O Desaparecido
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Nádia acordou quando a cabeça de Sebastian escorregou de seu ombro. Tinha dormido durante seu turno? Não sabia, mas Arthur estava acordado, olhando para a janela da casa abandonada. Ele suspirou,por fim, como se pensasse em algo ruim, e se virou, percebendo que Nádia estava acordada. Sebastian se remexeu, enquanto sua cabeça se pousava sobre o seio esquerdo de Nádia.
– Ele parece um bebê – Arthur sorriu.
– Ele é um bebê – Nádia o corrigiu, enquanto passava os dedos sobre os cabelos louros de Sebastian.
Arthur soltou uma risada fraca, enquanto se sentava ao lado de Victoria. A menina dormia delicadamente sobre a mochila de Arthur, enquanto ele acariciava os cabelos dela. Ficaram em silêncio por alguns segundos, até que Arthur resolveu quebrá-lo.
– Somos muito parecidos, sabia? – ele perguntou.
– Como assim?
– Eu e você, somos mais quietos e mais briguentos que esses dois. Ele são mais calmos e amigáveis.
– Pra mim você parece muito amigável.
– O namoro muda muito uma pessoa. – Arthur sorriu, olhando para Victoria – No começo eu brigava com qualquer um que ficasse olhando para mim e para ela, enquanto namorávamos. Mas a medida que passei o tempo com Victoria, ela me mostrou como ser simpático e eu comecei a perceber que os outros não ficavam nos encarando, e sim ficavam olhando com fascínio. Victoria é uma garota um tanto imatura, mas era muito mais quando começamos a namorar, uma verdadeira criança. Eu percebi que ela mudava a cada dia. Ainda é infantil, mas esse é o jeito dela, e eu gosto dessa inocência. Sebastian também é muito infantil, mas com certeza você não mudaria isso nele.
– Por que está falando assim, como se eu e o Sebastian fôssemos um casal?
– Porque eu pensei que fossem – Arthur a encarou – Nádia, por favor, é evidente que ele gosta de você. E até agora você não disse nada contra isso.
– E também não disse que gosto dele.
– Dá pra ver que você gosta. – Arthur parecia irritado. – Pare de ficar fingindo. Quase estraguei meu namoro com a Victoria por causa disso.
– Não gosto de casais apaixonados. – Nádia trinco os dentes – E eu não vou ser um casal apaixonado.
Eu também não gosto muito de casais apaixonados, costumam ser melosos e muito irritantes. Quer dizer, não é algo pessoal, mas eu nunca tive uma namorada e isso me irrita. Normalmente meus colegas me convidam pra ir aos churrascos, mas sempre que chego lá vejo as mulheres deles e... Ah, não gosto. Além, é claro, daqueles casais que praticamente se comem em praça pública, aquilo é falta de respeito e de ética. Pelo amor de Zeus, vamos continuar...
Arthur piscou para Nádia, enquanto acordava gentilmente Victoria. Nádia olhou para Sebastian, com a cabeça em seu seio esquerdo. Suspirou, enquanto cutucava sua cabeça. Ele acordou sonolentamente, mas acordou. Olhou em volta e coçou os olhos, tirando a remela do canto.
– Bom dia, Sebastian – Arthur cumprimentou-o.
– Bom dia... – Sebastian respondeu, bocejando. – Desculpa por usar seu ombro como travesseiro – ele sorriu sem jeito para Nádia.
– Tudo bem. – ela suspirou.
Arthur soltou uma risada fraca, fazendo com que Nádia se enchesse de raiva. Suas bochechas ficaram vermelhas, mas ela não emitiu nada. Arthur envolveu sua namorada e começaram a trocar juras de amor eterno. Blé, tanta merda para nada... Nádia se levantou, colocando a mochila no ombro e arrumando a camiseta amassada. Pegou a foice e a expandiu, observando-a á luz da manhã. Por um segundo apenas se sentiu com uma vontade extrema de decapitar alguém, mas voltou ao normal quando sentiu o raio solar atingir sua face.
Ela tentou escapar, mas foi impossível. Por fim, a névoa se soltou do ar e se uniu, formando uma mensagem de Íris.
– Olá, gatinha! – Apolo sorriu quase que feliz da vida.
– Apolo! – Victoria exclamou, e só então Nádia percebeu que ela ainda não tinha conversado com Apolo. – Você aqui!
– Sim, sim – Apolo lançou um olhar sedutor para Victoria – E ai, lindinha?
Arthur se mostrou muito ciumento, porém Apolo já tinha virado a atenção para Nádia, novamente. Por alguma razão, Nádia sabia que ele só tinha vindo por causa dela.
– Pois bem, como vai a missão?
– Você é o deus do Sol, sabe de tudo. – Sebastian murmurou – Não precisa vir aqui pegar um relatório.
– O que é isso, irmãozinho? – Apolo mostrou-se irritado – Eu estou falando com a gatinha, não com você. E ai, Nádia Hana, está se saindo bem? Percebi que conseguiu uma alma.
– Sim... – Nádia cerrou os punhos. Matar monstros era diferente de matar pessoas inocentes.
– Mas não é sobre isso que eu vim falar. Eu vim falar sobre algo que está acontecendo no mundo inteiro.
– O que?
– O Aquecimento Global! – Apolo ergueu o punho – Sabiam que colocam a culpa em mim?
– Fala sério... – Nádia suspiram cruzando os braços.
– É brincadeirinha. No mundo inteiro todas a vinhas estão secando, as uvas murchando e as marcas milionárias de vinho falindo. Não se sabe, mas o vinho está sumindo. E isso se dá, é claro, por causa do sumiço de Dionísio. Ou seja, se até o Solstício de Verão vocês não conseguirem achá-lo, o vinho do mundo sumirá.
