara de sua melhor amiga.

Aya Hirano se tornara uma guerreira mágica por ela. Mas agora, num descuido, sua amiga se foi, se tornando mais uma desaparecida no mundo real.

Suas próprias mãos tiraram a vida de sua melhor amiga.

Ela conseguiu realizar seu desejo, mas, e agora?! Não tinha mais sentido ela ser uma garota mágica e, olhando para o bracelete em seu braço, se aquilo era agora sua alma, consciência, essência, mente, ou o que quer que fosse; seu corpo não passava de uma casca vazia. Não tinha sentido ela continuar a fingir que vivia aquela vida de estudante normal.

Kyubey. Era ele quem ela precisava encontrar. Se o que a criatura lhe disse uma vez fosse verdade, ela fechou os olhos e chamou por ele. No minuto seguinte, comprovando suas palavras, a figura coelho-gato estava em sua frente.

–Vejo que conseguiu realizar seu desejo.

Aya não sorriu, não demonstrou nada.

– Kyubey — ela começou. Seus punhos estavam tão cerrados que suas unhas deixavam marcas em suas mãos — Existe a possibilidade de eu mudar meu desejo, ou fazer um novo contrato com você? Uma chance de voltar no tempo e mudar o que aconteceu. É só isso que eu quero.

A criatura ficou muda um instante.

–Se eu já tenho a sua alma, o que mais você teria a oferecer por este desejo seu?

Aya o encarou. Ela já tinha a resposta para isso.

–O que mais você precisa? Um coração, um corpo capaz de controlar? Escolha o que você quiser, desde que eu possa ter esse desejo meu realizado.

–Eu já tenho o que preciso. Você não tem mais nada a me oferecer.

Alguma coisa se partiu dentro da garota.

–Mas... — ela pensou com cuidado — Você diz ter minha alma, mas ela continua aqui comigo. Esperar até que eu me torne uma bruxa para só depois tomar posse de mais uma Joia da alma corrompida. É por isso que você ainda vem ao meu encontro, não é? Mas e se então, Kyubey, eu lhe entregasse minha alma agora em troca de conseguir ir até onde Akemi está? Uma joia da alma não corrompida deve ser mais útil para você, não?

–Tem ideia do que está me pedindo? — pela primeira vez o animal mostrou-se ser mais que uma simples criatura sem emoções de outro mundo.

–Não importa. Só me leve até ela.

–Trocar toda a sua existência para encontrar essa garota. É isso mesmo que você quer?

–Sim.

–De fato — Kyubey ponderou. Parecia ser a primeira vez que alguém lhe propunha isso — Uma alma de uma garota mágica que não foi corrompida nenhuma vez pelo rancor das bruxas é algo que glorificaria minha espécie.

Aya nada respondeu, esperando-o continuar.

–Sua alma de garota mágica é o que preciso. Seu espírito será a única parte que lhe restará. Nunca mais você estará completa, Aya. Toda a sua existência neste planeta será apagada, você não poderá renascer e vagará eternamente pelo infinito. É isso mesmo que você quer? Está preparada para encarar sua escolha?!

Ela pensou por um segundo em seus pais e em todos que um dia fizeram parte de sua vida. Aquele mundo não precisava dela — e ela não tinha mais motivos para continuar nele.

–Eu quero encontrar Akemi. Se é assim que poderei ir até onde ela está, estou preparada. Essa é a minha escolha.

A cor dos olhos de Kyubey, num vermelho tão vivo como Aya jamais vira, foi a última coisa que a garota presenciou antes de ter sua alma tomada e toda a sua existência apagada.

Um corpo invisível. Essa era sua nova forma.

Eu estou indo, Akemi.”

Essas foram suas últimas palavras antes de seguir para o infinito.

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FIM

Notas finais
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