Notas iniciais
Feito por Mellyne Saboia

A Luta

E somente ela

O Acampamento estava iluminado por tochas e o fogo na fogueira do refeitório ardia em um tom de azul safira. Os campistas comiam e conversavam alto, enquanto Senhora M e Elizabeth estavam sentadas na grande mesa do Conselho, com os sátiros do Conselho do Casco Fendido e as dríades do Conselho do Rio Molhado. Elizabeth era a Conselheira Chefe de todos os campistas. Quando Dionísio que todos estavam comendo e rindo, correu em direção a mesa, onde se sentou e logo estalou os dedos, fazendo um prato de comida aparecer na frente de seu nariz.

Ninguém percebeu sua existência, até que uma menina do Chalé 11 exclamou vendo o corpo frágil e desengonçado de Nádia vindo em direção ao refeitório. Era Jessica, e ela veio correndo até Nádia, abraçou-a e a levou até um banco numa mesa quase vazia.

– O que houve, Nádia? – a menina desembuchou as palavras – Você está acabada!

– Não fique brava, ele não colocou por querer... – Nádia sussurrou, com suas forças na garganta.

– O quê? Quem não colocou por querer?

– Ele não sabia que a cama era sua... – Nádia sorriu – É um idiota, não?

Jessica acenou, pedindo ajuda. Nádia foi colocada no lombo de Senhora M e levada para a Casa Grande, onde Elizabeth tratou de cuidar de seus ferimentos, de seu pulso quebrado e lhe dar ambrósia misturada com néctar. Embora já estivesse em casa, longe de qualquer perigo, Nádia sabia que sua missão ainda não estava terminada. O filho de Dionísio, Roxana, estava do lado de fora daquelas fronteiras, em algum lugar, talvez fazendo Victoria sofrer, talvez torturando a alma de Sebastian. A única coisa que sabia era que não tinha como correr. Quando acordou na manhã seguinte, viu pelo canto do olho que tinha visitas.

Era Dionísio. Ele sorria, enquanto lia uma revista sobre vinhos brancos. Ao perceber que ela estava acordada, Dionísio fechou a revista e a ajudou a se sentar.

– Como está, criança?

– Cansada... – Nádia riu fraco, passando a mão pelo rosto e sentindo o inchaço na maçã do rosto.

–Você caiu da cama durante a noite. – Dionísio explicou – Não se preocupe, nada que um bom descanso não tire.

– E os outros?

– Que outros?

– Os que foram na missão comigo. – ela piscou.

– Arthur está morto, Victoria recebeu uma benção de usa mãe, que a levou para o Cassino Lótus. Não se preocupe com eles, Arthur está no Elísio por meu pedido e Victoria está esquecendo de toda a tristeza num lugar onde ela será feliz para sempre.

– E Sebastian?

– O que tem Sebastian? – Dionísio ergueu as sobrancelhas.

– Ele... Eu o deixei naquela rodovia... – Nádia pressionou a testa, sentindo uma dor alucinante bem no lado direito.

– Sebastian já estava morto muito antes de você tê-lo pego. Quando uma pessoa perde a alma, não há nada que lhe faça voltar ao normal. A loucura é algo que eu posso resolver, mas a perda da alma é muito mais complexo. Os deuses não conseguem lidar com coisas assim. A alma de Sebastian está nos Campos de Hades, não no Elísio. O corpo dele não passa de uma gelatina dura. – piscou Dionísio. – Ele não existe mais.

– Mas o corpo dele, onde o corpo dele está?

– Na rodovia, onde mais? – o deus colocou os pés para cima, e no mesmo instante ramos invadiram a janela do quarto e lhe serviram de apoio.

Nádia tirou as cobertas de cima de seu corpo e calçou o chinelo que estava ao lado de sua cama. Afundou a mão no bolso, sentindo a foice presente na bermuda e então deu um último adeus para Dionísio, correndo pelo corredor da Casa Grande e sem se importar com Elizabeth ou os outros que tentavam lhe impedir.

Pensou muito antes de tomar a decisão de quem usar para chegar até a Carolina do Sul. Durante aquela chuva ardente, no começo da semana, Nádia tinha conseguido controlar seu pégaso até os estábulos e então ajudou Hanna, Sebastian, Lucy e Cecília a pousar com segurança.

Hanna! Sua mente disparou, enquanto seu próprio corpo disparava para o chalé de Hipnos. Não pensou duas vezes antes de invadir o chalé e pular sobre a cama de Hanna (que ela pensou ser de Hanna, já que havia fotos dela e da família). O corpo por baixo de Nádia resmungou, enquanto acordava.

– Hanna, acorde agora. – Nádia mandou. – Você precisa me levar para uma rodovia.