– Isso não é algo tão ruim – Nádia deu de ombros.
– E a alegria, as festas e o barulho. Não haverá alegria. – Apolo parece mais urgente agora. – O mundo ficará triste!
Nádia suspirou, passando a mão sobre a névoa.
– Sério isso? – ela perguntou. – Olha, que coisa sem sentido. Por que vamos continuar com isso? Quem se importa com Dionísio?
Arthur se mexeu, desconfortável, colocando o peso de um pé para outro. Victoria o abraçou e então soltou um longo murmúrio de “Ah, eu odeio ela”.
– Nádia, as coisas são mais complicadas do que você pensa... – Sebastian a toca no ombro. – E às vezes você se fecha tanto que só pensa em você mesma. Mas todos aqui do lado de fora sabem a grandeza das suas ações. Não vamos abandonar agora o Senhor D. E você não vai fugir.
– E você, quem é pra mandar em mim?
– Não estou mandando, estou pedindo. Por favor, não me deixe aqui.
– Te deixar? Você tem Arthur e Victoria.
– Ah, que droga, você é tão mesquinha... – Sebastian a empurra de leve. – Vamos continuar, já é de manhã e precisamos partir!
Sebastian colocou a mochila nas costas e então pulou a janela da casa, com Arthur logo atrás. Victoria precisou da ajuda do namorado, por isso Nádia ficou por último. Olhando para trás, ela guardou a foice no bolso, em formato de miniatura, e pulou a janela. Porém algo já a esperava do lado de fora. Não tinha ouvido nada, mas Arthur e Sebastian já batalhavam contra um Minotauro. Victoria, como sempre, tinha sua adaga em mãos, mas tremia. Sebastian estava sem armas, pois seu arco tinha ficado com Nádia, mas suas asas estavam abertas e ele voava um pouco acima do nível do chão. Parecia distrair o monstro enquanto Arthur preparava o revólver.
– São balas normais, não vai ferir o monstro – Arthur gritou.
– Deixe que eu distraio ele. Tente, de qualquer forma.
O Minotauro era dez vezes maior que Arthur e umas trinta vezes mais largo. Usava uma fralda tamanho Extra GGG e um martelo na mão esquerda, um machado na mão direita. Seus dentes eram do tamanho da mão de Nádia e seus cascos eram cem vezes maiores que cascos normais.
Ele mugiu. Sim, mugir, como uma vaca. Estava bravo com eles.
– Eu to indo – Nádia retira foice do bolso, já expandindo-a. – Tome isso.
Num piscar de olhos, ela tinha se tornado uma matadora, a benção de Bia.
O Minotauro explodiu em pó. Ninguém pôde ver direito o que houve, nem mesmo eu, mas consegui deslumbrar a foice de Nádia sendo lançada contra o peito do homem-touro.
Arthur e Sebastian agradeceram pela ajuda, claro depois de Nádia ter se recuperado. Victoria, que por enquanto só tremia, correu para abraçar o namorado, e Sebastian sorriu para Nádia.
– Obrigado. – falou. – Obrigado por não ter morrido.
– Não vou morrer pelos próximos cinquenta anos – Nádia o interrompe.
– Ah, claro. – ele concorda, meio desanimado.
Pobre Nádia, nunca poderá entender uma indireta...
Continuam a viagem a pé, já que, mesmo em uma cidade pequena e abandonada, havia u aeroporto mais no lado nobre, onde o povo rico ainda morava. Talvez os pobres tivesse morrido de tanto trabalhar. Mas isso é outra história, nos contentemos com essa.
O aeroporto estava quase vazio, tirando os funcionários e os mendigos. Nádia estava indo para o balcão de embarque, quando um apito soou pelo aeroporto e na televisão maior do local a foto deles apareceu.
Procurados, adolescentes entre quinze anos, roubam carros e são agressivos.
Nádia se virou para os outros.
– Ótimo, somos procurados. – Arthur sorriu.
– Vamos, vamos! – Arthur os chamou, enquanto já arrombava a porta de um carro estacionado. Era um Corolla 98.
Eles entraram no carro. Sebastian no banco da frente, Arthur no banco do acompanhante e as meninas atrás.
– Vamos assim mesmo. – Arthur comenta, sorridente – Eu sempre quis ser um fugitivo!
– É emocionante – concordou Nádia.
– É doentio – reclamou Victoria.
Victoria estava apavorada desde o Minotauro e por isso Arthur trocou de lugar com Nádia. No banco da frente, ela tentava ignorar Sebastian. As palavras de Arthur ecoavam por sua mente: Ele gosta de você. E então outra voz lhe chamou Quando descobrir quem ama, ele morrerá, na frente dos seus olhos. Um arrepio tomou-lhe o corpo inteiro. Algo em seu consciente dizia que não poderia nunca amar Sebastian pois ele morreria. Decidiu, então, dar fim naquilo. Quando Arthur falasse de novo, ela negaria. Quando Sebastian tentasse lhe acariciar, ela recusaria. Iria ficar longe deles até o final da missão.
Suspirou, afundando no banco, olhando pela janela a estrada passar. De pouco em pouco seus olhos fechavam. Quando estava quase dormindo, sentiu algo quente sobre sua mão, algo aconchegante. Então um dedão fez círculos em sua mão, e ela percebeu que era Sebastian a segurar-lhe e acariciar-lhe.
Suspirou novamente, afundando mais ainda e retribuindo a carícia.
Antes de dormir, a última coisa que viu foi a placa do lado de fora da janela, na estrada, indicando a Rodovia IO-2
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