Hanna prendeu a mão nas rédeas do pégaso. Tirá-la da cama foi bem difícil, mas era ainda mais difícil manter a boca dela fechada, que toda hora disparava uma nova pergunta de como tinha sido a missão.

– Preciso ir para a Carolina do Norte. Rodovia IO-2.

– Certo. – Hanna concordou com um aceno de cabeça – Que ponto da rodovia?

– Não sei. É onde tem um portal e uma árvore bem grande.

Hanna concordou e bateu nas costelas do pégaso com os arreios. O cavalo-pássaro saltou em vôo, indo para cima e depois para o sul. Hanna olhou para baixo, vendo o Acampamento. O pontilhão de mesas do refeitório, o Anfiteatro. Até a parede de escalada com lava parecia ser em miniatura. O rio de canoagem e as forjas ficavam para trás, enquanto elas voavam em direção a Roxana e seu pequeno prêmio, Sebastian.

Enquanto absorvia tudo, Nádia abraçava a cintura de Hanna e encostava a cabeça em seu ombro. Sem reclamar, Hanna continuou a dirigir o pégaso. Sabia que a amiga estava cansada, por mais que tivesse descansado por um dia, precisaria de pelo menos uns cinco para voltar a antiga forma. O pégaso era forte e rápido, em menos de uma hora elas sobrevoavam a rodovia IO-2. Quando viu o arco e a árvore, Nádia indicou o local de pouso, e Hanna obedeceu.

As duas desceram do animal, que começou a pastar pelo mato. Hanna não tinha armas, mas Nádia não precisaria colocá-la no meio do fogo, pois queria resolver aquilo sozinha. A única coisa a fazer antes de mandar Hanna ir embora, era se assegurar que Sebastian estivesse a salvo.

– Sabia que voltaria. – a voz do fazendeiro foi ouvida de longe.

Nádia tirou a foice do bolso e a expandiu, segurando-a com as duas mãos, já sentindo a adrenalina subir para os ouvidos. Enquanto corria, empurrando Hanna para trás, ela procurou por Roxana. Ele estava ao lado do portal, com os braços cruzados. Sorria, enquanto batia o pé no compasso da música que rolava no ar.

Os pés estavam ao lado de um braço. Um braço ensangüentado. Os cabelos louros unidos a lama, os pés descalços. Ela estava desacordado. Roxana riu quando percebeu o olhar de Nádia. Ele se ajoelhou, pegou o corpo de Sebastian e o jogou na direção dos pés dela. Com cuidado, Nádia o arrastou até Hanna e sussurrou para ela ir embora. Tudo ficaria bem... Tudo...

Era isso de que tentava se convencer.

Quando Hanna, por fim, levantou vôo e saiu do campo de visão de Nádia, ela se voltou para Roxana, que tinha os braços cruzados sobre o peito, ainda encostado no portal.

– Você conseguiu se livrar dele facilmente... – comentou, se referindo á adega. – E pensar que você voltou... Poderia ter ficado no seu cantinho, sabia? Minha conselheira mais confiável está morta, pois fez seu maior feitiço contra Dionísio. E ela não vai voltar... Pobre Circe... Tudo foi em vão. Mas eu posso vingá-la. – Roxana estalou os dedos, fazendo duas raízes da árvore se moverem na direção de Nádia. A menina, com um rápido movimento da foice, cortou as duas raízes.

– Não sou o deus do vinho. Sou do crescimento. Posso fazer qualquer coisa crescer... – Roxana sorriu.

Novamente manipulou as raízes da árvore. Nádia cortou duas com um movimento, mas a terceira raiz veio baixo e a agarrou o pé esquerdo, e para completar a quarta lhe agarrou a foice e a jogou longe. Vulnerável, Nádia foi jogada para cima e então a raiz bateu nela com força brutal, jogando-a longe, assim como a foice.

– Você já era, Nádiazinha... É muito ingênua por vir me enfrentar sozinha, sabia? – Roxana riu gloriosamente.

Nádia sentiu seu fim se aproximar, enquanto ele caminhava em sua direção. Com as costelas rangendo, os braços doendo e as pernas parecendo chumbo, ela por fim sentiu aquela coisa incômoda em sua cabeça, e então tirou a presilha dos cabelos. Esta se expandiu até se tornar um arco. O arco de Sebastian. Nádia sentiu as mãos tremerem enquanto se lembrava da pedra que Dionísio lhe dera. Nunca tinha se saído bem no arco e na flecha, mas como se fosse simples, pensou “Você disse que ficaria do meu lado”. Ela se referia a Apolo.

Quando pegou a pedra esmeralda brilhante e a colocou na corda do arco, sentiu todos os nervos de seu corpo parar e então se concentrou muito. Mirou o arco na direção de Roxana e... Não sabia se a pedra iria matá-lo, mas quando ela o atingiu, fez com que Roxana se tornasse pó.

Notas finais
Bye.